As Minas de Salomão

Part 10

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--A duas milhas de Lú, continuou Infandós, ha uma collina em fórma de meia lua, que é realmente uma fortaleza, onde estão aquartelados o meu regimento e tres outros que estes chefes commandam. Mas podemos arranjar de modo que ainda esta manhã cedo marchem para lá tres ou quatro regimentos dos mais fieis á minha vontade. E se os meus senhores apagarem com effeito o sol, eu poderei, a favor da escuridão, fazel-os sahir do terreiro real e da cidade, e leval-os para essa fortaleza, onde ficarão a salvo e d'onde começaremos a guerra contra o rei.

--Está entendido, resumi eu. Agora ide, que queremos dormir e depois combinar com os Espiritos!

Com longas reverencias, Infandós e os chefes deixaram a nossa aringa. O sol ia nado.

--Oh meus amigos, exclamou Ignosi, apenas elles partiram. É certo que podeis fazer esse milagre, ou estaveis vós ganhando tempo e soltando no ar palavras vãs?

--Parece-me que não nos ha de ser difficil, meu Umbopa, quero dizer, meu Ignosi, declarei eu sorrindo.

--É espantoso! Apagar o sol... E todavia sois inglezes, e o inglez tudo póde! Mas ah, se vós fizerdes isso por mim, o que não farei eu por vós?

--Uma coisa já tu nos podes prometter, Ignosi! acudiu gravemente o barão. É, se chegares a ser rei com o nosso auxilio, acabar com as «farejadeiras de feitiços», com matanças como as d'esta noite, e não consentir que homem algum seja condemnado sem provas de crime, e sem ter sido julgado pelos doze mais velhos do logar.

Era o jury, santissimo Deus! Era a nobre instituição do jury, que este digno barão queria implantar no centro selvagem da Africa! Não ha senão um liberal inglez para estas esplendidas imposições de civilisação e de ordem. Com razão hesitou o astuto Ignosi! Com razão conservou longo tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, n'um rasgo de generosidade ou de condescendencia:

--Os costumes dos pretos não se podem moldar pelos costumes dos brancos. Comtudo, uma coisa te prometto, Incubú! É que não haverá no meu reino, nem matanças de festa, nem execuções sem julgamento. Estás contente?

O barão apertou-lhe a mão em silencio.

D'ahi a pouco estavamos estendidos nos leitos de folhas sêccas, e profundamente dormimos, até que Ignosi nos acordou ás onze horas. O nosso primeiro cuidado foi instinctivamente correr fóra da cubata, olhar para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu tão brilhante e tão seguro da sua luz. Nem um signal de eclipse! Uma radiancia firme, absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder alterar!

--Pois, meu digno astro--murmurei eu, ousando interpellar directamente a fonte de toda a vida--se continuas assim, todo o dia, acabas, sem querer, com tres honrados homens!

Depois de almoçar, um solido e valente almoço que nos amparasse na crise imminente, revestimos as cótas de malha, afivelamos os cinturões de cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para a grande dança. E ao meio dia para lá voltamos os passos--que a inquietação interior e a certeza do perigo não permittiam que fossem nem bem alegres nem bem ligeiros!

O terreiro real offerecia n'essa manhã um aspecto bem diverso--e onde na vespera reinára o horror transbordava agora a graça. Em logar de fuscos e duros guerreiros, todo o espaço estava occupado por longas filas de raparigas kakuanas, escuras tambem é verdade, mas lindas, pelas fórmas, a expressão, a viçosa mocidade. _Toilette_, não tinham nenhuma--nem mesmo o _panno_, a tanga da Africa civilisada: mas salvavam esta encantadora deficiencia pelo franco luxo das flôres. Todas traziam na cabeça uma corôa de flôres; grinaldas de flôres, grandes como festões, envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas mãos uma palma verde e um lyrio branco. Nos escabellos de honra já estava o rei--acompanhado por Infandós, Scragga, guardas emplumados e a sinistra Gagula. Reconhecemos tambem, de pé, por traz d'elle, alguns dos chefes que n'essa noite tinham comnosco conspirado.

