As Minas de Salomão

Part 9

Chapter 9 3,933 words Public domain Markdown

Infandós precipitára-se sobre elle, com os olhos fóra das orbitas, a examinar-lhe o ventre onde corria, n'uma tatuagem azul, o desenho d'uma cobra que lhe dava volta á cinta e juntava a bôca com o rabo logo abaixo do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se grava a tinta azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia lá estava, certamente irrecusavel, porque Infandós cahiu sobre os joelhos, bradando:

--_Krum_! _Krum_! É o filho de Imotú! É o rei! É o rei!

Umbopa acudiu:

--Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou rei! Mas com a tua ajuda, e a d'estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois. Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o coração de féra? Dize.

O velho Infandós pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a ajoelhar diante de Ignosi, pôz a sua larga mão na mão d'elle, e murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial:

--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mão na tua mão, e até morrer sou teu homem!

Nós, de pé, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O barão e o capitão John só muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu assombro em exclamações, contemplando Umbopa--quando elle nos interpellou, com um gesto que começava a ser regio:

--E vós, homens brancos de quem comi o pão? Quereis vós ajudar-me tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso braço forte. Mas essas pedras brancas que reluzem, e que vós amaes, se, como rei, eu as vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta isto?

Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O barão franziu o sobr'olho:

--Quartelmar, diga-lhe que um inglez não se vende por diamantes. Mas de graça, porque sempre o achei leal, porque gosto d'elle, e porque me appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu John?

O capitão encolheu os hombros:

--Que lhe havemos nós de fazer? Além d'isso homem que não briga enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: quero as calças.

Communiquei estas adhesões a Umbopa--que apertou ardentemente as mãos dos meus dois amigos.

--E tu, Macumazan, mestre da caça, olho vigilante, mais fino que o bufalo, estarás tu tambem por mim?

Cocei a cabeça, pensativamente:

--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu não gosto de revoluções... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n'esta jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, ás ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caçador de elephantes e tenho de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os diamantes. Se lhe pudérmos lançar mão, aceito-os, e quantos mais e mais graúdos melhor! Não é que eu acredite muito n'elles. Mas, se apparecerem, desde já te prometto que, com licença tua, hei de abarrotar as algibeiras...

--Tantos quantos puderes levar! exclamou Umbopa radiante.

E já se voltava para Infandós, n'aquelle triumphal enthusiasmo de pretendente a quem as adhesões affluem--quando eu o interrompi vivamente:

--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes perfeitamente, á procura do irmão do Incubú (era a alcunha do barão, em Zulú). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como rei para nos ajudar a encontral-o... Começa por te informar agora com teu tio Infandós.

Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular magestade:

--Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve já algum homem branco que, antes d'estes, tivesse vindo á terra aos Kakuanas?

--Nunca, meu senhor!

--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?

--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.

O barão deu um longo suspiro.

--Bem! Bem! exclamei logo, para lhe não matar de todo a esperança, e cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fôr rei teremos então mais facilidade de procurar o irmão do Incubú, até aos confins do reino, e nas terras que estão além! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu, Ignosi, para recuperar a corôa? Porque emfim, meu rapaz, é bom ser rei de direito divino, mas...

--Não tenho plano. E tu, meu tio Infandós?

Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito.

--Esta noite, disse elle por fim, é a caça aos feitiços. Muitos vão morrer, e em muitos outros mais recrescerá o odio contra Tuala. Depois da dança, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispôr de regimentos. É necessario que os chefes te venham vêr, Ignosi, se convençam com seus olhos que és o rei. E se elles pozerem as mãos nas tuas, ámanhã tens vinte mil lanças para combater por ti. Porque a guerra é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui, para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa!

N'este momento houve fóra do terreiro um brado, annunciando que se avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d'elles trazendo erguida nas mãos uma cóta de malha que rebrilhava como prata e uma magnifica acha de batalha.

Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o conto da lança:

--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vêm das estrellas!

--Agradecemos ao rei, volvi eu sêccamente. Ide!

