Ás Mulheres Portuguêsas

Part 2

Chapter 23,904 wordsPublic domain

Não será muito pensar num assumpto que só interessa a duas criaturas e por um tempo relativamente curto na vida humana?! Sim, que não interessa nem póde interessar senão a quem o sente e com elle é feliz ou infeliz.

Senão vejamos: V. Ex.ª, que leu e respondeu ao meu artigo, sabe porventura se eu sou casada ou solteira, feliz ou infeliz no casamento, ou pensou sequer em tal?

Porcerto que não, nem isso importaria para lêr o que escrevo e responder o que entende.

É a prova de que a vida psíchica de cada individuo é completamente autonoma do seu estado civil.

A independencia da mulher não pode importar o _não reconhecimento da autoridade do marido_, (um dos grandes receios de V. Ex.ª) porque essa autoridade existe, senão de facto, pelo menos de direito, emquanto existirem as leis que hôje nos governam, leis que a mulher deveria conhecer quando vai casar, leis que a tornam uma menor sob a tutella directa do homem.

O que será o futuro não o podemos prevêr, de tal maneira a educação da mulher modificará a sociedade.

Diz V. Ex.ª que a mulher independente poder-se-ha _desafrontar_ do marido que a atraiçôa atraiçoando-o por sua vez.

Poderá ser, mas isso o que prova? Apenas o que já disse--que, infelizmente, o cultivo da inteligencia nem sempre acompanha a honestidade e que essas mulheres se subalternisam tornando-se criminosas como aquelles que condemnam, irmanando-se ás levianas que hôje o fazem, a maior parte das vezes por inconsciencia.

A mulher _independente_ que tal fizer, não terá por motor a independencia mas tão sómente o capricho ou o temperamento, e em qualquer circumstancia, portanto, faria o mesmo.

Com respeito á _proscripção da mulher erudita da familia_, não é, não pode ser, uma regra. Assim como ha homens que, não obstante serem _intelectuaes_, são bons chefes de familia, o mesmo sucede ás mulheres.

Nem em Portugal temos o direito de pensar doutra maneira, tendo na ilustre mulher, que é uma verdadeira erudita, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, o exemplo vivo do que se pode ser ao mesmo tempo como mulher de sciencia, como esposa e como mãe exemplar.

Haverá mulheres que, pela sua profissão, se vejam obrigadas a estar afastadas do lar e dos filhos uma parte dos seus dias?... É certo; mas quantas os não abandonam hôje, sem esse imperioso motivo? E quantas, tambem, estando sempre em casa, tendo por unica obrigação o seu amânho ou direcção, não mandam as criancitas, ainda mal desmamadas, para a _sujeição das mestras_?! Quantas?!... Quasi todas as mães sem oficio nem emprego, as da pequena burguesia, essas mesmas que não querem instruir-se mais, nem se querem tornar _independentes_,--exatamente para não terem a maçada de trabalhar...

Se, em geral, a mulher portuguêsa filosófa--_que para trabalhar escusava de casar!_... Já os senhores estão vendo o que lhes devem.

Depois, álêm dessas mulheres que mandam os filhos para os colegios embora não tenham emprego fóra de casa, o que diz ás que têm as suas visitas, os seus passeios, os seus divertimentos, e que por igual são por esses motivos _imperiosos_ afastadas dos filhos, com menos utilidade, parece-me, do que pela doença de um semelhante ou pela retorta de um laboratorio?!

Poder-se-ha dizer que a mulher intelectual despresa os modestos mesteres do seu lar, quando a propria Clemence Royer costurava a sua roupa e entretinha os seus ocios trabalhando como qualquer críaturinha que não saiba ao certo em que parte do mundo está situado o paiz que tem a dita de lhe ser berço?

Não se póde dizer que a mulher erudita tem fatalmente de ser _uma proscripta do lar_ exactamente quando o nome de um homem e duma mulher, ligados pelo casamento, se uniram para a sciencia, num triumfo para os dois sexos; exactamente quando as revistas francêsas nos trazem o retrato de Mr. e M.^{me} Curie acompanhados muito _burguezamente_ de seu filhito.

