# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11/12)

## Part 1

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EÇA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGÃO

AS FARPAS

_Chronica Mensal_

DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

QUARTA SERIE N.º 2

NOVEMBRO A DEZEMBRO 1882

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. PROUDHON.

SUMMARIO

Congressos catholicos e ideias clericaes--Anjos e reprobos--As influencias e eclesiasticas na sociedade portugueza--A egreja e as mulheres--Os nossos padres, padre de missões, padre d'aldeia e padre de sala--Os clubs e as sacristias--O jogo, a batota, o rei dos lusos e o rei de copas, a rusga, a _vacca_--Doutor Jardim, sabio, e Rosalia, dama illustre--Novas applicações da mobilia á critica litteraria--A moderna arte portugueza e as escamas da corvina--O jornalismo em Braga--O partido legitimista e a bandeira branca de Senna Freitas--Sampaio o Saraiva de Carvalho--A augusta princeza anjo da caridade e do bric-à-brac--Tragico fim de um gato d'esse anjo--Fausto e jocundo desacato de s.ex.ª o ministro da justiça por s.em.ª o nuncio de sua Santidade--A urna e a corveta Stephania--Os commendadores e os cães de faiança---Milagrosa reapparição de Nossa Senhora Apparecida.

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«Se Deus approva, que tenha a bondade de se deixar ficar sentado.... Está approvado.»

Tal é, resumidamente exposta, a commoda maneira de votar por meio da qual não só o congresso catholico, reunido recentemente em Lisboa, mas muitos dos concilios ecclesiasticos que precederam este, se mettem de gorra parlamentar com os legisladores do ceu e constatam a approvação da divindade ás deliberações tomadas pelos clerigos. Para esses cavalheiros,--papas, bispos, conegos, simples padres d'enterro ou sacristães--Deus é absolutamente a mesma coisa que é para o snr Fontes a sua maioria regeneradora, o que quer dizer: uma entidade encarregada de, assistir á apresentação dos decretos e de dar o sim.

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Nos sermões de penitencia das nossas villas e aldeias o truque é o mesmo que nos concilios, mas reforçado com um cordel.

O orador sacro, encarregado pela remuneração de 3$600 em dinheiro e um prato de especiones com vinho fino, de refrescar para commodidade das almas em cada uma das domingas da quaresma os ardores do purgatorio, irrigando de eloquencia e de latinidade esse recinto de clarificação espiritual, começa por pôr Deus no throno do altar mor, sob a figura do Senhor dos Passos escondido atraz de uma cortina roxa, e dirige-se em seguida para a cadeira da verdade, acompanhado de uma ponta do barbante com que se ha de puxar a cortina. No final da predica, á peroração, o ecclesiastico, depois de haver enxugado a um dos lenços estendidos sobre o parapeito do pulpito os 3$600 de transpiração escorrida pela fronte e pela região cervical, pega no cordel, volta-se para a cortina, faz uma venia e diz:

«Senhor! se minha debil voz, eccoando n'este auditorio conspicuo, a cuja frente diviso o veneravel vulto do illustre conselheiro d'estado honorario, presidente d'esta benemerita irmandade,--se minha debil voz, digo, conseguiu levar ao vosso coração amantissimo a convicção do arrependimento em que se acham immersas as almas que ora vedes prostradas a vossos pés, dignae-vos, Senhor, de apparecer para ouvirdes nossos votos. Apparecei, Senhor! Porque não appareceis?!»

E por meio da bem conhecida e sempre efficaz figura de rhetorica intitulada obsecração,--um dos mais arrojados e vehementes de todos os tropos,--o orador, dirigindo-se sempre á cortina, com bola de mão para a lacrimosidade dos fieis, faz sentir a estes por tabella que é mister que elles solucem durante alguns minutos para que Deus lhes appareça, e lhes perdoe. Os fieis então desatam em suspiros de corrente pranto, e o ecclesiastico, acabando emfim por lhes dar Deus de presente, cae elle mesmo prostrado de commoção e de espanto na borda do pulpito, como se nunca em sua vida lhe houvesse apparecido um tão portentoso milagre como esse de se correr a mesma cortina que occulta a imagem do Senhor dos Passos, a que elle tem por officio puxar os cordeis em todas as quaresmas, á razão de trinta e seis tostões por tarde, além do beberete.

