# As Minas de Salomão

## Part 8

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Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada até Lú--que nem foram consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhámos a estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e alegres povoações que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada instante passavam por nós troços de gente armada, regimentos emplumados marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No segundo dia, ao pôr do sol, parámos n'uma collina, que a estrada galgava por entre dois renques d'arvores em flôr:--e em baixo, n'uma planicie deliciosamente fertil, avistámos emfim Lú, a capital dos Kakuanas.

Para cidade d'Africa era enorme,--com seis milhas talvez de circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas, erguia-se uma collina, que offerecia a fórma singular d'uma ferradura: e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie, em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve.

--A estrada (explicou Infandós, vendo que contemplavamos com estranheza os tres montes) acaba além n'essas serras, que se chamam as _Tres Feiticeiras_.

--E porque acaba além, Infandós?

--Quem sabe! murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas estão todas furadas por cavernas. Ha no meio d'ellas uma cova immensa. É lá que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os homens antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas...

--Que coisas, Infandós? exclamei eu, cravando n'elle um olhar que o sondava.

O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro:

--Os Espiritos que vêm das estrellas sabem decerto mais do que um Kakuana...

--Com effeito! acudi eu, n'um tom sciente e profundo. E por isso te posso dizer, Infandós, que esses homens antigamente vinham procurar um ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam.

--Talvez fosse, talvez fosse! balbuciou Infandós, embaraçado, afastando-se bruscamente para lançar uma ordem aos carregadores da bagagem.

--Acolá, disse eu aos companheiros mostrando as _Tres Feiticeiras_, estão as minas de Salomão!

Todos tres, commovidos, ficámos a olhar aquelles montes tão proximos, onde jaziam ainda talvez (se o velho D. José da Silveira contára a verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento chegára a nossa aventura!

De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite cahiu, sem transição, visivelmente, como uma coisa tangivel. N'aquellas latitudes não ha crepusculo. A luz acaba como a chamma d'um bico de gaz que se fecha: e, n'um instante, a terra toda fica envolta n'uma cortina de treva.

N'essa occasião porém, durou pouco a escuridão, porque bem cedo a mais larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente ao céo, derramando uma tão sublime refulgencia, tão divinamente serena, que, sem saber porquê, cada um de nós tirou o chapéo, como n'um templo, ante uma imagem sagrada.

Infandós, porém, quebrou a nossa contemplação, dando o signal de descer para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia infindavel através da planicie.

E d'ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadiça, entre piquetes de sentinellas a quem Infandós deu baixo o _santo e senha_, seguiamos calados pela rua central de Lú, toda ladeada de sombras d'arvores e de senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos á grade d'um pateo redondo, com o chão muito batido e duro, todo caiado de branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de colmo. Eram alli (segundo declarou Infandós) os nossos «humildes pousos».

Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. Havia dentro um grande asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxergões de herva aromatica. Uma esteira tapetava o sólo. Tripeças pintadas alternavam com frescas vasilhas d'agua. Não podiamos esperar mais cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavámos, sacudimos o pó, appareceu logo um bando de raparigas, das mais bellas que até ahi encontraramos no paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos de madeira.

Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas (precaução que encheu de riso as raparigas),--e não tardamos em adormecer com grata tranquillidade. Acordámos quando o sol ia nado--e a primeira e aprazivel impressão que recebemos foi a do bando das raparigas, acocoradas no chão, a um canto, á espera que despertassemos «para nos ajudar a lavar e a vestir».

Quando uma d'ellas, a mais alta (e que figura! que braços!) fez esta amavel offerta, o capitão John teve uma exclamação, um gesto d'atroz desespero:

--Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não tem senão uma camisa e um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi por essa cidade... Não! isto não póde continuar! Eu não arredo pé d'aqui da cubata, senão de calças! Quero as calças!

Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as calças. Mas uma das raparigas voltou d'ahi a momentos declarando que essas sagradas e maravilhosas reliquias tinham sido já mandadas ao rei!

O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a face direita; porque na esquerda não consentimos nós que elle eliminasse um só pêllo á farta suissa que já lhe crescêra. Aquella cara espantosa, rapada d'um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raça sobrenatural. Todos nós, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os cabellos do barão, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora até aos hombros, n'uma juba rude, que lhe dava o ar d'um barbaro dos tempos do rei Olloff.

O almoço já esperava, fóra, no terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas, primeiramente, quizemos tomar o nosso _tub_, atirar pelas costas alguns frios baldes d'agua. E o assombro, a desconsolação das raparigas foi consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando a porta de vime...

Logo depois do almoço, Infandós appareceu annunciando que el-rei Tuala nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio. Declarei immediatamente, com indifferença e altivez, que ainda nos achavamos cançados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.