É possivel que eu esteja enganada e seja exatamente V. Ex.ª quem tenha razão, mas como estamos de acôrdo em que se não regateie educação ao sexo feminino e se acabe assim com o regimen de _prodigios_ e _excepções_ que só á causa das mulheres tem prejudicado, é o principal.

Que o resto não nos deve preocupar muito nem devemos aventar hipóteses faliveis, como tudo que pertence ao futuro e que não temos base segura para julgar.

O homem de ámanhã hade procurar a sua felicidade e a maior porção de bem estar compativel com a sociedade do seu tempo. Como o fará não o sabemos, mas é certo que pensará de maneira diferente do de hôje, como o de hôje, como V. Ex.ª mesmo, pensa decerto diferentemente do que pensou seu pai e seu avô sobre os mesmos transcendentes assumptos.

Acabe-se com todas as prepotencias e todos os privilegios, tanto de raça, como de classe, como de sexo, e deixemos que, individualmente, cada homem e cada mulher, procurem ser felizes a seu modo, organisem os seus lares como entenderem,--desde que esse conjuncto se harmonise numa sociedade de mais justiça e tolerancia.

III

A INSTRUÇÃO

É fundamental este assumpto, visto que a nossa civilisação se baseia não na força mas na inteligencia, não na rotina mas no progresso.

Todos sabem, e apregôam aos quatro ventos, que a mulher portuguêsa é ignorante e futil, que a mulher portuguêsa tem todos os defeitos dos incultos, não merecendo do homem a consideração que se tem pelos iguais, mas a tolerancia que se dispensa ás crianças irresponsaveis.

_Coisas de mulheres_, dizem por vezes os homens, mostrando o seu despreso; notando-se que os que mais clamam esta superioridade são, quasi sempre, os mais inferiores...

Não é isso, porém, o que nos interessa; é certo que o homem português tem tantos ou mais defeitos do que a mulher, mas se ella se transformar, facilmente o corrijirá.

A mulher tem, em si mesma, bastantes elementos bons para se modificar, sem se queixar do homem e esperar que lhe ensine o que elle mesmo não sabe nem é da sua competencia saber.

O homem tem culpa em não elevar a mulher, em não fazer della a sua companheira de trabalho e luctas, em temer a ilustração da mãe de seus proprios filhos; o homem faz mal, porque rebaixando a mulher não se lembra que se rebaixa a si proprio que nasceu della e dos seus labios escutou as primeiras lições da vida. Mas a mulher póde reagir, póde educar-se a si mesma, póde, pelo menos, mostrar desejo de progredir, de se igualar ao homem pelo trabalho e pela inteligencia cultivada.

A mulher falha de educação é muito mais inferior do que o homem, porque são os seus proprios defeitos que se tornam qualidades, elevados pela cultura, encaminhados pela educação. O que na mulher educada é espirito, é na outra grossería; o que numa é presciencia, é na outra desconfiança; o que numa é desenvoltura e graça, é na outra descaramento; o que numa é observação, é na outra bisbilhotice...

Vai-se a uma fabrica ou a uma oficina, passa-se por uma rua onde ha desenas de homens, principalmente se forem do povo, não se ouve um dito desagradavel, não se ouve um riso que moleste; mas onde estiverem duas mulheres ás quaes a educação não depurou os defeitos, ou cujos espiritos não estejam perfeitamente humilhados pela dependencia, temos dois intoleraveis animaesinhos que riem, falam, troçam, olham miúdamente, com o proposito ferino de irritar e de ferir.

Por isso, tanto ou mais do que o homem, necessita a mulher ser educada e ilustrada, e é, a meu ver, por onde deve principiar a remodelação duma sociedade que seja progressiva.

Educar a mulher--eis o problema maximo a desenvolver e pôr em prática.

A isso é que chamâmos feminismo, que não em pôr gravatas e colarinhos de homem, que se podem usar como prova de simplicidade ou de extravagancia, mas nunca como afirmação de opiniões.

