As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)
Part 1
Lisboa--Typ. da Empreza Litteraria Luso-Brazileira--Editora
5--PATEO DO ALJUBE--5
EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO
AS FARPAS
_Chronica Mensal_
DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
QUARTA SERIE No.3 JUNHO 1883
LISBOA
EMPREZA LITTERARIA LUSO-BRAZILEIRA--EDITORA
Ironia, verdadeira liberdade. És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mistificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON.
Carta a sua alteza real o serenissimo principe snr D. Carlos regente em nome do rei.
SUMARIO
Rasão d'esta carta--Projecto de partida de sua alteza--Pessoas que o acompanham e pessoas que deveriam acompanhal-o. Eloquente e notavel parallelo--As instituições nacionaes e _As Farpas_--A educação do príncipe. Como elles a fizeram. Como nós a aconselhamos--A instrucção de sua alteza. Os seus estudos. Os seus livros. Os seus mestres. As suas convivencias. O seu theor de vida--Intervenção de sua magestade a rainha na direcção intellectual de seu augusto filho--O príncipe, o homem, o cidadão, o alferes, o marinheiro, o conselheiro d'estado--A viagem--Crise pedagogica--A renovação mental de sua alteza--De como o príncipe deveria proceder n'este momento supremo para dar o que deve ao throno, á familia, á sociedade e á natureza--Sua alteza porém fará o que for servido.
LISBOA, 25 DE MAIO DE 1883
SENHOR!
E' de interesse particular mas importantissimo o assumpto que ora nos traz por meio de carta aos pés interinamente reaes de vossa alteza.
O § 28 do artigo 145 do titulo VIII da Carta Constitucional da monarchia garante a todo o cidadão o direito de communicar por escripto com o Poder Executivo, e é d'esse direito que hoje tomamos a libertade de usar, ao abrigo da lei, aproveitando para tal fim o momento presente, em que vossa alteza é o chefe temporareo do sobredito Poder, como regente do reino na ausencia em partes de Castella de seu augusto pae, El-Rey nosso senhor, que Deus guarde por longos e dilatados annos.
Senhor, ha obra de tres para quatro meses que os papeis publicos nos deram a boa nova de que vossa alteza iria em breve completar o tirocinio da sua educação como principe, como cidadão e como ser vertebrado, correndo algumas terras e partidas do mundo, como o finado infante snr. D. Pedro, que Deus em sua santa gloria haja.
Por essa dacta, puzeram as folhas o dedo sobre os nomes de algumas pessoas, que vagamente se suppunha virem a ser chamadas para acompanhar vossa alteza em sua peregrinação de estudo pratico atravez dos homens e das coisas da civilisação entre gentes extranhas.
Seguimos as indigitações da imprensa acerca do pessoal d'essa embaixada pedagogica, e sorrimo-nos entre desdenhosos e galhofeiros, pois abrigavamos a convicção indestructivel de que os redactores d'_As Farpas_ eram os cavalheiros naturalmente indicados pela opinião publica e pelo consenso geral da côrte para a honrosa e ardua missão de que se tratava.
Effectivamente, Senhor, relanceando os olhos ao passado, e investigando, atravez do movimento politico e do movimento intellectual do seculo, quaes as instituições nacionaes a cuja campainha tenhamos de tanger para encontrar os varões comprovadamente aptos para se incumbirem no momento presente do honroso encargo de preceptores de vossa alteza, o que é que vemos?... Ou antes: O que é que vossa alteza vê? Porque, em nossa acrysolada modestia, nós preferimos perante essa interrogação remetter-nos a um silencio discreto, _ponere custodiam ori nostro_, dar dois passos atraz, curvos e submissos, com os olhos no chão e os claques debaixo do braço, aguardando tranquillos o real veredictum de vossa alteza.
