As Minas de Salomão

Part 7

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E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela côr, pelas feições, era muito semelhante áquelles homens formidaveis. Eu então repeti a saudação ao velho. E, muito espaçadamente, para que elle apanhasse bem o meu Zulú:

--Somos gente d'outros sitios, vimos em boa paz, e este homem é nosso servo.

O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas plumas negras que ondulavam.

--Mentes! A gente d'outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas... Se sois estranhos e vindes d'outros sitios, tendes de morrer, porque não é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!

Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens levarem logo a mão ao cinto d'onde lhes pendiam umas armas em fórma de pesadas navalhas.

--Que diz esse malandro? perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.

--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.

--Santo Deus! murmurou o nosso amigo.

E, como era seu costume, em frente d'um perigo ou d'uma crise, passou nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar e que tornára a pôr), porque n'um relance lhe vi os dentes todos de fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para traz, em tropel!

--Que foi? exclamei.

--Foram os dentes! acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez os assustes.

O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n'uma ancia de curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com solemnidade:

--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas, cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?

--Abra a bôca, John! murmurei eu baixo para o capitão.

John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas, desdentadas como as d'um recemnascido. Entre os selvagens passou um susurro d'espanto.

--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! exclamavam elles, entre si, com gestos apavorados.

Então John deu um movimento vagaroso á cabeça, passou a mão pela bôca com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os beiços--mostrou duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, que rebrilhavam.

No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o chão, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mãos, n'um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e tão encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.

Só quem conhece selvagens e a mobilidade d'aquellas imaginações infantis póde comprehender como subitamente, em cada um d'elles, ao desejo de nos matar ia já succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou a levantar a voz, foi muito humildemente e n'uma postura de supplica:

--Vós sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca houve homem nascido de mulher que tivesse só cabello n'um lado da cara, e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente crescem outra vez... Vós sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores, perdoai-nos!

Aproveitei logo esta esplendida occasião. E estendendo o braço, com soberba magnanimidade:

--Estaes perdoados.

Era porém necessario, para nossa salvação, que deslumbrassemos e inteiramente nos apoderassemos d'aquellas almas ferozes e simples. E para isso, n'Africa (como n'outras partes) o mais prompto instrumento é o sobrenatural. Não hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto, com o negro da Africa Central, que _pela primeira vez_ vê o branco, e assiste a alguns dos _milagres_ que o branco póde realisar com os pequenos recursos da sua pequena civilisação, este procedimento é o mais seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e assim, poupando ao negro as traições, os brancos poupam a si proprios as represalias.

Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade:

--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima das nuvens, n'uma d'aquellas estrellas que vós vêdes de noite brilhar. E viemos visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!

Entre os indigenas correram grandes _ah_! _ah_! lentos e maravilhados.

Eu prosegui, mais grave:

--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conheço todas as linguas.

--A nossa bem mal! arriscou com timidez o velho guerreiro.

Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma diversão brusca áquella observação tão justa e perigosa:

--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez devessemos castigar já o ultraje feito por esse moço, que sem provocação atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e cahem.

--Oh não! meu senhor! gritou n'uma anciosa supplica o velho guerreiro. Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!

Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior indifferença:

--As nossas maneiras de castigar são simples e terriveis. N'um instante ides vêr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa), dá-me a arma de feitiços que troveja.

Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas affirmações de divindade, e que (Zulú intelligente, afeito aos brancos e ás _suas manhas_) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina Winchester, com humilissima reverencia.

Justamente n'esse instante avistei, para além do riacho, a umas setenta jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um montão de rochas.

--Vêdes aquelle gamo? exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d'aqui d'onde estou, só com fazer estalar um pequeno trovão?

--Não é possivel! murmurou recuando o velho guerreiro. Não é possivel para homem nascido do ventre da mulher!

--Ides vêr.

Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou morto, immovel, estatelado nas pedras.

Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu accrescentei simplesmente:

--Ahi está. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo!

O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caça. E amontoados em volta d'ella, todos em silencio (n'um silencio que era religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o buraco da bala que lhe acertára entre os hombros.

--Se não estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d'um gamo me quereis vêr matar um homem, que um de vós se colloque além sobre as pedras ou mais longe, e o raio irá ter com elle.

Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando.

