# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09)

## Part 4

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Acontece muitas vezes que o consultante não tem dinheiro e pediu emprestado o fundo do pé de meia. A necessidade porém de consultar o letrado é para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o medico. Com uma differença: Todos os medicos teem uma hora por dia em que dão consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados não teem egual caridade com os ignorantes pobres. Além do soccorro desinteressado de todos os medicos, os doentes têem ainda o banco dos hospitaes. Para os ignorantes não ha recurso nenhum. A escola é inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza não ensina aos cidadãos quaes são os seus direitos nem quaes os meios de defesa perante a violação d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doença. O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com dobrada rasão ter consultorios egualmente gratuitos para a justiça. Os advogados pela sua parte, não contribuindo como contribuem os medicos para prestar á sociedade na maxima amplitude os serviço desinteressados que a sciencia Ihe deve, dão-nos dos sentimenaltruistas da sua classe, por tantos outros titulos respeitavel, uma idéa bem triste.

Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orphão e da viuva, o que nãos os impede de protegerem pelo mesmo preço os que opprimem a viuva e os que tyrannisam o orphão.

Os srs. advogados são com o ardor mais convicto e mais eloquente os defensores da causa da justiça e do direito e bem assim da causa contraria.

Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, são conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preço que deseja pagar.

Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoção que se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

O tempo preciso para expôr a questão e para levar a evidencia ao espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a tabella dos preços. Como tempo é dinheiro, quem quer mais tempo paga mais caro. Quando o réu é abastado ou opulento a questão não se esclarece senão á noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o réu é pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a cadeia. O que escreve estas linhas já ouviu esta concisa oração de defesa: «Srs. jurados eu não tenho que dizer senão duas palavras: Esse selvagem (apontando para o réu) estava bebado.» Assim se justificava o crime de um homem que não tinha pago as circumstancias attenuantes ao defensor.

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Não será util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados restrinjam o campo, que offereccem ás correrias do epigramma, introduzindo alguma caridade nas suas relações com os pobres? Não poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s. ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.

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Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco mais ou menos do teor seguinte:

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«Mais um florão acaba de ser acrescentado á corôa da sr.ª D. Jeronyma, directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da Santíssima Purificação,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado esquerdo. Foi hontem examinada em instrucção primaria e approvada com dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr.ª D. Jeronyma e aos carinhos dos examinadores de sua debil e tímida menina, a todos consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.»

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A inundação dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu nacional começa a tornar-se um fim na educação ministrada ás meninas nos collegios de Lisboa.

A pedagoga sr.ª D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas as idéas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas ás _réclames_ das suas distribuições de premios.

Este anno a menina Fernandes foi approvada em instrucção primaria. Para o anno proximo será approvada em francez. D'aqui a tres annos obterá egual exito com relação á lingua ingleza.

O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, terá publicado a esse tempo dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr.ª D. Jeronyma, e recobrará completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita professora _dá-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida. Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr.ª D. Jeronyma, _as prendas de mãos proprias do seu sexo_. Estas prendas consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de uma monstruosidade mythologica, feitos a lãs, a matis, ou a missanga, com olhos de vidro, beiços de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a data da confecção do monstro feita em cruz, e em formosas letras de bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

_Elvira Fernandez me fecit._

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Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas porque as não pratica na conversação ou no estudo, e não sabe uma palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os conhecimentos theoricos da formação das palavras.

Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prière d'une vierge_ ou _Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas almofadas do salão, aos cantos do sofá, e sobre os assentos das poltronas.

Polycarpo reconhecerá então--demasiado tarde, ai de mim! ou antes «ai d'elle!» ou melhor ainda «ai de nós todos!»--que D. Elvira possue, no estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a sua difficil funcção que exercer como filha, como irmã, mais tarde como esposa, e finalmente como mãe.

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De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem absolutamente os fins da educação, desviam-a do verdadeiro ponto de vista pedagogico, são uma ostentação ridicula, offendem o bom gosto, desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo, incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a missão a que ella é chamada na familia.

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Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes é bastante obtuso para não prever os perigos da falsa educação ministrada a sua filha, e não só não protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma, mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao Estado cumpre intervir; não se tornar solidario das illusões de Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D. Jeronyma o direito de a levarem a exame.