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Nos congressos dispensam de ordinario o barbante corroborativo da oratoria sacra.

Apenas nomeada a mesa que tem de presidir aos debates, os clerigos persignam-se, abancam, põem deante de si os rapés, e passam desde logo a redigir a acta, dando como presente, entre as pessoas do clero, a do divino Espirito Santo, representado sob a fórma de volatil symbolico e para este effeito invisivel.

Emquanto a fazer approvar pela divindade dada como presente na acta, tudo aquillo que elles se lembram de resolver em commum, consideram os clerigos--e mui judiciosamente segundo se nos affigura--que é inutil estar a puxar-lhe por guitas, tendo com Deus a mesma massada que se tem com as marionettes.

N'esse presupposto o que os padres decidiram foi o seguinte:

«Sempre que Deus houver de regeitar alguma das nossas resoluções, que se manifeste n'esse sentido. Não se manifestando, entende-se que está de accordo.»

Com o quê, dão a palavra aos snrs membros que tenham que propôr coisas para approvar.

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Ora Deus, na sua qualidade de ser supremamente sabio, segue, como é notorio, o systema habitual de não se manifestar nunca, quer seja para approvar, quer seja para desapprovar aquillo que um maior ou menor numero de padres, reunidos para esse effeito, determinem expor-lhe.

É claro que lhe não faltava agora mais nada, ao grande bom Deus, senão sahir de toda a parte, onde dizem que está, para vir ali assim á capella do Marquez de Castello Melhor, ou a qualquer outra, estabelecer dialogo com o Padre Viegas ou com o Padre Garcia Diniz, para o fim de os cumprimentar ou de os mandar á fava pelos seus discursos!

Succede por tanto que de todas as vezes que alguns sacerdotes, em folga por falta de missas ou de enterramentos, se agregam a alguns seculares mordidos pelo bicho carpinteiro do zêlo, e decidem juntos decretar mais fervor á devoção das massas afim de que estas mandem dizer mais missas ou se façam enterrar mais vezes, Deus, misericordioso e benigno, sorri de indifferença ineffavel nas profundidades immaculadas do azul e deixa o clero decretar, exactamente com a mesma longanimidade com que deixa a herva crescer.

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Não affirmaremos porém em absoluto que esta enorme frescata de chinquilho, esta sem-cerimonia de bisca emparceirada com o Eterno pelos sacerdotes, não possa uma ou outra vez offerecer alguns ligeiros perigos, apertando-se de mais com o fiado.

Toda a familiaridade tem limites. Deus de quando em quando se pronuncia, posto que indirectamente, no sentido de recordar essa discreta maxima áquelles religiosos que abusam, dando-se ares de privar ainda mais com o ceu do que privam com o proprio botequim do Martinho.

Ainda ha pouco no parlamento hispanhol se deu um facto proprio para provocar em nosso espirito amargas conjecturas sobre os inconvenientes de nos tornarmos nojosos á força de sermos nimiamente prolixos em nossas intimidades com o Divino.

É de saber que o augusto pretendente D. Carlos, depois de haver consumido nas roletas do exilio, com o bello sexo extrangeiro e em devoções castelhanas, os bens da sua corôa, se achou reduzido ao mais invejavel estado de pureza christã, não tendo de seu senão facturas de fornecedores que pagar, a benção apostolica de Sua Santidade e o direito divino.

