# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11/12)

## Part 2

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As suas intimidades com a sã natureza dão-lhe o instincto de uma boa religião alegre e repicada, com arcos de murta no adro tapetado de espadanas, de funcho e de rosmaninho, na festa do orago, com morteiros á missa cantada, n'uma vasta satisfação de cajados reluzentes, de sapatorros novos nos rapazes, de barbas feitas nos velhos, e de mangas arregaçadas, de linho branco e fresco, nas queijadeiras postadas em fila no arraial.

Na quaresma conduz de sobrepeliz uma grave e, simples via-sacra á roda da egreja, de cruzeiro em cruzeiro, até á grade do cemiterio.

Pelo Natal, ao terminar a missa da festa, toma do altar a ingenua e rosada imagem de um pequeno Jesus rechonchudo, de refeguinhos nos artelhos e nos pulsos, e ao som da gaita de folle, passeia-o sob um chuveiro de beijos humidos e repenicados por entre as broas de pão podre, os cabazes d'ovos e os casaes de capões, que atravancam a passagem por entre os fieis ajoelhados na nave.

Nos dias ordinarios engrola a missa das almas ao romper do dia n'um latim abreviado, mastigado á pressa, e vae podar as cepas, sachar o cebolo, enxertar os limoeiros ou caçar as perdizes, palmilhando o monte, saltando vallados, e regressando a casa ao toque das Ave-Marias, com os perdigueiros adeante, a espingarda na bandoleira; dando as bôas noites para a direita e para a esquerda ao atravessar a aldeia; batendo no hombro aos homens, beliscando na cara as raparigas, com a boa jovialidade carnal do seu velho confrade de Meudon o reverendo Rabelais.

* * * * *

O padre de sala grassa principalmente na aristocracia das cidades, cujas casas frequenta por um resto de tradição antiga nas familias nobres, onde o capellão era de rigor nos accessorios da _mise-en-scene,_ como o boleeiro, o creado de farda e a preta.

As meninas nobres, que hoje lêem o _Figaro_ e os romances de Daudel, não tomam completamente a serio essa reliquia heraldica. O padre da casa é para ellas um simples utensilio de caracter profano, recreativo e caturra. Troçam-o como um grotesco inoffensivo, e utilisam-o como um serviçal de sexo neutro, collocado na serie zoologica da herilidade entre a creada de quarto e o homem. Encarregam-o de certas compras raciocinadas, que não sabe fazer um simples moço de recados sem o curso dos seminarios.

É o padre que vae ao Seíxas buscar as lãs para bordar, segundo os matizes da amostra, que leva o bracelete a compor ao Leitão, e o _chignon_ para frisar ao Godefroy. É elle que acompanha ás lojas de dia e ás visitas sem cerimonia á noite. Leva os agasalhos; ajuda a vestir os paletots, ata os sapatos cujas fitas se deslaçam no caminho, e paga os bilhetes do americano com dinheiro que se lhe fornece para isso.

Não está persistente n'uma só casa, como nas antigas capellanias. Anda aos dias. Aos domingos vae jantar a casa das F., onde serve ao croquet ou ao lawn-tennis no jardim, e onde marca as carambolas no bilhar á noite. Ás segundas feiras chaperona a lição de desenho das meninas S. Ás terças acompanha a viscondessinha de X ás suas devoções a S. Luiz e a outros logares. Ás quintas dão-lhe chá preto e pão torrado com manteiga para ir fazer perna ao wihst da velha baroneza de P.

Aos serões, em torno do candieiro, depois de despejado o saco das mexeriquices que traz das casas d'onde vem, vê as gravuras das Illustrações, ou dorme. As meninas procuram ás vezes arrancal-o ao torpôr da sua digestão ou da sua ignorancia, ambas egualmente crassas:

--Padre José, esperte! não se faça ainda mais mono do que é; scintille para ahi um boccado; tenha faisca, ainda que seja em latim, ou em canto chão!

E perante o olhar d'elle, esbugalhado, vermelho, attonito, ellas, em inglez, umas para as outras, picando o _crochet:_

--Cada vez mais bruto! uma lastima! um cumulo!