Educar a mulher dando-lhe meios de poder auferir com o seu trabalho o suficiente para a sua sustentação--quando é só--de auxiliar o homem, esgotado pelo trabalho de sobre-posse que lhe exige a concorrencia e a carestia da vida moderna,--quando casada,--parece-nos a maneira mais prática de a tornar um ser livre, apta a escolher por motu-proprio o caminho a seguir direitamente na vida.

Não temam os homens que a mulher instruida, por mais liberta, quebre mais facilmente os laços de conveniencias com que a sociedade a prendeu. Nem sempre foram os conventos, com todas as suas grades e portarias, o mais puro exemplo da castidade feminina; ainda hôje os harens, com todos os seus guardas e eunúcos, são para o ciume do macho bem fragil garantia...

A mulher entregue ao seu proprio discernimento fará o que a consciencia esclarecida e o respeito proprio lhe ensinam, e não o que o mêdo lhe dictar.

Que mérito tem a criatura que não falta aos seus deveres porque está guardada á vista, como um doido furioso?

É certo que no nosso povo está tão enraísado o habito de fazer acompanhar as mulheres, como signal de grandêsa, que é mais uma nobilitação do que uma prova de desconfiança.

Andar só é, ainda hôje, em muitas terras de provincia, uma vergonha para a mulher, mostrando que o marido a não présa bastante para a fazer acompanhar.

Lá diz a cantiga:

--«Senhora D. Maria O seu _Dom_ não vale nada, Vai á fonte, vai ao rio, Vai á missa sem criada.»

Ir á missa _sem criada_ seria, realmente, para as nobres damas que abrigavam em casa uma legião de serviçais--criados e filhos de criados, como outrora tambem os escravos trazidos das terras conquistadas a moiros e a negros--a maior prova de miseria, ou de decadencia financeira.

A vaidade da fidalguia que é, ainda hôje, um dos caracteristicos do genio português, nesta terra em que todos se dizem _filhos dalgo_ e se sentem com direitos de _senhores_ para escravisar os mais pequenos, não tolerava á mulher que aparecesse em publico sem _comitiva_... ainda que constasse apenas duma pequena criadinha.

É esta _fidalguia_, mal interpretada, que faz com que o homem fuja ao trabalho, como á mais deprimente das servidões, reflectindo-se bem claramente na educação que se tem dado, até aqui, á mulher, convencendo-a de que se inferiorisa se trabalhar para ganhar dinheiro e auxiliar o homem.

O nosso paiz resente-se dum mal-estar e desiquilibrio que vem do conflicto entre o passado que se desmorona, com todas as suas velhas ideias e preconceitos, e o presente que ainda não conquistou todos os espiritos ligados ás convenções, que já despresâmos no fundo.

A nossa geração sofre duplamente pelo embate dos sentimentos que se entrechocam em nós mesmos e nas nossas proprias familias...

Todos apresentam as suas queixas, todos falam, mas tudo se diz no ar, sem provas nem proposito firme de conhecer o mal e enveredar pelo caminho que se nos afigura ser o melhor.

Quem quizer fazer alguma coisa entre nós é preciso revestir-se duma paciencia sem limites e ter uma coragem excepcional, por isso que tem de se defrontar com a indiferença de toda uma nação cançada de aventuras, exausta por um longo periodo de desilusão e enganos. Tudo contribue para o desleixo fisico e moral em que vivemos, desde o sol dôcemente enlanguecedor, até á ironia dissolvente com que se recebem todos os enthusiasmos e todas as emprezas que não tenham por fim o lucro material.

E no emtanto não devemos desistir da lucta, devemos pelo contrario ir juntando elementos e amontoando verdades até que a luz se patenteie a todos os olhos e seja visivel a todos os cerebros.

Uma das nossas maiores vergonhas nacionaes é, por certo, o analfabetismo, mas o que agrava essa vergonha é que, no continente, é a grande maioria das mulheres que eleva pavorosamente a cifra dos analfabetos.

E ha ainda quem lhes diga que fiquem _em casa a educar os filhos_, em vez de pretenderem ganhar o seu pão honestamente pelo trabalho!

Mas ensinar o quê, se ellas não sabem o mais elementar, se muitas vezes nem sabem ler e escrever!?