Tuala acolheu-nos com muita cordealidade ostensiva--dardejando ao mesmo tempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.

--Bemvindos, homens das estrellas, bemvindos! Vêdes hoje aqui coisas diversas; mas não tão bellas, não tão bellas! Beijos e festas de mulheres são dôces; mas é mais dôce o brilho das lanças e o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrellas: e se quizerdes casar n'esta terra, escolhei, escolhei... Podeis levar d'estas raparigas as melhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.

O nosso John, extremamente sensivel e amoroso como todos os marinheiros, deu logo um passo, teve um sorriso, como se se preparasse a aceitar e a recrutar alli, para occupar o seu coração na terra dos Kakuanas, um serralhosinho de donzellas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receiando as complicações do eterno feminino, apressei-me a recusar:

--Não, Tuala, obrigado! Os homens brancos que vêm das estrellas só se ligam ás mulheres brancas que estão nas estrellas...

Tuala riu:

--Está bem, está bem... Nós temos um proverbio kakuana que diz: «Aproveita a que está perto, porque com certeza a que está longe te engana!» Mas talvez seja d'outro modo nas estrellas... Sêde pois bemvindos, e comece a dança!

Um grande tam-tam resoou, acompanhado por finas flautas de cana em que tres mocinhos sopravam agachados no chão. As fileiras de raparigas avançaram, cantando um canto muito lento e dôce,--e fazendo ondular nas mãos as palmas e os lyrios. Era um grande bailado barbaro, infinitamente pittoresco. As raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos pés, n'uma graciosa languidez de gestos; ora, enlaçadas aos pares, redemoinhavam vivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas os ramos de palma; ora, ajoelhando em reverencia, offertavam os lyrios ao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um tom triumphal; e logo uma alegre confusão, n'uma grulhada melodiosa, com um vivo saltar de corpos ageis--que espalhava pelo ar as petalas das flôres desfolhadas.

Por fim o bailado parou: e uma esplendida rapariga, de olhos radiantes, mais airosa que uma Diana caçadora, avançou devagar, e rompeu n'uma dança estranha, cheia de graça e de brilho, em que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva timida até os pulos bravos da corça ciosa... Assim dançou longamente: os seus olhos cada vez mais rebrilhavam: a grinalda que lhe envolvia a cinta desfizera-se flôr a flôr; e todo o corpo adoravel lhe reluzia ao sol como um bronze humedecido. Por fim, cançada, sorrindo, recuou até ao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o seu ramo de lyrios. Veio então outra, muito alta, dançar; e outra depois, e muitas ainda, todas bellas e habeis;--mas nenhuma como a Diana caçadora tinha belleza, graça e consummada arte.

O rei ergueu a mão, o tam-tam cessou.

--Gentes das estrellas, disse elle, qual d'ellas achaes mais linda?

--A primeira, respondi eu irreflectidamente.

E logo me arrependi, lembrando o que annunciára Infandós--que a mais linda tinha de perecer, sacrificada aos idolos. Ao mesmo tempo deitei um olhar ao sol que continuava a refulgir com uma teima desesperadora.

Tuala no emtanto sorria:

--Os vossos olhos, gentes das estrellas, vêem então como os meus. A primeira é a mais bonita. E mau é para ella que tem de morrer!

--_Tem de morrer_! echoou Gagula que parecera dormitar durante a festa, e acordava, já interessada, desde que presentia sangue e dôr.

--Morrer! exclamei eu, sorrindo tambem, como se não acreditasse. Porque, oh rei? Ella dançou bem, a todos agradou. Além d'isso é moça e linda. Seria cruel e estranho recompensal-o com a morte.

A fera affectou uma sympathia, que, n'elle, arripiava:

--Tambem o lamento, mas é o costume do meu reinado. Os _Silenciosos_, que estão além na montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. Ha uma prophecia do nosso povo que diz: «O rei, que no dia da grande dança não sacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzellas, perecerá, e com elle a sua casa». Por não ter cumprido a ordem de «cima», cahiu meu irmão e em seu logar reino eu... Ide (voltando-se para os guardas), trazei a virgem! E tu, meu Scragga, aguça a lança!

