As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes, (1877-08/09)

Part 3

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Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o direito de apropriação e contra o direito de defesa (artigo 359).

A insinuação feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle não viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que elle não recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa calumnia sob a acção do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

«A responsabilidade criminal consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da omissão (na portaria ha a omissão e o facto) de submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes são a reparação do damno causado á sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil consiste na obrigação, em que se constitue o auctor do facto ou da omissão, de restituir o lesado ao estado anterior á lesão, e de satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.»

Um só caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que perpetrou. Esse caso é o de completa embriaguez ou de provada demencia.

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Cumpre notar que o cidadão João Burnay sobre quem pesa uma tal offensa não é um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios simulados para apadrinhar intrigantes. João Burnay é um engenheiro de primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador elle é o mais elevado exemplo que se pode propor á mocidade portugueza. Nenhum outro homem da geração moderna espalhou como elle em volta de si pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma tão grande e tão preciosa actividade. É o proprietario e o chefe de uma grande officina modelo do seu genero. Pelo exforço do seu talento extrae da natureza os elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisação se lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e mais benemeritos, porque é por meio da iniciativa de homens como elle que os estados se moralisam e se enriquecem.

Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupção elle é impunemente estorvado, calumniado, atraiçoado na mais legitima das suas aspirações--a aspiração do trabalho, por um ministro filho da intriga constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, não exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, não produzindo coisa alguma, não tendo finalmente servido aos seus similhantes para outra cousa que não seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando governa.

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Todavia não queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle é simplesmente o producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste maneira de acabar que o está esperando. Os seus erros successivos offerecerão á critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As suas faculdades não lhe permittirão defender-se.

D'aqui lhe fazemos uma prophecia: será medonhamente batido e deploravelmente derrotado, não porque offendeu o direito na pessoa de um trabalhador obscuro, o engenheiro João Burnay, não porque foi injusto, mas sim porque é inhabil e porque é fraco. É isto, e não aquillo, o que nunca lhe perdoarão os partidos politicos com os quaes irá dentro em pouco achar-se em hostilidade. Será o alvo das retaliações mais violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais explosivos na imprensa. Hão de cercal-o como cercam os cães um javardo condemnado á morte. O improperio ha de se lhe aferrar ás espaduas e ha de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacaré. A logica ha de lançar-lhe ao pescoço a sua golilha forrada de puas de ferro e hade leval-o de rastos por um grilhão atraz d'ella. A pilheria ha-de pôr-lhe rabos. A chalaça ha-de pegal-o com breu á cadeira de ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A pulha ha-de deitar-lhe pós de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e baralhos de cartas. A troça ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas de zabumba em theatro de feira.

E nós apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se destroe para sempre a dignidade de um homem. É por isso que damos ao sr. Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex.ª póde ser ainda um cidadão util e respeitavel. O que não póde é alliar esses titulos com o de ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas, commercio e industria.

Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro, é ser modestamente um bom homem. S. ex.ª póde ser bom homem. Seja-o. Seja-o para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. Vá para sua casa.

Ser um ministro do genero de s. ex.ª é facil. Não o ser, porém não é mais difficil. Vá para casa. Dizem-nos que é rico. É além d'isso anglomano. Vá para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros extremamente inferior á que a sciencia anthropologica exige para a elaboração das grandes e fortes idéas, não o impede ainda assim de ser, por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem até o pescoço de s. ex.ª e deixam a sua pobre cabecinha tanto á larga dentro d'elles como um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigação de possuir precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

A massa cephalica de que s. ex.ª dispõe habilita-o perfeitamente para ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, tão rara, tão preciosa, tão procurada no mercado de Londres. S. ex.ª poderia ainda tentar nas suas vastas propriedades a creação em grande escala dos coelhos, á moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a piscicultura, o aperfeiçoamento das raças lanigeras, o estabelecimento das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex.ª applicasse as forças do seu nervosismo a prestar á humanidade esses serviços modestos mas valiosos, s. ex.ª teria as grandes alegrias, as profundas satisfações tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria querido e abençoado como o d'um cidadão prestadio e d'um homem de bem.

Persistindo em ser um politico, s. ex.ª deixará apenas na terra o desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a, não fizeram senão prejudical-a.

Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A differença é, que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago é o mesmo.

