As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05/06)

Part 3

Chapter 33,766 wordsPublic domain

* * * * *

Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:

* * * * *

Santissimo Padre

Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.

Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo, dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_ chamava simplesmente a--_santificação do quinquagesimo anno_.

O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_), preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma solemnidade unica na historia--a reunião em Roma do genero humano prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo final, no valle de Josaphat.

N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a sagrada collina.

Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso, Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»

Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em seu nome e segundo a sua doutrina_.»

No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas. Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»

Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos, cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon, os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no _Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada de sangue de um gladiador ou de um martyr.

Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os homens eram isto?

Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda, desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador; onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um relicario um dedo--do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.

N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_

Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem, cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso espremido.

E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.

Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de paz, de liberdade e de justiça.

Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia caminha.

É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão ser tragados pela vaga.

Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem se quer tenta lutar!

O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta pela existencia.

Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na poesia, na arte, na moral e na propria religião.

Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana, experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda edição.

Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção, deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin, basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da creação sem quebra da infalibilidade suprema.

Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino, porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas, reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera, porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual--o poder da consciencia na comprehensão da solidariedade humana.

Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos logares!

Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de Bulhões.

Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em segunda classe!

Porque elles entendem--principalmente depois que o fogo do Santo Officio deixou de afervoral-os--que não é facil despir os peccados como se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma viagem a Roma.

Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.

Estão profundamente convencidos--os herejes!--de que, acima da auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto--o poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.

Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco--simplesmente porque obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America, que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da historia, mas sem a benção dos papas.

Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,--como seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,--estas convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região do globo.

E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.

Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado, perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança, vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia unificada.

Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella se distingue do erro e da mentira.

Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a dieta!

Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo exclusivamente verbal,--mandando partir os seus exercitos.

Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.

Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é, como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.

* * * * *

Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de tomar a primeira communhão.

Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza a theoria do resgate da culpa pela penitencia.

A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo, alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo nas almas dos principes devidamente desobrigados.

Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente esse augusto espectaculo.

* * * * *

Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.

Parece-nos--comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente timida--que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu parocho.

Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_ applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o principe da pureza mystica do manjar.

A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr. D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.

Porque--acreditem-o--não é com a presença do illustre e correcto bispo portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos, com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.

* * * * *

Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do commandante!

* * * * *

Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero. Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!

* * * * *

A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte questão:

O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o dominio das nossas colonias?

Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é crear faculdades dominantes.

Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.

A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.