Dois da guarda real marcharam para a pobre e dôce rapariga, que desfolhava nervosamente as pétalas do seu lyrio branco. De repente, e só então, ella pareceu comprehender a fatalidade que a perdia, por ser formosa e pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas mãos fortes agarraram-na e trouxeram-na, toda em lagrimas e debatendo-se, para diante de Tuala.

--Que nome é o teu, linda moça? ganiu a horrivel Gagula. Não respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer a lança, sem saber quem tu sejas?

A isto, Scragga deu um salto com sofreguidão, alçando a sua immensa azagaia. Vendo o ferro luzir, a pobre rapariga cessou toda a lucta entre as mãos fortes dos guardas. E com grandes lagrimas que lhe cahiam, ficou toda, toda a tremer.

O medonho Scragga teve uma risada bestial:

--Como ella treme, como ella treme diante da minha força!

--Ah canalha, se te apanho a geito! rosnou o capitão, apertando na mão o rewolver.

No emtanto Gagula, com atroz zombaria, animava a desgraçada:

--Socega! Dize o teu nome. Vem, filha! Não temas!

--Oh mãe! balbuciou a pobre creatura entre soluços, n'uma voz que desfallecia. Oh mãe! O meu nome é Fulata, e sou da casa de Suko. Mas porque hei de eu morrer, eu que não fiz mal nenhum?

--Tens de morrer, proseguiu a hedionda velha, para contentar os que vigiam além na montanha. Mais vale dormir de noite que trabalhar de dia. Mais vale estar quieta e morta que agitada e viva. E tu, filha ditosa da casa de Suko, vaes morrer ás mãos reaes do filho do nosso rei.

Olhei anciosamente para o sol. Nada! Um brilho impassivel, que achei quasi cruel!

No emtanto a pobre Fulata, apertando desesperadamente as mãos, supplicava, com gritos de angustia:

--Oh mãe, oh rei, não me deixeis morrer!... E eu tão nova! Pois nunca mais hei de vêr a aringa de meu pae? nem embalar meus irmãos pequeninos? nem cuidar dos cordeiros doentes? E porque? Mandaram-me aqui para dançar e eu dancei! O meu noivo está lá fóra á minha espera! Minha mãe ficou sentada debaixo das machabelles até que eu volte para mugir as vaccas... E porque hei de eu morrer? Nunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa casa deixava sempre cahir grãos de aveia para os passaros levarem aos ninhos...

Nas proprias faces dos guardas e dos chefes perfilados junto a Tuala se espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas soluçavam baixo. E subitamente, o capitão John, sem se poder conter mais, arrancou o rewolver da cinta e fez um movimento tão saliente, de tão clara intervenção--que a rapariga viu, n'um relance comprehendeu... Desprendendo-se dos guardas, que a seguravam frouxamente, veio arrojar-se aos pés de John, abraçando-lhe as pernas núas:

--Oh pae branco, que vens das estrellas! gritava ella. Deixa acolher-me á sombra da tua força... Salva-me d'estes homens, e de Gagula, a mãe que é tão cruel...

Tornei a olhar para o sol... E com um allivio, uma alegria tão intensa que ainda hoje o recordal-a me aquece o coração, vi uma linha de sombra, muito fina ainda, surgindo á orla do disco radiante!

--O eclipse! gritei eu para os outros. John, conserve ahi a rapariga atraz! E armas na mão, rapazes!

Immediatamente, avancei para o rei:

--Tuala, exclamei com firmeza e arrogancia. Nós, gentes das estrellas, não podemos consentir n'esta maldade! Tal não será! Deixa que a rapariga volte para a sua morada!

Tuala ergueu-se com um pulo brusco de surpreza e de colera. E dos chefes, das agitadas filas de mulheres, subiu um murmurio que era de assombro, e talvez de esperança.

--_Não consentis_! bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando lume. E quem és tu, perro branco, para vir latir contra o leão na sua caverna? _Tal não será_! E como o podes tu impedir? Vai talvez a tua vontade prevalecer contra a minha força? Scragga, mata a creatura! E vós guardas, olá, agarrai esses homens!

