# As Minas de Salomão

## Part 12

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O sol ia justamente descendo. Eu baixei-me para a cabeça de Tuala que alli ficára n'uma poça de sangue, e, desapartando o grande diamante que lhe ornava a testa, entreguei-o solemnemente a Ignosi e bradei:

--Salvè, rei dos Kakuanas!

Elle apertou o diamante sobre a testa. Depois pousou um pé sobre o peito de Tuala morto, e cercado dos seus guerreiros entoou um canto de victoria.

CAPITULO XII

O REI IGNOSI

Tudo findára gloriosamente. Chegára a hora de repousar--ou, melhor, de convalescer. O barão e o capitão (cuja perna, de todo inchada, o fazia agora soffrer muito) foram levados em braços para a aringa palacial de Tuala. E eu para lá me arrastei, exhausto de emoções, com a cabeça consideravelmente dorida da paulada d'essa manhã na defeza do planalto.

O primeiro cuidado foi despir as cótas de malha, tarefa difficil (pelo nosso combalido estado) em que nos ajudou a linda Fulata, que se constituira, desde o começo da revolta, nossa vivandeira, nossa enfermeira, e nosso anjo da guarda. Arrancadas as cótas, vimos que os nossos pobres corpos eram uma massa medonha de pisaduras negras. No tumulto da batalha tinhamos apanhado decerto muita facada, muita lançada. As pontas dos ferros eram repellidas pela malha impenetravel; mas nem por isso cada um dos golpes arremessados deixava de constituir uma terrivel pontuada que nos amolgava corpo e membros. Eu estava positivamente negro de pisaduras. Mas o peor era a ferida de John na perna, e a do barão a quem uma das machadadas de Tuala cortára profundamente a face sobre a maxilla. Fulata preparou-nos uns emplastros de hervas aromaticas que nos alliviaram as dôres. E como o capitão John tinha noções e pratica de cirurgia (segundo contei), foi elle que fez o tratamento da ferida do barão e da sua propria, tão bem quanto lh'o permittiam os poucos fios, o resto de pomada antiseptica que encontrou na sua botica portatil, e a escassa luz da lampada kakuana.

Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos nas magnificas pelles que juncavam o chão da aringa do rei. Mas não pudémos dormir. De toda a cidade, em torno de nós, subia a triste e ululada lamentação das mulheres, chorando, á maneira dos Zulús, os valentes mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as carpideiras reaes estavam carpindo a morte de Tuala com estridente dôr. A noite ia cheia de prantos--e além d'isso a cada instante sentiamos os gritos agudos das sentinellas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi só de madrugada que pude cerrar os olhos--os olhos que, apesar de cerrados, continuavam a vêr os lances da batalha, com tanta realidade que por vezes estremecia em sobresalto e me erguia no cotovêlo a procurar as minhas armas, ou a lançar uma ordem de ataque.

Quando emfim acordei, com o sol já alto, soube que os meus dois amigos tambem não tinham dormido. De facto, o capitão John estava com uma intensa febre e começava a delirar. Além d'isso, symptoma assustador, toda a noite cuspira sangue. O barão, esse, mal podia ainda mexer o corpo; e a ferida da face não lhe permittia comer, escassamente fallar. Eu era ainda assim o mais restabelecido. Tomei o delicioso caldo de Fulata, e sahi um instante ao terreiro a respirar. Encontrei justamente Infandós que chegava, tão fresco e agil como se na vespera, em logar de uma batalha, tivesse celebrado uma festa. Ficou desolado ao saber a doença de John. Entrou um momento na cubata para o vêr e o barão, que não se podia ainda levantar e apenas mover os membros sobre o seu fôfo leito de pelles. Em voz baixa, por causa de John, Infandós contou-nos que todos os regimentos se tinham submettido a Ignosi, que das outras cidades chegavam ferventes adhesões, e que o novo reinado se firmava para longas éras de prosperidade e de paz.

