# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02/05)

## Part 1

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RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL

DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON

SUMMARIO

Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados: de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos--A gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi, Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos pares--O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar--A criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto--A ideia velha e a ideia nova.--Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus. Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle carpinteiro--O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A educação burgueza e o realismo--A escola nacional dos poltrões. A covardia, instituição publica, etc.

Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como pertencendo a duas classes distinctas:

1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;

2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos Estados.

Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva, isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é convencional e contingente,--n'essas sociedades não podem dar-se senão os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc., tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser collectivo.

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A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares, distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses feridos pela perpetração do delicto.

É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade, unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas; ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos, pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de vingança.

Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que crimes, são verdadeiros erros!»

Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas sancções penaes.

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Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes attentados e despedindo os reos em paz!

No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a oito annos de degredo para a costa ds Africa!

O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

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Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma iniquiedade monstruosa.

O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento do serviço militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses. Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas as sociedades teem em que deixe de haver militares.

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O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas alcoolicas--o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel, convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos instrumentos da perpetuidade da raça.

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Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.

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Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a gymnastica tinha um caracter immoral.

S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço que medeia entre o tapete e o lustre.

Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s. ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_ mas sim mais modestamente--_a hygiene do movimento no corpo humano_.

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Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.

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O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno procere um tão ligitimo horror.

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A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações, todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade central, é a gymnastica.

O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»

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Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma, frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de exercicio.

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Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo doutor Burq.

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A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos exercicios gymnasticos.

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A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.

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Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.

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Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue, de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a obesidade e contra a idiotismo.

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Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as duas casas do parlamento.

Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que n'aquellas em que a gymnastica não existe.

Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei, esqueceu uma disposição--precisamente a unica que teria alcance--um artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.

O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por que--digamol-o francamente--o que é o _cachenez_ do nobre duque presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado--obrigado a ferros, em nome d'el-rei--a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos seguintes movimentos:

Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100 vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a meditar sobre a felicidade da patria.

No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios seguintes:

Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos). Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

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Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto, n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo: Velar-lhe a face!

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A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre cego já vê, a paralytica já anda_.

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Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos, foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice, que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! ... Ora muito obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que lhes deram. Porque nós--e a _Nação_ bem o sabe!--nós temos devoções locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos resultados obtidos pela romagem.

Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa locomotores com agua das latas?!

E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes, chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do largo de S. Roque?

E ainda ousam dizer-nos--o que não póde ser senão por escarneo--que ella _andou!_? Olha a grande façanha--_andar!_ Mas, senhores, tendo tido trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a maior do que as que levou!

Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas que visse tambem por outros membros.

Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão, pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros vemos que a paralytica nos sae pedrez!»

Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda ordem, porque os ha muitos maiores.

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Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.