Uma multidão de soldados surgiu, correndo, detraz da aringa real. O barão, Umbopa e o capitão (com Fulata agarrada a elle) vieram pôr-se ao meu lado de carabinas apontadas.

Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra, lenta e gradualmente, avançava sobre o globo rutilante. Com esplendida confiança, ergui a mão, bradei:

--Parai! Nós, os filhos das estrellas, decidimos que a rapariga não morrerá! E se alguem ousar ir contra a nossa vontade, ou avançar contra nós um passo, nós, os magicos das grandes artes, _apagaremos o sol_ e mergulharemos o mundo em trevas!

O effeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Scragga ficou diante de nós, com a lança erguida no ar, como uma figura de pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os braços com furor:

--Ouvi, ouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois que o faça, e a rapariga irá livre para a sua morada! Mas se o não fizer, oh rei, que elle morra com ella, e com elle morram os cães malditos que vêm latir contra ti!

Sem mais, ergui a mão solemnemente para o sol (movimento que logo imitaram John e o barão) e rompi a bradar. Não me lembro já das coisas absurdas que tumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare, pedaços da Biblia, proverbios, datas, nomes de firmas commerciaes que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo,--que sei eu? Tudo o que me affluia aos labios, e que fosse _em inglez_, na lingua magica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeitavel centro do systema planetario. Gritava: «Anda-me assim, solzinho da minha alma! P'ra diante, valente! Deixa avançar essa rica sombra! Ah que estás um catita, meu astro! Mais, mais!...»

E o sol obedecia! A mancha escura, nitida e convexa, avançava, comia a luz immortal. Um grande susurro de terror agitava a multidão. Volvi então a fallar kakuana, livremente:

--Vê tu, oh rei! Vê tu, Gagula! Vêde vós, oh chefes! Mentem então os homens das estrellas? Quizestes a treva eterna, eil-a que vos vem tragar!... Oh sol, pae de tudo, reluzente e triumphante, retira a luz, some-te á nossa ordem, mata o mundo com escuridão e frio, e, que sem ti, parem para sempre estes corações crueis!... O sol vai morrer!

Gritos de terror resoavam já no terreiro. As mulheres, cahidas de joelhos, choravam, implorando misericordia. E o rei, calado, tremia.

Só Gagula resistia ao pavor:

--Vai passar, vai passar! uivava ella. Eu já vi o sol assim. Ninguem o póde apagar. Ficai quietos! Socegai! A sombra vem e vai... Eu já vi, eu que sou a mais velha, e conheço os segredos!

Eu por mim animava os companheiros:

--Vá, rapazes! Já não sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra de alguns versos, barão. Tudo serve, até pragas!

E John, admiravel marinheiro, rompeu então a praguejar. Foi sublime. Teve todas as pragas classicas,--e teve-as ineditas. Nem eu suppunha mesmo que a Humanidade possuisse, no seu vocabulario, uma tal riqueza de blasphemias! O que o Rei do Dia ouviu!

No emtanto a mancha negra alastrava. Estranhas, sinistras sombras fluctuavam no ar. Uma triste quietação descia sobre a terra. Todos os passaros se tinham calado. Ao longe os cães uivavam.

E a mancha crescia, crescia... A atmosphera tornára-se espessa. Já mal distinguiamos as faces crueis da gente real. Esmagadas de temor, as mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas. E o que restava do sol parecia uma luz agonisante.

--O sol morreu! berrou de repente Scragga. Os bruxos das estrellas mataram o sol! Tudo vai morrer nas trevas!...

E fosse o delirio do medo ou da raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a toda a força contra o peito do barão. Mas a cóta de malha repelliu o ferro. E antes que elle podesse revibrar o golpe, o barão arrancára-lhe a lança das mãos e passou-lh'a através do coração. Com um uivo hediondo, Scragga tombou morto.

