As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1883-06)

Part 4

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Terminada a educação theorica, era preciso completal-a na pratica por meio de uma viagem na Europa, e o marquez de Niza, abençoado por sua mãe, purificado pela eucharistia e pela confissão geral, partiu para Paris com o seu preceptor.

Durante os primeiros meses correu tudo n'uma serenidade e n'uma ordem verdadeiramente claustral. O preceptor escrevia por todos os correios. O menino, cada vez mais comedido, mais respeitoso e mais temente a Deus, parecia disposto a passar, sem solução de continuidade, da innocencia de um cherubim para a santidade de um doutor da igreja. Depois, a pouco e pouco, foi successivamente diminuindo o numero das cartas e augmentando o numero das contas. Os dois poços de santidade tinham-se convertido em dois sumidouros enormes de dinheiro. A senhora marquesa queixava-se repettidamente com severidade cada vez mais acrimoniosa. Chegou a final uma carta do padre. Explicações evasivas, e rasões debeis, com um perfume fortissimo de _patchouli_, que era então o cheiro da moda, o cheiro _selected_, o cheiro _v'lan_, segundo o termo com que mais tarde o galante rei da Hollanda tinha de enriquecer o vocabulario precioso do cocodettismo. Depois do que, nunca mais o eclesiastico escreveu. Acabou-se, em ultimo recurso, por suspender toda a remessa de numerario para Paris. Mas nem esta suppressão violenta dos meios determinou uma mudança sensivel em tão lastimoso estado de coisas. Para obter noticias positivas do marquez de Niza e do seu aio foi preciso mandar de proposito a Paris o procurador da casa, e só então se veio no conhecimento do occorrido.

O veneravel monge, depois de ter sido uma noite rebaptisado a champagne n'um gabinete do café inglez, esqueceu-se do burel pendurado no CABIDE d'esse gabinete, e fez cavalheirosamente presente d'elle ao _maître d'hotel_ quando este lh'o quiz restituir na noite immediata. Depois, por um louvavel sentimento de respeito pela inviolabilidade sacerdotal, deitou abaixo inexoravelmente as suas barbas d'asceta, profanadas á traição pelos beijos de varias bailarinas que o adoravam, e guardou unicamente, como symbolo da rigidez dos seus princupios, um severo e implacavel bigode.

Mais tarde, quando chegou a noticia terminante que de Lisboa lhes não enviariam nem mais dez réis, o marquez tremeu. O padre então ralhou, fazendo observar que seria preciso que elles fossem ambos dois pulhas indignos para precisarem para alguma coisa do dinheiro da senhora marqueza; que seria preciso ainda que essa senhora houvesse sido miseravelmente roubada durante todo o tempo que durara a educação do seu filho, para que tanto elle como o seu mestre não estivessem perfeitamente habilitados a ganhar a sua vida pelo trabalho era qualquer parte do mundo onde a senhora marqueza se dignasse de os abandonar.

E em seguida, mettendo as caixas das rebecas debaixo do braço e acendendo uma cigarrette, foram ambos apresentar-se ao director de um theatro que os escripturou como violinos.

Depois do espectaculo, um tanto ebrios da commoção capitosa da musica que tinham feito ao lado um do outro, sahiam juntos, offereciam o seu braço com a galanteria de meridionaes ás duas actrizes que por ventura se encontrassem n'essa noite ainda mais pobres do que elles, e iam juntos beber a sua _chope_ em _partie carrée_ na calmante frescura dos boulevards.

Os pedagogos de vossa alteza não estão no caso do do marquez de Nisa. A nós, pelo menos, não nos consta que o snr Martens Ferrão toque algum instrumento, nem que as prendas musicaes entrem no numero das que exornam o snr Antonio Augusto de Aguiar. Um e outro são rebeldes á arte, e foi pela fenda da arte que o humanismo do marquez de Nisa penetrou o arnez theologico do seu amavel aio.

E é preciso isso, a picada, da arte no intimo do coração de um homem, para que elle, venha d'onde vier, saia d'onde sair, se converta depressa no digno companheiro do mais espirituoso e do mais elegante dos _gentlemen_.

Quando elles não teem a arte por si, ou contra si, o melhor, real senhor, é deixal-os ser o que são, e não lhes bolir. Incorruptos são insipidos. Corrompidos tornam-se porcos.

Resta pois a vossa alteza um unico recurso:--a fuga.

Parece uma bicha de sete cabeças, ao primeiro aspecto. Pura illusão! Lê-se a historia de todas as evasões celebres: é a coisa mais simples d'este mundo. Basta ter calcanhares, e vossa alteza tem-os. Basta ter uma pouca de terra para dar para feijões, e vossa alteza tem diante de si o mundo inteiro que dar para esses legumes.

Tudo mais é simples detalhe.