Quando elle se retirava, appareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. Não pude deixar, ao vêl-o, de pensar nas estranhas revoluções da sorte! Aquelle moço, que havia mezes, na minha casa em Durban, me pedia para entrar ao meu serviço--eil-o agora rei, grande Potentado d'Africa, commandando cincoenta mil guerreiros, senhor de povos, de rebanhos e de terras sem conta!

--Salvè, rei! exclamei eu, erguendo-me com respeito.

--Graças a ti, Macumazan, e aos teus amigos! exclamou elle, apertando-me as mãos com carinho.

Entrou tambem, como Infandós, na cubata para vêr o barão e o pobre John, que dormia um somno de febre, horrivelmente agitado, sob os olhos compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sahimos de novo ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava elle fazer de Gagula.

--Gagula é o genio mau d'esta terra, disse elle. Conto mandal-a matar para findar com ella, que já é velha de mais!

--Mas tem segredos! Mas sabe muito! repliquei eu.

--Sabe sobretudo o segredo dos _Silenciosos_, volveu o rei pousando os olhos em mim com amizade, e o da caverna onde os reis estão enterrados, e o do logar dos diamantes. Ora eu não esqueço a promessa que te fiz, Macumazan. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados por Gagula: e só por isso a poupo.

--Está bem, Ignosi, registro as tuas palavras.

Mas não foi possivel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque através de toda ella a vida do nosso pobre John esteve em risco e os nossos corações em anciedade. Realmente creio que teria morrido, se não fossem os desvelos, a adoravel dedicação de Fulata. Dias amargos esses para nós! O barão, já então restabelecido, e eu, nada mais fizemos durante essa crise atroz, do que entrar, sahir, rondar em pontas de pés a senzala onde elle delirava. Remedios não tinhamos para lhe dar, além d'uma bebida refrescante feita por Fulata com leite e o succo extrahido da raiz d'uma especie de tulipa. Só podiamos contar com a forte natureza d'elle e a boa mercê de Deus.

Em toda a aringa real havia um grande silencio, porque Ignosi, para manter perfeito socego em torno ao doente, ordenára que todos os que lá viviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente ao lado d'elle, sentada no chão, dando-lhe a bebida refrescante, arranjando-lhe as travesseiras feitas das folhas sêccas d'uma planta que faz dormir, enxotando-lhe as moscas do rosto.

No nono dia da doença, á noite, antes de recolher, o barão e eu entramos, segundo o costume, na senzala. A lampada collocada no escabello dava uma luz funebre. Não havia um rumor. E o meu pobre amigo jazia perfeitamente immovel. Pensei que chegára o seu fim, tive um soluço que me suffocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou _chut_!

E, mais de perto, descobrimos que o nosso amigo não estava morto, mas tranquillamente adormecido, sob a caricia das mãos de Fulata, que lhe cobriam a testa, onde um suor fresco começava. Era a crise do nono dia, o somno reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito horas. E (mal me atrevo a contal-o, porque não serei acreditado) Fulata, a admiravel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou tambem assim, com as mãos pousadas sobre a testa d'elle, sem comer, sem se erguer, sem se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse o seu doente. Quando elle afinal despertou--tivemos de a erguer em braços, porque a heroica enfermeira estava quasi desmaiada de debilidade e fadiga.

A convalescença de John foi rapida. Ao fim d'outra semana, já passeava pelos arredores da cidade, entre os pomares, á beira do rio, acompanhado por Fulata, que o salvára, e a quem elle votára (segundo dizia) um «reconhecimento eterno». Mas eu não agourava bem d'aquelle «reconhecimento», d'aquelles passeios bucolicos... Nos olhos de Fulata havia muita meiguice, muita languidez. E John como marinheiro, era indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, iamos ter, mais perigosa ainda, alguma aventura d'amor!

Apenas John se considerou a si proprio escorreito e «prompto para outra»--Ignosi começou as festas da sua proclamação. Todos os «Indunas» (chefes supremos) das provincias do reino vieram a Lú prestar vassallagem. Houve revistas de tropas, danças, formidaveis banquetes. Os homens que restavam do regimento dos _Pardos_ foram todos doados com terras e rebanhos, e promovidos a officiaes. Ignosi promulgou na Grande Assembléa que d'ora em diante não haveria mais _caça aos feiticeiros_, nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, emquanto nós residissemos no seu reino, gozassemos de honras reaes, e recebessemos sempre, como elle, a saudação de _Krum_!

