As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11)

Part 2

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Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

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Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas, lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios, eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para conseguir o seu fim.

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Que pretende a associação catholica?

Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque Portugal, é por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não, pelas razões seguintes:

Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o, inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a _Nação_, e quasi sempre é rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação Catholica influe, aconselha ou dirige?

O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre ultramontano.

Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave. Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, o sr. conde de Samodães apparece.

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A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais inviolavel e de mais sagrado?

Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo. Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»

Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão os homens?

Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da _Illustração_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade!

Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um _fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve dissertação sobre os novissimos do homem?»

Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

--«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»

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Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e não os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e prostrar-vos na penitencia e na oração.

Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos bons.

Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, passando, esta palavra séria:

Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade é uma religião.

* * * * *

Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e os senhores liberaes tambem se não retiram.

Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a _Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um _Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. 4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do Porto!

Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas aos seus adeptos.

Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade e sobresaltar o paiz.

É singular esta coincidencia:

O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a egreja catholica como um perigo para a liberdade!

No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos. Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida. Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã. Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu á mecanica e Lavoisier á chimica.