# As Minas de Salomão

## Part 5

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Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d'agua dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n'aquella immensidade despovoada. D'esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo _fritos_! O sol por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos erguemos, de salto, quasi sem respiração.

--Santo Deus! murmurou o barão, sacudindo os enxames de moscas.

--Póde-se chamar a isto calor! gemeu do lado o capitão, que arquejava.

Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por cima uma vibração radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar.

--Que se ha de fazer? exclamou o barão. É impossivel aguentar isto!

Olhámos uns para os outros, estupidamente.

--Se abrissemos uma cova? lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e cobrir-nos com tojo... É uma idéa.

Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já com a enxó, já com as mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho aproximado d'uma larga cama. Cortámos uma porção de matto; e alli nos sepultámos, collados como sardinhas n'uma caixa, todos quatro, o barão, John, eu e Umbopa,--porque Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi elle que nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d'aquella fossa, em que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! Não comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, arquejando anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os beiços com uma gota d'agua muito medida! Esta avara medição da agua era o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa tentação de sorver d'um só trago os quatro cantis. Mas quê! se a agua faltasse--breve viria a morte!

Tudo tem um fim n'este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel manhã passou: e pelas tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de vir) a ser por ella lentamente envolvidos n'aquelle infame buraco. Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa agua,--que diminuia terrivelmente, e subira já á temperatura do sangue. E com um esforço rompemos de novo através da planicie flammejante.

Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do velho D. José da Silveira, a total extensão do deserto estava fixada em quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha marcada a meio do deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos pouco mais d'uma milha por hora. Ao pôr do sol parámos á espera da lua. Deixei-me cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas d'ahi a um instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito ou nove milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente na planicie rasa. Não parecia uma elevação natural de terreno, na sua semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar adormeci logo, murmurando: «Que será?...»

Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de cansaço e de sêde. O andar franco e firme acabára para nós. Era agora um arrastar de passos quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que cahiamos para cima da areia, sem força, de coração desmaiado. Nem animo nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, heroicamente. John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!

Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d'alma, chegámos ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d'areia, escura, lisa, atarracada, da altura d'uns trinta metros, e cobrindo na base duas geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um almude!

Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos, resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si proprio em zulú:

--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! vida, murmurio que finda!

Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n'um deserto d'areia!), adormeci profundamente.

* * * * *

Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a tortura da sêde!

Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d'um regato d'agua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d'aves, e toda uma sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho n'um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!

Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer, erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados. Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos restava uma gota d'agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas o barão arrancou-lh'a das mãos. Beber alcool, n'aquelle estado?... Era a morte.

--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se d'aqui á noite não achamos agua!

--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a poça d'agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n'esta altura exactamente que elle a achou...

Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar n'essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais pequena e perdida do que uma moeda de prata n'uma praia d'areia? Só por um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d'accidente do terreno, que, pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente attrahisse os olhares e os passos.

A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando conjecturas, n'esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, lentamente, como quem procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o braço espetado para a terra.

--Que é? exclamámos todos.

E corremos alvoroçadamente.

--Pégadas de corço! bradou elle em triumpho, apontando para o chão.

--E então?

--Corços nunca andam longe d'agua!

--É verdade! gritei eu. E louvado por isso seja Deus!

Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a agua--mas a esperança d'ella, para breve! E n'uma crise afflictiva como a nossa, uma esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que enche logo a alma.

Venvogel no emtanto começára a andar em redor, com o nariz erguido (o seu largo nariz mais chato que o d'um _bull-dog_), sorvendo o ar quente, farejando.

--_Cheiro agua_! dizia elle, _cheiro agua_!

E nós todos atraz d'elle, farejando tambem, quasi _já viamos_ a agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens, possuem um faro maravilhoso. Mas n'esse instante os grandes raios do sol que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma tão grandiosa paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sêde!

Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o portuguez chamára os «Seios de Sabá»; e de cada lado d'elles, estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel grandeza e belleza d'aquelle quadro de montanha!

Alli estavam as duas enormes serras que não têm iguaes na Africa, nem creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil pés d'altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima das nuvens. E o que esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se como um muro disforme de granito, d'altura de mil pés: as duas serras formavam como os dois torreões d'uma porta, perdidos nas profundidades: a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique, lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configuração d'uma porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d'uma muralha cercando uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!

Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois montes «Seios de Sabá»! Tinham com effeito a fórma perfeita de dois peitos de mulher: as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n'uma curva dôce e tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e lisas: e no cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve, semelhava exactissimamente a ponta, o bico d'um peito. Prodigiosa estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, é uma mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos! Mas á minha imaginação (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada n'esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito mysterio; e a cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra d'Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos mortaes a magestade d'aquelle ádito, que uma vontade divina nos deixára por um momento entrever. D'ahi a pouco os «Seios de Sabá» estavam envolvidos de todo, resguardados sob o mystico véo--através do qual só podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!... Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares, estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a cortina se descerrava, como n'uma celebração, desvendando aos homens a maravilha sem par.

Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a mesma anciosa interrogação--«que fazer?» Venvogel insistia, convencido, que lhe _cheirava a agua_:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! Só a areia ondulando, com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular outeiro onde pararamos de noite. Avançámos para os lados, em todas as direcções do vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que furavam a terra. Nada! Nenhum vestigio d'uma nascente, d'uma poça, d'um charco. Só areia, arido tojo.

--Idiota! gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, nunca houve aqui agua!

N'aquella aspera, arida immensidade não parecia, com effeito, haver possibilidade, nem sequer verosimilhança d'agua... E quanto tempo de resto poderia durar alli uma «poça salobra», como a que encontrára o velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias movediças?

No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas erguidas e abertas:

--Eu sinto o _cheiro_ d'agua, patrão. Sinto-a no ar!

--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem não duvido que venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!

O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:

--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui esteve agua!

Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca! Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome, meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza que elle a tivesse encontrado, n'esta deserta immensidade, justamente quando d'ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno, muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina... Uma collina!

E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu pensamento:

--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!

--Tolice! acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d'uma collina! Onde se viu isso?

--Procuremos! disse eu, com um bater de coração que era todo de esperança.

Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca, com os braços no ar:

--_Nanzie manzie_! (agua aqui!)

Pulámos para junto d'elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina, n'uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua lôbrega--mas agua! Agua! agua! Gritavamos de puro gozo. E n'um momento, estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso, que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber, arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n'elle, ficámos horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.

Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!

Todo aquelle dia tardámos junto da agua, bebendo d'ella, mergulhando n'ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d'agua os estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n'essa noite. Não tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sabá!

Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos, estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena distancia, n'um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens, porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n'alma, pensando que nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.

--É agua, Umbopa? gritava eu pulando por sobre a lava.

--Agua e sustento, Macumazan! exclamava elle agitando no ar a coisa verde, com effusivo triumpho.

Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n'um meloal, um enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!

--Melões! uivei eu para os companheiros que corriam atraz.

--Melões! melões! foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.

N'um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n'um melão, sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais intensa e aguda. Conservavamos ainda o _biltong_, a carne sêcca; mas já nos enjoava atrozmente: e além d'isso deviamos poupal-a com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão da serra.

N'esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John. Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta terrivel evidencia, _a fome_--vi de repente uns oito ou dez grandes passaros voando em direcção a nós, lentamente.

--Atire, patrão, atire! exclamou baixo o nosso servo hottentote, acaçapando-se immediatamente no chão.

Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a côr da lava, não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas, que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e esperei acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em montão; e atirando á massa escura, pude facilmente abater um soberbo bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho aloirava em cima. Foi um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e bico!

N'essa noite continuámos a ascensão do monte, á luz da lua, carregados de melões para a sêde. Á maneira que subiamos, o ar esfriava consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua emfim, louvado Deus, já não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regiões do gelo. No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar nascentes, quedas d'agua, um riacho corrente; porque decerto no verão as neves, derretendo, deviam encher d'agua aquellas encostas. Por onde corria a agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde descobrimos que (por uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho ou em queda, descia pela vertente norte da serra.

A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma milha por hora. A carne sêcca acabára. Melões, nenhuns mais encontrámos. O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante de nós, cada vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos momentos de repouso passavam n'um silencio sombrio e cheio de desesperança. Eu por mim ia já tão debilitado e confuso, que, d'esses tres dias que nos levou a ascensão da serra, não me recordo com bastante nitidez--e só poderia reconstruil-os pelos apontamentos do meu _Diario_. Na nota com data de 22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos meio desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os pedaços de neve que começámos a encontrar. Frio intenso. Cada um de nós bebe uma gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim conservamos calor. Estamos verdadeiramente _soffrendo de fome_. Julguei que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite».--Tudo isto é já terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda soffrimentos mais vivos:--«Estamos n'uma situação medonha. A não ser que encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O cognac acabou. Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde aguentar frio, parece perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de torpor no estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a _porta_, o colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sabá. Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... Para que o atravessamos nós?» Logo abaixo d'estas linhas ha outra, escripta decerto n'um dos momentos em que paravamos:--«Deus se amerceie de nós, que chegou o nosso fim!»

Esta linha não tem data, mas sem duvida foi traçada no dia 24. Depois os apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n'esse estranho dia. Iamos então caminhando através da neve, com paragens incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer, fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol chegámos junto da «ponta do seio», d'essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita d'um seio), parecia ella propria o bico d'esse peito descommunal. Apesar de exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração d'aquelle esplendido cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr de rosa em que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d'uma carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admiração não podia durar em homens collocados como nós, a tão extrema visinhança da morte. O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d'aquellas neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir á noite que vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n'essa branca e lisa vastidão de neve?

--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou o capitão John.

Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados, esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:

--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou á beira d'ella.