Dirão que só a mulher do baixo povo é tão completamente ignorante, mas o que é certo é que pequenissimo é o numero das mulheres que, embora saibam ler, se preocupem com as questões intelectuais e possam, portanto, ser educadoras dos proprios filhos.

E todos sabem, principalmente os professores, quanto custa ensinar crianças que não tiveram a abrir-lhe o caminho da inteligencia, o cultivo amoravel da familia, principalmente da mãe.

Para ellas tudo é novidade, desde o que seja uma montanha até ao pão que metem na bôca.

Os professores, mesmo sem querer, o fazem sentir ás crianças, e é esse sem dúvida o maior castigo das mulheres ignorantes, que julgam cumprir o seu dever de mães de familia governando a casa e vestindo com elegancia os filhos.

Mas a triste verdade a confessar, e que é muito para meditar, é que--do milhão de portuguêses que sabem ler e escrever a sua lingua, apenas um terço são mulheres!

E ainda se queixam quando se diz que a mulher no nosso paiz é inerte, ignorante e frivola!

A unica superioridade admitida no nosso tempo, por mais que se queiram iludir os grandes da terra, é a da inteligencia. Os mais instruidos são, evidentemente, os superiores, os fortes, seja qual fôr a sua posição.

No tempo em que o mundo se levava á espadeirada, a força fisica era superior á intelectual e os homens podiam tornar-se senhores pelo poder musculoso do seu braço; hôje a força fisica vale muito como educação e muitissimo para produzir saudaveis criaturas, mas vale muito pouco para aferir superioridades. Aliás teriamos de acatar o moço de fretes, que pega numas poucas de arrobas como quem pega num braçado de flôres, e proclamá-lo superior, nosso indiscutivel chefe.

Ninguem irá buscar um hercules de feira broncamente estupido para o comparar e achar superior ao sabio empalidecido e enfraquecido pelas vigilias do estudo.

O que falta no nosso paiz é a instrução, principalmente a instrução prática que faz progredir um povo. Quando é preciso traçar uma linha ferrea, vêm engenheiros do estrangeiro; quando necessitâmos dum porto, lá estão as companhias estrangeiras; quando uma cidade quer abastecer-se de agua, lá estão os estrangeiros para lha fornecer; quando é preciso montar um arsenal ou uma fabrica, lá estão os especialistas estrangeiros.

Quasi tudo o que se faz no nosso paiz é práticamente dirigido por estrangeiros e estrangeiras. Ainda destas a quantidade não é tão grande, mas lá chegaremos, e quando quizermos utilizar as nossas mulheres em muitos e variados mesteres, que o futuro por força lhes hade entregar, já não encontraremos logares vagos.

Não nos deixemos embalar com o sonho do passado; pensemos no futuro, que é o trabalho e a educação.

Fomos ha tres seculos um punhado de aventureiros que realisou a maior aventura que ainda se havia visto, e imaginâmos que tudo será perdoado a quem tanto fez e a quem tão maravilhosamente o soube cantar.

Mas os tempos são outros, as necessidades muito outras, e a vida já se não leva a descobrir caminhos por _mares nunca dantes navegados_.

Hôje, que o nosso pequeno planeta está visto por todos os lados, achâmo-lo pequeno e temos fome e sêde de mais alguma coisa. O homem não se cança de saber, de procurar lêr o passado nas pedras fragmentadas dos monumentos soterrados, como de procurar o futuro nos espaços faiscantes de sóes; a tudo aspira pela inteligencia, tudo quer comprehender e possuir.

A mulher entre nós não póde, por deficiencia de educação e excessivo acanhamento, ser a util companheira de tal homem.

Na idade-média a mulher podia esperar o marido, que ia ás aventuras fabulosas, sentada ao bastidor ou á róda de fiar, tecendo com suas brancas mãos o linho que por si e pelas suas criadas fôra fiado. Ignorante e passiva, era a digna esposa do senhor brutal que só conhecia o direito da força.

No seculo XX a mulher tem de ser outra, porque outro é tambem o homem e muito diferente o seu ideal.

