# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09)

## Part 5

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Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas producções litterarias do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas collecções dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos dizel-o--não ha um só artigo grave, serio, meditado, revelando conhecimentos praticos, aspirações elevadas, pensamentos nobres. De tantos problemas sociaes que affectam a condição da mulher na sociedade contemporanea e que sollicitam a attenção d'ella, para serem resolvidos pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um só foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem versos--não como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente publicados constituem uma revolução na poesia moderna e são o grito mais profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais sedenta de verdade e de justiça,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade de segunda mão, sem ideal, sem paixão, d'uma pieguice grotesca. Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um dandysmo, cuja legitimidade está longe de poder ser absolutamente garantida, não dizemos já n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um simples tribunal de cabelleireiros. E é para nos dar estes lamentaveis fructos da sua educação exclusivamente litteraria, que tanta menina honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do _ménage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego na vida pratica, cheia de falsas aspirações, de desenganos e de tedios permanentes.

Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as collecções estrangeiras collaboradas por mulheres. É esse o melhor modo de reconhecer como a educação pratica da _ménagère_, eleva o espirito, como a educação litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeiçoado profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noções praticas. Não ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma réclame de modas.

Taine cita no seu livro ácerca da Inglaterra varios artigos de mulheres publicados nas _Transactions of international association for the promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

_Applicação dos principios de educação ás escolas das classes inferiores_, por Mary Carpenter;

_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

_A condição das mulheres operarias em Inglaterra e em França_, por Bessie Parkes;

_A escravatura na America e sua influencia na Grã-Bretanha,_ por Sarah Remand;

_Melhoramento das «nurses» nos districtos agricolas,_ por mistress Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho ás mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informações pelos muitos amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando uma vida extremamente simples e retirada.

Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _ménagères_ produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a educação literaria, segundo os programma dos lyceus, nem dá _ménagères_ nem dá literatas.

Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que désse alguma coisa?...

