Part 3
--Agora dirão os cavalheiros: «Se julgas que não sahes de lá vivo, para que vaes lá?» Em primeiro logar, porque sou fatalista. Se Deus já decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de Suliman hei de morrer ainda que lá não vá. E se Deus decidiu já o contrario, posso lá ir impunemente e de cara alegre. Isto é claro. Em segundo logar, estou velho, e já vivi tres vezes mais do que costuma viver na Africa um caçador de elephantes. De sorte que, continuando n'esta carreira, e desgraçadamente não tenho outra, que posso eu durar ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em cima, o meu pobre rapaz ficava n'uma situação má, coitado d'elle! Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui têm os cavalheiros a coisa em duas palavras.
O barão ergueu-se, excellente homem! e apertou-me as mãos com effusão.
--Essas razões, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, snr. Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou não da aventura, o tempo dirá. Eu por mim estou decidido a ir até ao cabo, seja qual fôr, triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer tão cedo, não me parecia mau que antes d'isso, pelo caminho, arranjassemos uma batida aos elephantes. Sempre desejei caçar o elephante, e com a perspectiva de deixar assim os ossos nas serras de Suliman, é prudente que me apresse... Não é verdade, John?
--Com certeza!... De resto, todos nós vimos já muitas vezes a morte diante dos olhos. É um detalhe; para que se ha de insistir n'elle? Viemos á Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus é grande.
--Está tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que chegou a occasião d'um grog.
Fomos ao grog.
No dia seguinte desembarcámos. Alojei os meus amigos n'uma «barraca» que possuo na Berea, e a que chamo em dias d'orgulho «a minha casa». É construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e uma cozinha. Em redor, porém, está plantado um bom jardim, com esplendidas arvores e flôres, que um dos meus caçadores, chamado Jack, traz lindamente tratadas. É um pobre homem a quem um bufalo esmigalhou a perna na terra dos Sikukunes. Já não póde seguir a caça; mas na sua qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zulú nunca faria decentemente. O Zulú tem horror ás artes da paz.
O barão e o seu amigo dormiram n'uma tenda que lhes armei no jardim (dentro de casa não havia espaço), no meio do laranjal. Aqui em Durban as laranjeiras têm ao mesmo tempo a flôr e o fructo: de sorte que com o perfume todo em torno, e o brilho das laranjas côr d'ouro, e o murmurio d'aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na Europa.
Logo no dia seguinte, sem mais tardança, começámos os preparativos. Antes de tudo fomos ao tabellião lavrar a escriptura em que o barão se obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em Inglaterra as propriedades do barão: mas arranjou-se uma «tangente», e segura, graças ás artes de um Advogado, que pelos seus serviços apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passámos a comprar o carrão e as juntas de bois. Descobrimos um carrão excellente, com eixos de ferro, solido e leve, que já fizera uma excursão a Lourenço Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um carrão dos que chamamos de _meia-tenda_--isto é, toldado sómente até ao meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofadões onde podiam dormir bem duas pessoas: além d'isso suspensões para as espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas. Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma aventura d'estas, vinte bois não vão de mais. Todos eram de raça zulú, a mais pequena d'Africa, mas a melhor; e todos elles _salgados_. Chamamos aqui _salgados_ aos bois já muito jornadeados pelo sul d'Africa, e á prova portanto da «agua vermelha»--que destroe ás vezes todas as juntas d'um carrão. Além d'isso, todos tinham sido vaccinados contra a _maleita de pulmões_, fórma horrivel de pneumonia, que é n'estas terras um flagello para o gado.
Em seguida organisámos provisões e remedios. Este detalhe demandava sciencia e cuidado, porque convinha, n'uma empreza tão accidentada, que nem faltasse o necessario, nem o carrão partisse abarrotado e carregado em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o capitão John, que em tempos estudára para medico da Armada, e que (além de possuir, muito a proposito para nós, um estojo de cirurgia e uma pharmacia de viagem) conservára conhecimentos genericos e uma toleravel pratica. Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre com uma maestria--que fazia appetite vêr! O que o perturbou foi o Cafre (que observára a operação em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois para lhe pôr _outro dedo novo_.