Apenas os homens partiram, examinamos as cótas com grande interesse. Eram maravilhosas, d'uma malha tão fina, tão cerrada, tão elastica e macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mãos. Perguntei a Infandós se eram fabricadas no paiz.

--Não, meu senhor, são coisas que existem ha muito, e que herdamos de paes para filhos. Já muito poucas restam. Só os de sangue real as podem usar. E o rei que as mandou é que está muito contente ou que está muito assustado. Em todo o caso não ha ferro que as atravesse, e bom será, meus senhores, que as useis esta noite na dança.

Quando Infandós sahiu, ficamos conversando n'este estranho incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n'uma aventura politica. Como notou o barão, fôra este decerto, desde a nossa partida de Natal, um dos dias mais ricos de emoções e surprezas.

--Extraordinario, disse o capitão. Tem de ser registrado no _Livro de Bordo_.

Chamava elle _Livro de Bordo_ a um Almanach do anno, com folhas brancas intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa espantosa empreza.

--Que dia é hoje? perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o joelho.

--3 de julho.

O barão e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d'ahi a instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanach:

--É curioso! Ámanhã, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a Africa! Deve começar ás duas e quarenta minutos... Bom terror vão ter os pretos!

Escassamente demos attenção áquella noticia: e como o capitão findára de escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, porque o sol já descia, e já ia fóra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente conselho de Infandós envergamos as cótas de malha,--que achamos confortaveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como uma pellica: a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costellas com pregas pouco marciaes.

A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós appareceu, com todas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres á cinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos.

No terreiro, onde estiveramos de manhã, encontramos a mesma formidavel parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto «para as farejadoras de feiticeiros» (como nos foi explicando Infandós). Não havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras de faiscas nos ferros altos das lanças. D'aquella escura massa d'homens, do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impressão de magestade e tristeza.

--Está aqui todo o exercito, murmurei eu para Infandós.

--Um terço, não mais, meu senhor. Outro terço ficou nas guarnições. E o outro está fóra, em torno a palacio, para o caso de sedição, quando começar a matança...

--Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo?

--Não sei, espero que não... Mas não mostreis medo! E se escaparmos com vida esta noite--quem sabe? Talvez ámanhã Tuala seja como o raio que feriu e se apagou.

Iamos no emtanto caminhando, através dos regimentos mais immoveis que bronzes, para espaço vasio diante da cubata real, onde havia como de manhã uma fila de escabellos d'honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com um brilho e ruido d'armas, sahia da aringa real.

--É Tuala, disse baixo Infandós, e Scragga, e Gagula, e os homens que matam.

Os «homens que matavam» eram uns doze negros gigantescos, de faces hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e de azagaias pesadas.

--Bemvindos, gentes das estrellas! gritou logo Tuala abatendo-se pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E não percamos o tempo que a noite é curta para as grandes coisas que têm de ser feitas. Olhai em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jámais tantos valentes juntos... Mas vêde tambem como elles já tremem, os que abrigam maldade no seu coração!

--_Começai_! _começai_!--ganiu na sua silvante voz Gagula, que se agachára aos pés do rei. As hyenas têm fome de ossos, os abutres têm sede de sangue... _Começai_! _começai_!

Houve durante momentos um silencio lugubre, que pesava horrivelmente, como um prenuncio de matança e de horror.

O rei então agitou a lança. Immediatamente vinte mil pés se ergueram, e tres vezes, em cadencia, bateram no chão que tremia. Depois, lá ao fundo, d'entre as densas e escuras filas de homens, subiu ao ar um canto solitario, arrastado, plangente, infinitamente triste, findando n'este estribilho:

--Qual é a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer?

E os regimentos todos volviam, n'uma unica, grande e rolante voz:

--Morrer!

Mas pouco a pouco, as companhias, umas após outras, foram entoando uma estrophe da canção, até que toda a vasta multidão armada formava um côro--côro barbaro, rude, informe, onde todavia por vezes distinguiamos como conscientes expressões de sentimentos--notas suaves e lentas de amor, brados triumphaes de guerra, canticos solemnes de oração. Depois os cantos varios fundiam-se n'um lamento unico, contínuo, ululado, como d'um povo n'um funeral. De repente tudo estacava. E de novo o lugubre estribilho gemia no ar:

--Qual é a sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer?