--Não! Não! gritaram alguns. Acreditámos, acreditámos... Não vale a pena gastar feitiços com nós outros, que acreditámos e que somos amigos!

O velho guerreiro interveio, com alacridade:

--Assim é! Nós somos amigos. E para que nos conheçaes bem, oh almas das estrellas, que trovejaes e mataes tão de longe, sabei que eu sou Infandós, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moço é Scragga, filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada, sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, Tuala o d'um-só-olho...

--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos então ao rei Tuala. Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, nós só fallamos a reis!

--Certamente, meu senhor, certamente... Mas nós andavamos caçando n'estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. São tres dias que tendes de caminhar.

--Caminharemos. Escuta tu, porém, Infandós, e tu, Scragga, filho de Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traição, ou se essa idéa vos atravessar sequer a cabeça, nós, que tudo adivinhámos, tomaremos de vós tal vingança que fará ainda estremecer os filhos de vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vão e vêm, incendiará todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e despedaçará todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E nós faremos resoar os canos que trovejam d'uma maneira que será pavorosa! Toda a agua seccará. Todo o gado morrerá. E os espiritos maus virão, á nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho.

Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda assim o velho Infandós saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais servil, repetindo tres vezes estas palavras: _Krum_! _Krum_! _Krum_! Como depois soubemos, é esta a maneira kakuana de saudar o rei. Corresponde ao _Bayète_! dos Zulús.

Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram ás costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes voltas e com olhares de terror.

Um d'elles lançou mão ao fato do capitão John, ainda cuidadosamente dobrado á beira d'agua. O excellente John deu logo um pulo para as calças. E rompeu então uma immensa altercação.

--Não, meu senhor, gritava Infandós, não consentirei que o meu senhor carregue com essas coisas!

--Mas é que eu quero pôr as calças! berrava John.

--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar...

--Mas as calças...

--Meu senhor!...

--Larga as calças, malandro!

Tive de intervir, suffocado de riso.

--Escute, John. O caso é mais serio do que parece. Um dos motivos do terror que estamos inspirando é a sua luneta, a sua cara meia barbada e meia rapada, os seus dentes postiços, e essas pernas brancas á mostra... Tudo isso espanta as imaginações de selvagens. E se o amigo quer que não nos percam o medo, é necessario continuar a apparecer-lhes n'essa figura. Se o amigo lhes surgir ámanhã d'outro modo, tomam-nos por impostores, e a nossa vida não vale mais um pataco. Assim o viram n'esta terra, assim n'ella tem de ficar.

John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o barão:

--O amigo Quartelmar tem razão, affirmou o barão. E dá graças a Deus que já estavas de botas, e que a temperatura é tão dôce.

John teve um suspiro de furiosa resignação. E, durante a nossa estada na terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou notaveis feitos--de botas, de pernas núas, com uma metade da cara rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!

CAPITULO VI

PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS

Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas bagagens. Nós iamos no meio, entre Infandós e Scragga.

Pouco a pouco, Infandós e eu descahimos n'uma palestra familiar e amigavel. O velho era esperto e loquaz.

--Quem fez esta estrada, Infandós?

--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido através de gerações... Já ninguem póde fazer estradas assim... Mas o rei não consente que se desmanche, nem que lhe cresça a herva por cima.

--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infandós?

--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que estão para além (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para baixo não puderam seguir, segundo diziam nossos avós, que o disseram a nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. Não puderam por causa das altas montanhas que estão em redor, e do deserto onde tudo morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e tão fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus regimentos, o chão treme todo com o seu peso, e até onde a vista alcança só se vêem plumas de guerreiros e lanças.

--Mas se a terra está murada de montanhas, e se não tendes visinhos, para que são tantos soldados?

--A terra está aberta para além (e indicava o Norte). E ás vezes descem de lá multidões, que não sabemos quem são, e que nós destruimos. Já correu a terça parte d'uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão contra irmão.

--Como foi isso, Infandós?

Infandós começou então uma d'essas historias de pretendentes e de guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d'elle, Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da primeira mulher (elle, Infandós, era filho d'uma concubina) dois gemeos. Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo n'uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra com os povos do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que tudo sabe e que não morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imotú reinava sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a mãe tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis são marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabeça e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real, largou a bradar: «Este é o rei! Este é o rei!» Alguns sabiam bem que não--e que n'este só havia impostura. Mas n'esse momento, ouvindo os alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, o irmão, corre para elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, que as acções decididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é rei! Tuala provou que é rei!» Diante d'isto a pobre mulher de Imotú agarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n'uma aringa, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais voltou.