Vossa alteza, havendo por bem baixar sua serenissima vista sobre as instituições patrias, vê para um lado as duas camaras, a Sociedade Geographica, a Universidade de Coimbra e o salão da senhora D. Maria Kruz; e para o lado opposto, á outra banda, vê vossa alteza _As Farpas_, quarenta a cincoenta volumes de uma prosa divina, a 200 réis o volume, que será a mais bella, a mais pura e a mais duradoura gloria litteraria do seculo do felicissimo principe, augusto pae de vossa alteza.
Os litteratos vindouros, chamados a illustrar pelo lavor de suas pennas o reinado de vossa alteza, procurarão á porfia imitar esta obra sublime. Porém de balde. Porque nada ha mais inimitavel, pela affabilidade do trato sobretudo, do que o critico no estado benigno de morto. Seremos pois os classicos da lingua, nós outros, para esse tempo. Seremos os Vieiras e os Bernardes do cyclo do rei Luiz, o venturosissimo. As academias archivarão, como preciosas reliquias, a lanterna e o bordão nodoso com que atravessamos a vida espargindo sobre a terra a luz e as pisaduras. Vossa alteza, octogenario, coroado de cãs, porá os seus reaes oculos para nos ler aos seus netos, aos quaes vossa alteza dirá, batendo com os nós dos dedos sobre a nossa obra amarellecida e veneranda:
--O velho rei Carlos foi tão bom e tão prasenteiro rei como o principe seu progenitor, mas faltaram-lhe Curcios e Livios d'esta laia para o immortalisarem no eterno jubilo das gentes!
E vossa alteza soluçará de saudosa magoa sobre as cabeças infantis da sua prole, considerando-se um monarcha desditoso por que na vasta perspectiva do seu reinado lhe faltou a projecção grandeosa d'esta obra cathedralesca.
Queira vossa alteza ir sempre seguindo, por partes.
Que é que as duas camaras do parlamento teem botado durante o decurso dos ultimos quinze annos em beneficio da educação de vossa alteza ou da educação d'alguem que seja n'este mundo?
Nada, serenissimo senhor! pela palavra nada!
Hade ter constado por certo a vossa alteza o que elles ainda ultimamente fizeram com um projecto de lei sobre a instrucção secundaria, o qual Thomaz Ribeiro, esse bem-quisto vate, ministro de vossa alteza e porta-alaúde da sua côrte, arrancou a ferros das entranhas da musa para o mandar para a mesa como uma especie de gémea administrativa da _Delphina do mal_.
Como vossa alteza não era a esse tempo regente soberano do reino, e se achava ainda então sob o dominio da auctoridade paterna, não sabemos se lhe teriam permittido a leitura d'esse debate ...
Foi uma coisa enorme, respeitavel senhor!
Um queria que lhe abolissem o latim, lingoa morta e má lingoa, sevandijada de verbos exquisitos, como _sum-es-fui_ e outros que taes; e em substituição pedia _disciplina psychologica_, que era para os rapazes ficarem bem ao facto da alma humana. E voltando-se para a meza, o orador berrava:
--Eu cá, snr presidente, não me importa com Tito Livio, nem me importa com ninguem n'este mundo. Alma e mais alma para cima do alumno, que é do que os rapazes precisam para ir para leis!
Outro queria religião, porque sem religião o que é o homem? O homem sem religião é, com licença, um bruto. E citava Renan que fôra visinho d'elle em Paris e que não era bruto. Porquê? Porque tinha temor de Deus,--de noite, ás escondidas, em casa. O orador soube-o pela porteira do predio.
Houve um deputado que insistiu em que se affastasse o publico dos lyceus, porque muita canalha junta não aprende nada. Um menino até dois é o dado para os mestres todos se concentrarem e fazerem uma educação capaz.
Houve mais um que pediu institutos de instrucção secundaria para a mulher, pela rasão de quê, segundo elle, se tornava mister que a mulher, _que é já a rosa, fosse tambem o perfume_. Textual!
E houve ainda um outro que, abundando nas ideias do precedente, exclamou enternecido, com os olhos em alvo: _É indispensavel, snr. presidente, que os dois sexos, o masculino e o feminino, caminhem na senda do futuro ao lado um do outro, de mãos dadas_. Egualmente textual!
