As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

Part 2

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Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome, pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos, recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa, todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa convicção.

Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres--por profissão--enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens energicos e audaciosos.

Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia--o chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas, e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever da esposa.

Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras inglezas--nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria--o ser mãe, nos ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão, encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais civilizadas da Europa.

Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros, que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos circos o trabalho de fazer rir o publico.

Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas esse importantissimo.

Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos seus.

Sua

_Irmã de Caridade_

* * * * *

Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores! queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve, não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram os contactos da nossa convivencia--a escola, o jornal, o livro. Revêde-vos na vossa obra.

Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver. Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós mesmo pelo que lhe ensinastes.

* * * * *

Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?

As _Farpas_ são a publicação periodica--unica em Portugal--que em artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos--é claro--mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_ uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas portuguezas:

«Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito. Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das senhoras portuguezas não só é igual--como a auctora modestamente formula--á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor qualquer--amigo ou adversario--uma palavra tão lucida, tão conceituosa, tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas, entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene, pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud, Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua excellencia possuisse finalmente--ainda que no estado da mais ligeira tintura--alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir nos adversarios senão admiração e respeito.

É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30 por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um vestido e que sabe tambem--ó legítimo orgulho!--_fazer doce_.--De mais a mais--notem--sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada. Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os enthusiasmos da paixão»:--sua excellencia gosta de assucar!

Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber licores para os botequins?

As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir lá buscar.

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Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras, encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna, pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)

O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas algemas!

Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

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O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

Eu--pois que é bom precisar a clareza dos numeros--eu, auctor d'estas linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que me faz--para simplificar os dados do problema--o partir do principio de que não tomei ease chá.

Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:--o phosphato de cal, que eu ingeria em grandes dozes.

A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão, não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não tinha pia.

A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher: Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparavel cosinha da minha avó,--aberta ao nivel do pateo defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.