Quem precisa de padre e o não tem á mão, pede-o emprestado, como se pede emprestado ao visinho um alicate ou um martello. Sophia, que está em Cintra, escreve para Lisboa a uma amiga:

«Resolvemos abrir duas portas na sala de jantar sobre o jardim. Preciso d'olheiro para os operarios. Cede-me Padre Antonio por oito dias. Dá-lhe dinheiro para o omnibus e manda-m'o ámanhã sem falta.»

Ás vezes o padre de sala dosapparece por algum tempo da circulação, posto na escada com a respectiva bagagem,--uma camisa, um pente, dois pares de piugas embrulhadas n'um jornal--, e uma pontuada de bengala nos rins em estimulo de velocidade para a porta da rua.

Alguém á noite pergunta:

--Que é feito do padre João?

E o dono da casa, levantando os olhos do jornal que lê a um canto, responde lentamente:

-Mandei-o rinchar para as lesirias. Começava a achar-se folgado de mais para se continuar a ter á argola. É o que lhe fiz sentir esta manhã por meio de uma ligeira admoestação corporea.

--Mas o physico do sacerdote é inviolavel é sagrado!

--Por isso tambem não foi pelo lado _cruzes_ que eu o admoestei, foi pelo lado _cunhos_.

* * * * *

De resto, entre as familias dislinctas de Lisboa, quando alguem quer casar-se, confessar-se com decencia, ou receber soccorros espirituaes para morrer com elegancia, vae aos Inglezinhos ou manda pedir a S. Luiz dos Francezes a visita do reverendo Abbé Miel.

O padre extrangeiro tem sobre o padre indigena a vantagem de não se haver abandalhado nas eleições, de não ir para a plateia de S. Carlos applaudir a opera e dizer graçolas ás senhoras suas confessadas, que estão nas bancadas ao pé d'elle, de não andar pelas casas particulares com as piugas e com as fraquezas embrulhadas em papeis, e de não misturar nunca--a não ser no sigillo do sanctuario--o bacalhau norueguez do preceito abstinencial com o lombo de porco da carnalidade gentilica e pecaminosa.

Alem do que como vêm feitos de fora, não consta na confidencia dos lisboetas nem nas revelações mais desabotoadas das villegiaturas de Cintra ou de Cascaes qual a especie de pau de larangeira com que elles foram manufacturados.

* * * * *

Apesar porém de todas as apreciaveis inferioridades que tão vantajosamente recommendam os clerigos lusitanos á estima e á tranquillidade dos partidos liberaes e dos chefes de familia, vemos que, apenas quatro padres annunciam um dos seus _meetings_ ao eterno, logo oitocentas senhoras, duzentas por padre, acodem a engrandecer essa manifestação com o effeito scenico dos seus encantos.

Que os revolucionarios obtenham outro tanto, se são capazes!

Confronte-se, por exemplo, o Club Gomes Leal com a sacristia dos condes de Castello Melhor. Que contraste!

Esse club reunirá facilmente nas suas sessões todas as gravatas vermelhas do partido e todas as blusas do bairro. Emquanto aos logares reservados ás damas, será mais difficil prehenchel-os. Logo que D. Angelina Vidal haja tomado assento na assembleia, a commissão encarregada de conduzir as senhoras ao sanctuario da poesia revolucionaria poderá tirar as luvas, accender os cigarros e desabotoar os colletes, que não terá mais ninguem para conduzir.

A razão d'este phenomeno significativo é que os padres e os padristas, por menos espertos e menos habeis que sejam, têem por baixo de si a levantal-os mais alto do que todos nós, oito seculos de talento, de discussão e de controversia, que fizeram da theologia o maior dos monumentos do espirito. Os seus doutores, os seus martyres, os seus heresiarchas e os seus apostatas representam no dominio do pensamento o triumpho mais maravilhoso d'essa grande força chamada o estudo.

A antiga tradição, a auctoridade consagrada, o respeito adquirido, trespassado pela heriditariedade de geração em geração, torna hoje facil o officio de continuar a manter nas consciencias os habitos do respeito e a pratica da devoção.

O mal dos revolucionarios na propaganda moderna consiste no grave erro de suppor que se pode ir para livre pensador assim como geralmente se vae para padre, isto é, por simples estupidez.