No ultimo dia d'este grande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao rei, em grupo, e declaramos-lhe que o momento chegára, de realisar a sua promessa, e de nos mandar conduzir ao logar onde deviam estar as pedras brancas que reluzem.

Ignosi abraçou-nos com grande affecto.

--Não me esqueci, amigos! Já indaguei a verdade, e eis o que sei. Aquella estrada branca que trilhámos acaba além junto das montanhas chamadas as _Tres Feiticeiras_, onde estão as figuras de pedra, os _Silenciosos_. Jaz ahi uma grande cova, d'onde se diz que homens muito antigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para além d'essa cova ha uma funda caverna na rocha, terrivel, maravilhosa, onde vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala já foi conduzido. E por traz d'essa caverna fica uma camara secreta de que só Gagula conhece o segredo. Corre tambem a historia de que, ha muitas gerações, um branco veio aqui, e foi conduzido por uma mulher a essa camara secreta, onde viu riquezas sem conto, mas d'essas que para os Kakuanas nada valem: o branco porém não teve tempo de arrecadar essas riquezas, porque a mulher o trahiu, e o rei d'esses tempos o escorraçou outra vez para além das montanhas...

--A historia é verdadeira, acudi eu. Não te lembras, Ignosi, que nas montanhas, na caverna de gelo, encontramos nós, petrificado, esse homem branco?

--Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula, e ordenar-lhe, sob pena de morrer, que vos leve á camara secreta, meus amigos... E as riquezas que encontrardes, oh meus amigos, são vossas!

N'esse instante dois guardas appareceram, trazendo agarrada pelos braços a hedionda Gagula; que gania e os amaldiçoava. Mal a largaram, toda ella se abateu e achatou sobre o chão--como um montão de trapos onde dois olhos ferozes viviam e refulgiam.

--Que me queres tu, Ignosi? uivou ella. Não me toques, que te destruo. Treme das minhas artes!

O rei encolheu os hombros.

--As tuas artes não salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes? Aqui está o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a camara secreta onde estão as pedras que reluzem.

--Só eu o sei, e nunca o direi! bradou ella. Os brancos malditos voltarão, levando vasias as mãos malditas!

--Bem, volveu tranquillamente o rei. Então, Gagula, vaes morrer lentamente.

--Morrer! gritou ella, cheia de terror e de furia. Tu não te atreverás, Ignosi! Ninguem me póde matar. Que idade pensas tu que eu tenho? O teu pae conheceu-me; e o pae do teu pae; e o pae que gerou a esse. Ninguem ousará tocar-me, porque sobre esse cahirão as desgraças sem fim.

Em silencio, tranquillamente, Ignosi baixou sobre ella a ponta da sua azagaia:

--Dizes?

--Não!

Ignosi baixou mais o ferro, picou de leve o montão de trapos onde reluziam os dois olhos ferozes.

Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa poz-se em pé, de salto. Depois tornou a cahir, e rolou no chão esperneando.

De novo a lança de Ignosi a procurava:

--Dizes?

--Digo, digo, oh rei! ganiu ella. Mas deixa-me viver, e sentar-me ao sol, e respirar o ar dôce, e ter um osso para chupar!...

--Bem; ámanhã irás com meu tio Infandós e com os meus irmãos brancos a esse logar, mostrarás a camara secreta e o escondrijo das pedras que reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver traição, morrerás devagar, e em tormentos.

--Não, Ignosi! Irei com elles, e tudo mostrarei. Mas a desgraça vem a quem penetra n'esse logar. Outr'ora veio um homem, encheu um saco d'essas pedras brilhantes, e uma grande desgraça cahiu sobre elle! E foi uma mulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez fosse minha mãe! Ou a mãe de minha mãe! Quem sabe? Será uma alegre jornada... Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde! Vereis ao passar os que morreram na batalha, com os olhos vasios, as costellas ôcas. A morte vive lá, e está á espera. Será uma alegre jornada!