Convirá apenas que n'uma estação de bufete, em qualquer linha de caminho de ferro, vossa alteza, encontre á sua disposição, do lado opposto á linha, um cavallo pronto e ligeiro.

Uma palavra telegraphica de vossa alteza á redacção d'_As Farpas_, e _Frontin_, o proprio _Frontin_, o vencedor do Grand Prix de Longchamps, o esperará no ponto que vossa alteza designe, submisso e relinchante, immovel e estacado nas suas quatro pernas d'aço, de ventas altas, redondas, avidas, nervosas e palpitantes.

Emquanto os pedagogos, abancados no restaurante da gare, comem, mascando ruidosos, vorazes de azote e de carbone, vossa alteza, em bicos de pés, prega-lhes um rabo de papel em cada um, e desapparece veloz pelo fundo.

Um pulo á sella, rédea baixa, e ávante!

Que importa tudo quanto possa succeder em seguida?! A pedagogia que rebente ahi assim! a jurisprudência que desmaie! a chimica que caia para a banda! a etiqueta que estoire!

A humanidade triumpha, porque, desde esse momento, vossa alteza é livre.

Quem ousará constrangel-o, coagil-o, violental-o?

Vossa alteza é verdade que é um principe, mas é também um homem, chegou á maioridade, é o único e exclusivo senhor de si mesmo.

Todos os pavilhões dos paizes livres,--da França, da Suissa, da Hollanda, da Inglaterra, dos Estados Unidos da América--subirão desfraldados ao tope dos mastros para cobrirem de toda a sua força e de toda a sua glória na pessoa de vossa alteza a sua inviolabilidade sacrosanta de _touriste_.

Todos os códigos e todos os tribunaes do mundo estão abertos para lhe prestar defesa e homenagem.

Rei, posto na Ajuda, no alto do seu throno, com a púrpura ás costas, a coroa na testa e o sceptro em punho, vossa alteza tem apenas para o defender um exercito de cinco mil coroneis, com duzentos soldados, e o habil Antunes. Fora da fronteira, com um passaporte no bolso, um saco de noite na mão e um chapeu de chuva debaixo do braço, vossa alteza tem á sua disposição, como qualquer outro, para salvaguardar e manter os seus inviolaveis direitas d'homem provído de uma chapelleira e de um guia Baedeker, todas as armadas e todos os exercitos do mundo.

Se a côrte portugueza recalcitrar, se os seus pedagogos intentarem impôr-se-lhe e embargar-lhe o passo, vossa alteza, com um simples gesto, chama um gendarme, que lhe encafurna todos esses massadores na cadeia.

--Deixem circular, meus senhores! deixem circular!--tal é a palavra da força publica, de um extremo ao outro extremo em todo o mundo civilisado.

Considere vossa alteza o que em circumstancias analogas fez o principe herdeiro da Hollanda, o sabio, o doce, o ineffavel _Citron_. Desde que se achou em Paris, nos seus pequenos appartamentos da rua Auber, não houve mais forças humanas que o obrigassem a voltar á estopada do seu reino.

A nós outros, senhor, coube-nos ainda a gloria de conhecer no Bignon esse adoravel cosmopolita, que tinha a sabedoria de preferir a commodidade de um chapeu mole de _Pinaud et Amour_ ao peso de qualquer coroa d'este mundo. Era, como vossa alteza, um louro,--um pouco mais fulvo apenas. Usava as suissas em _cotelette_, caminhava lentamente, como um piccador fatigado ao acabar de desmontar, e apesar do seu desdém de toilette e de maneiras, havia n'elle a distincção dolente de um antigo sangue nobre, a alta aristocracia cançada e fastienta da preclara familia de Nassau.

Não houve cartas regias, nem negociações diplomaticas, nem enredos, nem violencias, nem ameaças, nem esforços d'ordem alguma que o levassem a demover jamais de Paris a sua mala grande.

Um dia o rei da Hollanda, que os encantos de Madame Musard distrahiam algumas vezes dos interesses da politica neerlandeza para as convivencias da _Maison Dorée_, encontrou-se com Citron, de passagem, no foyer de um theatro do boulevard. O soberano incognito abraçou o filho pela cintura com effusão e firmeza, e disse-lhe peremptoriamente:

--O menino vae d'aqui sem mais perda de tempo lá para baixo para a Hollanda reinar. Quem fica em Paris agora sou eu. Tenho aqui no bolso a minha abdicação, e vou já lá dentro ao foyer dos artistas assignar-lh'a. Acceite os meus parabens.

Citron, inclinando-se, agradeceu commovido, e accrescentou:

--Espera-me então aqui um momentosinho, que eu venho já ...

