As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05)
Part 3
Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa religião--a familia!
Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da baixa--rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias--com as graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola, com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez, modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres, branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa, activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.
As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona, parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto, com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.
É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os _Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.
Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:
«Noto um facto que me enche de perturbação e de horror--n'esta cidade não ha creanças.»
Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha, desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal, ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe fresco.
Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As creança estão dentro das casas que acima descrevemos--_a tomarem proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores, e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo. Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno, Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.
Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora completamente as leis que regem o universo e que determinam esses phenomenos.
Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa, assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.
Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os _coupés_ magnificos da piedade escolhida.
Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas, arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou desdem.
Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das sociedades corruptas:--o socego.
Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o aguadeiro, ralhando com o marido.
Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no meio dos cortinados.
Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico, similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções ou do luxo que não usa.
Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe tornar encantadora a familia.
Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações. Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da perfeita educação.
Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma simplicidade tragica.
O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.
Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras, _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado nacional ... Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes, encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não saberá negar.
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Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro, medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo Bazilio_, romance realista.
Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de 1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo. Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas, atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos, phylanthropos.
A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser. Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social; que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.
N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita, que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,--n'esta liga, dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non verba_.
Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que se tirou a designação _realismo_.
Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser simplesmente lyrica.
O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:--que para evitar a morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as cartas.
A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da queda; está em que ella--_não podia deixar de cair_.
Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na critica dos costumes, na propria critica da arte.
Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do _Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação burgueza.
De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa contemporanea: «Eis--aqui está o modo pavorosamente simples como tu te rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,--parece um insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:
«Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta ambição heroica:--tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado, com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia, um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e convergentemente estarão n'este momento--no momento em que eu tenho a concepção artistica do _Primo Basilio_--actuando sobre todas as influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral, fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica, finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»
Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um artista tem a obrigação de se não explicar,--o que seria invadir uma funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte, se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.