As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)
Part 3
Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade eterna dos seus netos.
A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos folhetins dos periodicos.
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Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir. Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
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Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio. Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa. O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias, sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes, ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
E a posteridade nos abençoará.
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Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente uns aos outros:
--Não viram por ahi a hydra?
Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr. Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito imperfeito do verbo Mexer.
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N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila, presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para salvar a situação da falta da hydra:
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O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz. Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil. Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente enterrado.
N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
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Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
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Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro ainda parece pouco.
O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica romana.
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Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião, cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica. Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa, pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem, nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta. És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado, distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote, poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas, entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela cidade inteira.
E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio. Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia? Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros. Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos! Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
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Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que pretendemos consultar s. exª:
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Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas, não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir entretendo.
N'esta hypothese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha o capricho de descartar-me?
Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros impios e locomotores.
A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana. Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica, e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio dos atheus.
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Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim uma affirmação civil.
Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria; não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna, era--a perna da igreja.
Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado, recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira, de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de designar a sepultura sagrada.