As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05)

Part 2

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O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças, das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_, pelo revd.º padre Hugnet--_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos exemplos.

Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um estado do satisfação ineffavel.

O sr. A. de L ..., tendo entrado na insurreição do Var, com um escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag. 20.)

Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._, diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno, pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão de diabos não roguem esta praga medonha:--Que nós levemos os escapularios!

As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver por um oculo!

O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia, da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o dito padre Guglielmi.

De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca--retalho quadrado ou oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a virtude--applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!

Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer ... O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres! Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!

Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções ...

Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do jornal! Cruzes, demonio!

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Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas todos?

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Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a esta--o _fadista_.

Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente, constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella, frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e adormecidos.

Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo, em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror, conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da vadiice, e tomou então o nome de--fadista.

O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade. Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular--as _escovinhas_. Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria, onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados, que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta, esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e miseravel.

De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a todos os machos.

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É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os incorrigiveis da criminalidade.

A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos, mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor expediente seria a morte.

É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos repetidos?

A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

É.

N'este caso pergunta-se:

Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda, continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a instituição concomitante que a justifica e a consagra:--a loteria.

Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

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O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a photographia no commisariado geral.

Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede aos fadistas.

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Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros, esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes, açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões lombares das musas.

Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!

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Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta annos.

Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na _Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II; concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis! De quando em quando observava-se que ella começava de repente a encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião, e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico. Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes, achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa, choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias, tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba, ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube. Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora, com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.

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Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana, que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo presente.

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_O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e o que pertence aos dominios da pathologia social.

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Eis a doença que este livro accusa:--A dissolução dos costumes burguezes.

O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte: No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos ver porquê.

Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a representação da vida exterior e o systema da vida intima.