E de novo a multidão clamava n'um unisono desolado:

--Morrer!

O canto por fim findou, um sombrio silencio cahiu, o rei levantou as mãos. Immediatamente, sentimos como o trote ligeiro de pés de gazellas: e, d'entre os profundos renques dos soldados, appareceram correndo para nós estranhas e medonhas figuras. Percebi que eram mulheres, quasi todas velhas, pelos longos cabellos brancos e soltos que lhe batiam as costas. Traziam as faces pintadas ás listas brancas e vermelhas: dos hombros pendiam-lhe esvoaçando, e misturadas ás madeixas, longas pelles de serpente: em torno á cinta cahiam-lhe como breloques de ossos humanos que chocalhavam sinistramente: e cada uma brandia na mão uma curta forquilha.

Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o chão com as forquilhas. E uma, a mais alta, alargou os braços, gritou:

--Mãe, aqui estamos!

--_Bem_, _bem_, ganiu o decrepito monstro. Tendes hoje os olhos bem claros, Isanusis?

--Bem claros, oh mãe!

--Tendes hoje os ouvidos bem abertos, Isanusis?

--Bem abertos, oh mãe!

--Ide então! Farejai, farejai! Entre esses todos descobri os que querem mal ao seu visinho, os que possuem o gado indevido, os que tramam contra o rei, os que devem morrer por ordem de «cima»! Farejai! vêde os pensamentos que se não mostram, ouvi as palavras que se não dizem! Ide, meus lindos abutres! Os homens das estrellas têm fome e sêde de vêr a grande Justiça! _Agora_!

Com uivos horrendos, as sinistras creaturas dispersaram correndo, para todos os lados, através das fileiras armadas. Não as podiamos seguir a todas na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a attenção na que ficou junto de nós, uma velha, esgalgado feixe d'ossos, que deitava lume pelos olhos. Quando esta Harpia chegou em frente aos soldados parou _farejando_. Depois rompeu a dançar, girando sobre si mesma, tão rapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrella feita de estrigas de linho a redemoinhar pelo ar. No emtanto ia gritando por entre silvos de alegria:--«Já o farejo, o homem do mal! Alli está elle, o que envenenou a mãe! Acolá treme o que pensou mal do rei!»

E, cada vez mais vertiginosamente, vinha girando, girando, até que a espuma lhe sahia aos flocos da bôca e os ossos lhe rangiam alto! De repente estacou, hirta, tesa, como petrificada. Depois, devagar, devagar, como uma fera que rasteja, avançou de forquilha estendida para a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam n'um indominavel terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim, com um brado estridente, arremetteu, e bateu com a forquilha no peito d'um rapaz soberbamente forte.

Dois camaradas immediatamente o agarraram pelos braços, o empurraram para defronte do rei. O desgraçado caminhava sem resistencia, inerte, já morto na alma. O bando dos executores avançára a passos graves:

--Mata! disse o rei.

--Mata! ganiu Gagula.

--Mata! rugiu Scragga.

E antes que as palavras se perdessem no ar, o miseravel tombára morto, com uma azagaia cravada no peito, o craneo aberto por uma pancada de clava.

--_Um_, contou Tuala, sorrindo com satisfação.

Mal findára o feito horrivel, já outro soldado era arrastado como uma rez,--um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos hombros a capa de pelle de leopardo. Dois golpes de facalhão vibrados com destreza bastaram para o acabar sem um suspiro.

--_Dois_! contou o rei.