Convém sempre, tratando com potentados negros, não mostrar pressa nem respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que, apesar da nossa anciedade em vêr o terrivel Tuala, retardámos nas cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos presentes que destinavamos ao rei e á côrte: a espingarda do pobre Venvogel, um bocado de sêda, alguns fios de contas de vidro.

Afinal partimos, guiados por Infandós--e seguidos por Umbopa que levava as dadivas.

* * * * *

Ao fim d'um curto kilometro, chegámos a um immenso terreiro, com o chão duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma estacada baixa. Em redor, fóra da estacada, corria uma fileira de cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam ás mulheres do rei: e ao fundo, fronteira á porta por onde entraramos, estendia-se uma construcção, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de colmo, que era o palacio real. No recinto não crescia uma arvore: e todo elle estava n'esse dia cheio de regimentos em fórma, perfilados, immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os escudos brancos, as lanças a rebrilhar.

Em frente á cubata real ficava um espaço vasio, com uns poucos de escabellos de madeira. A convite do bom Infandós occupámos tres d'esses assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de pé: e assim ficámos á espera, no meio d'um silencio absoluto, sentindo cravados sobre nós oito mil pares d'olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e surgiu d'ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles de tigre lançado sobre o hombro, e uma azagaia na mão. Atraz d'elle vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeças de pau. Scragga permaneceu de pé, por traz, apoiado á lança. A velha macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, e alli se acocorou lentamente.

O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo.

Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se, offerecendo ás vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica! Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda ás vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beiços muito grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente brilhante, d'um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saião d'uniforme, feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma gargalheira d'ouro: e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no ar, um tufo esplendido de plumas d'abestruz.

O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d'aquella presença assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil lanças faiscaram ao sol. E de oito mil peitos rompeu, atroando o céo, a grande acclamação real:--_Krum_! _Krum_! _Krum_!

Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula, horripilante, e que parecia vir da macaca agachada á sombra:

--Treme e adora, oh povo! É o rei!

E oito mil peitos de novo atroaram o céo, bradando:

--É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo!

E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixára cahir o escudo.

Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira:

--Avança tu! berrou, n'um tom trovejante.

Um soberbo rapagão sahiu da fileira, ficou perfilado.

--Cão infernal! rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo? Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vêm das estrellas!

--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! acudiu o rapaz cuja pelle fusca parecia empallidecer.

--Pois, tambem sem querer, vaes morrer!

O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente:

--Eu sou a rez do rei!

--Scragga! bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lança. Vara-me aquelle cão!

O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, immovel. Nós nem respiravamos, petrificados.

«Um, dois, tres!» Scragga soltou a lança. O soldado atirou os braços ao ar, cahiu morto.

D'entre os regimentos subiu então um longo murmurio que rolou, ondulou, se esvaiu por fim no silencio.

O barão, livido de indignação, agarrára a espingarda das mãos d'Umbopa. E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas estavam á mercê do rei, e que eramos quatro contra todo um reino.

Tuala, no emtanto, sorria sinistramente:

--O golpe foi bom. Arrastem para fóra o cão morto.

Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo.

E então a mesma voz esganiçada, sibilante, horrivel (que evidentemente era da macaca) cortou o ar:

--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora, oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita, a vontade foi feita!

Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de louça, e, atirando d'elle cal ás mãos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala permanecia immovel, como um idolo.

Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha.

--Gente branca! disse elle. Gente branca, que vindes não sei d'onde, nem sei a quê, sêde bemvinda!

--Bem estejas, rei dos Kakuanas! respondi eu, com dignidade.

Houve um silencio, através do qual ficamos immoveis, sentados, com os olhos cravados no monstro.

--Gente branca, volveu elle, que vindes vós procurar aqui?

--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! Não indagues como, nem para quê. São coisas muito altas para ti, Tuala.

O rei franziu a face, d'um modo inquietador:

--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... Não esqueçaes que as estrellas estão longe e a minha vontade está perto... Póde bem ser que saiaes d'aqui como aquelle que agora levaram.

Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaça. Comecei por lançar uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada):

--Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brazas que pódes escaldar os pés! Toca n'um só dos nossos cabellos e a tua destruição está certa. Não te disseram estes (e apontei para Infandós e para Scragga), que especie de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como nós, entre os filhos dos homens?

--Nunca vi, murmurou elle.

--Não te contaram esses como nós damos a morte de longe, através d'um trovão?

--Não creio! exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um d'esses homens que estão além (apontava uma companhia de soldados magnificos junto á porta da aringa) e eu prometto acreditar!

Repliquei que não derramavamos nunca sangue de homem, senão em justo castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, através dos soldados, e antes d'elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre. O rei rompeu a rir.

--Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar!

--Perfeitamente! exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei, caminha através do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa rolarás morto no chão. Ou, se não queres ir tu mesmo, manda teu filho Scragga.

A isto, Scragga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para dentro da aringa real.

Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, á sua escolha--Tuala ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em nós, ora no chão. Depois, n'um tom surdo:

--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo!

