# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

## Part 4

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Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios, e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o contrario.

Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha perna.

Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem padre, morrer sem padre.

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Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova, esquina do Laranjal

Porto

Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de comparecer.

Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei, certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto, levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol. Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados, fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa, com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle, os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha venezianamente na agua.

Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas, tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do paiz estavam ahi reunidos. Para que?

Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que phenomeno! que revolução!

Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz, os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum pessoal.

Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma funccionalidade diversa.

Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder, irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação, que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza. A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo, vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o aperfeiçoamento e para a felicidade.

Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos das sociedades.

A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas instituições.

Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo debatida entre dois principes.

A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente affirmação d'esse progresso.

A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este seu novo hospede? Não lhe apparecendo!

V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v. ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas, teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

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Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

Eis o que ao depois occorreu:

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A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes, choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

E deixaram-o ir.

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Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo, com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na redea.

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Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões, retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades officiaes!

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Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao sr. José Dias Ferreira.

Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder, o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:

--A mim, rapazes!

E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.

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Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem assim elle mesmo?

Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!

Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

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O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos, rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e, como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr. Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra bolsa do alforge ministerial.

Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra, enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

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E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com arnica o seu galo.

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Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr. Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª

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Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores deputados:

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Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores, funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde os parapeitos até ao tecto.

Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar, publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço. O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.

Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas cahidas do systema que felizmente nos rege.

No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca, lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de cabeça.

Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade, estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação, a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica constitucional.

Diz mais o orador:

--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados».

E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da camara:--«Muito bem! muito bem!»

Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate. Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano, ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está, como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de Kant, de Hegel e de Hartman.

Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela indisciplina mental.

Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