CAPITULO XIII

A GRANDE CAVERNA

Tres dias depois, ao escurecer, estavamos acampados n'um casebre desmantelado, em frente das _Tres Feiticeiras_, as tres montanhas que tantas vezes de longe avistaramos, desde a nossa chegada a Lú, e onde deviam jazer, segundo a tradição dos Kakuanas e o roteiro do velho D. José da Silveira, as minas das pedras que reluzem--as Minas de Salomão! Tinhamos partido de Lú doze dias antes, acompanhados por Infandós, por Fulata (que não deixára mais o «seu doente», o bom John), por Gagula que vinha n'uma liteira, e por uma forte escolta de serviçaes e soldados. E foi só no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquelle estranho sitio, tão cheio de terror para os Kakuanas e para nós de maravilhosas promessas.

Nunca eu esquecerei o momento em que, sahindo a porta das cubatas, na primeira e fresca luz da manhã, vimos os tres montes isolados, em triangulo, um á nossa direita, outro á nossa esquerda, o terceiro ao fundo, em face de nós, erguendo magnificamente ao céo os seus cimos resplandecentes de neve. Um tojo em flôr, d'um escarlate ardente, cobria as poderosas fraldas dos tres montes--e seguia ainda, como um tapete igual e continuo, pelos grandes descampados que os cercavam. A fita branca da estrada de Salomão cortava a direito até á _Feiticeira_ central, a que formava a ponta do triangulo, onde findava brusca e mysteriosamente. Ahi, junto d'esse monte, estavam as fabulosas minas, que tinham sido o fim de tantos miseros destinos, o do velho fidalgo portuguez, o do seu descendente, e decerto o d'aquelle que nós vinhamos procurando desde o sul e por quem correramos tanto perigo e tanta aventura! Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula) encontrará desillusão e desastre. Seria essa a nossa sorte? Nós chegavamos sob a protecção do rei, cercados de serviçaes e de guardas... E apesar d'isso sentiamos pesar-nos sobre o coração, tristemente, a prophecia da horrenda mulher.

No emtanto, quando nos puzemos a caminho, era tão viva a anciedade de chegar e de vêr, que os carregadores da liteira de Gagula mal podiam acompanhar a nossa carreira. A cada instante a velha bruxa gritava, estendendo para nós, por entre os pannos da liteira, os braços descarnados, as mãos em garra:

--Não vos apresseis, homens brancos! A morte está á vossa espera e não foge! Para que vos esfalfar, correndo para ella? Certa e segura a tendes!

Dava então uma risadinha que nos arripiava. Insensivelmente abrandavamos o passo... Depois bem cedo o estugavamos de novo sob o impulso irresistivel da curiosidade e da esperança!

Gastaramos assim hora e meia, trilhando a estrada de Salomão, e tendo já deixado á nossa direita e á nossa esquerda as duas _Feiticeiras_ que formam a base do triangulo--quando chegamos junto d'uma immensa cova circular, em funil, offerecendo talvez trezentos pés de profundidade e meia milha de circumferencia. Entre a herva e tojo, que interiormente a forravam, surgiam grandes pedaços de greda azulada: quasi ao fundo corria um canal para agua, talhado na rocha viva; e abaixo do nivel d'essa obra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e gastas pelo tempo. A cova, as mesas, a disposição do canal, a natureza da greda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no sul, nas minas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos:--e para mim ficou certo que alli houvera, em tempos, fossem nos de Salomão, fossem n'outros mais recentes, uma mina de diamantes.

A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a circumdavam; e a espaços, esta via circular era feita de enormes lages de pedra, com o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e impedir que se esboroassem. Mas o que mais nos surprehendia era, do outro lado da vasta cova, um grupo de tres objectos, que se destacavam como tres pequenas torres ou tres marcos colossaes. A curiosidade quasi nos fez correr, deixando atraz Gagula e Infandós; e bem depressa percebemos que o grupo era formado por tres immensas estatuas. Conjecturamos logo que deviam ser os _Silenciosos_, esses idolos, tão temidos pelos Kakuanas, e a quem offereciam os sacrificios sangrentos. Mas só ao chegar junto d'elles pudémos apreciar a estranha e terrivel magestade d'essas vetustas figuras.