Para sustentar esse direilo nas còrtes da nação hispanhola havia um deputado especialmente incumbido de narrar á Peninsula tudo aquillo que Deus continuava a fazer pelo mui catholico principe D. Carlos, desde que D. Carlos, com a sua força desarmada e posta em penhor n'um banco de Londres, deixara de fazer por Deus coisa que se visse suspensa por corda no espaço,

Pois bem, o que ultimamente succedeu foi que: o deputado alludido, ao principiar a usar da palavra para mais uma vez introduzir a divindade n'uma falla aos de Castella, cahiu subitamente morto.

Os anjos haviam-o chamado ás alturas estendendo-lhe do empyreo o ascensor de Jacob a que na terra damos o nome vulgar mas expressivo de apoplexia.

Acontecem d'estas ás vezes!

Os fieis, a poder de mandarem os philosophos ao diabo, arriscam-se um pouco a acabar como o hispanhol, fulminados repentinamente pelo Altissimo, ao reconhecer-se que efectivamente não estão satisfeitos com a marcha que modernamente teem tomado as coisas sobre a esphera terrestre.

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O mais vulgar porem, da parte de Deus, é a indifferença imperturbavel pelo ardor, ainda o mais comichoso, d'aquelles que servem a sua egreja, pondo-se de Deus á esquina para a gente e vibrando a religião como a grande moca benzida com que atiram á testa de quantos andam a ganhar a sua vida por este mundo, emquanto suas excellencias estão em folga temporal nas sacristias, locupletando-se de bemaventurança futura e d'hostias quotidianas.

Assim como nós outros fundamos camisarias ou estancos, fundam elles agencias e sucursaes do ceu por sua conta, despachando os requerimentos dos candidatos a anjos, designando em dias de juizo trimestraes, como os exames de frequencia, os eleitos e os reprobos, e sentando desde logo uns á mão direita e outros á mão esquerda do bem conhecido redactor principal e leitor unico da _Nação,_ o snr Fernando Todo Pedroso.

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Garibaldi, por exemplo, escusa de pensar em entrar jamais no ceu com a sua famosa camisola, cujo vermelho ardente poria ao longo da Via Lactea um rubôr d'aurora. Garibaldi que se aguente como puder nas profundidades do inferno, pequeno de mais talvez para conter toda a paixão de liberdade que encheu na terra o seu coração maldito. Elle levou uma fava preta do Todo Pedroso snr Fernando, e S. Pedro está prevenido.

Os doze pescadores, que, á voz de Jesus fallando-lhes na montanba, abandonaram as redes para levar palavras de consolação a todos os opprimidos atravez do universo, não quereriam ao pé de si lá em cima esse official do mesmo officio que tantas vezes abandonou a barca amarrada ao rochedo de Caprera para ir com uma espada na mão arriscar a pelle, não já para consolar, por meio de sermonarios, da liberdade perdida, como nos apologos da biblia, mas para pôr definitivamente a liberdade onde estava a oppressão. S. Paulo, que procedia litterariamente, por meio de epistolas, como Madame de Sévigné, não consentiria de boa mente que se puzesse ao lado da sua penna platonica a espada cheia de bòccas de um companheiro que procurou como pôde lazer por obras n'esta vida o que elle apenas prometteu em doces palavras para a outra.---Assim o decidiram, pitadeando-se de commum accordo sobre o caso, o reverendo Viegas e o reverendo Garcia Diniz, em conselho de sacristia, sob a presidencia do Todo Pedroso.

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O nobre conde de Santiago, pelo contrario, é recebido por aclamação, com a sua chapeleira e o seu ripanso, no comboyo expresso, organisado por estes senhores, do Passeio Publico para a Bemaventurança. Esse pieodoso fidalgo está nomeado secretario do congresso catholico, o que lhe dá no seio da christandade honras antecipadas de serafim. Com o privilegio de redigir as actas do sagrado concilio o nobre conde acha-se concomitantemente investido no direito de poder andar d'azas, desdo já, por este mundo. Mais alguns mezes de fervor e de secretariado da parte de s.ex.ª, e poderemos alimentar a esperança de o ver ainda atravessar o Chiado como o atravessam os perus, isto é--em pennas. A natural pudicicia de s.ex.ª lhe vedará porém talvez o circular entre os viventes vestido unicamente com os espanadores dorsaes destinados ao convivio dos cherubins no gallinheiro celeste.

