Part 4
Infelizmente para elles, logo adiante havia um _nullah_, isto é, uma ribeira sêcca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique do lado fronteiro (sitio parecido áquelle em que o Principe Imperial foi morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em tropel. Quando chegámos á borda, démos com elles em medonha confusão, esforçando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta), empurrando-se uns aos outros, n'um furor e egoismo verdadeiramente humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando tão depressa como carregavamos, démos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de galgar a ribanceira, não largassem a fugir ao comprido do leito sêcco que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os perseguir, enjoados tambem d'essa vasta mortandade. Oito elephantes n'uma manhã, antes do _lunch_, é decente.
De sorte que, depois de descansarmos e vêrmos os Cafres cortar os corações a dois dos elephantes para servir á ceia, voltámos vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os carregadores viriam serrar.
Ao passar no sitio em que o capitão tinha ferido o «Patriarcha», encontrámos um rebanho de _elands_. Não lhe atirámos, porque não ha nada no _eland_ que valha dinheiro, e mantimentos já traziamos, deliciosos e abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois, adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flôr, parou; e todos a um tempo se voltaram, a olhar para nós, espantados.
O capitão nunca vira um _eland_. Quiz aproveitar a occasião, deu a carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito, para o tufo de arbustos em flôr. O barão e eu sentámo-nos á espera, n'uma pedra.
O sol ia justamente descendo, n'um grande esplendor de vermelho e ouro. O barão e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de céo e luz, quando de repente ouvimos o bramido d'um elephante e vimos, escura sobre a vermelhidão do poente, uma vasta fórma avançando a galope, de tromba erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa horrivel:--o capitão, e Khiva, o serviçal zulú, fugindo para nós n'uma carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido, o «Patriarcha» que alli ficára, errando. Agarrámos n'um impeto as carabinas. Mas quê! Fera e homens, correndo para nós, vinham juntos! Se disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficámos n'esta indecisão, com o coração a tremer, quando o pobre capitão escorrega n'aquelles infames botins de bezerro com que teimava em trilhar o sertão--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do enorme elephante que chegava bramindo!
Fugiu-nos a respiração! O pobre camarada estava perdido! Largámos ainda a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com effeito--mas d'um modo bem differente. Khiva, o Zulú (valente, heroico rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a toda a força contra a tromba do elephante. A fera lança um uivo de dôr, arrebata o desgraçado Zulú, bate com elle no chão, põe-lhe uma immensa pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito, rasga-o--litteralmente _o rasga em dois_.
Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez, furiosamente--até que o elephante se abateu como um monte sobre os pedaços sangrentos do Zulú.
Foi um instante de indizivel consternação. Apesar de endurecido por quarenta annos de caça e carnificinas, eu proprio sentia um «nó na garganta», e creio que me fiz pallido. O barão tremia todo. E o pobre capitão torcia as mãos, na dôr de vêr assim despedaçado o servo valente que dera a vida por elle.
Só Umbopa teve a palavra serena que convinha á disciplina. Veio, com os seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n'uma poça de sangue, junto á massa enorme do elephante, moveu a mão no ar e disse:
--Morreu. Bem d'elle, que morreu como um homem!
CAPITULO V
A NOSSA ENTRADA NO DESERTO
Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a serrar-lhe os dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d'uma arvore enorme, que destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um «signal» inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes do «Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta arrateis!
O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da collina, com uma azagaia ao lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia levantámos o acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa alma para que nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--«voltar e desenterrar este rico marfim!»
Depois d'uma fatigante marcha, cortada d'esses episodios africanos que todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim á aringa de Sitanda, ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso «ponto de partida». Ahi começariam as nossas miserias.
Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita descia, transmalhada, uma pequena povoação de negros, com curraes de gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a esquerda era o escuro, silencioso, infindavel deserto.
O nosso acampamento ficou junto d'esse riacho alegre que corria entre arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era aquelle o sitio, aquelle o outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n'uma tarde como esta, a figura do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, apparecer cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como então, o globo do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios flexavam obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua, sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, que nos ia talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em silencio. O ar era d'uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe, podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu companheiro:
--A entrada das minas de Salomão lá está... Chegaremos nós lá?
N'esse instante senti alguem por traz de nós respirando: era Umbopa, que trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa gravidade. Vendo que eu reparára n'elle, deu um passo lento, depois outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia ter-se affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:
--É para aquella terra além que tu vaes, Incubú?
_Incubú_ é uma palavra do dialecto zulú, que significa «elephante», e que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a audacia d'Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao patrão, por lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a um como eu, pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se dirija sempre pela alcunha negra--vá ainda! Mas que a atire á face d'um senhor, d'um fidalgo--isso não!
--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo comem da mesma gamella!
O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu.
--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao amo que sirvo? Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas talvez eu pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão forte como elle, e posso com elle repartir o que tenho no coração. Sê pois a minha bôca, oh Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E attende-as tu tambem, porque em mim só ha verdade!
Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára n'aquelle tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú tinha a arte de me impressionar. Além d'isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia impudente e ousada.
O barão, porém, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o Zulú:
--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d'um homem da minha raça, d'um irmão meu, que atravessou este deserto, e que eu supponho estar além!