Ora ser padre quando se não tem cabeça para ser qualquer outra coisa mais util, é corrente, é commodo, faz arranjo ás familias com filhos tapados para contas, e não tem perigo nenhum.

Na Egreja quem não sabe outra coisa diz missas. Na Revolução quem não sabe mais nada diz asneiras. Essa é a differença.

As mulheres, que em geral não conhecem os chefes da Revolução, assim como tambem não conhecem os da Egreja, que nunca leram Diderot nem Proudhon nem Michelet, como egualmente não leram nunca S. Paulo nem Santo Agostinho nem S. Thomaz, obrigadas a examinar pelos caracteres inferiores e a escolher pelos elementos subalternos, preferem a missa, e fazem bem. Na incapacidade, bem como na pornographia, o latim attenua.

O erro dos padres nas suas relações com o seculo--pedimos licença para lh'o dizer--está unicamente em tentarem ainda algumas vezes exprimir-se em vulgar. Para prestigio da classe e decoro d'elles, aconselhamos ardentemente a suas excellencias o uso exclusivo das lingoas mortas,--convindo porem exceptuar de tal numero o latim de Molière, pois consta haver alguns velhos latinistas que ainda entendem esse.

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Saraiva de Carvalho era possuidor de uma cabeça distincta das de todos os demais estadistas monarchicos do seu partido pela circunstancia extra-conservadora e extra-parlamentar, pela circumstancia verdadeiramente tumultuaria, excepcional e incommoda de ter algumas ideias dentro, de as cultivar e de procurar algumas vezes, ainda que debalde, transformal-as em obras.

Á dynastia brigantina prestara este pensador o mais relevante serviço, lembrando um dia que as formas vigentes de governo se poderiam vir a substituir pondo-se escriptos no palacio da Ajuda.

Era esse o meio mais engenhoso e ao mesmo tempo o mais seguro de perpetuar para todo sempre a localisação da familia dos actuaes inquilinos na desagradavel madrepora de principes a que serve de jazigo aquelle notavel edificio. Pois é evidente que, posto esse casarão a alugar, com escriptos, com annuncios; e ainda com premios animadores ás agencias de casas baratas, ninguem absolutamente no mundo tomaria de renda tal predio, assas desconceituado no publico pela falta de commodos que offerece para habitação, de familia, pelos maus cheiros que n'elle grassam, pela enorme melancolia mesenterica que d'elle transsuda e pela aterradôra quantidade de carochas e de ratos de cano e de throno, que o infestam, sevandijam e conspurcam.

Antonio Rodrigues Sampaio era um escriptor de primeira ordem no meio de um jornalismo onde os escriptores cada vez se vão tornando mais raros. Elle foi um dos artistas que mais gloriosamente serviu a sua patria escrevendo bem a sua lingoa, e foi, além d'isso, entre os homens politicos do seu tempo aquelle que mais altas e mais fortes qualidades de espirito, de coração e de caracter sacrificou ás instituições vigentes.

O chefe dessas instituições, no dia do enterro de Sampaio, ia mitigar a sua dôr por essa morte, ouvindo a opera em S. Carlos.

No dia do enterro de Saraiva de Carvalho o mesmo augusto principe ia para o Gymnasio ver o atirador Paine quebrar globos de cristal a balas de pistola.

Comprehende-se a angustia profunda que assim impelliu o primeiro cidadão portuguez a procurar nos interessantes phenomenos da balistica expostos por um pellotiqueiro impavido, ou nos falsetes garganteados por um tenor delambido, uma justa e equitativa compensação á perda dos mais illustres dos seus compatriotas.

Referindo as circumstancias funebres d'estes obitos, a historia dirá:

_A familia dos mortos pediu desculpa de cumprimentos, e el-rei pediu «bis» ao tenor Gayarre,--uma e outra coisa devida ao estado de consternação em que todos se achavam_.

E os prosteros, ao lerem esta pagina commovedora, verterão lagrimas de enternecimento sobre esse testemunho eloquentissimo da delicadeza profunda de tão excelso quão sensivel principe.