Emfim, ao cabo de vinte dias de discussão, a decencia obrigou a agarrar no projecto pelas orelhas e a leval-o de rastos para a camara dos pares; mas como esta camara o não quiz por coisa nenhuma do mundo, o ministro das _Flores d'alma_, e do Reino, levou-o para casa no louvavel intuito de o pôr em verso. E consta agora que o vão aproveitar sob a forma de magica no theatro de D. Maria.
Logo depois da instrucção publica não viu vossa alteza como elles pegaram n'uma questão d'arte?!...
Lembra-se um de fallar no leilão do diplomata Zéa Bermudez, o qual reunia ás qualidades do mais excellente homem uma pequena collecção d'arte com _quatro potes etruscos_.
Ao ouvir fallar pela primeira vez durante toda a sua longa carreira parlamentar em quatro potes etruscos, a camara e o governo embasbacaram por um momento, mas recahindo immediatamente em si com maravilhosa presença de espirito, camara e governo menearam as cabeças familiarmente, como se cada um dos legisladores não tivesse feito desde muito pequeno outra coisa senão jogar a pucara com potes d'esses.
Houve um assentimento geral na assembleia, e os gestos e as vozes exprimiram com unanimidade:
--Oh! sim!... os potes etruscos ... conhecemos perfeitissimamente!
--O paiz, snr presidente, não pode consentir que preciosidades de tão inestimavel valor artistico saiam do reino para ir enriquecer os museus extrangeiros!...
--Appoiado! appoiado!--opinou o snr presidente do conselho, convicto e subitamente illuminado pela providencia como um vidente da Etruria em potes.
E a camara em peso, por todos os votos menos um, votou um credito supplementar de 5 contos de réis. Para quê, senhor? Para proteger a arte nacional, que nem tem escolas, nem mestres, nem discipulos, nem modelos, nem livros, nem coisa nenhuma, além do snr. conde de Almedina, e a qual a camara, ao cabo de vinte annos de esquecimento ou de desdem, se lembra de patrocinar afinal com 5 contos extraordinarios! Cinco contos por quatro cacos feiissimos, meu rico senhor!... por quatro potes, que uns dizem que foram feitos em Pompeia, e outros que foram feitos nas Caldas antes da vinda de Christo, e que, em todo o caso, admittindo-se mesmo que houvessem sido feitos ha muito mais tempo e muitissimo mais longe, só seriam de alguma utilidade aos artistas se lh'os dessem cheios de compota de marmelo ou de conserva de pimentos com cenouras!
Tal é a camara, ó serenissimo principe!
E a Geographica pode vossa alteza crer que é outra que tal. A sabia corporação da rua do Alecrim não passa de um parlamento como o de S. Bento, com a differença de que, em vez de ser electivo, é de assignatura, a cinco tostões por mez, e n'elle a rhetorica é consultiva em vez de ser deliberante. É a camara ou a ante-camara dos aprendizes a deputados e a ministros; é o vitello mamão de que a representação nacional é o boi gordo.
Na primeira quinta feira de despacho digne-se vossa alteza ordenar que o trinchante mór da real casa lhe raspe bem raspado um dos seus ministros e lh'o sirva sem casca: ahi está o geographo.
Encasque-se o geographo: eis ahi o ministro.
Sobre a Universidade corramos o veu da pudicicia. O mesmo governo, considerando recentemente a influencia deslumbrante que esse luminoso foco do saber exercia sobre a imaginação da mocidade, deliberou com prudencia applicar-lhe um apagador. A respeito de ensino--disse em portaria o snr ministro do reino ao reitor d'aquelle instituto de instrucção--o melhor é pôr-lhe ponto. E assim se fez, com regosijo e applauso geral dos doutos.
Resta-nos o _drawing-room_ da senhora D. Maria Kruz.
Este centro intellectual está indubitavelmente acima de todos os outros e exerceu na educação nacional uma influencia doce e benefica. É certo que durante muitos annos foi pela escada tapetada da _Abbaie aux Bois_ presidida por essa dama, e não pelos degraus sordidos da sociedade geographica, que os litteratos, com algum stylo e pera, iam a deputados e iam a ministros.