O Zulú moveu lentamente a cabeça:
--Assim é, assim é... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como nós, levando um só serviçal... Nunca mais voltaram...
--Quem te disse? perguntei, vivamente. Porque te sahem só agora essas palavras? Onde te disseram?
Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. Contára-lhe que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a barba escura: e que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim.
--São elles! exclamei. Não ha duvida! são elles! Jim conhecia eu bem....
O barão ficou pensativo.
--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera d'elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.
O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou muito gravemente:
--É uma longa jornada, Incubú.
--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se puzer n'isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus ordenar.
Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:
--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a bôca d'um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei sempre fiel...
Parou. E subitamente rompeu n'uma d'essas rajadas de poesia, frequentes nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo menos imaginativa.
--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n'aquelle tom cantado que os Zulús tomam n'esses momentos de exaltação). Que é a vida? Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d'este mundo, e do mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida! D'onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao poente!...
Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.
--És um homem bem singular, Umbopa! exclamou o barão, que o escutára assombrado.
O outro pareceu acordar, sorriu:
--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem vá procurando um irmão entre as gentes que estão para lá das montanhas.
Olhei para Umbopa, com o sobr'olho franzido.
--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das montanhas?
--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de feitiços, de jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, lá verá!
Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não queria revelar. Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, espalmando as mãos:
--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! Não abro covas para que tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o que sei. Mas a Morte está lá com uma lança, á nossa espera. Melhor te fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a fallar.
E meneando a azagaia á maneira de saudação, desceu o comoro, recolheu ao acampamento--onde d'ahi a instantes o encontrámos limpando uma carabina, attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e vontade.
--Homem extraordinario! murmurou o barão.
--Extraordinario de mais! Não gósto nada d'aquelles mysterios... Mas, emfim, nós estamos mettidos n'uma aventura phantastica, e um Zulú mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe!
Na manhã seguinte começámos os preparativos para a marcha. Era impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, todo o pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados (depois de debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era abandonar as nossas magnificas armas á mercê d'aquelle velho malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um fulgor de cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas precauções.
Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n'um tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se elle lhes tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro despedindo um _raio_! Immediatamente (como eu calculára), o Cafre puxou o gatilho a uma carabina «Express». E o _raio_ partiu. Partiu, com tanta felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, á beira d'agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada força do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, olhava para o chão... Por fim rompeu aos berros:
--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, sobre o colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós!
Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma d'aquellas faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se nós morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, tornar-lhe o gado bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios filhos o amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel do Inferno, com horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife infinitamente supersticioso.
Em seguida combinámos o que nós cinco--o barão, o capitão John, eu, Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do deserto. Muito calculámos, muito experimentámos. Não lográmos chegar a um peso menor de quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui o que conduziamos:
Cinco espingardas--com a competente munição (quatrocentas cargas);
Tres rewolvers;
Cinco cantis d'agua, de cinco quartilhos cada um;
Cinco mantas;
Vinte e cinco arrateis de _biltong_--que é uma especie de carne sêcca;
Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;
Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d'algibeira, uma enxó, uma garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.
Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n'uma semelhante empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem, por um sol terrivel, através d'um deserto esteril!
Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás costas uma larga cabaça d'agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos caçar o abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sêde e de fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os demonios que vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de tres facas de matto e d'uma manta vermelha.
Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao pôr do sol celebrámos um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de chá--«o ultimo chá, observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, esperámos que nascesse a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de pégadas humanas como o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns passos, Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente para o deserto: atraz de nós, n'um grupo, Venvogel, com os tres negros que levavam as cabaças d'agua, esperavam, direitos e mudos: e nós tres, os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o coração.
De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com profunda emoção:
--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que homens têm ousado tentar. O que será de nós, não sei: mas, para bem ou para mal, juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde!
Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O capitão John e eu baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com humildade. Eu por mim, confesso, nunca fui homem de orações. Caçadores de elephantes, na dura vida d'Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso, n'aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, apesar de praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem de piedade e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o braço,--e com um bello ar de resolução e de esperança:
--Prompto?... Larga!
Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.
Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d'esse mappa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A nossa salvação, n'aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre a aldeia d'onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos, tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros n'aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima. Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos afiançava que n'esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra coberta pelas areias movediças?
Era n'isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de _teus dôces olhos_, parecia lugubre n'aquella severa immensidade. O engraçado homem emmudeceu. E seguimos n'uma fila muda através do matto mudo.
Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como garupas, galopando através do tojo, entre rolos d'areia. Os negros atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando avistámos John, apparentemente montado n'um potro, fugindo aos galões para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d'um rebanho de zebras adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d'uma, enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido, indignado--mas intacto de pelle e osso.
Depois d'isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite. Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d'agua (não muitos, nem largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d'uma tremula refracção d'ouro--e ser dia!
Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos, exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um pedaço d'areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois de beber alguns goles d'agua bem contados e de comer uma lasca de _biltong_, adormecemos deliciosamente.
Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma farta tarraçada d'agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos homens as facas de matto promettidas. D'ahi a instantes vimol-os (não sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!
Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á face. E talvez haja moscas no Paraiso.