Educar a mãe para ser a educadora dos filhos; educar a mulher em geral para viver de si mesma, e para si, quando pertença á enorme legião das que ficam solteiras e portanto,--_sem filhos a educar nem casa a governar_, deve ser um dos nossos mais porfiados empenhos.

É este o verdadeiro feminismo.

AS MULHERES E A POLITICA

_A mulher não hade fazer politica? Então não hade ocupar-se, já não digo da sua, mas da sorte de seu marido, dos seus filhos, ella que é toda dedicação?!_

DR. BERNARDINO MACHADO.

Transcreve um diario radical,[2] não sei se irritado pelos ultimos casos da politica portuguêsa, um artigo de Urbain Gohier, publicado no jornal _L'Action_, em que as mulheres são verberadas violentamente, por isso que se prova que em politica só se obedece aos seus caprichos, e os seus desejos se antepõem aos mais urgentes negocios de estado, de que dependem os destinos duma nação.

Porventura é isso novidade para alguem? Julgaram os homens, por acaso,--tamanha será a sua ingenuidade?!--que podiam em vão dispôr de metade da humanidade, redusi-la ao papel farfalhudo de _deusa do lar_, _nuvem_, _anjo_, _demonio_, e todas quantas mais banalidades se têm dito e escripto ha seculos, e dizer-lhe:--fica ahi! o teu destino é agradar-me ou servir-me, conforme o meu capricho de senhor!?

Não penses; não queiras sahir dos meus braços, que é só onde podes encontrar o luxo, a alegria, a vaidade satisfeita, a preguiça que te pode conservar a belleza material, mas que te anúla por completo a vontade e a inteligencia, que dispenso... Salvo se precisar da tua graça e do teu espirito para chamar aos meus salões os que a minha energia não conseguir domar, mas é conveniente que esse mesmo espirito seja frivolo, feito de sorrisos e de _frases do dia_, facil para qualquer mulher, medianamente inteligente, posta num meio em que as emoções de arte aguçam os nervos, e o conforto, o luxo, e o convivio com pessôas distinctas, adelgaçam intelectos e limam as arestas plebeias, que denunciariam logo a humilde procedencia...

Pois a mulher que só vive de vaidades, que tem a sua orbita limitada a seguir o _astro rei_ como palida lua sem luz propria; a mulher que geralmente só tem um nome respeitado quando o homem lho dá; a mulher que é educada para agradar ao homem, para arranjar pelo casamento uma situação definida na sociedade; a mulher sem um fim determinado na sua vida individual, sem um pensamento nobre a elevar-lhe as aspirações; a mulher escrava pela força e submetida pelas leis, vinga-se como sempre se vingaram os escravos--corrompendo.

O que desejam as mulheres auferir do homem que as não associou a nenhum dos seus pensamentos e actos, que a aceita como um presente e a conserva como um luxo? O que todo o inferior pretende tirar do que se lhe quer impôr como _senhor_, numa revolta amarga de impotencia--a maior soma de gôso proprio junto ao menor esforço para o conseguir; o seu prazer, a felicidade egoista de quem não tem um nobre ideal a orientar-lhe a senda da vida.

É pois criminosa a mulher, e muito, mas criminosa como a criança que inconscientemente empurrasse para o abysmo o seu proprio irmão.

Responsavel é só o homem, que, cheio de orgulho, não procura na mulher uma companheira, uma igual, mas uma inferior, embora finja endeusá-la para a conservar na rotina e no servilismo. Tira-lhe a instrução e a sciencia, como alimentos improprios para estomagos delicados, e deixa-lhe o sonho e a fantasia, que as tortura na ânsia louca de encontrar na vida real o imprevisto de sensações romanescas, que seduz principalmente os ignorantes.

Culpado é só o homem que afastou a mulher proba e culta de todas as luctas em que o destino de ambos se joga,--pois que a politica é, ou deve ser, a arte de bem dirigir uma nação, e a nação pertence tanto ao homem como á mulher--para se deixar governar por intrigantes quasi sempre deshonestas, as mais das vezes inconscientes instrumentos doutros ambiciosos.

