As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11/12)

Part 5

Chapter 5 514 words Public domain Markdown

Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via publica:

D. Miguel foi á Sé, Sentou-se n'uma cadeira, E disso para os malhados: Esta perna está inteira!

Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram submissos em giolhos.

E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez repetir aos montes e ás hervinhas:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes de nunca ter visto Lisboa.

Gloria pois a s.ex.ª!

* * * * *

Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

A patria explorava-o e ria-se d'elle.

Agora chega do Rio de Janeiro o snr Eduardo de Lemos, sem pedras e sem papagaios, posto que com fortuna, e, segundo lemos no _Diario do Governo_, elle não só não paga mas resigna uma commenda com que o agraciou a regia munificencia.

Tomemos nota do phenomeno, porque elle é o symptoma de uma revolução profunda: elle é o _Emfim Malherbe veio_ da historia dos commendadores e dos cães,--vertebrados da olaria nacional e do grosso commercio extrangeiro.

Que o nosso velho mundo decrepito e tremelicante se prepare para o embate hostil e tremendo do novo poder revolucionario que se annuncia! Atraz de Eduardo de Lemos ha no Brazil uma legião inteira, intelligente, instruida e forte, que vae chegar--para se rir.

Lisboa 15 de dezembro de 1882.

_Ramalho Ortigão._