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O aspecto do recente congresso catholico do Passeio Publico (lado occidental) tal como os noticiarios nol-o descrevem parece-nos de uma pompa particularmente modesta, destinada, a não excitar represalias da parte do snr. França Neto.

Meia duzia de padrecas, com as suas sobrecasacas dominicaes e os seus chapeus altos anediados de novo para decoro das corôas subjacentes, mais outros tantos seculares vestidos de preto e puxados á substancia do panno fino pela benzina expurgante, postos todos em volta de uma meza a assoarem-se uns para os outros com emphase, dão-nos menos a ideia de um ajuntamento triumphante de convicções victoriosas do que o painel de um simples ciprestal sentado,--com defluxo.

Alem de solicitar a benção apostolica, o congresso catholico de Lisboa resumiu os seus trabalhos em duas unicas resoluções: fundar uma universidade catholica e requerer dos poderes publicos que por meio da sua policia elles façam respeitar nas ruas as pessoas dos ecclesiasticos, presentemente apupados pela multidão, segundo elles mesmos dizem, sempre que apparecem em publico revestidos de habitos sacerdotaes. O que, a ser exacto, é precisamente a mesma coisa que succedia em Paris ao padre Lacordaire no tempo da Restauração. Notando-se que a Restauração foi de todos os governos em França aquelle que mais protegeu o clero, fica-se em duvida sobre se a intervenção do governo será o meio efficaz de garantir aos ecclesiasticos a deferencia e o respeito, que ninguem jamais lhes recusa nos paizes de liberdade religiosa, em que o Estado é atheu, como na America do Norte.

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Se compararmos o espirito e o aspecto d'esta assembleia catholica com algumas reuniões do mesmo genero celebradas na Europa durante o decurso dos ultimos annos, somos obrigados a confessar que o prestigio do sacerdocio decae de um modo sensibilisador.

No congresso belga, por exemplo, reunido em Malines no mez d'agosto de 1863, o numero dos adherentes era de 3:000. Na cathedral de Saint-Rombaut, o cardeal-arcebispo Sterchx celebrou a missa solemne d'abertura, depois da qual os membros do congresso seguiram em procissão para a vasta sala das sessões, engrinaldada de festões de rosas e empavesada de tropheus de todas as bandeiras da christandade como uma enorme nau em triumpho. No topo do salão o estrado destinado á meza era coberto por um docel de velludo carmesim franjado d'ouro sobre o qual se destacava na doce pallidez do marfim uma imagem de Jesus cravado de brilhantes na cruz d'ebano. Esveltos soldados da milicia papal, em grande uniforme, de capacetes rutilantes e bigodes recurvos, fazem alas lendo ao tiracollo as bandas symbolicas de seda branca e ouro. O alto clero que vem tomar assento na assembleia passa em pompa, gravemente, por cima do tapete de Smirna desenrolado ao longo da sala. Á frente, os cardeaes com as suas purpuras roçagantes; depois os bispos inglezes, os de Gand, de Tournay, de Namur, appoiados aos seus baculos, e os sacerdotes do rito armenio, de grandes barbas, chapeus altos sem abas com veus roxos, empunhando as suas longas bengalas de castão de ouro.

Foi no congresso de Malines que De Montalembert, o antigo collaborador do abbade Lamennais, proferiu o seu monumental discurso sobre a egreja livre no estado livre. De Montalembert acreditava ainda na possibilidade de uma alliança entre o espirito ecclesiastico e o espirito scientifico do mundo moderno, e o seu discurso é n'esse intuito um manifesto de uma rara eloquencia apaixonada, profundamente convicta.