Afastaram a mulher das altas preocupações do espirito, puzeram-lhe ao pensamento e á vontade uma barreira de preconceitos e de ignorancia, e queixam-se porque ella usa das armas que tem e gosa o fructo do orgulho masculino!

Indignam-se contra as mulheres e são os proprios homens cultos que transigem com ellas, nas suas crenças e prejuisos; elles, os que não têm pejo de dizer publicamente que--embora se sintam libertados, embora os seus espiritos pairem alto numa atmosfera de saber e de certeza que os orgulha--consentem que as esposas continuem a crêr o que elles descrêm, a vêr o que elles não vêem, a seguir o que elles não seguem,--porque querem ser _tolerantes_!

Não comprehendem, ou não querem comprehender, o que é peor, que a mulher representa mais do que o homem na constituição da familia, porque é a ella que pertence o filho nos seus primeiros annos, porque á mãe está confiada a filha até passar para as mãos do marido. E quantas vezes o homem, num ingenuo sorriso de criança, encontra os laços que no futuro lhe hão de manietar o espirito, ou, em caso de resistencia, o fundamento para luctas que lhe despedaçarão a felicidade se teimar em não se deixar vencer pela persistente e dôce propaganda das crenças femininas.

A mulher não póde cortar abruptamente com um passado, que é toda a sua vida espiritual.

É preciso que uma forte instrucção a liberte de caprichos infantis e lhe dê a lucida e precisa noção do que deve ser a sua força moral.

Torna-se preciso que o homem já educado eduque a sua companheira; que o homem livre escolha a mulher já livre; ou que o homem saiba transigir com os laços seculares que muitas vezes ligam a mulher solteira á familia e á tradição, mas só quando tiverem a certeza de que esses espiritos, momentaneamente libertados pelo amôr, não voltarão mais tarde, numa crise de fastio e abandono, aos ideaes com que fôram embalados os seus aureos sonhos de menina...

Não é negando e demolindo que se fórma a nova alma feminina, que, por sua vez, transformará o mundo; é elevando a consciencia e construindo um novo templo de amôr e bondade humana, irredutivel e forte, onde o espirito se inunde de luz e não possa mais mergulhar na treva.

O homem livre, o mais responsavel, aquelle que nos seus jornaes, nos seus livros, nas suas conferencias, mais clama pela educação da mulher, reconhecendo na sua falta toda a servidão das sociedades burguêsas; esse mesmo, falto de logica quasi sempre, não se faz acompanhar da sua esposa ou das suas filhas, não as póde apresentar como exemplo ás outras mulheres, porque, em geral, são ellas as primeiras a abominar as suas ideias.

Quando mesmo as não contrariem nem abominem, perfilhando-as algumas vezes, são raras as que o queiram confessar publicamente, sabendo muito bem que o homem português tem o terror instinctivo da mulher culta e intelectualmente independente.

E só assim ella deixará de ser a pedra atada ao pescoço do homem, que em vão se esforça por fugir á corrente da moda em que a maior parte dos espiritos masculinos vem a naufragar.

Não é a mulher educada e orientada na consciencia dos seus deveres e obrigações sociaes a que merecerá nunca a frase seguinte do jornal a que me refiro:--_capricho que é um erro proprio da fórma de ser do espirito feminino_.

O espirito da mulher não tem atributos proprios, como a sua inteligencia e as suas aptidões não podem ser limitadas autoritariamente, circunscriptas a um certo e inultrapassavel perimetro.

Ha mulheres caprichosas por defeitos de educação ou de temperamento, consumidas de mesquinhas invejas e pequenas revoltas de impotentes, como ha tantissimos homens sem energia, que nas suas proprias revoltas são irritantes, falsos e untuosos, como costumam classificar as mulheres.

Escolham os homens livres companheiras que egualmente o sejam; determinem-se os campos, forme-se a familia pelas convicções de cada um e não pelas convenções duma sociedade que não tem sinceridade nem nobrêsa, e a transformação será completa.

SER PORTUGUÊS

«_Como hade a mulher educar os filhos no civismo, se o não praticar?_»

DR. BERNARDINO MACHADO.