Restava emfim a importante questão de creados e armas. Armas tinhamos por onde as escolher--entre as que eu possuia e a collecção esplendida que o barão trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois canos para differentes cargas e differentes caças, tres carabinas Winchester, tres rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a creados, depois de muita consulta e reflexão, decidimos limitar o numero a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviçaes. Boieiro e guia achámos nós facilmente em dois Zulús, que se chamavam--um Goza e outro Tom. Mas os serviçaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da paciencia, da fidelidade, da coragem dos serviçaes poderiam muitas vezes depender as nossas pobres vidas n'esta aventura sem igual.
Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito zulú, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para os meus companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote já eu conhecia. Era um dos melhores «farejadores de caça» de toda a Africa. Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito sério consistia na _bebida_. Mas como iamos para região onde não ha «aguas-ardentes» nem quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno Venvogel.
Tinhamos pois dois serviçaes. O terceiro parecia impossivel descortinar. Tentei, tentei--até que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar, antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati e Zukanga. Na vespera porém da nossa partida estavamos jantando, quando Khiva, o rapaz zulú, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu portal, á minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapagão muito esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais para Zulú. Floreou no ar o cajado á maneira de saudação, encruzou-se sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. Não lhe dei logo attenção. Assim se deve proceder com os Zulús. Se o branco lhes falla com promptidão e agrado o Zulú conclue immediatamente que está tratando com pessoa _de pouco commando_. Observei no emtanto que este homem era um _Keslha_, um _homem-de-annel_--isto é, que trazia na cabeça aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma _idade de respeito_ ou attingem nas suas aringas uma posição superior. Tambem me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella.
--Bem, disse por fim, como te chamas?
--Umbopa, respondeu o homem n'uma voz lenta e grave.
--Estou a pensar que já te vi algures.
--Já, Makumazan!
_Makumazan_ é o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os olhos bem abertos.
--Makumazan, continuou o Zulú, viu-me em Izand-luana, na vespera da batalha...
Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford, na desgraçada guerra com os Zulús. Por acaso, na vespera da batalha de Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando levar para fóra do acampamento uns poucos de carrões de bagagens. Quando se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troço de Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o acampamento não estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento _trazia cheiro de inimigo_. Respondi-lhe que «dobrasse a lingua», e deixasse a segurança do acampamento a melhores cabeças que a d'elle. Pois grande razão tinha o Zulú! Logo n'essa noite o acampamento foi terrivelmente assaltado... Tudo isso porém vem na Historia.
--Que queres tu? perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que queres.
--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n'uma grande expedição, com os chefes brancos que vieram d'além do mar. É verdadeira a voz?
--Verdadeira.
--Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de Manica. É verdade?
Franzi o sobr'olho, descontente de vêr assim tão conhecido o roteiro da nossa expedição.
--Para que queres tu saber? que tens com isso?
--Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para tão longe, eu quereria ir comvosco.
Havia uma altivez nas maneiras d'este homem, e especialmente no seu emprego da expressão «_oh brancos_» em logar de «_oh inkosis_» (chefes), que me surprehendeu grandemente.
--Estás esquecendo a quem fallas! repliquei. As palavras sahem-te demasiadas e imprudentes. Como é o teu nome? onde é a tua aringa? É necessario saber quem temos diante de nós!
--O meu nome é Umbopa. Sou da raça dos Zulús, mas não sou Zulú. O sitio da minha tribu é muito longe, para o norte: os meus ficaram lá quando os Zulús desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, antes de Chaka ser rei. Não tenho aringa. Muitos annos vão que ando errante. Quando vim do norte era creança. Depois fui dos homens de Cetewayo no regimento de Nomabakosi. Por fim fugi dos Zulús, e vim para o Natal para vêr as artes dos brancos. Foi então que servi na guerra contra Cetewayo, e que te encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto, quero ir para o norte. O meu logar não é aqui. Não peço soldada, mas sou valente, e valho bem o pão que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.
Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me singularmente. Era certo para mim que só dissera a verdade: mas na côr, nos modos, differia muito do Zulú ordinario; e a sua offerta de vir comnosco sem soldada, extraordinaria n'um Africano, enchia-me de desconfiança.
Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes conselho. O barão pediu-me que mandasse pôr o homem de pé. Umbopa ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casacão militar que o envolvia, e ficou diante de nós, mudo, erecto, soberbo, todo nú, com um simples pedaço de pano em torno dos rins e um fio de garras de leão enrolado ao pescoço. Era, realmente, um esplendido homem! Tinha mais de dois metros de altura, e largo em proporção, agil, admiravel de fórmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia apenas muito trigueira, como a d'um arabe. Aqui e além, pelo corpo, conservava cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia.
O barão foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se não baixaram, e que rebrilharam:
--Gósto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu serviço.
Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zulú:
--Está bem.
Depois, atirando um olhar para a grande estatura e força do branco, accrescentou:
--Somos dois homens, tu e eu!
CAPITULO IV
OS ELEPHANTES
Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas que vão d'aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue, chegámos, pelos meados de maio, a Inyati, não longe da aringa de Sitanda, onde acampámos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas d'aquellas que são usuaes em todas as travessias d'Africa e já muito contadas nos livros. Em Inyati, ultima estação mercante da terra dos Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) é rei, separámo-nos, com fundas saudades, do nosso confortavel carrão. Dos vinte bois que trouxeramos de Durban, só doze restavam. Um morrera da mordedura da cobra, tres da falta d'agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma herva venenosa, chamada _tulipa_. Os restantes deixámol-os com o wagon ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos vigiasse o carrão, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjámos em Inyati, largámos para o deserto, a pé, em seguimento da nossa temeraria aventura.
Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pôrmos em marcha estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo, decerto, se jámais tornaria a vêr o carrão, os bois e o Missionario. Eu por mim levava a certeza _que não_. Os primeiros passos foram lentos, dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente, rompeu n'um grande canto--uma canção zulú, dizendo d'uns homens que, cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao deserto, para achar occupação ou morrer, e que, para além dos sertões, subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moças, de gado, de caça, e de inimigos para matar! Esta canção pareceu-nos de boa promessa.
A quinze dias de marcha de Inyati começámos a atravessar uma região arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas de matto que os indigenas chamam _idaro_: e por toda a parte se estendiam bosques de _machabelas_, arvores que dão um fructo amarello, enorme, quasi todo caroço, mas deliciosamente fresco e dôce. As folhas e fructos d'estas arvores são o alimento querido dos elephantes; e decerto os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo, vai assolando.
Uma tarde, depois d'uma caminhada fatigante, chegámos a um sitio particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro todo vestido d'arvoredo. Ao pé serpeava o leito sêcco d'um rio, conservando ainda aqui e além poças de agua crystallina e fria, espesinhadas em redor pelas largas pégadas de feras. Em frente verdejava um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e cheias de flôr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso, impenetravel.
Decidimos ficar alli e construir um _scherm_, a pouca distancia d'uma das poças d'agua. O _scherm_ é uma especie de acampamento entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso e armando-o circularmente n'uma vasta e rude sebe que fórma defeza. Todo o espaço interior se aplaina como uma arena: ao centro amontôa-se herva sêcca, um capim chamado _tambouki_, que serve de divan e de cama; aqui e além, em volta, accendem-se alegres fogueiras.
Quando acabámos de arranjar o _scherm_--vinha nascendo a lua. O jantar estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d'uma girafa, que n'essa tarde, ao fim da sésta, fôra morta pelo capitão John com um tiro providencial. Mas depois de coração de elephante (a mais fina delicia que se póde ter), tutano e lombo de girafa são os petiscos superiores d'Africa, e grandemente os saboreámos sob o esplendor da lua cheia, que ia alta nos céos. Depois accendemos os cachimbos, e conversámos no vasto silencio em roda do lume.
Os meus companheiros não se fartavam de contemplar aquella scena de sertão, familiar para mim, com os meus quarenta annos d'Africa, mas que a elles só offerecia estranhezas--até na maneira por que as claridades alumiam, até na maneira por que a noite é silenciosa. Eu por mim, confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capitão John. Alli estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em cima d'um sacco de couro,--tão apurado, tão correcto, tão bem pregado, como se viesse de passear n'um parque luxuoso de castello inglez, em dia de caça ao faisão. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com chapéo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de pelle de cão, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postiços rebrilhando em gloria! Nunca o sertão africano vira decerto um homem mais catita. Até trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha), de que emmalára na mochila uma escandalosa porção--«por serem leves (dizia elle), faceis de lavar, e dar logo á gente um ar de asseio e distincção».
Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e observando os Cafres, que chupavam a _dacca_ nos seus longos cachimbos feitos de cornos de _eland_, e que, um por um, se iam enrolando nas mantas e estirando á beira do lume. Só Umbopa por fim ficou acordado, longe dos Cafres (a quem geralmente não admittia familiaridades), com o queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n'uma d'aquellas abstracções em que por vezes eu o surprehendera desde o começo da nossa jornada.
De repente, da profundidade do matto, por traz de nós, subiu no ar um longo e rouco rugido. «É um leão!» exclamei. Todos nos erguemos, a escutar. Quasi immediatamente, junto á poça d'agua pura, visinha do nosso _scherm_, resoou como em resposta a estridente trompa d'um elephante. «_Unkungunlovo_! _Unkungunlovo_!»[1], murmuram á uma os Cafres, levantando as cabeças das mantas:--e momentos depois avistámos uma fila de enormes e escuras fórmas, movendo-se devagar da beira da agua para o matto. O capitão, com um salto, agarrára a espingarda. Tive de o segurar pelo braço:
--É inutil, não se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir.
--Em todo o caso, disse o barão excitado, este sitio para um caçador é um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?...
Estranhei: porque até ahi o barão, impaciente, viera-nos sempre apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera alli o carrão em que viera de Bamanguato e se internára no sertão com um Cafre por serviçal. Mas ouvira o leão, ouvira o elephante--e os seus instinctos de caçador dominavam, irresistivelmente.
--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado de divertimento, ter-se-ha; mas ámanhã. Por agora é tratar de dormir, e erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes que elle vá aos seus negocios. Toca pois a accommodar.
O capitão John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o monoculo e os dentes postiços dentro do bolso das calças, dobrou tudo cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu _makintosh_, alisou o cabello, tomou um bochecho d'agua, e estirou-se de lado para dormir, com correcção e conforto. O barão e eu, depois de contemplar, rindo, estes requintes, embrulhámo-nos simplesmente n'um cobertor:--e d'ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo, absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que é a recompensa e a consolação de quem moureja por estas terras negras.
Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a pé, preparando para a acção. Tomámos as carabinas, munições abundantes, cantis cheios de chá frio (que é a melhor bebida, a unica, quando se caça), e partimos, depois de engolir de pé um almoço breve, acompanhados de Umbopa, de Khiva e de Venvogel.
Não tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastára-se durante a noite; e eram quasi nove horas, já o calor ardia em céo e terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d'arvores esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos andavam cerca--e seguros. D'ahi a instantes, effectivamente, avistámos o rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculára), parados n'uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro repasto, e sacudindo com lentidão e magestade as suas immensas orelhas. Era uma vista soberba! Só as ha assim na Africa!
Estavamos separados d'elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de capim e atirei-o ao ar para tomar a direcção do vento:--porque se um elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pôr as carabinas á cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria, soprava para nós do lado dos bichos: de sorte que rastejámos cuidadosamente através do matto, mudos, sem respirar, até nos aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de nós, e de ilharga para nós, estacionavam tres magnificos elephantes machos, um d'elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei, baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o barão apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capitão ao «Patriarcha».
--Agora! murmurei.
Bum! bum! bum! O elephante do barão tombou redondo, varado no coração. O meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. Á pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e findei-lhe misericordiosamente a agonia.
Voltei-me então para vêr o que se passára com o elephante do capitão, o «Patriarcha», que eu ouvira por traz de mim bramando de dôr e furia. Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido, rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um salto), e seguira, furioso e sem vêr, para a banda do nosso acampamento. O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado, através da espessura.
Durante um momento ficámos indecisos entre seguir o «Patriarcha» ferido ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de primavera. Achal-os, porém, era mais complicado: e tivemos, durante duas infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os avistarmos. Lá estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos machos): e pela inquietação com que se mexiam, pelo constante erguer das trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam outro ataque. Um dos machos afastado, á laia de sentinella, vigiava para o nosso lado, de tromba ameaçadora e alta. Entre elle e nós mediavam umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontámos, todos tres lhe atirámos. Bum! bum! bum! Morto! Mas os outros partiram, n'uma desfilada, como collinas rolando.