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_Levar a exame_! Só a palavra é um ultrage da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo do direito paterno tudo quanto ha mais delicado, mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o espirito virginal de uma menina,--ao interrogatorio official de um mestre que durante vinte minutos vae exercer sobre aquella alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um tal inquerito, um tal julgamento, póde ser desculpavel na educação de um rapaz, para quem o exame é uma habilitação legal para a sua carreira civil; na educação de uma menina portugueza similhante prova é inadmissivel e equivale a uma amputação do decoro.

Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas a uma creança para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a tornar mais educada.

Pelo que, a obrigação do Estado seria prohibir os exames da instrucção primaria e de instrucção secundaria para todas as pessoas do sexo feminino que não juntem ao requerimento de matricula attestado de maioridade e de emancipação legal.

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Em um exame de instrucção primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este dialogo:

_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

_A examinanda_--Quando me vou deitar...

_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

_A examinanda_(córando até á raiz do cabello e baixando os olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir o que faz?... A menina não ouve?... Ou finge que não ouve?... O que faz depois de se despir?

_A examinanda_--Tenho vergonha...

_O examinador_--Não tenha vergonha. Responda para diante!

_A examinanda_--Depois de me despir o que eu faço é...

E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo, com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco annos, n'essa lingua que os homens só fallam ás suas mães na pureza da innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que as linguas mortas, traduziu a locução de Plinio: _urinam ex se emittere_.

O professor a que nos referimos foi intimado a não proseguir pelo presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

É assim que nos exames de instrucção primaria se averigua se as alumnas sabem ou não «civilidade».

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Se a sr.ª D. Jeronyma carece das noções precisas para dirigir a educação de uma menina, é preciso dar-lhe essas noções, ou prohibil-a de educar, restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

A reforma da instrucção das mulheres é em Portugal ainda mais urgente que a da instrucção dos homens.

As linguas não constituem instrucção, porque não ministram conhecimentos, são apenas meios de os adquirir.

Esses conhecimentos indispensaveis á mulher deveriam constar, na educação elementar, dos seguintes ramos de ensino:

1.° Curso de aceio e de arranjo;

2.° Curso de cozinha (chimica culinaria).

3.° Contabilidade, escripturação e economia domestica.

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No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia, juntamente com as necessarias habilitações litterarias para adquirir idéas, as seguintes noções praticas:

Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os melhores pós de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras; de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos; de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas. Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a bateria das caçarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de mesa em lotes numerados; de pôr a mesa para os grandes e para os pequenos jantares.

Este curso completar-se-ia com algumas noções accessorias: dos differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas épocas mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louças, vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no vestuario, e historia da fabricação d'esses estofos.

No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

O caldo é a base do toda a alimentação sabiamente dirigida, não porque o caldo de per si só constitua um alimento importante, mas porque é o caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma boa digestão.

Toda a mulher que não sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia nacional.

Não temos estomagos sãos porque não temos mulheres instruidas. Esta affirmação póde parecer uma phantasia do estylo; é uma pura verdade physiologica e é um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o que é um caldo, porque esse delicado producto chimico só o sabem preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que não podem aggregar-se funccionarios d'esse preço e que não são dirigidas por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A condição essencial do caldo bem feito é que elle contenha a maxima quantidade de materias odoriferas extraídas da carne, (vid. Liebig), que não tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e perfeitamente transparente.

Se tivessemos alguma esperança de que a sr.ª D. Jeronyma o ensinasse ás suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr.ª D. Jeronyma acha mais util ensinar o que é o _substantivo_. Como se alguem no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o _substantivo_ é! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos), não estivessem mesmo convencidas de que jámais existiu na natureza o _substantivo_, e que elle é uma pura chimera menos interessante que o papão!

Ha todavia no mundo quem não seja inteiramente da opinião da sr.ª D. Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow, demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlação que existe no seio de uma sociedade entre a condição das mulheres e o progresso da civilisação depende de uma outra correlação não menos intima que existe entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um povo, do seu caracter, da formação das suas idéas, é a sua alimentação. É principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada governa o mundo e determina o destino das sociedades.

Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem chamado para este assumpto a attenção dos poderes publicos e da iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos ácerca da regeneração da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das cozinhas dos differentes póvos, etc.

A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de não saberem as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que obstava ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento physico e moral dos seus habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento publico de educação feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso estabelecer não menos de vinte e nove succursaes da escola de cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas estão inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e descem aos processos indo trabalhar alegremente á banca das operações, ou junto do fogão, vigiando a cassarola e o espeto.

