As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05)

Part 4

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Taes foram as razões porque--ao terminar ha mez e meio a leitura do _Primo Bazilio_,--uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve gloriar uma litteratura--nós fizemos esta prophecia: Que este livro seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da biologia, instrumentos inuteis--ás vezes perigosos--para todo aquelle que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a divina revelação de um novo mundo.

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O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr. Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

«Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas, exclamou:--Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

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O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr. Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se ..._

Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! ... Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno? Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles dizeres?

Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de jantar:--_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_--; se tal phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado abstracto de suspeita destituida de fundamento,--o paiz não póde cruzar os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

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Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo especial:

1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um viajante.

3.º Não ter dado pateada a um lente.

4.º Parecer constrangido a dar lição.

5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

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Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4 appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos universitarios ás familias dos alumnos condemnados:--No que o Poder mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de legislador mediocre.

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Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e absolvidos pelos tribunaes civis.

N'esta conjunctura perguntamos:

É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem contrarias?

Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade que ainda possa haver na mocidade portugueza.

Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente, com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

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Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris, proprios de uma mocidade honesta e forte:--a gymnastica obrigatoria, a escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

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No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,--no paiz em que Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os seus aulicos,--no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso para prehencher essa omissão,--na velha, na religiosa, na solemne Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras seguintes:

«Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e desconheceriamos o dever.

«Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade. _Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia ethica da regeição dos dogmas.

«As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

«Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é insufficiente para nivelar.

«Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_ e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

«Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_, comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham em si um caracter offensivo.

«Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto emprego dos seus ultimos momentos.»

Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes é christão, o outro não.

O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e, comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais delicada flor da cavalleria.

O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade; é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

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Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio fundamental da conciliação das consciencias!

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Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo, tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem escravisados pelos poderes clericaes.

Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos crescem. Crescem em virtude de que lei?

Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador operario acrescenta:

«Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

«Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? ... Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas gerações.

«É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a legislação humana e a moral universal.»

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Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas perigosas e banidas das discussões publicas.

Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa, evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações, como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por todos os meios ao seu alcance--meios tumultuarios, illegaes, vexatorios--a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,--o atheu morto.

Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia, a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o resultado--n'este caso benefico--da indisciplina geral dos serviços publicos.

Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo d'ella:--por falta de inspecção e de policia.

Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se armam.

Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

«_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do _Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1 para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6. Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio. Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e religiosa.»_

A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos, foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual, compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio, em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D. Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City, onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza, feitos na rua dos Correeiros.

Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama, Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã, Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D. Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de secretaria.

No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a litteratura de uma nação.