As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)

Part 4

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Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um _entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte, até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.

Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de baixo.

Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?

A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham. N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que é? Pois bem! É a benzina!

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A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o authentico manifesto politico de um principe proscripto.

Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.

Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio da nossa raça! Que degeneração!

O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador, o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde, a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o partido liberal portuguez.

Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_, foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_, figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes concentravam-se.

Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!

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Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira Martins.

A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos, não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.

O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade, a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da politica da sociedade moderna?

Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?

Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema representativo?

Não nos parece.

O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas, não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

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É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, tão viva, tão humana:

«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, se funde a feria?

A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na _fabrica_ ...»

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A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que, pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.

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Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira medica.

A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.

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Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se dignarão responder-nos.

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O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do presente inverno com um jantar _prié_.

Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr. marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação finalmente, com a idealidade, com o espirito.

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Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações, as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas sobre um ramo de rosas.

Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo do gosto.

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Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, lhe pedira a palavra.

Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:

_Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.

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Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em irem ... para a mesa!

Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, venciam batalhas, conquistavam reinos.

Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!