«Em toda a parte excepto na Belgica--disse elle--os catholicos são inferiores aos seus adversarios na vida publica, porque os catholicos não souberam ainda congrassar-se com a grande revolução que gerou a nova sociedade, a moderna vida dos povos. Em presença da sociedade moderna os catholicos sentem-se timidos e confusos; teem-lhe medo. Não aprenderam por emquanto a conhecer, a amar a sociedade em que vivem. Muitos estão ainda, pelo coração e pelo espirito, ligados ao antigo regimen, isto é, a um systema que não admittia nem a egualdade civil, nem a liberdade politica, nem a liberdade de consciencia. O antigo regimen tinha o seu lado grande e bello; não pretendo julgal-o aqui, e muito menos pretendo condemnal-o. Basta-me reconhecer-lhe um deffeito, mas esse capital: está morto, e nunca mais resuscitará.»

Em seguida Montalembert demonstra que n'este seculo a egreja ou ha de cessar de existir ou ha de viver na democracia e na liberdade. A egreja, ou não tem mais que fazer no mundo, ou tem que contribuir ainda como nos tempos que fizeram a gloria do seu passado, para a perfectibilidade do espirito humano, intervindo no progresso pelo combate da livre razão contra todas as usurpações, contra todos os privilegios, contra todas as tyrannias exercidas sobre a inviolavel fraternidade humana.

A liberdade é uma só, unica, indivisivel e sagrada, expressa pelo predominio dos poderes espirituaes sobre os poderes temporaes, representada na parte dynamica pela sciencia, na parte statica pela religião.

Na sciencia a liberdade consiste no direito de descobrir a verdade e de a proclamar sem disfarce e sem restricção alguma como base das relações do homem com o homem na independencia absoluta da revelação e da fé. Na religião a liberdade consiste, como dizia Guizot, no direito que tem a consciencia humana de não ser governada nas suas relações com Deus por decretos ou por castigos humanos.

«Catholicos--disse Montalembert--se quereis a liberdade para vós, entendei-o bem, é preciso que a queiraes egualmente para todos os homens e debaixo de todos os ceus. Se a pedirdes para vós unicamente, não a tereis nunca: dae-a em toda a parte onde fordes senhores para que vol-a deem em toda a parte onde fordes escravos.»

Esta energica apologia da liberdade, enthusiasticamente applaudida, levou o congresso de Malines a ridigir nos seguintes termos uma das resoluções da assembleia: «É do interesse dos catholicos, assim como do todos os cidadãos que sinceramente querem a liberdade, o substituir quanto possivel a intervenção e a omnipotencia do estado pela energia creadora e pelo principio expansivo do espirito de associação.»

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Vejamos agora quaes foram os resultados praticos d'esse grande impulso de eloquencia destinada a fazer entrar o catholicismo no movimento liberal da moderna civilisação. Os destinos da egreja n'este fim do seculo XIX estão profundamente ligados a esse facto culminante na historia das ideias clericaes.

O que succedeu no congresso de Malines foi que os cardeaes e os bispos abandonaram a reunião no dia immediato áquelle em que Montalembert fizera o elogio da alliança da egreja catholica com a sciencia e com a liberdade.

Compareceram apenas nas sessões subsequentes os membros obscuros do baixo clero, os quaes movidos de um generoso impulso democratico continuavam a applaudir Montalembert, não sem perguntarem a si mesmos com certa inquietação o que se pensaria em Roma dos discursos e das resoluções do congresso belga. A resposta não se fez esperar. Tres ou quatro mezes depois Pio IX escrevia ao arcebispo de Munich uma carta, em que pelo maneira mais formal censurava a audacia dos catholicos que ousavam reunir-se em congressos para proclamarem por sua conta a _liberdade da sciencia_.

Esta missiva, pouco terna para com os congressistas de Malines, não obstou a que elles se reunissem ainda uma vez em agosto de 1864. Montalembert não compareceu. Fallaram o padre Hyacinthe e o arcebispo Dupanloup n'um sentido que, apesar de moderado, não pareceu sufficientemente retrogrado a Sua Santidade. O papa respondeu ás utopias liberaes do congresso com a publicação do _Syllabus_ e da encyclica _Quanta cura_, cortando assim pela raiz e de uma vez para sempre toda a illusão de um accordo entre o espirito ecclesiastico e o espirito da civilisação.