E assim até cem! Até _cem_! E nós alli, aterrados, immoveis, impotentes para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impotencia! Eu findára por fechar os olhos. Á meia noite emfim houve uma suspensão. As farejadoras esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente o suor. Respirei, n'um infinito allivio, suppondo que findára todo este incomparavel horror. Mas de repente, com desagradavel surpreza, descobrimos Gagula, erguida, apoiada n'um cajado, dando alguns passos que tremiam e lhe sacudiam o craneo calvo de abutre. Coisa pavorosa, vêr o velhissimo monstro, ordinariamente vergado em dois pela decrepitude, ganhando alento, remoçando quasi, já direito, já vibrante, á medida que se acercava da fileira dos homens, a recomeçar por gosto proprio a obra sinistra das «farejadoras»! Mas n'ella o estylo era differente. Não dançava, não uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e além, cantava baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim cantarolou, até que de repente se precipitou sobre um magnifico velho, perfilado em frente a um regimento--e tocou-o silenciosamente com o cajado. Um murmurio de dôr, de contida indignação, correu entre os soldados que elle evidentemente commandava. Todavia dois d'elles, empolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o açougue. Soubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande influencia, primo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalhão e clava--e Tuala contou _cento e um_!

Quasi immediatamente Gagula, depois de alguns saltinhos curtos de macaca, começou a avançar para nós, n'um movimento muito lento de valsa, que era medonho na repulsiva bruxa.

--Justos céos! murmurou o capitão John, querem vêr que agora é comnosco!

--Tolice! acudiu o barão, pallido todavia.

Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais perto,---com os olhos a saltar-lhe do craneo, um fio de baba na bôca.

Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a caça.

--Qual será? murmurou o barão.

Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi) sobre o hombro:

--Morte! gritava ella. Morte! Cheiro-lhe o sangue! Está cheio de maleficio e de traição. Mata-o depressa, oh rei, mata-o depressa antes que por elle gema em desgraça o reino!...

Houve um silencio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um cobarde) achei-me diante de Tuala, fallando com soberana firmeza:

--Este homem, oh rei, é o servo dos teus hospedes, e quem deseja o seu sangue é como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que cumpre aos reis manter, exijo a tua protecção para elle!

Tuala franziu o sobr'olho:

--Gagula, mãe das Isanusis, sabedora das artes, cheirou-lhe a traição dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!

--Quem lhe tocar, exclamei, batendo furiosamente com o pé no chão, é que tem de morrer!

--Agarrem-no! bradou Tuala aos carrascos que esperavam em roda, já todos manchados de sangue.

Dois brutos romperam para nós--mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia, decidido a morrer combatendo.

--P'ra traz, cães! berrei eu, n'um tom tremendo. Tocai n'um só cabello do homem, e vós mesmos, e a vossa feiticeira, e o vosso rei, não vereis mais a luz do dia!

E bruscamente apontei o rewolver a Tuala. O barão tinha já o seu erguido contra um dos carrascos: e John marchára sobre Gagula.

Houve um instante de indizivel assombro.

--Decide depressa, Tuala! gritei, tocando-lhe quasi a testa com o cano do rewolver.

O monstro, visivelmente apavorado, rosnou, n'um tom surdo:

--Tirai para lá os vossos canos magicos! Invocastes as leis da hospitalidade, e só por amor d'ellas, não por medo de vós, poupo a vida a esse cão... Ide em paz.

--Está bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das estrellas, nada podem os homens da terra!

O rei, ainda tremulo de furor impotente, ergueu a lança. Os regimentos começaram logo a desfilar.

D'ahi a pouco estavamos na nossa aringa--conversando á luz de uma das curiosas lampadas que usam os Kakuanas, em que o pavio é feito de fibra de palmeira, e o azeite de toucinho de hippopotamo. E o que affirmavamos todos com convicção, com ardor, era a necessidade e a justiça urgente de ajudar a conspiração de Umbopa contra um villão como Tuala!

CAPITULO VIII

A GRANDE DANÇA

Já muito tarde, quasi de madrugada, Infandós appareceu, como promettera, com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos. A conferencia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expôr a sua romantica historia e os seus direitos ao reino dos Kakuanas, começou por tirar a tanga em silencio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente tatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a lampada, e agachado examinava o signal com respeito; depois, em silencio, passava a lampada a outro.

Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a fuga com a mãe através do deserto. Os chefes permaneceram calados. Infandós, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retraçou as matanças d'essa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de casas illustres, tinham sido trucidados só por possuirem grandes rebanhos que Scragga appetecia. Por fim fez um grande appello á razão e ao coração dos chefes, que só tinham a escolher entre o monstro que por avidez e capricho lhes arrancava a vida, ou o homem que lhes garantia a existencia feliz nas suas senzalas e a posse tranquilla dos seus gados. Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.