Quasi nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o sol, o mundo, e a descendencia do rei! N'um terror indizivel, a multidão de raparigas largou fugindo, em confusão e gritos, para as portas da aringa. Foi um panico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, galgavam as estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabellos, desappareciam como lebres. E por fim, o proprio e ferocissimo rei, com Gagula atraz, arremetteram para as cubatas, ganindo n'um pavor vil. Uma debandada--que nos deixou sós, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda agarrada a John, Infandós, os chefes que conspiravam, e o cadaver de Scragga.

--Chefes! gritei eu. Eis o milagre que tinhamos promettido. Sabei agora que Ignosi é o rei unico e forte. O feitiço está trabalhando. Corramos para a cidadella que dissestes, emquanto a treva dura!

--Vinde! exclamou Infandós, segurando-me pela mão. E vós todos segui! O dia é nosso!

Ao chegarmos á porta da aringa, a luz findou inteiramente.

Agarrados uns aos outros pelas mãos, com Fulata no meio, fomos tropeçando através da escuridão. Dentro das senzalas ouviamos gemidos de terror. E para o augmentar, lançavamos a espaços, através da treva, um lugubre brado de revolta e de guerra:

--Morte a Tuala!

CAPITULO IX

ANTES DA BATALHA

Durante mais de uma hora caminhamos, através da escuridão, guiados por Infandós e pelos chefes--até que de novo surgiu, como um fino traço luminoso, a orla do sol. D'ahi a pouco havia já luz sufficiente; e achamo-nos então longe de Lú, junto de uma larga collina, de duas fartas milhas de circumferencia, em fórma de ferradura, e toda ella inteiramente plana no topo. Desde tempos immemoriaes, aquelle planalto fôra (segundo nos disse Infandós) aproveitado como acampamento permanente, e ordinariamente occupado por uma guarnição de tres mil homens. N'essa manhã, porém, á maneira que iamos trepando os flancos da collina, á luz já viva e quente do sol, descobriamos successivos regimentos, formando uma divisão de dezoito ou vinte mil homens, quasi todos veteranos. Estavam ainda sob o espanto e terror da mysteriosa treva que de repente os envolvera. E foi em silencio que passamos através das suas filas cerradas, em direcção a um grupo de cabanas que se erguia a meio do planalto. Com surpreza e grande alegria encontramos lá dois servos, á espera, carregados com todas as nossas bagagens, cantinas, e munições que n'essa manhã deixaramos nas cubatas de Lú. N'uma trouxa as calças de John. Com que sofreguidão elle as envergou, pudico homem!

--Fui eu que mandei vir tudo, á cautela! explicou o serviçal Infandós. Quem sabe quantos dias estaremos n'este deserto!

Como não havia tempo a desperdiçar, o velho e activo guerreiro deu ordem para que se formassem as tropas immediatamente. Era necessario antes de tudo (disse elle) aclarar aos regimentos os motivos da revolta já decidida pelos chefes, e apresentar-lhes Ignosi, o legitimo rei por quem iam combater.

Meia hora depois os regimentos (a flôr do exercito dos Kakuanas) estavam em formatura nos tres lados d'um immenso quadrado. Do lado aberto ficamos nós com Ignosi, o velho Infandós e os chefes conjurados. Logo que um arauto intimou silencio--Infandós avançou: e com um calor, um enthusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a historia de Ignosi, o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tragica morte de seu pae á mão de Tuala, a sua fuga através dos montes, o seu exilio entre estranhos. Depois retraçou o reinado cruento de Tuala, os seus crimes, as suas espoliações, as frias e inuteis crueldades. Em seguida contou como os homens brancos das estrellas, que de lá de cima tudo vêem, se tinham compadecido da grande afflicção que ia no reino dos Kakuanas; como tinham ido então buscar Ignosi, o rei legitimo, ás terras distantes onde elle definhava no exilio, e o haviam trazido pela mão, através dos areaes e dos montes, ao paiz de seus paes; como n'essa manhã, para mostrar a Tuala e a todos o seu poder magico, e provar aos chefes descontentes que Ignosi era rei, elles com as suas artes tinham apagado, e depois tornado a accender o sol; e como, emfim, esses magicos que nenhuma força vencia estavam dispostos a derrubar Tuala, o falso rei--e pôr em seu logar Ignosi, o rei verdadeiro!

