As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)
Part 1
RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
AS FARPAS
CHRONICA MENSAL
DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.
P.J. PROUDHON
SUMMARIO
A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar, Augusto Soromenho.--_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A litteratura feminina e a cozinha de minha avó.--Da influencia dos hymnos sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.--Os cemiterios. A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro civil.--A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.--A situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.
No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados. Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.
Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da grande alma do povo.
Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de Ville a Republica de 48.
Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo, economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros, das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas, os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no isolamento austero da independencia o do sacrificio.
Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno e do Bernardo Palissy.
A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma, resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.
Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior, em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»
[Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]
É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi egualmente o braço constantemente pronto para resistir.
Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser condemnado aos oitenta,--aos oitenta annos de idade!--por abuso da liberdade de pensamento!
O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma trindade sacrosanta:--Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a força do trabalho; Littré, a força da philosophia.
D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não tem partido.
Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus similhantes!
Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela consciencia e pela verdade!
* * * * *
Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um symbolo ultrajante para a dignidade humana.
A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos principios de justiça social constantemente professados pelo immortal artista.
Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar puerilmente que se deve ser
_Fier d'être français Quand on regarde la colonne!_
Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora, comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o Grande!!_
Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.
A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes da geração actual o sol de Austerlitz.
Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará, ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.
* * * * *
Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como elle uma cruzada,--a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos fortes--a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes, mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos, atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte. Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.
Feliz homem!
* * * * *
A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_, representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus pensadores.
Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um novo elemento social--o povo.
José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e decide da sorte dos imperios.
Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade, procedera da roda dos expostos.
Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante, que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus inimigos.»
* * * * *
Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella natureza essencialmente desgraçada.
Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico, jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e da lingua.
Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação, repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente aggravada por uma falsa educação.
Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame, de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios da sua inquieta o attribulada existencia.
A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem. O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa, conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o--como succede ás mulheres nervosas.
Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil. Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas physicas.
Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre, tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro imperfeitamente orientado.
Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_ nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros, aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe, negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços, estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom sitio amado, uma velha canção querida.
Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi sepultado n'este medonho tumulo--o despreso.
Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico. Inutilmente. Elle estava morto.
Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos. O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica, quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela maledicencia.
* * * * *
Com esle titulo--_Ao sr. Ramalho Ortigão_--publicou o _Diario da Manhã_ o folhetim seguinte:
_Os exames no Lyceu Nacional--Os fins da educação--Um programma de ensino para o sexo feminino--Como se prepara a emancipação das mulheres--Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o estado da cosinha nacional--Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais caldo_.
Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr. Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto, que é realmente grave--a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda responsabilidade.
Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave, contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica, depurados até á transparencia, muito aromatisados ... mas sem substancia.
Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho, esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão, deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.
Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia, os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.
A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos homens das classes elevadas--e quer que lhe digámos porque? Porque elles teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.