Finalmente, um d'elles, homemzarrão possante, de carapinha branca, deu um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de Tuala, e que seu proprio irmão n'essa noite estava sendo pasto das hyenas...--Mas aquelle era um singular e confuso caso! E quem lhes afiançava que elles não ergueriam as suas lanças por um impostor? A guerra era certa. Muitos ficariam fieis a Tuala, porque mais se adora o sol que brilha, que o sol que ainda não nasceu. Necessitavam pois uma evidencia. E quem melhor lh'a poderia dar que os homens das estrellas, senhores das grandes artes magicas, que tinham trazido Ignosi ao paiz, e sabiam decerto os segredos?

--Se elle é o herdeiro legitimo, os homens que o trouxeram das estrellas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por elle!

--Mas a cobra, o emblema sagrado! exclamei eu.

--Não basta. A cobra podia ser pintada no ventre já depois de elle ser homem... Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!

Um _milagre_! A situação era terrivel e grotesca. Exigir-se um milagre a tres honestos e ingenuos mortaes, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortaes de fazer o milagre--ou de perder a vida!... Voltei-me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risivel e perigoso lance.

--Parece-me que se póde arranjar, disse John, depois de um curto silencio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.

Abri a porta da cubata, os chefes sahiram. E apenas os passos morreram na sombra:

--Temos o eclipse! exclamou o nosso admiravel John.

Era o eclipse que elle descobrira na vespera, folheando o almanach (o _Livro de Bordo_), e que n'esse dia, ás duas e quarenta minutos, devia ser visivel em toda a Africa.

--Ahi está o milagre! affirmava John. É annunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por elle, nós faremos desapparecer o sol!

A idéa era esplendida. O unico receio é que o almanach estivesse errado.

--Não! É um almanach maritimo, não póde estar errado. Os eclipses são calculados mathematicamente. Não ha nada mais pontual que um eclipse... Durante meia hora, tres quartos de hora talvez, esta região toda ficará em trevas.

--Eu, por mim, disse o barão, parece-me que devemos arriscar o eclipse.

--Vá pelo eclipse!

Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram, cerrei a porta da cubata com um sombrio apparato de mysterio, e comecei por lhes declarar, magestosamente, que nós os homens das estrellas não gostavamos de alterar o curso natural das coisas e mergulhar o mundo em terror e confusão... Mas, como se tratava d'uma grande e santa causa, estavamos decididos a fazer um milagre.

--Escutai! Julgaes vós que um homem póde soprar sobre o sol, e _apagal-o_?

Os chefes olharam para mim, recuando com assombro.

--Não, murmurou um d'elles, não ha homem que o possa fazer! O sol é mais forte que toda a terra!

--Perfeitamente, conclui eu. Pois ámanhã, depois do meio dia, nós homens das estrellas _apagaremos o sol_ durante uma hora, espalharemos trevas sobre a terra, e será o signal de que Ignosi é o verdadeiro rei dos Kakuanas e que o povo deve tomar armas por elle. Será bastante este milagre?

O chefe da carapinha branca abriu os braços para nós, esgazeado:

--Oh gentes das estrellas, senhores das grandes artes, esse milagre será mais que bastante!

--Bem. Tereis o milagre. Agora Infandós, que é experiente, diga o momento em que mais convem que nós apaguemos o sol.

--Apagar o sol! murmuravam os chefes entre si. A grande lampada! O pae de tudo, que brilha eternamente!

--Falla, Infandós!

--Meu senhor, é na verdade um milagre espantoso que vós prometteis! Mas emfim... O melhor momento é o da dança das Flôres, que ha de logo começar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de Lú estão lá, para dançar. E aquella que Tuala achar mais linda de todas é, segundo o costume, morta por Scragga em sacrificio aos _Silenciosos_, as figuras de pedra que estão além na montanha vigiando. Que os meus senhores n'esse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo acreditará!

--O povo na verdade acreditará! exclamaram todos os chefes.