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Se não receassemos profanar a dôr tão intima e tão sincera do soberano, se não temessemos alancear, inopportunos, o seu extremoso coração, tão manifestamente envolto em luctuosos crepes na occasião presente, nós ousariamos formular humildemente uma debil pergunta:

Julga sua magestade que, assim como os principes têem coração, o não têem os povos egualmente?

Quando, em vez das testas communs e opacas, são as fulgidas e rutilantes testas coroadas, as que Deus, levantando-se respeitoso para esse effeito do alto do throno celestial, resolve com a devida, consideração chamar ás alturas, a fim de as fixar com a demais brilhanteria no interessante museu da Via Lactea,--julga por acaso Sua Magestade que n'esses pomposos lances, não choram tão dolorosamente os subditos pelos seus bons reis como os reis choram pelos seus bons subditos?

Cuida Sua Magestade que não nos faz tão grande mossa o baque de um grande principe que ha por bem fallecer, como a que em sua magestade faz a queda de um honrado cidadão que morre?

Oh! mas que Sua Magestade se digne de nos fazer essa justiça:--é perfeitamente a mesma coisa!

Que Sua Magestade o queira ponderar perante o afflictivo transe por que acaba de passar o seu coração generoso e paternal!

Quando o sino grande da Sé badala o dobre supremo dos obitos reaes, quando as molas dos regios coches inclinam a orelha tetrica sob as gualdrapas funerarias dos solemnes sahimentos, quando os escudos das quinas se quebram no marmore dos monumentos ao som cavo de uma voz que proclama--_Real, real, real, por el-rei de Portugal_,--a alma do povo póde bem, como a do principe em lances correlativos, precisar, para o fim de não succumbir á intensidade da dôr, de appelar então por seu turno para os santos balsamos que escorrem das cavalletas das operas e das proezas do tiro ao alvo.

* * * * *

Ousamos por tanto esperar, submissos e confiados, que--tendo em vista, os dolorosos e excruciantes paroxismos que póde attingir a saudade, tanto no coração do povo, como no coração dos principes,--sua magestade se digne de mandar sem demora revogar a lei dura e deshumana que por occorrencia dos obitos de pessoas reaes manda vedar ao corrente pranto das gentes o lacrimatorio dos divertimentos publicos.

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A policia, tomada de um d'esses accessos de zelo intermittente que ás vezes acomette esta veneranda instituição, acaba, de assaltar varias casas de batota em Lisboa, no Porto, na Povoa de Varzim e em Vizeu.

Todas essas diligencias se fizeram com grande exito.

A policia foi pé ante pé, como o côro dos carabineiros nos _Bandidos_ de Offenbach, e deu em cheio nas maroscas, capturando os jogadores e apprehendendo os baralhos, as roletas, a mobilia da casa, o dinheiro da banca e o dos parceiros.

O _Diario do Governo_ d'ontem traz a este respeito uma portaria de louvor, na qual o ministro do reino, em nome de sua magestade el-rei, elogia a policia pelo bem que andou, não só capturando os jogadores, mas--como muito bem acrescenta a portaria--apprehendendo outro sim _algum dinheiro e mobilia._

Como bons subditos fieis e amantes, folgamos de veras com a satisfação intima e cordial que sua magestade el-rei houve por bem experimentar e redigir em prosa official, ao ver os reditos do Estado felizmente acrescentados com algumas cadeiras e alguns cobres, agilmente surripiados pelos representantes da lei a viciosos cidadãos, improvidos e desapercebidos.

No Porto o zêlo policial n'esta diligencia chegou ao ponto de emboscar nas ruas os esbirros para prender os jogadores no acto de entrarem para as jogatinas.

Não pretendemos julgar o ponto de vista das auctoridades constituidas sobre o assumpto _batotas_, porque estamos convencidos de que essas auctoridades, morigeradas e pudibundas, não foram nunca ás casas de jogo, o que as desarma de toda a habilitação precisa para se poder discutir com ellas sobre esta questão.

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O que escreve estas linhas esteve pela derradeira vez n'uma batota, em S. João da Foz, ha coisa de vinte annos.

A espelunca achava-se estabelecida no lindo _cottage_ do Mallen, na Praia dos Inglezes, com um terraço sobre o mar e a entrada pela rua da Senhora da Luz.