Apenas elle findára, entre um longo murmurio de approvação, Ignosi deu dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, appellou para as tropas.--Ellas tinham ouvido Infandós, seu tio! Cada palavra d'elle luzia como a verdade. Os Kakuanas agora só podiam escolher entre Tuala, o monstro que os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e desordem,--e elle, rei legitimo, que não permittiria mais no reino a caça aos feiticeiros, nem matanças de festa, nem castigos sem julgamento, nem a oppressão dos mais fortes... Pelo contrario, sob elle, só haveria paz e abundancia! A todos os que alli estavam e o ajudassem daria cubatas, mulheres e gados:--e todos, ganha a victoria sobre Tuala, iriam viver nas suas senzalas bem providas, em descanço e alegria para sempre. De resto, os homens das estrellas estavam com elle, a seu lado, para manter os seus direitos. E quem podia ir contra a força das suas artes magicas? Não tinham elles visto o sol apagado, depois outra vez brilhante, á ordem dos espiritos brancos?

Um rumor de acquiescencia, de adhesão, corria já entre as tropas. Ignosi então recuou um passo, e erguendo no ar o seu formidavel machado de guerra:

--Eu sou o rei! Na verdade vos digo que sou o rei! E se ahi ha alguem, d'entre vós, que diz que eu não sou o rei, que sáia a terreiro, se bata commigo, e bem cedo o seu sangue correndo no chão provará que na verdade sou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, vós todos! Sou eu o rei!

--És o rei! foi a universal, acclamadora resposta, que atroou toda a collina.

--Bem! Tuala está mandando já emissarios a reunir os seus homens para nos combater. Os meus olhos estão abertos, e verão aquelles que mais fieis me são, e que merecerão mais terra, mais gado, mais riqueza. E agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em defeza do vosso rei!

Houve um silencio. Um dos chefes ergueu a mão; e os vinte mil homens, ferindo o sólo com as azagaias, soltaram a grande saudação real--_krum_! _krum_! _krum_! Ignosi estava acclamado rei. Os batalhões immediatamente recolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou silencio e ordem.

Logo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capitães. Era evidente que em breve seriamos atacados pelas tropas fieis a Tuala. Já do alto da nossa collina nós viamos regimentos marchando, a concentrar-se em Lú--e um incessante movimento de armas por toda a estrada de Salomão. Do nosso lado contavamos com vinte mil homens. Tuala, segundo o calculo dos chefes, poderia ter reunidos na manhã seguinte trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas d'esses, muitos eram recrutas; e a forte flôr do exercito, os veteranos endurecidos, os capitães de experiencia estavam felizmente comnosco, sobre a collina da Revolta.

O primeiro cuidado era fortificar a nossa posição. Começámos por obstruir com grossos rochedos todos os carreiros que subiam da planicie. Nos pontos mais accessiveis erguemos estacadas e trincheiras. Accumulámos á orla do planalto montes de pedras para arremessar sobre os assaltantes. Aqui e além cavámos fossos. E, como todo o exercito trabalhava, ao fim da tarde a collina fôra convertida em cidadella.

Justamente antes do pôr do sol, vimos um grupo de homens que de uma das portas de Lú avançava para nós, fazendo soar um tam-tam. Um d'elles trazia na mão uma palma verde. Era um arauto.

Ignosi, Infandós, dois ou tres chefes, eu e os amigos descemos ao seu encontro. Vimos um soberbo homem, ainda moço, com a pelle de leopardo aos hombros.

--Saude! gritou elle, parando e agitando a palma. O rei envia o seu saudar áquelles que lhe fazem uma guerra infiel. O Leão envia o seu saudar aos chacaes.

--Falla! bradei.

--Estas são as palavras do rei:--«Entregai-vos á minha mercê, antes que a minha forte mão cáia sobre vós!»--Assim disse o rei. Já foi arrancada ao toiro negro a espadoa direita! Já o rei o anda enxotando ensanguentado em volta ao acampamento![2]