Em presença d'esses factos, os congressistas de Malines tinham duas resoluções que tomar: submetter-se e acceitar a doutrina da encyclica e do syllabus, ou reagir e protestar. O primeiro caso era a retractação vergonhosa de todos os principios affirmados e de todas as aspirações manifestas no congresso; o segundo caso era a revolta e o schisma no gremio da egreja.

N'esta conjunctura escabrosa o congresso preferiu dissolver-se.

Desde esse dia o destino do catholicismo ficou fixado.

Entre os interesses do clero e os interesses da civilisação ha uma barreira que os proprios padres, ainda os mais instruidos e os mais liberaes, julgaram impossivel transpôr.

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Ora desde que não póde ser um alliado, o que está evidentemente demonstrado, o padre é um inimigo. Para o combatermos a nossa primeira obrigação é tomar conhecimento das forças de que elle dispõe para nos prejudicar. Sobre este ponto a resolução tomada pelo congresso do Passeio Publico de pedir a intervenção da policia civil para evitar que o povo troce o clero, tranquilisa-nos satisfatoriamente.

Torquemada requerendo para a queima dos sacrilegos um lampejo emprestado ao chifarote do habil Antunes é um symptoma doce. O congresso propõe-se morder os impios com a condição de que os impios lhe ponham as presas. É a S. Bartholomeu a troco de um dentista. Se os querem ver cantar o côro dos punhaes, cedam-lhes o Vitry.

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A unica coisa grave e perigosa para a sociedade, no congresso catholico de Lisboa, é que, segundo parece, esse congresso foi divertido. As senhoras pelo menos assim o entenderam concorrendo em grande numero a todas as sessões.

Que attractivos especiaes tem a classe ecclesiastica para captivar assim as adhesões da mulher?

Investigando este phenomeno, vemos em primero logar que ha em Portugal tres especies distinctas de padres:--o padre das missões, o padre d'aldeia e o padre de sala.

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Os padres das missões subdividem-se em dois grupos differentes: os aventureiros e os mysticos.

Os aventureiros viajam ordinariamente para a Africa por especulação temporal, por amor á vida d'emigrante, á lavoura dos tropicos, ao lucro mercantil, á intriga da politica colonial e á batota ultramarina. De quando em quando, ao apparececrem-lhes á mão, arrebanhados, alguns centos de pretos mansos e somnolentos, baptisam-os em massa,--cerimonia tocante a que os pretos se submettem adormecidos como verdadeiros justos, conscios por experiencias feitas de que essa operação, altamante civilisadora posto que inoffensiva, os não torna nem mais nem menos pretos do que elles são.

Os mysticos, mais raros, são pessoas doentes da hallucinação do martyrio. A sua ambição suprema consiste em serem comidos ás fatias fritas, com mandioca, pelas raças anthropophagas. Logo que se julgam sufficientemente temperados com o latim preciso para excitar a gula canibalesca e assaz tenros de carne pela vida de capoeira aos comedouros dos seminarios, vestem-se com os trajes de D. Basilio no _Barbeiro de Sevilha,_ mettem um breviario debaixo do braço e embarcam para regiões inhospitas e selvagens.

Uma vez em communicação com os infieis, nunca mais cessam de lhes metter o breviario em cruz entre a bocca e o prato, até conseguirem realisar a sua aspiração suprema, que é não restar d'elles mais que uma batina e um par de sapatos, deitados para debaixo da meza juntamente com as cascas dos legumes, e dois canibaes a palitarem os dentes, e, a dizerem um para o outro:

--Saboroso padre! benza-o Manipanso!

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O padre d'aldeia é d'ordinario o melhor dos homens.

A sua rudeza montesinha colloca-o ao abrigo de todas as subtilezas enervantes da penitencia requintada e dos pequenos peccados elegantes e estonteadores.

