# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05/06)

## Part 5

Book page: https://www.cyberlibrary.org/pt/books/as-farpas-chronica-mensal-da-politica-das-letras-e-dos-costumes-9aa9cf23/index.md

Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.

Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.

* * * * *

Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.

Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da baleia ao cabo de Finisterra.

As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.

O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17 milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12 mil marinheiros.

Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas legisladas pela Revolução.

Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto. D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.

Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas constituem um artigo especial presadissimo dos _gourmets_; dos intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se com grande vantagem na pesca da sardinha.

Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau, pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar, o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração colonial, um só instante de attenção.

O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.

Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as instancias feitas para este fim teem sido inuteis.

Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo nacional!

E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr. marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas. Cheios de _vermine_, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas, que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo fisco.

Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida terra da patria!

A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes amos.

E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia, feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!

Como a administração das nossas colonias depende directamente da organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.

Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das conferencias--um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de applauso para a missão do sr. Capello--o primeiro passo para atacar o mal na sua verdadeira origem!

* * * * *

Do estado verdadeiramente deploravel em que se acha a nossa força maritima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na folha official todas as praças de infanteria ou de caçadores que para esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta comprehensão:--que elle se fabrica por meio do abono de quatrocentos réis por dia dados a um soldado de caçadores!

Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma escolha baseada na côr dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo assim, como querem sujeitar á vida sedentaria do mar e á familiaridade das ondas esse montanhez, que nunca pegou n'um remo, que chegou das Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrella e que sente as pernas enferrujadas e o pulmão opprimido desde que não anda mais de uma legua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu quartel?

Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.

Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação se faz por meio de cartas inglezas.

Os jovens marinheiros a que nos referimos, impellidos por esta vergonha da nossa marinha, quizeram levantar a planta do porto de Loanda. Empregaram todos os esforços para obter os necessarios instrumentos, não puderam conseguir senão unicamente a offerta de um bote, unico elemento de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição d'esses extravagantes. Elles comprehenderam então que não tinham senão uma coisa que consagrar aos destinos da patria; não era o talento, não era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saude. E foram immolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.

Quando os nossos officiaes teem conseguido arruinar completamente as suas visceras na inanição official das nossas estações de Africa, voltam doentes á metropole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes incumbiu tomando as aguas alcalinas de Vidago.

As aguas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.

* * * * *

Emquanto estas coisas se passam os inglezes, com um poder creador que faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada dia pretextos novos para intervirem com o _seu protectorado humanitario_ nos negocios do interior africano, e dilatam a pouco e pouco a sua occupação e o seu dominio manso sobre o nosso territorio.

* * * * *

Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos escravos, que ainda ali vigora.

Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.

Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.

Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental, levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de Moçambique.

Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem--o doutor Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos, desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.

Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero, deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.

Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas as leis da natureza humana.

Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo para nos informar do que se passa em Africa!

O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita em Londres foi o seguinte:

«Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro dizendo-nos: _Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos_. Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa, trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»

Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.

Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot, confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em Lisboa em uma carta publicada no _Progresso_ pelo sr. Pinheiro Bayão, que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.

Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva compacta.

[Nota 1: Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o _Seculo_, de Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente escripto pelo sr. Correia Barata.]

A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso da sociedade humana.

O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que dar-lhe:--nomear uma commissão de inquerito que syndicasse rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.

Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao sr. Cameron as informações que este lhe prestára.

D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do _Times_ a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se pode inflingir a uma sociedade.

O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso que dizemos aos srs. deputados:

A verdade, meus senhores, é o que vos disse o _Times_. «A questão, como diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»

Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem de que a verdade seja differente do que é. A declamação n'este ponto é completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro exercicio de eloquencia nacional.

Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação. Vós contribuis apenas para o _Peculio de Oradores_, do sr. João Felix.