A esta intervenção senhoril, que por algum tempo deu á politica portugueza uma leve atmosphera de delicadeza e de graça, um fugitivo _odore di femmina_, se deve o accordo que se fez em alguns caracteres entre a avidez das ambições e o respeito pelas escovas d'unhas.
De resto ha para todos os effeitos uma differença consideravel entre o entrar na vida dando o braço a uma senhora, e o entrar levado em charola pelo snr Pequito e pelo snr Luciano Cordeiro.
A senhora D. Maria Kruz abdicou porem ha muito tempo da influencia da sua amabilidade perante o prestigio politico d'esses dois geographos fura-vidas, e contenta-se hoje em offerecer á sua antiga côrte a amisade, a conversação e o chá das suas quintas-feiras.
Toda essa gente, no fim de contas, se tem importado tanto com vossa alteza como com minha avó torta. Ao passo que _As Farpas_ desde o primeiro dia da sua existencia até hoje jámais desfilaram os olhos desvelados e respeitosos dos interesses da real familia, em geral, e muito em especial dos de vossa alteza serenissima.
Era vossa alteza um baby, da altura de uma bengala, quando seus illustres paes, vilmente illudidos por indignos conselheiros, appareciam com vossa alteza nos sitios publicos apresentando-o aos povos em traje de mascara, já de coronel de comedia, já de tabelião de entremez.
De uma vez levaram-o ás corridas de cavallos vestido de funccionario publico: calça até abaixo, apolainada em cima dos botins apiorrados, jaquetão, collarinho alto, chapeu redondo, grilhão de ouro no relogio e luva branca. Vossa alteza poderá fazer uma ideia da figura que estava dignando-se de olhar por um binoculo ás avessas para o prior da Lapa. Era aquillo em louro, sem a corôa e sem o annel liturgico.
_As Farpas_ protestaram com energia, clamando em stylo vehemente que vossa alteza tinha direitos inilludiveis a não ser confundido por meio dos nefandos artificios do algibebe da côrte com um padre pequeno. Que vossa alteza era o herdeiro presumptivo de um sceptro; nunca o de um cachucho de pregador! Que mais nobre do que essa vestimenta seria a pura nudez com a decencia apenas garantida pela antiga folha de vinha ou por um simples phyloxera.
_As Farpas_ aconselharam que vestissem vossa alteza sensatamente, de flanella, meias de lã, knickerbokar, blusa, collarinho chato, e sem luvas.
Hoje, que vossa alteza é um homem, deixamos ao seu juizo emancipado o decidir quem tinha razão: se os aulicos conselheiros da guarda-roupa de vossa alteza, se nós, seus criticos.
Mais tarde quando vossa alteza penetrou nos dominios da instrucção secundaria, e que de Coimbra foi chamado por cartas regias o mestre de hebraico Joaquim Alves Sousa para o fim de vir ler a vossa alteza Logica e Rhetorica, _As Farpas_ apoderaram-se solicitas e velozes d'esse sapiente caturra, e provaram por meio de argumentos irrespondiveis que era abusar da submissão de um jovem principe, innocente e ingenuo, o pôr defronte d'elle, sob o pretexto de o instruir, esse agoirento mocho, pilhado na lobrega escuridão da metaphysica universitaria, e posto na Ajuda, com a borla doutoral a um lado e o comedouro do rapé ao outro, a explicar as regras do enthimema, do epicherema e do sorites, e bem assim o emprego da synedoche, da antonomasia e da catachrese.
Apesar de todas as nossas objecções, esse nefasto humanista amargurou os dias preciosos de vossa alteza, procurando cavilosamente fazer-lhe acreditar que o epicherema era tão indispensavel ao homem como o proprio pão.
Se tinhamos rasão ou não sabe-o hoje muito bem vossa alteza, que é homem ha uns poucos d'annos sem ter precisado nunca até hoje nem do epicherema nem do sorites nem de coisa alguma d'aquellas com que por tanto tempo o estopou, sem proveito para ninguem, esse semsaborão tremebundo, seu mestre.