--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra, que Tuala não é o verdadeiro rei.

O velho respondeu com prudencia:

--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, só esse tinha o legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente decerto ha muito que Ignosi morreu...

Casualmente n'esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os calcanhares, absorto n'aquella historia de Imotú e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras. N'essa occasião permaneci indifferente. Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei n'aquella anciosa, esgazeada curiosidade do Zulú.

* * * * *

No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas d'estrada. As montanhas de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos véos de nevoa. E o paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.

Ao começo da tarde avistámos emfim uma grande povoação,--que, segundo Infandós nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma vasta guarnição. O velho guerreiro mandára mensageiros adiante, correndo, n'um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos aproximámos da aldêa, descobrimos com effeito, sahindo das portas e marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados.

O barão tocou-me no braço, com um receio que «as coisas se apresentassem desagradavelmente». Infandós decerto comprehendeu, pelo tom, pelo franzir de sobrancelhas do barão, o sobresalto que o tomára (e a mim), porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia:

--Que os meus senhores não suspeitem de mim! Aquelle é um dos regimentos que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos que vêm do mundo das estrellas...

Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferença. Realmente estava bem inquieto!

A povoação ficava á direita da estrada, separada d'ella por um declive de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formára em parada. Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercámos, podémos vêr com admiração e assombro, de que esplendida, de que formidavel raça eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis pés d'altura; e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes, prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a cabeça todos traziam a corôa d'altas e pesadas plumas negras, sempre tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saião feito de rabos de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no braço esquerdo sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante á dos Zulús--e tres facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que elles chamam _tollas_ e que arremessam a distancias de cincoenta jardas e mais, com uma certeza terrivel.

As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas, á medida que iamos passando em frente d'ellas, cada official (que se distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudação real, a grande voz: «krum! krum! krum!»

Assim penetrámos na povoação ao rumor de acclamações. A aldêa devia ter uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por uma alta estacada feita de troncos d'arvores. Na porta central, do lado da estrada, havia uma ponte levadiça.

Parecia uma aldêa admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores, corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais estreitas, formando séries de quarteirões, cada um dos quaes alojava uma companhia. As cubatas, redondas, feitas d'uma grossa verga entrelaçada, findavam á maneira das dos Zulús por tectos de colmo em fórma de zimborio agudo: mas, differentes n'isto das dos Zulús, tinham uma porta, larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo chão de cal dura rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres, que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella raça de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello mais ondeado que encarapinhado, as feições por vezes aquilinas, e os beiços sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vêrem-nos desfilar, tão estranhos e differentes de todos os homens que até ahi tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma exclamação: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as pernas niveas do pobre amigo, que, roído de vergonha, praguejava baixo.

Quando chegámos ao centro da aldêa, Infandós parou em frente d'uma espaçosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo. E com palavras grandiosas, á maneira dos Zulús, offereceu-nos a hospitalidade:

--Aqui habitareis, meus senhores. E não tereis de apertar o ventre com fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns carneiros. Não é muito, oh Espiritos! Mas é dado por corações, que se regosijam de vos vêr.

--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos sobretudo é descançar, fatigados da nossa descida através dos espaços e dos reinos do ar...

A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no chão, grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua. D'ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á porta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.

Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou a cozer a carne n'uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar Infandós e Scragga para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer, se não encruzavam no chão á maneira dos Zulús--mas se sentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás paredes. O jantar foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doçura e respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para cada um dos nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao vêr que nós comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana, começava a suspeitar da nossa origem divina. Não me agradou este sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror supersticioso?

Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos d'espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zulús, a planta do tabaco cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e sêcca, pulverisada. Só conhecem o rapé.

No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós já tudo organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava então na sua grande cidade de Lú, preparando-se para a revista de tropas, a dança das flores, e «caça aos feiticeiros», que constituem a maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana de junho. E segundo affirmava Infandós, nós deviamos (a não ser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao fim de dois dias de marcha.

Depois, como começavam a luzir as estrellas e a aldêa ia cahindo em silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós atiraram-se logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as traições.

Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.

CAPITULO VII

O REI TUALA