No meio do grande salão de baile estava armado o jogo sobre uma vasta mesa de pano verde illuminada do tecto por um lustre. Em torno da mesa achava-se reunida a parte masculina da melhor sociedade do Porto e da provincia do Douro e do Minho a banhos na Foz, uns, junto da mesa, sentados, outros em pé por traz d'esses, formando tres ou quatro circulos concentricos.

A um topo da mesa um cavalheiro esqueletico, de faces macilentas, adornado de uma longa pêra grisalha, puxava para junto de si por meio de uma pequena rapadeira de mogno polido, em fórma de ensinho, o dinheiro das paradas espalhado no panno verde, e pagava a importancia das apostas.

Defronte d'este prestavel individuo, no outro topo da mesa, um cavalheiro, mais gordo, ainda que não mais solicito, e de aspecto egualmente veneravel, punha as cartas na mesa com mãos finas, particularmente bem tratadas e realçadas por dois bellos cachuchos em que scintillava um olho de gato e um rubi.

Informei-me da regra do jogo com as pessoas respeitaveis e fidedignas que tinha mais proximo de mim.

Eis a regra: Tiravam-se do baralho duas cartas, que o homem das mãos finas collocava na mesa ao lado uma da outra. Lá estava, por exemplo, o trez de espadas a um lado, e o rei de copas ao outro. A gente escolhia, para apostar por ella, a carta que queria, e collocava-lhe ao lado o preço da aposta. Depois do que, ganhava o rei ou ganhava o terno, segundo era um rei ou um terno d'outro naipe a primeira d'essas duas cartas que em seguida sahia do baralho.

Devo dizer, á face de Deus e dos homens, que nunca em minha vida me expuzeram negocio que se me figurasse mais intelligivel, mais recto e mais claro! Algumas vezes tenho tido que pedir aos diversos poderes do Estado alguns esclarecimentos á cerca do jogo do machinismo administrativo, e cumpre-me dizer, sem com isto pretender desgostar ninguem, que jamais das regiões officiaes recebi informações tão lucidas e tão leaes como aquellas que sobre as leis do Monte me foram cavalheirosamente ministradas na apreciavel batota a que me refiro.

De um só relance e em meio minuto comprehendi o problema todo com uma profundidade maravilhosa, e, sem perda de mais um instante, tirei 100$000 réis que tinha n'uma algibeira e colloquei-os pressuroso sobre o trez de espadas que se achava na mesa.

Telintaram libras, de parte a parte, postas pelos circumstantes para a direita ou para a esquerda das cartas.

O homem da pá de mogno polido, erguendo para o meu lado o bico da sua pêra grisalha, perguntou-me, indicando o meu dinheiro:

--Mata o rei?

Ao que eu respondi denodadamente e com voz firme:

--Mato-o, sim senhor!

Esta phrase pareceu fazer uma certa impressão no auditorio. Houve um silencio. Um desembargador da relação do Porto, ancião de oculos d'ouro e de grande calva sacerdotal, retirou com gesto adunco de cima das cartas 3$000 que tinha posto.

O cavalheiro das lindas mãos tossiu ligeiramente, voltou o baralho, e principiou a extrahir com lentidão as cartas, a uma por uma, do masso que comprimia nos dedos.

A quarta ou quinta figura estrahida era o rei de espadas.

Eu tinha perdido os meus 100$000 réis. Ganhava-os precisamente um illustre professor da Escola Polytechnica, que fizera contra o terno uma parada egual á minha.

Esta decisão da sorte--eu o confesso--não me regosijou senão de um modo bem caracteristicamente mediocre.

Resolvi porém interrogar mais algumas vezes o acaso, e perdi consecutivamente quanto dinheiro tinha no bolso, ou fosse a importancia de perto de meio anno de collaboração n'um jornal americano,--somma recebida n'esse mesmo dia.

Fiquei na batota até pela manhã.

Por uma janella aberta sobre o terraço a luz côr de perola da madrugada entrava humedecida e salgada pela viração maritima. As banheiras, filhas e moças da Maria da Luz, armavam as barracas na praia, cantando ao longe em terceiras, n'um côro argentino de sopranos, uma barcarolla local. Os primeiros pregões matutinos dos vendilhões ambulantes penetravam do lado da rua pelas fendas horisontaes das gelosias, que o clarão da manhã pautava luminosamente d'azul.