Separadas por uma distancia de vinte passos, erguidas sobre immensos pedestaes de pedra negra onde corriam caracteres desconhecidos, e olhando a direito para a estrada de Salomão que através de sessenta milhas de planicie seguia até Lú--enchiam um grande espaço as tres gigantescas fórmas, duas de homem, uma de mulher, todas tres sentadas, medindo talvez cada uma a altura de vinte pés.

A figura de mulher, toda núa, com dois cornos, como os de um crescente de lua, sobre a testa, era de uma maravilhosa belleza--infelizmente estragada pelas injurias do tempo durante longos seculos. As duas figuras de homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens, pareciam mais bem conservadas. Um d'elles tinha uma face medonha, feita para inspirar terror, como a de um demonio malefico; mas a do outro parecia talvez mais assustadora ainda, na sua fria expressão de dura indifferença, de uma indifferença de rocha, que nenhuma prece póde abrandar, ou nenhum soffrimento apiedar. Todos tres juntos formavam na realidade uma Trindade pavorosa, assim sentados, immoveis, com os olhos vaga e perpetuamente estendidos para a planicie sem fim. Que imagens seriam estas? Deuses? Demonios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por mim, das minhas reminiscencias da Biblia, colligia que deviam ser talvez os falsos Deuses que adorou Salomão--«Asthoreth deusa dos Sidonios, Chemosh deus dos Moabitas, e Milcolm deus dos filhos de Amnon». Assim diz o Livro Santo.

--Que lhe parece, barão?

--Talvez, concordou o nosso amigo que recebera grau em Litteraturas classicas. A Asthoreth, de que fallam os Hebreus, é a Astarté dos Phenicios, os grandes commerciantes do tempo de Salomão. De Astarté fizeram os Gregos a sua Aphrodite, que se representava com o crescente da meia lua na cabeça... Se Salomão tinha aqui as suas minas, era natural que fossem dirigidas por engenheiros phenicios. De sorte que provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina, a estatua da sua Deusa. Quem póde saber?

Quando estavamos assim contemplando estas extraordinarias reliquias de uma remota antiguidade, Infandós, que caminhára sem se apressar, chegou junto de nós, e saudou reverentemente com a lança os _Silenciosos_. Vinha saber se queriamos penetrar immediatamente na caverna, ou tomar primeiro a refeição da manhã. Como não eram ainda onze horas, e a nossa curiosidade flammejava, decidimos desvendar logo os mysterios, levando comnosco provisões para se lá dentro a fome excitada pelas emoções nos assaltasse. Infandós fez então signal aos carregadores para que se acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um cesto, para levarmos, uma porção de caça fria e duas cabaças d'agua. Nós entretanto deramos uma volta em torno ás tres figuras de pedra. Por traz d'ellas, a uns cincoenta passos, erguia-se aquella das _Feiticeiras_ que formava o bico do triangulo; na sua base, como incrustada n'ella, corria uma muralha de pedra: e ahi, ao centro, podiamos distinguir um arco escuro, como a entrada de uma galeria subterranea. Esperamos que os carregadores tirassem Gagula da liteira. Apenas no chão, a horrenda creatura agarrou o cajado, e dobrada em duas, com passos tremulos e vivos, largou em silencio para o arco escuro. Nós seguimos, calados, tambem.

Á entrada, o monstro parou, voltado para nós, com um riso livido na caveira.

--Homens das estrellas, estaes decididos? Quereis realmente penetrar na cova onde as pedras reluzem?

--Estamos promptos, Gagula, disse eu, alegremente.

--Bem, bem! Entrai! E pedi força aos corações para affrontar as coisas que ides vêr! E tu, Infandós, que trahiste teu amo, vens tu tambem?