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O registo das producções musicaes portuguezas foi enriquecido durante o periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a attenção que lhe é devida.

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_As Cutiladas do Passeio Publico_ é o titulo de uma polka refutativa dos principios estheticos por onde os doutos costumavam até hoje determinar as fontes da inspiração artística.

Aos elementos que concorrem para a gestação de uma obra d'arte, a orientação ethnologica, a tradição nacional, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova força geradora:--a força da pancadaria.

Na occasião em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles são os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido passeio e a pretexto de não estar plenamente liquidada a questão juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas respectivas mulheres, as suas mães, as suas irmãs e as suas filhas.

Á saida do passeio, uma força de soldados da guarda municipal que acudira em reforço da policia, encontra-se de frente com os burguezes que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta conjunctura o publico, sentindo-se tanto á sua vontade como se o quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por onde é que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as suas familias com o ardôr bellicoso de um exercito encarregado da transformar o paiz n'uma almondega.

Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem clamam vingança a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da força publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas com intima convicção, chegariam talvez a introduzir alguma porção de cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca. Finalmente alguns bons socos applicados com arte não deixariam de fazer render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliação amigavel.

As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos canhos, vingadores da bordoada recebida á chucha calada, recolhem-se a suas casas pedindo ás furias punição para os algozes e arnica para as victimas.

Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforço popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de polka.

Expulso ás cutiladas e aos cachações de um jardim que é seu, cuja propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos e contribuições municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que o estropia e da violação que o esbulha de uma propriedade que é tão legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo o caso em musica e em dansa de roda!

Ó Lisboa! Lisboa! como tu estás demudada do que foste! Nos periodos ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Fernão Vasques, simples remendão, que á frente de alguns populares reptava o proprio soberano a vir á igreja de S. Domingos dar-lhe satisfação dos seus actos mais intimos, da propria solução de seus amores. Hoje levas pontapés de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no presente seculo sentando-te nas cadeiras da representação nacional; e tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado uma constituição, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa, todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com o teu braço poderoso á corôa de um rei absoluto, não chegas hoje, na era nova do direito, ás orelhas de um cabo de esquadra!

Ao pé da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada mais o emprasas senão a propinar-te uma segunda sova quando reajas á primeira!

Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendões acabaram. Chora, cidade de marmore e de lixo, que os teus remendões morreram!

Aquelles que no vão de uma escada cosiam calças ou talhavam gibões, que não queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos, que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, não sabendo intrigar mas sabendo bater, não tendo a imprensa nem a policia correccional, mas tendo ao canto da porta um cacete ou um chuço, esses taes, que eram a arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e terrivel, esses desappareceram. Já não tens rudes filhos da plebe, tens delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te philarmonica. Substituiste a força da união pela _União e Capricho_. Quando te não chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova fórmula--_levar para a musica_.

Agora, como te abriram a cabeça um pouco mais profundamente que o costume, despicaste-te com uma polka especial.

As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituições e pelos santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graça, pela restauração de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confusões. Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas essa questão de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabeça com a semceremonia com que se trincham os melões; e tu danças a polka, a tua polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

O que receamos por ti, ó querida Lisboa, é que na proxima tosa que te appliquem, além de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a vingança monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da tyrannia a vindicta dos povos.

Emquanto á dignidade humana... lalarilolé... e emquanto á liberdade, ao direito e á civilisação... lariléliló... que nos importa isso?... Com as cabeças retalhadas pelos sabres policiaes o que nós queremos é panno adesivado...lólaró... e fios... trolarilolé!

Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da terra, além de unguentos, é que nos não interceptem o _sol... e dó!_

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O sr. Padre Conceição Borges fez cantar no theatro da Trindade uma operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a peça fóra da scena á primeira recita, privando-nos do prazer de assistir ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a ellas_!

Quem são _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na intenção do sr. Padre Conceição Borges, cremos que não podem ser senão as missas.

Mergulhamos como Curcio até o fundo de todas as hypotheses que esse perigoso problema nos suggere e não vemos que, sem offensa do grave caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_ não sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceição quer ir e sendo para as missas que nós somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica interpretação que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia das Mercês.