Na sala esvasiada de gente oscillava ainda, esfarrapado, o ar quente da noitada, impregnado do fumo do tabaco e dos cheiros acres do suor e da cerveja asedada no fundo dos copos dispersos no balção do buffette.

O chão estava alastrado de lama secca, de pontas de cigarros que a saliva enodoara de amarello, e de charutos mordidos e mastigados raivosamente pelos pontos.

O homem das bellas mãos aristocraticas tinha as unhas orladas de preto e o collarinho esverdinhado de transpiração.

O cavalheiro da pêra tivera com o romper do dia um accesso de tosse, e depois de haver durante a noite cuspinhado tudo em torno da alta cadeira de braços em que estivera sentado, procurava ainda, ao que parecia, escarrar mais, com os olhos injectados de sangue, as faces escaveiradas, as mãos febris, o dorso curvo, o peito concavo, sacudido pelas convulsões da bronchite.

A um canto da casa, sentado n'uma cadeira e cahido de bruços para cima de uma pequena mesa a que tres batoteiros, associados nos lucros da banca, tinham passado a noite jogando o honesto e execravel voltarete, ficara esquecido um janota de calças côr de flôr de alecrim, botinas de polimento, luvas azues e fraque côr de pinhão feito no Pereira Baquet. Julguei-o adormecido, e chamei-o, tocando-lhe no hombro, para me não ir d'ali embora sosinho.

Era um rapaz que eu conhecia da praia e da Cantareira. Chamavam-lhe o Chico ... não me lembra já de quê. Tinha dezesete ou dezoito annos, era filho de um lavrador rico da Regoa, e estava a banhos na Foz, hospedado no hotel do Romão, intitulado da Boavista.

Quando elle se ergueu da mesa e se poz em pé deante de mim, vi que o misero não tinha estado a dormir, mas sim a chorar.

A sua physionomia loura, estupida, linda, ornada de um pequeno buço, de um signal cabelludo na face e de dois bandós côr de ouro anediados pelo melhor cabelleireiro da rua de Santo Antonio, exprimia uma consternação tão profunda, tão ôcca, tão francamente imbecil, que desde logo me atrahiu para elle com uma compaixão verdadeira. Agarrou-se ás primeiras palavras que lhe disse, como um afogado se agarra á primeira cousa fluctuante que passa por elle, e momentos depois o bem parecido e elegante moço vertia no meu peito as suas doloridas confidencias.

Seu pae, homem austero e de pulso, cheio de severidade no caracter e de cabellos crespos no interior das orelhas, tinha-o incumbido de cobrar de um negociante de vinhos de Villa Nova de Gaya a importancia de uma letra no valor de 1:600$000 réis. Era d'esta quantia, recebida tres dias antes, que elle acabava de perder a ultima libra, alem de mais trinta moedas, destinadas a custear o resto dos banhos de mar prescriptos pelo doutor da Regoa para um tumor frio que lhe começara a inchar n'um sovaco.

--Meu pae, para coisas d'estas, é uma fera!--explicou-me elle com voz estrangulada.

E, tendo descalçado uma das luvas azues, comprimia com mão nervosa o alto da sua pequena cabeça de gallo, apagando da testa n'um repellão o bem feito A formado pelas duas curvas divergentes dos bandós.

--Como assim!--lhe respondi eu. Pois o meu amigo tem a fortuna inapreciavel de possuir um pae fera, e ainda hesita um momento sobre o que lhe cumpre fazer nas funestas condições em que se acha?... Saiamos lá para fora! Saiamos com pé expedito e rapido d'esta caverna, que até me está a affligir o ter de profanar o nome sagrado do seu veneravel progenitor, proferindo-o perante a pêra cavilosa e obscena d'aquelle tisico, malandro em terceiro grau, que além diviso envesgando para nós os olhos torvos!

--Cão!--disse o Chico n'um bramido cavo, abrindo para essa palavra um parenthese no assumpto principal da nossa conferencia, e estendendo da porta da rua o punho cerrado e terrivel para o cerro em corcova do cavalheiro da pêra, que continuava a tossir arrimado a uma padieira da janella.