Foi essa a derradeira vez que o monarcha dos Paizes Baixos viu o seu herdeiro n'este mundo. Pouco depois Citron morria na sua cama de rapaz na rua Auber, firme e feliz na inveterada convicção de que é melhor ser um _viveur_ morto do que um rei vivo.

Uma vez em Paris, simplesmente mas confortavelmente instalado n'um _entresol_ sobre os Campos Elyseos, ou n'um terceiro andar sobre o Luxembourg, segundo os seus gostos de _clubman_ ou os seus gostos de litterato, tem vossa alteza naturalmente indicados os indivíduos que devem constituir a sua primeira roda de companheiros.

Tem o snr Rodrigues, distincto alumno de medicina, para o pilotar no mundo scientifico. Tem o snr Mariano Pina, espirituoso folhetinista, para o guiar no mundo litterario. Tem o snr Loureiro, o snr Columbano, o snr. Monteiro Ramalho e os demais pintores portuguezes para o introduzirem no mundo artistico. Sahindo do mundo onde a gente estuda, tem, finalmente, vossa alteza o snr Jeronymo Collaço de Magalhães para o levar ao mundo onde a gente se diverte.

Paris inteiro se resume n'isso, e todo o mundo se acha resumido em Paris.

Qual tem de ser ahi o novo quadro de estudos destinado a refazer nas suas verdadeiras bases a educação de vossa alteza? Nada mais simples! Quem sabe mais d'essa materia do que os melhores pedagogos é toda a gente. Vossa alteza fará sabiamente o que faz toda a gente que se instrue, isto é, começará a aprender tudo aquillo que o trato do mundo em que entra lhe mostrar que não sabe.

Vossa alteza levanta-se, como todos os que se presam, ás seis horas da manhã; toma a sua douche ou um banho morno, fazendo-se pistonnar com agua gelada pelos seus lados fracos; monta em seguida o seu cavallo irlandez, e vae com o sr. Jeronymo Collaço galopar para o Bois de Boulogne. Confere-se depois uma hora de esgrima e do tiro ao balão, e em seguida almoça no _cercle_. Vae com o snr Mariano Pina ao Collegio de França e ouve a lição do snr Renan. Vae com o snr Rodrigues á Escola de Medicina e assiste á prelecção do snr Charcot. Vae com os pintores ao Louvre e olha para a Venus de Millo. Sobra-lhe ainda tempo para dar a volta da tarde em carroagem no Bois, e para comparecer n'um _five o'clock_.

A' noite--como se não é principe impunemente--as conveniencias exigem a toilette ceremoniosa para jantar, a casaca ingleza, a gravata branca, e a perola preta cercada de brilhantes no peito da camisa. É inutil dizer que se não põem condecorações. Só os porteiros, os dentistas e os prestidigitadòres é que usam hoje esse arrebique de mau genero.

Á noite convem á idade e á posição de vossa alteza uma hora de conversação mysteriosa ao fundo de uma _baignoire grillée_ n'um pequena theatro.

Um só dia d'estes prehencherá melhor a educação de vossa alteza do que seis annos de estudo sobre o _Direito Publico_ do visconde de Lagueronière, ou sobre o _Direito internacional_, de Bluntschli, com o snr Marlens Ferrão debruçado em cima do hombro de vossa alteza, a explicar os textos no lento rom-rom coceguento e rhythmico dos sabios antigos e dos gatos velhos, tão propicio ás somnecas!

De quando em quando será util que vossa alteza vá ao Bullier beber cerveja com os estudantes, ou que ponha o chapeu tyrolez, de feltro branco com uma papoula bordada a matiz, e consagre um domingo de sol a um _croquis_ de impressão na floresta de Fontainebleau, indo em seguida provar as frituras de Barbizon em companhia d'artistas.

Ouvirá talvez vossa alteza fallar nas _cocottes_. Chamavam-lhes n'outro tempo as _cortezãs_, chamaram-lhes depois as _lorettes_, e principiam a chamar-lhes agora as _horisontaes_. A trajectoria do nome indica bem a decadencia de um genero, que nem desaconselhamos nem aconselhamos a ninguem.

Diremos apenas que, economicamente, a cocotte representa no equilibrio social o mais importante beneficio. Ella é o apparelho dispersor do dinheiro, da influencia e da auctoridade, que o agiota condensa. Se a cocotte não desgregasse o agiota, o agiota englobaria em si o universo.

De tempos a tempos lá surge no horisonte um filho-família, desolhado, casposo e de unhas roidas, a queixar-se aos caixeiros sentimentaes e ás burguezas romanticas de que uma d'essas más mulheres o trahiu e o abandonou, a elle, alma enthusiastica e pura de poeta pobre, á qual a perfida preferiu os joanetes de um banqueiro rico.