Um só facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na economia domestica: As classes de cosinha da instituição britanica estão divididas em varias secções dependentes do orçamento a que as familias teem de cingir as suas despezas; ha uma secção destinada a ensinar os meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia que não possa applicar á cozinha mais que uma verba de 1$600 réis por semana! Em Portugal tão descurado está este importante assumpto que, não obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, é inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 réis por semana um conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado praticamente como na Inglaterra, ensinando-se ás alumnas o valor chimico das principaes substancias empregadas na alimentação, o seu preço ordinario no mercado, a sua acção physiologica sobre o nosso organismo, o modo de variar os jantares segundo as occupações de cada dia, segundo o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estações do anno em que elles houverem de ser feitos.

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No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos até os mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o balanço entre as posses e os gastos, lançando em conta de receita todos os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos differentes capitulos orçamentaes: a renda da casa, a acquisição e os reparos da mobilia, o vestuario, o serviço, a illuminação, a lavagem, as despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial, indispensavel em todo o orçamento, grande ou pequeno, de toda a casa sabiamente dirigida.

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Fortalecida com a educação feita n'estas bases, esboçadamente expostas, a mulher terá dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua verdadeira emancipação. Porque emancipar-nos não é em ultimo resultado mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade serviços equivalentes ou superiores áquelles que recebemos. Com a mulher invencivelmente armada com as aptidões que requisitamos para que ella seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com que nos ameaça o proloquio vulgar: _uma casa é uma loba._ Não; a casa, dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a, é a ordem, é o methodo, é a economia, é a estabilidade, é a fixação do destino, é o baluarte do homem. A funcção da mulher bem educada é essencialmente protectora. Na lucta da vida por meio da alliança conjugal e da ligação domestica, o homem é a espada, a mulher é o escudo. O fim da educação feminina é compenetrar a mulher da responsabilidade da sua missão e fortificar-lhe o braço que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso doce refugio.

Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino, é um facto dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos está sempre em relação constante com o preço dos trigos. Se o pão encarece os casamentos diminuem. A' baixa no preço do pão corresponde pelo contrario uma elevação proporcional no numero dos casamentos. O casamento, portanto é um facto moral estreitamente ligado não a um phenomeno esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento é a economia. A economia domestica é a primeira das aptidões com que deve dotar-se a mulher.

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Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educação da mulher está passando por uma revolução profunda suscitada pelos esforços de todos os pensadores. A educação vulgar da mulher moderna reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da aspiração das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doçura, a graça, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos cultivados na educação das mulheres honestas eram attributos exclusivos das cortezãs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas não conhecem as effusões e os arrebatamentos da paixão; não são timidas nem scismadoras; têem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As meninas ricas eram educadas em casa com seus irmãos por escravos instruidos e letrados; recebiam as mesmas lições e estudavam nos mesmos livros. As pobres iam ás escolas publicas, no Forum, juntamente com os rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

Na idade média, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio das armas, não tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na mãe de Godofredo de Bulhões, na amante de Abeilard, recebiam a mais esmerada educação litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da meteorologia nas obras dos arabes.

Em todas as civilisações a mulher bem educada se habilita para desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

Na nossa época de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira das obrigações da mulher consiste em tornar-se util. Ser util é para ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora. Toda a educação feminina tem de partir d'este principio.

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A alta cultura do espirito, tão necessaria á mulher para que ella assuma na sociedade a parte do poder a que tem direito, não se ministra nas escolas, adquire-se pelo esforço e pela applicação individual dirigida por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher só póde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as noções que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores estão subordinadas para a sua assimilação no nosso espirito a esta noção previa: a noção da responsabilidade e do dever. Ora essa noção primordial só a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

O aperfeiçoamento intellectual das mulheres não só não é incompativel, como algumas julgam, com a perfeita direcção do _ménage_, mas antes depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direcção impõe.

Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa é tão lastimosamente ignorada, vejamos quaes são as producções do espirito feminino, quaes são os fructos da educação litteraria desalliada da educação domestica.

Os almanachs da sr.ª D. Guiomar Torrezão têem o grande valor historico de serem o repositorio d'esses fructos. É por esses almanachs que a posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas contemporaneas.