Quando foi da nomeação do snr conselheiro Viale, do snr Martens Ferrão, do snr Santa-Monica, _As Farpas_ intervieram de novo, constatando que a educação de vossa alteza não era precisamente a piscina da pudica Susana, para assim a rodearem em grupo mythologico de todos os velhos bar-baças aposentados da magistratura e da academia.
Os resultados confirmaram quanto por essa occasião predissemos. Os pedagogos de vossa alteza educaram-o dentro da virtude mas fóra da natureza, fazendo de vossa alteza uma especie de rosière de Nanterre, cuja vida tivesse por fim servir de assumpto a um romance coroado pelas sociedades sabias e destinado a conferir-se em premio de animação ás engommadeiras virtuosas.
Conhece vossa alteza a _Educação de um principe_, de Edmond About? Recommendamos-lhe com empenho a leitura d'essa obra tão importante aos principes como o proprio livro de Machiavel.
Em lição digna das nossas mais graves meditações, About mostra-nos a tragica situação do principe Paulo no primeiro dia do seu noivado.
É alta noite. Findaram as festas do hymeneu em palacio. O monarcha agradeceu n'um bem elaborado speech as manifestações geraes do regosijo da côrte por occasião do feliz consorcio do principe herdeiro, applaudindo incondicionalmente as danças e as cantatas, e queixando-se apenas de pouca pimenta nos molhos mediocremente incendiarios do real banquete. Os musicos, desencanudadas as flautas, mettido o rabecão na caixa, e confiados os timbales ao moço da real capella, haviam-se retirado a seus tugurios. Os aulicos resonavam enconchados nos catres da regia mansão. E o commandante da companhia dos vivas, incumbido, mediante a esportula de 3:200 e jantar, de fazer de Povo nos dias de gala, havia terminado os seus trabalhos; o rei, com sua natural affabilidade, havia-lhe dito commovido, batendo-lhe no hombro e metendo-lhe na mão os 3:200: _Obrigado, meu povo!_ e elle, com o vozeirão restaurado por duas gemadas, partira á pressa para ir levantar os vivas á Republica n'uma manifestação de provincia para que estava escripturado.
Tudo pois era silencio e trevas no regio alcaçar, quando o monarcha se ergueu, de chambre e chinelas, no louvavel intuito de espairecer dos duros encargos da publica governação espreitando um momento pela fechadura da porta da camara nupcial do principe Paulo e da princeza Margarida. N'isto, ao atravessar na escuridão o salão de baile, mudo, apagado e deserto, catrapuz! Era o rei que ia de corôa para baixo e de chichelos ao ar por cima de um _fauteil_, encambulhado n'um homem que dormia sentado ali assim. Gritos de pavão do monarcha aterrado, e cortezãos em ceroulas que chegam com luzes. Descobre-se que o rei cahira por cima do principe real, que estava noivando sosinho n'uma cadeira com o chapeu de bicos na cabeça, abraçado á espada dos reis seus avós.
--Que faz você aqui, seu estupido?--lhe perguntou o monarcha com voz acre.
--Eu nano--respondeu o principe sorridente e doce.--Como a princeza Margarida me disse que ia nanar para a sua camara e como eu agora não tenho camara para nanar, vim nanar para esta cadeira.
--Chamem os mestres de sua alteza!--bradou o rei iracundo, com um gallo na testa e com os braços cruzados no peito.
Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença, enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das orelhas, o rei disse-lhes:
--Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados) esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de um principe para com a sua princeza. E é para isto que eu tenho tido aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!... Ora muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio, elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira, decapito-vos a todos trez esta noite como quem decapita pelo entrudo tres perus gordos e emborrachados!
Uma vez a sós com o real alumno, os tres pedagogos cahiram em desfeito pranto nos braços uns dos outros, porque nenhum d'elles sabia nem se lembrava de haver jámais lido nos auctores coisa alguma relativa aos _deveres mais rudimentares dos principes para com suas princezas_.