Se ellas não tivessem o sublime bom senso de produzir periodicamente algumas choradeiras d'esta ordem, veja vossa alteza em que linda posição social que ficavam para a velhice os filhos-famílias que se apaixonam por essas damas e que em nome da poesia lyrica se julgam no direito de ficar ao pé d'ellas para toda a vida!

Bem estamos vendo d'aqui o snr conselheiro Viale velando as faces horripilado perante, este genero de conversação. É certo porém que, se d'este mesmo assumpto Homero não houvesse feito um poema, o mesmo snr pudico Viale não teria hoje a _Illada_ para n'ella dar lições a vossa alteza.

Para os reis insalubres, productos de velhas raças nobres, aristocratisadas de mais e cahidas em languor pelo derramamento excessivo do azul no sangue, são frequentemente utilissimas as mulheres da categoria a que nos estamos referindo ...

(O snr Martens Ferrão contorce-se ao escutar-nos. Se s. ex.ª se acha incommodado, é talvez melhor retirar-se, porque nós temos de continuar ainda por um momento. E quando voltar que s. ex.ª traga comsigo a _timbale d'argent_. Vossa alteza reclama-a. Que lh'a dêem!)

A glória do reinado de Luiz XV, por exemplo, vem toda da Pompadour. Se essa elegante e espirituosa mulher não tivesse feito ao rei de França a alta honra de ser por algum tempo sua conviva, uma multidão enorme de coisas encantadoras, que enobrecem a civilisação moderna, não teriam jámais vindo ao mundo. A essa ligação, providencial para a arte, devemos hoje os deliciosos retratos de Latour, o fino genero pastoril de Watteau, as _pâtes tendres_ de Sèvres, as mimosas estatuetinhas de Saxe, os mais lindos relógios e os mais graciosos canápés do mundo.

Da gloriosa protectora e mestra de Luiz XV dizia Voltaire:--_Elle est des nôtres!_

Ha fortes probabilidades para crêr que de nenhum dos mestres de vossa alteza elle dissesse outro tanto.

Vossa alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza, vulgar e corriqueira de mais, a existencia a que o introduzimos ...

Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!

Ninguem é grande nem pequeno n'este mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam, das ideias que diffundem e dos sentimentos que communicam aos seus similhantes.

É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d'elle pertence ao ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando tornal-o, na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais bello.

Assim, cada um tem em si, superior a todas as torpesas da terra, impolluta, inviolavel e sagrada, a mystica torre eburnea em que habita a aspiração immortal do espirito do homem.

É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.

É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo sacrificio de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura do vulgo, e ser um homem.

Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!

Não há hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para outro qualquer officio. Há uma instrucção geral e há uma instrucção technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisível.

Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação, por mais alto que o colloquem, fica sempre um subalterno.

No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral. Veja vossa alteza os moles principes dos reinos da Italia, que o avô materno de vossa alteza unificou, como em tão pouco tempo desappareceram todos, sepultados nas trevas de um silencio tragico! Compare-os com os reis, tão fortemente instruidos, das pequenas nações confederadas da Allemanha, e pondere como estes persistem na tradição e na continuidade histórica!

Portanto, e em conclusão:

Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa á patria um cidadão instruido; á humanidade um homem justo; á natureza um sadio e valente animal.

A seus paes, aos seus mestres e á sua corte, é doloroso mas é indispensavel que vossa alteza dê egualmente aquillo que lhes deve:--desgostos!

Esquecia-nos tocar n'uma questão secundaria, mas opportuna: a questão dos meios, na previsão de que, perante a fuga de vossa alteza, o, snr Nazaretb delibere cortar-lhe os viveres.

N'este ponto, como em tudo o mais, _As Farpas_ estão á disposição de vossa alteza. Ainda uma linha pelo telegrapho a esta redacção, e nós abriremos desde logo para o fim de occorrer, em nome da justiça e do bom senso, ás despesas da livre viagem de vossa alteza na Europa, uma subscripção nacional.

Poderíamos consagrar aqui algumas considerações ás vantagens economicas que n'esta conjunctura teria para vossa alteza a posse de um officio. Desde este momento porém a nossa attitude de banqueiros de vossa alteza põe em nosso lábio o sello da reserva.

Faremos fervorosos a subscripção.

O snr Brazza ainda ultimamente fez uma outra em favor do rei Macóco, e tirou consideraveis resultados. Ora vossa alteza não é menos do que Macóco, e nós somos mais do que Brazza. Porque esse sujeito só o outro dia é que descobriu o Congo, e veio com isso para os jornaes e para as revistas, como com o mais rendoso achado d'este mundo; ao passo que nós somos os descendentes d'aquelles que há alguns centos d'annos descobriram esse mesmo Congo, e--como vossa alteza sabe perfeitamente--nunca o mandamos botar á folha! Aos pés de vossa alteza.

_Ramalho Ortigão_.