# As Minas de Salomão

## Part 15

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Na madrugada seguinte partimos de Lú acompanhados por Infandós e pelo regimento dos _Pardos_. Apesar de tão cedo, as ruas estavam apinhadas de gente que nos lançava a saudação _Krum_, e nos desejava boa jornada! As mulheres atiravam-nos flôres ao passar. Todos os _tam-tams_ resoavam. Era como uma grande ceremonia real.

Pelo caminho Infandós foi-nos explicando que havia, com effeito, uma passagem nas montanhas mais fácil do que aquella por onde vieramos--ou antes, que era possivel descer por aquella alta escarpa, que separa os dois «seios de Sabá» como um muro separa duas torres. Havia um anno, um bando de caçadores Kakuanas, indo ao deserto á procura do abestruz, tinham achado e seguido este caminho. Ao fim d'elle encontraram o deserto; e ao fundo, no horisonte, avistaram massiços de arvores. Levados pela sêde caminharam para lá, e acharam um largo e fertil oasis, cheio de fructa, de caça e d'agua. E d'ahi, diziam os caçadores, podiam-se distinguir no horisonte outros logares ferteis, formando como uma continuação de oasis. D'este modo era talvez possivel diminuir os horrores d'uma nova travessia no deserto.

Ao fim de quatro dias de marcha chegámos com effeito ao alto da escarpa--d'onde avistavamos, por leguas e leguas, outra vez, o medonho deserto amarello em que tanto soffreramos. Foi de madrugada que começámos a descida--e foi então que nos separámos do nosso amigo Infandós.

O excellente homem quasi chorou de mágoa.

--Nunca os meus olhos, exclamava elle, verão homens como vós. Aquelle golpe de machado, Incubú! Que belleza! Sois os fortes dos fortes! E o meu coração fica cheio da vossa lembrança. Adeus!

Tivemos realmente saudade do velho Infandós; e John, como lembrança, deu-lhe--adivinhem o quê?--_um monoculo_! Tinha um de sobresalente, e presenteou com elle o heroico e leal selvagem! Infandós, enthusiasmado, procurou logo entalal-o no olho, certo de que essa _pupilla resplandecente_ augmentaria o seu prestigio entre as tropas. E foi esta a derradeira impressão que me ficou dos nossos amigos da Kakuania--um velho guerreiro, nú, com uma pelle de leopardo ao hombro, grandes plumas negras na cabeça, franzindo a face, de _monoculo no olho_!

D'ahi a pouco, tendo apertado affectuosamente a mão a esse honrado Infandós, começavamos a nossa descida pela escarpa que liga os «seios de Sabá», entre as trovejantes acclamações do regimento dos _Pardos_.

Fizemos essa descida em doze horas. Á noite estavamos acampados á orla do deserto, conversando em torno das fogueiras ácerca d'esses dois estranhos mezes que passaramos entre os Kakuanas!...

--Ha sitios peores para se viver, dizia o barão.

--Quasi desejava ter lá ficado, accrescentava John, com saudade.

Eu não dizia nada. Tinhamos lá passado temerosos momentos. Mas por vezes a vida fôra dôce. E no alforge traziamos um saco de diamantes!

Na madrugada seguinte encetámos a marcha para esse oasis que os nossos guias conheciam. Trilhámos tres dias o deserto--mas sem desconsolo, graças ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e que nos permittia levar provisões fartas e agua farta. Pelo começo da tarde do terceiro dia avistámos um bosque--e o nosso jantar já foi regaladamente servido debaixo de copadas arvores, e junto de frescas aguas correntes.

CAPITULO XVII

EMFIM!

E agora resta-me contar a maior maravilha d'esta maravilhosa jornada. Tão estranho, quasi inverosimil é, que, para não lhe augmentar o ar de romance que ella já de per si tem, preciso narral-a com a maxima brevidade e maxima simplicidade.

Foi isto. Na manhã seguinte, no oasis, andava eu passeando ao comprido d'uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, n'um frondoso outeiro á sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente--vejo uma confortavel cabana, construida á maneira cafre, mas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo. E quando eu estava pasmando para esta casota humana perdida n'um oasis do deserto, eis que a porta se abre, e apparece, coxeando, encostado a um pau, todo vestido de pelles, e com uma immensa barba até á cintura, um _homem branco_!

Ficámos a olhar esgazeadamente um para o outro. Justamente n'esse momento o barão e John appareceram. O homem crava os olhos em nós, com um ar quasi afflicto. De repente larga a correr, como um côxo póde correr, aos tropeções. Esbarra, rola no chão. O barão acode. Ergue o homem. E grita:

--Santo Deus! _é meu irmão Jorge_!

Quasi tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado pelos moldes do theatro antigo. Mas foi assim.

E ainda mais! Ao alvoroço do barão, ás exclamações que seguiram, outro homem sahiu da cabana, tambem vestido de pelles, com uma espingarda na mão. Ao dar com os olhos em mim larga a arma, leva as mãos á carapinha:

--Oh Macumazan! Oh Macumazan!... Não me conheces? Sou Jim. Sou Jim! Aquelle papel que tu me déste para o patrão perdi-o... Estamos aqui ha dois annos.

E o pobre Jim rojava-se no chão diante de mim, chorando e rindo, n'uma alegria furiosa.