O velho guerreiro franziu terrivelmente o sobr'olho:

--Não me compete a mim entrar nos sitios sagrados. Mas tu, Gagula, tem cautela, e treme! Os homens que vão comtigo são os amigos do rei! Por elles me respondes tu. E se tanto como a perda de um só cabello lhes succeder em mal, nem todos os teus feitiços te livrarão de morrer em tormentos. Comprehendeste?

--Comprehendi, comprehendi, Infandós! ganiu ella, com um risinho gelado e lento. Não receies! Eu vivo só para fazer a vontade do rei. Tenho feito a vontade de muitos reis, em muitas gerações! E os reis findaram sempre por cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram... E eu aqui estou, para os ir visitar agora no palacio da morte, e para lhes fallar dos tempos que foram! Vinde, vinde! A lampada está accesa!

Tinha tirado debaixo do manto de pelles que a cobria uma cabaça cheia de oleo com uma grossa torcida de vime:--e a luz que ella aproximou do arco negro pareceu desmaiar e tremer.

--Vens tu tambem, Fulata? exclamou John, volvendo os olhos em redor, inquieto.

--Tenho medo, meu senhor, murmurou a rapariga.

--Bem. Então dá cá o cesto!

--Não, meu senhor, para onde fôrdes, vou eu tambem!

--Bem! pensei eu commigo, ahi levamos tambem o trambolho da rapariga para dentro da mina!

No emtanto Gagula mergulhára na galeria, que dava apenas logar para dois caminharem de frente. As trevas eram absolutas. Azas de morcegos batiam-nos nas faces. E seguiamos menos a luz bruxuleante da lampada, que a voz de Gagula, que repetia n'um tom lugubre:

--Avançai, avançai! A morte está perto!

De repente distinguimos uma vaga claridade. E momentos depois paravamos no mais maravilhoso sitio que olhos humanos têm contemplado.

A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma immensa cathedral, uma cathedral de sonho ou de lenda, sem janellas, alumiada por uma luz diffusa e mysteriosa que parecia cahir das alturas da abobada. Ao comprido d'esta vasta nave, como na nave de um verdadeiro templo, corriam renques de gigantescas columnas, d'uma côr algida de gêlo e de magnifica belleza. Alguns d'estes nobres pilares estavam, por assim dizer, interrompidos no meio--um pedaço erguendo-se do sólo, como a columna quebrada de uma ruina grega, outro pedaço pendente da remota abobada. Aos lados da nave abriam-se, com dimensões diversas, cavernas á semelhança de capellas, tendo tambem as suas filas de columnas, algumas tão pequeninas e finas como feitas para um brinquedo de creança. Aqui e além havia construcções estranhas, da mesma substancia algida que parecia gêlo--uma da fórma de uma vasta taça, outra offerecendo a vaga apparencia d'um pulpito com lavores pendentes. Um ar de indescriptivel frescura circulava dentro da vasta nave:--e por toda a parte sentiamos, na penumbra, o ruido lento de gottas de agua cahindo.

Não tardamos em perceber que estavamos simplesmente n'uma caverna de stalactites, de inigualavel belleza. Cada uma d'aquellas gottas de agua, que cahia, com um som humido e triste, era mais uma columna que se estava formando. Ha quantos seculos andava a Natureza trabalhando n'aquella obra maravilhosa? Sobre uma das columnas incompletas notei eu uma rude inscripção entalhada decerto por algum obreiro phenicio das minas, que alli escrevera o seu nome, ou talvez alguma facecia phenicia. Pois, desde esse dia, em tres mil annos pelo menos, a columna apenas crescera para cima da inscripção uns tres pés e meio. E ainda estava em via de formação, porque eu distinctamente senti, emquanto a examinava, cahir sobre ella, das profundidades da abobada, uma lenta gotta de agua! Quantos centos de milhares de annos levaram pois a crescer, a formar-se, assim largas, massiças, altas como torres, as columnas innumeraveis que se enfileiravam na nave? Nunca, como alli, eu comprehendi a espantosa velhice da Terra.

