# As Minas de Salomão

## Part 6

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O barão, porém, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactidão do velho D. José da Silveira. «Se elle a achou (argumentava o barão, e com razão) é que essa cova está situada de tal sorte, tão saliente e tão visivel, que não póde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de quem fôr trepando a serra».

--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! affirmou elle com um grande gesto de esperança.

--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa aventura. Em todo o caso, real ou metaphoricamente, _é a cova_!

Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos n'um silencio mortal. Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para encolher a fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei n'elle que parára, e que me agarrou pelo braço:

--Macumazan, acolá! exclamou surdamente, apontando com o cajado.

O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, subindo, a primeira encosta do «bico do peito». E ahi na brancura da neve destacava uma mancha preta.

--É a caverna! exclamou Umbopa.

Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d'um buraco. Para lá endireitámos os passos. E na realidade encontrámos uma gruta, de entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. José da Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E bemdito era o seu encontro--porque (como succede n'estas latitudes) o sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d'elle, de golpe, sem crepusculo, sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. Enfiámos bem depressa para dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos uns contra os outros, sentados no chão, costas com costas. E alli ficámos na treva, mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria. Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou convencido que n'aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!

Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, durante a infindavel noite, sentindo a cada instante, através do corpo, começos de congelação ora n'um pé, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De resto, n'aquellas condições, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade.

Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se tivesse adormecido. As costas d'elle pousavam contra as minhas costas. Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes as repelli. Duas vezes a _pedra_ se abateu sobre mim, mais fria. O ar no emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então para traz descobri que o pobre Hottentote estava _morto_! Decerto morrera quando o ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse sentido as costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findára. Alli estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em torno dos joelhos, a cabeça cahida para baixo, _gelado_. Todos nos erguemos de salto, com horror. Já a esse tempo o dia penetrára na caverna, n'uma luz mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que não tinha mais de quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada n'uma pedra, com a cabeça toda descahida sobre o peito, os braços hirtos e pendentes para o chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um _morto_. Peor ainda, percebi que era um _branco_!

Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam com esta nova e brusca emoção. Tropeçando uns nos outros, largámos desesperadamente a fugir para fóra da caverna.

* * * * *

Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os outros--envergonhados.

--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a figura que vimos seja a de meu irmão.

Era possivel. E um por um, n'um silencio apavorado, atraz do barão, tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava. Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra. Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um suspiro de allivio:

--Não, graças a Deus, não é elle!

Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d'um homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham petrificado.

--Quem poderá ser? murmurei, assombrado.

O capitão John contemplava a figura pensativamente.

--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D. José da Silveira!

Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:

--Impossivel! Ha trezentos annos!

Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. N'uma temperatura como a da cova, que é a d'uma geleira, um corpo morto póde perfeitamente conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de sol entrára jámais n'aquella cova voltada para noroeste: não havia animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia para Londres dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta dias; e conservada em iguaes condições, não se deterioraria ao fim de trinta seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de o enterrar, e abalou...

--E olhai! accrescentou o capitão apanhando uma especie de osso da fórma d'um lapis, e aguçado, que jazia no chão, ao lado. Aqui está com que elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com esta ponta de osso!

Passámos o osso de mão em mão, em silencio, esquecendo as nossas proprias miserias no espanto d'aquelle encontro. Já não podia haver duvida. Alli estava elle pois, sentado n'uma pedra, frio e duro como ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais de trezentos annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue riscava o roteiro que d'além-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha! Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle traçára essas linhas! E parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira; a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente lançadas; a penna informe escorregando-lhe da mão; a treva da noite enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento dado ainda aos seus, á terra d'onde partira n'um galeão, ao Rei que servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para a morte, n'aquelle immenso silencio e na immensa solidão!

Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e energicas feições do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera nos braços. Talvez imaginação. Em todo o caso _elle_ alli estava, o primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallára, estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de Sabá. Alli estava; e provavelmente lá está ainda, lá estará, através dos seculos que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como nós, se jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria tumba!

--Vamos embora! exclamou o barão, muito pallido.

Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára na mesma postura, com os joelhos á bôca, os braços apertados em volta dos joelhos:

--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n'este esquecimento.

Erguemos então o cadaver de Venvogel e collocámol-o sentado na pedra, junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou a corrente que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e guardou o crucifixo no seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o tenho ao meu lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com elle o meu nome.

Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d'outras eras e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retomámos em fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como elles, gelados e hirtos, n'um barranco da serra.

Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós, estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras, que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á beira d'agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos pareceram antilopes.

A nossa alegria--foi como a d'uma resurreição. Caça! Alli estava caça para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se deviamos aproximar-nos da caça ou fazer fogo d'alli, se deviamos usar as carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel--porque de acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o rebanho. E a carabina «Express», apesar d'um alcance inferior, era preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam _algum_ dos antilopes.

Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! salvos! De fome já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo:--e em poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal, quentes e fumegando!

Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?

--Gente faminta não tem exigencias! gritou excitadamente o capitão John. A ella, e crúa!

Não restava outra solução--e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e devorámol-as com voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne crúa me soube divinamente! D'ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim _sentia_ positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!

O barão apertou as mãos, e disse simplesmente:

--Louvado seja Deus por isto!

Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n'um sorriso mudo. E não havia em nós outra sensação--senão a de estarmos salvos, de estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no sol, que subia macio e tepido. Quando acordámos, e esfregámos os olhos, o nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos appareceu n'um relance. Demos um grande _ah_, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao Paraiso, e que o Senhor nos ia apparecer!

Estavamos no planalto d'um dos «Seios de Sabá», com um dos «bicos do peito» erguendo-se por traz de nós até ás nuvens, sublime e brilhante de neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n'uma profundidade de cinco mil pés; e para além das derradeiras faldas, a perder de vista, eram leguas e leguas d'uma terra esplendidamente fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós como um immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim abrangidos n'um relance, davam a impressão d'um paraiso resumido onde Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente se póde detalhar uma paizagem tão formosa e vária. Aqui alastrava-se uma vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos brilhos d'aço novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde tenro e claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensação prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava illimitadamente a alegria do seu fulgor d'ouro.

Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella região tão rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do deserto. E depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no horisonte azulado.

Nenhum de nós fallava, arrobados na contemplação d'aquella incomparavel natureza. Por fim o barão estendeu o braço:

--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomão, não é verdade? Pois lá está, além, para a direita...

E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos já perdido toda a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, que, no topo d'uma montanha, no centro d'Africa, a centos de leguas de toda a sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com as proporções e grandeza d'uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os abysmos.

--O melhor é descermos, disse simplesmente o capitão John.

A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por traz de grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortámos para lá, devagar, ora através de grandes espaços de neve, ora por sobre montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, avistámol-a de repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia começar alli, ao meio da serra, bruscamente. Continuámos a descida alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas fortes lages. Olhámos, explorámos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra, entre umas rochas de lava entremeadas de neve!

--Extraordinario! exclamou o barão. Porque começa esta estrada assim, ou porque acaba assim, de repente, no meio da serra?

Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia.

--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando o queixo. Esta estrada é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. Antigamente galgava a cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para além, foi coberta por montões de lava, n'alguma erupção: e a parte que cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. Não póde ser senão isto.

Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre essa surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta suave descida por uma magnifica calçada, com as forças restauradas, e a abundancia a esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na verdade, se não fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo d'outras eras, poderiamos cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia crescer para nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha semelhanças com a estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira maravilha maior! N'um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d'uns trezentos pés de largura, d'uma profundidade de mais de cem pés: pois este abysmo estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurança. N'outros sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios, com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o abysmo. Mais adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.

Nas paredes d'este tunnel corriam singulares relevos representando guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças em confusão, e captivos acorrentados.

--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando a cada instante. Tudo isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada virá de Salomão. Mas estas esculpturas são das mãos de egypcios.

Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até ás faldas baixas onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos silvestres. Depois a estrada penetrava n'um bosque de olmos, uns olmos cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só existirem no Cabo.

--Estamos ao menos em terra de lenha! exclamou enthusiasmado o capitão John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já digeri aquella carne crúa... Reentremos solemnemente na civilisação!

Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direcção a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando succulentos bifes do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas arvores, gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso perfeito.

O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e além cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como velludo susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.

Nenhum fallava, no enlevo d'aquella paz e d'aquella doçura. E por muito tempo nenhum de nós se moveu--até que o capitão John, surgindo de repente nú do leito espesso de fetos onde se enterrára, correu para o riacho, e mergulhou n'um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n'um bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle homem admiravel, que, apenas se achava n'uma região d'ordem, retomava os seus complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se á beira do regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o jaquetão, dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou ás botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois besuntou com gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma apparencia comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e mais delicadas operações. D'um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba já grossa d'oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a cabeça com desconsolação e tédio. Começou então pelas unhas que aparou e poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente, com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o espelhinho n'um ramo d'arvore. O arranjo não provou satisfatoriamente, porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o espelho n'uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mão no sacco e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! pensei eu erguendo-me no cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» Ia. Tomando outra vez o pedaço de gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a escrupulosamente no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era porém uma operação difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d'um angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando, de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabeça.

John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma margem do regato, a distancia d'uns trinta passos, dei com os olhos n'um bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta, e côr de cobre.

Alguns d'elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabeça umas corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente do bando, um rapaz d'uns dezesete annos conservava ainda o braço erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d'uma estatua que eu vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo.

Evidentemente a _coisa_ que passára e brilhára era um dardo--e fôra o moço airoso que o arremessára.

Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d'entre o grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como se o avisasse. Em seguida todos avançaram para nós.

O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. Percebi logo que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim tranquillamente os tres canos erguidos.

--Baixem as armas! gritei aos outros.

Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa gente selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. Apenas pois os companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.

--Bem vindo! exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que idioma entenderiam aquelles homens.

Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, não em Zulú, mas n'um outro dialecto, tão parecido com o Zulú, que Umbopa e eu o percebemos perfeitamente:

--Bem vindo!

Como viemos a saber depois, a lingua d'este povo era uma fórma antiquada da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como o inglez do tempo dos Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho avançára outro passo, erguendo a mão.

--D'onde vindes? continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vós as faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos de nossas mães?