Dois homens, immediatamente, largaram correndo.

--Barão, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. Não quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas.

O barão tomou a carabina «Express», e esperou, no fundo silencio que se alargára. Por fim, á porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multidão, o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.

--Agora! gritei ao barão, vendo a vacca de lado e em bom alvo.

Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no coração. De toda a enorme soldadesca se exhalou um murmurio de admiração e terror.

--Então menti, rei Tuala? exclamei eu, fitando o monstro com altivez.

--Não, é verdade, rosnou elle.

Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana confiança:

--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence. Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua propria lança, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!

Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.

--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua lança invencivel.

Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e separou-a em bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.

Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.

--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um presente que te fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traição em ti, esse proprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vacca morta ou como a lança partida. Aqui tens.

E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma sêcca antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, devagar.

N'esse instante aquella figura estranha que o acompanhára, e que me parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao tamanho d'uma facesinha de creança, d'uma creança d'um anno, toda em rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem entalhadas em marfim. A bôca já se não via, de sumida, entre o queixo sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida, com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça de facto pareceria a d'um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes não refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d'aquelle semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma bola, e a que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem o capello.

Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror. Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois estendeu lentamente um braço descarnado, a mão sêcca de Parca, verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, n'uma voz silvante que regelava:

--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, coisas vivas e coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro de mim e eu vou prophetisar!

As syllabas findaram n'um uivo longo e triste. Toda a multidão que enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na Africa os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não sei que peso no coração. A velha era decerto terrifica.

--_Som de passos, som de passos que vem_! proseguiu ella, com a garra tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra que treme sob os passos dos brancos. _Cheiro a sangue, cheiro a sangue_! São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os leões lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!

Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um grito longo, como uma ululação sepulchral.

--Sou velha! velha! velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vêr correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes vós que eu tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem no coração. Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando vos fôrdes como a nuvem de pó que passou!

E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas garras recurvas estendidas para nós:

--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do coração do branco. Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui commigo?

Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam querer despedaçar:

--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras aqui? Não as pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te conheço! Oh céos! oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...

Um momento, ficou como esgazeada em face d'Umbopa. E subitamente, batendo os braços no ar, cahiu no chão, como morta.

Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braços a feiticeira. Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lançou um gesto:--e uns após outros os regimentos começaram a desfilar, até que todo o pateo ficou vasio e rebrilhando ao sol.

Então Tuala voltou-se para nós, com a face pavorosamente franzida:

--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Está-me a parecer que vos devo matar.

Eu sorri, com superioridade.

--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca?

--Oh gentes, vós ameaçaes o rei! volveu elle, cerrando os punhos.

--Não ameaço. Digo só que tão facil é ás nossas Artes matar uma vacca como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!

O enorme bruto levou os dedos á testa, reflectindo.

--Ide em paz! disse por fim. Esta noite é a Grande Dança. Vireis e vereis. Não tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E ámanhã decidirei.

--Está bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto.

E acompanhados por Infandós, recolhemos á nossa aringa.

Quando chegamos ás cubatas, depuz n'um escabello o rewolver, e voltando-me para Infandós que entrára comnosco:

--O teu rei Tuala é um monstro, Infandós!

O velho guerreiro teve um suspiro.

--Ai de mim! Toda a nação geme com as suas crueldades, meu senhor! Vereis esta noite. É a grande caça aos feitiços; vem Gagula e _as suas farejadoras_ farejar, adivinhar quem são, d'entre os guerreiros e o povo, os que meditam ou já commetteram feitiços e maleficios. Se o rei appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe torne infiel, Gagula ou uma das _farejadoras_ aponta para esse homem, e o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito á minha experiencia das armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é cruel, a terra toda soffre e está cançada d'elle!

--Mas, pela luz das estrellas, porque não depondes vós ou mataes essa féra?

Infandós encolheu os hombros:

--É o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o coração mais negro, pesaria sobre nós com mais furor. Se Imotú não tivesse sido morto, e se Ignosi, o filhinho d'elle, não tivesse acabado tambem no deserto com a mãe, então havia uma esperança no reino! Mas assim...

De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance tão romanesco, tão semelhante aos que se lêem nos contos de grande enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:

--E quem te diz a ti que Ignosi morreu?

Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.

--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? gritou Infandós que, como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.

Umbopa deu para nós um passo lento:

--Escuta, Infandós. Não é verdade que o rei Imotú foi morto, e que a mulher e o filho desappareceram? Não é verdade que correu então voz de ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?

Com um gesto, Infandós concordou.

--Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as montanhas, atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram ter a um povo dos Amazulus que é da raça dos Kakuanas. Escuta ainda! O filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos brancos: trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu coração: e sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço com elles, atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de neve, pisou terra dos Kakuanas--e está na tua presença, Infandós!

E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nú diante de nós, com os braços abertos, gritando:

--_Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas_!