Quando vossa alteza se dignar de passar um exame sobre esta materia aos seus pedagogos, pedimos, senhor, e ousamos esperar da vossa clemencia, que a pena ultima lhes seja commutada.
Piedade, principe, piedade!
Quer vossa alteza mais provas da desinteressada solicitude com que _As Farpas_ teem sempre velado com diurno e nocturno olho sobre o prestigio de tudo quanto mais directamente se relaciona com a sua pessoa, com a sua familia, com a sua côrte?...
Compulse vossa alteza essa collecção immarcescivel e a cada momento encontrará n'ella os conselhos mais amigaveis e mais justos, sobre as maneiras, sobre a _toilette_, sobre a linguagem, sobre a etiqueta do palacio; acerca dos discursos da corôa, dos uniformes, das librés, dos cavallos, das carruagens, dos bailes, dos jantares, das viagens, das caçadas, das recitas de gala, das revistas militares, etc.
Quem foi que mais ardentemente pugnou para que não pegasse a vossa alteza e a seu augusto irmão a alcunha piegas dos _cabeças louras_ e dos _louras creanças_, que lhes puzeram os noticíaristas?
Quem mais do que nós se esforçou em obstar que sua magestade a rainha cahisse, sob a antonomasia de _anjo da caridade_, nos logares communs da rhetorica sordida de procissão e do fogo preso, de bambolim de murta e de peixe frito?...
Não faremos a vossa alteza a injuria de o suppôr assaz destituido de bom gosto para não comprehender quanto a notoriedade, levada até esse ponto de incontinencia, melindra e emurchece aquella delicada e fina flor do recato, que é a mais bella joia das princezas que bebem silenciosamente e heroicamente a vida na obscuridade inviolavel, como a imperatriz da Allemanha, por exemplo, ou a imperatriz do Brazil.
Por todos estes titulos julgavamos nós ter a certeza de ser os individuos chamados a acompanhar vossa alteza na sua viagem de instrucção.
Quando ultimamente lemos nas gazetas os nomes dos snrs Antonio Augusto d'Aguiar e Martens Ferrão, em vez dos nossos, aquelle que escreve estas linhas telegraphou a Eça de Queiroz nos seguintes termos:
_Eça de Queiroz--Lawrence's Hotel--Cintra. Diga se recebeu rei convite ir extrangeiro principes, e se vae._
E recebemos a seguinte resposta:
_Ramalho Ortigão--Caetanos--Lisboa. So recebi Alberto Braga convite ir Collares burros, e não vou._
Havieis-nos pois lançado a ambos ao ostracismo ... Maldição e prudencia!
O preclaro major Quillinan, que tão galhardamente defendeu ha pouco a honra nacional publicando no _Morning-Post_ uma bisca contra o detestavel Brigth, annuncia agora e faz publico que, visto o governo de sua magestade fidellissima não haver prestado a consideração devida ao feito alludido, elle, major Quillinan, não mais volverá a soccorrer-nos nas molestias de Brigth. Brigth tem d'ora avante o rim da gente ás ordens. Tripudie sobre elle a capricho, que o major Quillinan dá licença! A camara dos commus pode desde hoje beber-nos o sangue á vontade, que o bebe por conta do lavrador.
Regala-te para ahi, ó vibora sedenta!
Nós porém, senhor,--como se diz na «Vie Parisienne»--_não somos esse major_.
Vamos pois dar a vossa alteza n'este momento decisivo e solemne os derradeiros conselhos que a nossa dedicação a vossa alteza nos inspira, para que a todo o tempo se não diga que um mesquinho despeito nos reduziu n'esta suprema contingencia a um silencio criminoso, sarocoteando-nos cynicamente no vil mutismo, como dois peixes vermelhos dentro de uma redoma cheia d'agua, emquanto vossa alteza caminha para o abysmo, levado ao extrangeiro, como quem leva uma retorta, pelo nefando chimico snr Antonio Augusto d'Aguiar.