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_A Roma! a Roma!_ é o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo periodico religioso _A Nação_, e destinada a servir os mesmos designios piedosos que levaram o sr. Conceição Borges _a ellas! a ellas!_

Nada mais commodo do que esta intervenção da valsa nas praticas da penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada comprehensão dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para Deus não pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do cotillon é um dos mais notaveis serviços que a arte podia prestar á alliança da religião e do _chic_.

Affirmar o dogma dansando é uma ideia que vae revolucionar completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

--Quererá v. ex.ª, minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responderá erguendo os olhos ao céu.

--Sim pelas sete dôres da Virgem Immaculada.

E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com o braço direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na mão esquerda um pulso delicado e macio, calçado em luvas perfumadas que chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florença exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados, e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E conversaremos:

--Como a religião é boa! como é ineffavel!... Eu sinto a voz do meu coração contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

--E começa a ter crenças?

--Oh! sim!... com impaciência! com frenesi! com delirio!... Esqueçamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a fé!... Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu, meu anjo da guarda!...

--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo Pontifice, não acredita?

--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! Não sente como o meu coração bate?... É pelos dogmas, é pelos concilios, que elle assim bate! Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os seus enganos! Amanhã precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos Extrangeiros: não vou! não estou para isso! Para onde eu vou é para o mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

--Oh! se é um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoço...

--Deus do céu!

--Entre a costelleta e a omelette...

--Virgem Maria!

--Misturada com vinho de Pauillac...

--Santos e Santas da côrte celeste!

--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

--Mas vae para o inferno essa alma!

--Está claro que sim. E é bem feito!

--Se não houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

--Mas lá está o castigo, olá! O fogo eterno e o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim não é uma chimera. Hão-de amargal-as, que ha de ser um consolo--para nós!

--Amen! Amen, Jesus Maria José!

Assim conversarão elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-hão ao empyreo, e irão pela via lactea fóra, sempre valsando, a demandarem a entrada para os salões de baile de Jehovah, prolongação logica das nossas soirées ao divino.

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Aos srs. advogados

Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte. Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oiço-o mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a pedir qualquer coisa um ao outro. A respiração d'elle é perfumada com o aroma do feno. Nunca cheira a caçarola suja nem a cano, como os predios da baixa. Não escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe perguntei antes de o vir habitar--não toca piano.

De quando em quando, pela sesta, calço os sapatos ferrados, pégo no cajado que nos está ouvindo áquelle canto, accendo um charuto e saio de cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preço de meio alqueire de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu pão, de o enrolar, de o metter ao forno e de o trazer ás costas para casa, d'ahi a dez minutos, embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no meu varapau.

Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

Tenho tambem relações nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao postiguinho, e conversam para baixo comigo ácerca do vento provavel para o outro dia.

É n'estas excursões em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes regras.

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Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, não ha familia que não tenha contribuído com algumas libras para o cofre dos srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do machinismo administrativo roça pelo ser de um pobre homem do campo, elle, aterrado com a ameaça da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justiça, vae ao advogado para que este o illucide.

Os principios geraes da organisação social que nenhum cidadão devia ignorar n'um paiz representativo são para a maioria dos portuguezes o mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo, especialmenie, não tem idéa alguma das attribuições dos poderes a que elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se chama o paiz. Não sabe senão de um modo deploravelmente vago e ambiguo o que é a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivão da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho do districto, a commissão do recenseamento, o delegado de saude, a policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o desgraçado se acha sob a acção de uma d'essas formas porque lhe apparece o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

--Cá está comnosco a justiça! diz elle á mulher ao receber qualquer papel official.

--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas nos olhos, atando as mãos na cabeça.

--Má raios partam a justiça e mais aquelle que a inventou, que se o apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e tinha alma de lhe beber o sangue!

Que o aviso recebido seja uma intimação para limpar o poço, para remover a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um filho á inspecção, para comparecer na camara, no tribunal, na administração ou na recebedoria, os lamentos são os mesmos, as mesmas pragas, a mesma deliberação final de perder o trabalho de um dia, de fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o pé de meia com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manhã cedo para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres são tambem os mais ignorantes, são os pobres os que mais consultam e os que mais pagam. O procurador ou dá um simples conselho e custa isso cinco tostões, ou faz um requerimento e custa mil réis, ou redige um recurso e custa uma libra, ou toma conta da questão e pede dinheiro adiantado para as primeiras despesas, e custa vinte mil réis.