Com effeito, havia dois annos que o irmão do barão e o seu servo Jim viviam n'aquelle oasis. Foi no nosso acampamento n'essa tarde que Jorge Curtis nos contou lentamente toda a sua historia. Dois annos antes partira da aringa de Sitanda, como nós, para atravessar o deserto, e procurar as minas de diamantes para além das montanhas. Por informação porém, que lhe deram uns caçadores de abestruzes que felizmente encontrára, tomou um caminho diverso, e bem melhor do que aquelle que seguira outr'ora o velho D. José da Silveira, e que nós seguiramos guiados pelo seu roteiro. Esse caminho era através do deserto, mas entremeado de oasis. Assim tinha chegado a este, o maior de todos, e estava junto das Montanhas de Salomão, quando lhe aconteceu uma grande desgraça. No dia mesmo em que aqui parára, estava sentado junto do rio, por baixo d'umas penedias, onde Jim, o servo, andava procurando o mel d'abelhas mansas. De repente, a um esforço qualquer que Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cahir sobre uma perna do pobre Jorge, esmigalhando-lh'a horrivelmente! Desde esse dia não pôde mais andar. E muito naturalmente preferiu ficar alli no oasis, onde tinha agua, caça e fructa--do que tentar atravessar de novo o deserto, onde inevitavelmente morreria.

E alli ficou dois annos, como um Robinson Crusoe. Havia justamente dias que decidira mandar Jim para traz, á aringa de Sitanda, a buscar soccorro. Mas quasi tinha a certeza que Jim não voltaria...

--E sois vós agora, que appareceis de repente. Justamente tu, irmão! E tu, meu bom John!... E o snr. Quartelmar, muito bem me lembro de o ter encontrado em Bamanguavo! É extraordinario! E foi tudo a misericordia de Deus!

N'essa noite tambem lhe contámos as nossas aventuras. Quando eu lhe mostrei um punhado de diamantes, o homem empallideceu de espanto:

--Santo Deus! Ao menos o que soffrestes não foi em vão! Emquanto que eu!...

Esta triste exclamação tornou-me pensativo. E desde logo decidi partilhar com elle um lote d'aquellas pedras, que a elle tinham trazido uma tão longa desgraça.

* * * * *

E aqui acaba esta historia. A nossa travessia do deserto foi extremamente trabalhosa. Não soffremos tanto da sêde, porque, segundo o novo roteiro indicado pelos caçadores de abestruzes, encontrámos a espaços pequenos e frescos oasis. Mas o pobre Jorge Curtis, que mal podia ainda usar a perna, necessitava constante amparo--e, por assim dizer, tivemos de o transportar através do deserto. Emfim attingimos a aringa de Sitanda, onde o velho sacripante, a quem deixaramos as nossas armas e bagagens, ficou indignado de nos vêr voltar, vivos e sãos, para as reclamar. E seis mezes depois estavamos jantando confortavelmente aqui, na minha casa em Durban, á sombra das laranjeiras.

* * * * *

Quando eu acabava justamente de escrever esta ultima pagina das nossas aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornaes na mão. É o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do barão, que eu transcrevo, porque dá exactamente a conclusão da minha historia:

«Solar de Braley--Yorkshire.

Meu caro Quartelmar.

Só algumas breves linhas para lhe dizer que meu irmão Jorge, John e eu, chegámos a Inglaterra todos tres perfeitamente. Apenas deixámos o paquete, em Southampton, partimos logo para Londres pelo primeiro trem. Não imagina o Quartelmar que elegante nos appareceu logo na manhã seguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito, coitado, na pobre Fulata.

E agora emquanto a negocios. Levámos os diamantes aos melhores joalheiros de Londres, aos Streeter. Quasi tenho vergonha de dizer em quanto elles os avaluaram. É uma somma descommunal. Está claro que elles não podem dizer com exactidão, porque nunca appareceram no mercado pedras d'este tamanho em tal quantidade. Emquanto a compral-os elles, está fóra de questão. Apesar de ser uma forte casa, não poderia nunca reunir semelhantes sommas. Aconselharam-me que os vendesse, em pequenos lotes, a differentes joalheiros, e devagar para não inundar o mercado. Um d'esses lotes, o que o Quartelmar tão generosamente reservou para meu irmão, estão elles todavia resolvidos a comprar por cento e oitenta mil libras.

O que o Quartelmar deve fazer, agora que está tão rico, é vir para Inglaterra, e comprar uma propriedade ao pé da minha. O melhor seria vir immediatamente para passar commigo este natal. Tenho cá por essa occasião o nosso John. A respeito de seu filho Henrique posso dizer que está bom. Esteve aqui uns dias commigo a caçar. Gosto d'elle. Pregou-me uma carga de chumbo n'uma perna, extrahiu elle proprio os chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver sempre em todas as partidas de caça um estudante de medicina.

Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu

_Henrique Curtis_.»

* * * * *

Hoje é sabbado. Ha um paquete para Inglaterra além de ámanhã. Creio, na realidade, que vou partir n'elle... Já tenho saudades do meu rapaz. E depois quero vigiar eu proprio a publicação d'estas memorias.

INDICE

Introducção Capitulo I--Encontro com os meus camaradas Capitulo II--Primeira noticia das minas de Salomão Capitulo III--O homem chamado Umbopa Capitulo IV--Os elephantes Capitulo V--A nossa entrada ao deserto Capitulo VI--Penetramos no reino dos Kakuanas Capitulo VII--O rei Tuala Capitulo VIII--A grande dança Capitulo IX--Antes da batalha Capitulo X--O ataque da collina Capitulo XI--A batalha de Lú Capitulo XII--O rei Ignosi Capitulo XIII--A grande caverna Capitulo XIV--O thesouro de Salomão Capitulo XV--Nas entranhas da terra Capitulo XVI--A partida de Lú Capitulo XVII--Emfim!

Notas:

[1] Elephante! Elephante!

[2] Este cruel costume é commum a muitas tribus de Africa, por occasião de guerra.

