As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02)
Part 5
Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramaticas mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves occasos do outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais profundamente real do que a impressão deduzida d'esse contraste entre a inclemente immobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das supremas paixões no fundo da alma humana!
O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia psychica.
A infancia de Amaro em uma casa nobre, onde a mãe d'elle era criada de quarto. Os pequenos pormenores d'esse interior de familia, onde o catholicismo era um requinte heraldico, onde as meninas, acreditando em Deus como na omnipotente elegancia, tinham como culto dos destinos da alma a preoccupação da _toilette com que haviam de entrar no paraizo_. A creação de Amaro até aos doze annos n'essa convivencia mulheril, ajudando ás missas na capella, espanando os santos, aparando as hostias, dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam _Padreca, Frei Lombrigas_, e o utilisavam nas suas intrigas para «fazer as queixas.» A sua mocidade no seminario, «abafando na estreitesa dos corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro!» Os seus primeiros alvoroços de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros dogmaticos: «Que ser era esse que atravez de toda a theologia ora era collocado sobre o altar como a Rainha da Graça ora amaldiçoado com apostrophes barbaras? Que poder era o seu que a tragica legião dos santos, ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixão extactica, dando-lhe n'uma acclamação o profundo reino dos céus, ora vae fugindo diante d'ella como do universal inimigo com soluços de terror e com gritos de odio, e, escondendo-se, para a não vêr, nas thebaidas, nos claustros e nos sepulchros, vae alli morrendo do mal de a ter amado? Amaro sentia, sem as definir, estas perturbações, e julgava-se desgraçado e maldito.»
Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem, branco, lymphatico, molle, creado entre chumaços de mulheres ordinarias, e sobrepelizes de padres boçaes, no fartum das alcovas sujas e na sombra humida dos claustros musgosos. E prevê-se a quéda fatal d'essa natureza stagnada e paludosa, atravez da qual os desejos insaciados luzem como os olhos de um tigre.
É egualmente bem assignalado o caracter de Amelia. A sua educação sentimental e devota é descripta a golpes de bisturi. Cada traço é uma incisão. Aos oito annos tinha ido para a escola. A mestra era uma velhita roliça e branca que fôra tacho das freiras de Santa Joanna em Aveiro; com os seus oculos redondos, junto da janella, empurrando a agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas legendas, as suas peripecias; as perrices da escrivã sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de canto-chão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e chamando:--Augusto! Augusto!... Tinham-lhe ensinado o cathecismo e a doutrina: fallavam-lhe sempre dos castigos do céu; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um Ser que dá o soffrimento e a morte, e que é necessario abrandar resando e jejuando, ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia porque temia que Deus lhe mandasse sessões ou a fizesse cair na escada.» Além da doutrina aprendera a tocar piano com um velho romanesco. Lêra livros de versos, fôra namorada durante uma estação de banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava pedida por um escrevente de tabellião, que se perturbava sob o seu olhar voluptuoso mas que ella não amava, sentindo em si «como um grande somno do coração.» Não tinha pae. Era sanguinea e forte, de grossos beiços levemente sombreados de pennugem negra. Ouvia missa todos os dias e confessava-se todas as semanas.--A mãe era protegida por um conego. Ella padecia tedios nevralgicos e inquietações hystericas.
Todos os demais personagens, alguns d'elles apenas indicados por quatro palavras, que têem o poder de uma evocação, o conego Dias, o padre Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio Esguelha, o escrevente, o redactor da _Voz do Districto_, as senhoras Gançosos, a sr.ª D. Maria da Assumpção, a Joanneira,--vivem, têem uma physionomia, uma personalidade.
O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da Cortegaça, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do escrevente, passadas commedidas pelas d'elle, acompanhando-o como o remorso, como o presentimento da catastrophe que se aproxima; o infanticidio perpetrado no escuro, com os pés no lodo, á beira do rio, escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma serena tarde de outomno, de uma poetica serenidade ineffavel, partindo a cavallo no momento em que os sinos da sé começavam a soluçar o dobre de defuntos, emquanto um realejo toca na rua um trecho da _Norma_, e, de uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janella pelo pae e pela mãe que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mãosita papuda;--constituem paginas de uma concepção e de uma tonalidade tragica, profundamente elegiaca e solemne, que fica vibrando por muito tempo na memoria como o ecco funebre de um _dies irae_.
Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no espirito uma forte impressão consoladora; é a obra de um grande artista, de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisação perfeita, repousa-nos das nossas preoccupações pessoaes e egoistas, engrandece-nos, eleva-nos aos nossos proprios olhos, infunde-nos a fé, obriga-nos a crêr no sagrado desinteresse da arte, na divina immortalidade do bello.
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Se depois da idéa que procurei dar-te d'este livro, tu, leitor me perguntares se o deves dar a ler á menina tua filha, eu respondo-te terminantemente que não. As meninas nunca lêem romances, quaesquer que elles sejam.
Se o podem lêr as mulheres--é uma outra questão, á qual respondo que podem, ainda que com esta reserva--ás escondidas.
Não que este livro seja immoral. A arte é absolutamente independente da moral, e não póde nunca nem servil-a nem prejudical-a.
Quando para minha consolação e refrigerio eu me desvio da estrada em que succumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descançar um momento á sombra de uma arvore, não pergunto se essa arvore dá peras ou se dá pilritos, se da sua resina se póde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus filamentos se póde entrançar uma corda para o sino ou um baraço para a fôrca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a arca ou para armar o patibulo. A unica coisa que lhe pergunto é se ella tem, para m'a dar, uma boa sombra fresca, macia, aromatica; e se a tem, eu, que n'esse momento não sou um negociante de productos alimenticios, nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim um caminheiro prostrado, eu declaro, não só em meu nome, mas em nome da sciencia, em nome da moral, em nome da religião, em nome do homem e em nome de Deus, que essa arvore é boa, é util, é necessaria--não pelos materiaes que ministra, não pelos fructos que produz, nem pelas substancias que segrega, mas unica e simplesmente por uma condição imponderavel e etherea, da qual em dada crise pode depender o meu destino inteiro e toda a minha vida; e essa condição é a de se interpôr no espaço entre mim e o ceu, e projectar sombra.
Na esphera das multiplas vegetações do nosso espirito a sciencia e a philosophia fornecem as substancias alimenticias e ministram os materiaes das construcções; a arte é a arvore santa, a arvore da sombra para os peregrinos do pensamento.
Schiller em uma das suas cartas, cujo texto não tenho presente, expôe uma theoria que pode resumir-se n'estes termos: «Se um critico em nome da moral processa o meu livro não pelo que eu n'elle escrevi mas pelas conclusões que elle critico lhe extrae, eu despreso esse julgamento. Se, porém, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi, eu poderia executal-o por outro modo, eu n'esse caso submetto-me, não porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.
Ora na execução do livro do sr. Eça de Queiroz ha na parte descriptiva dois ou tres pormenores que não quereriamos eliminados--com quanto isso fosse possivel sem quebra da verdade--mas que nos parece poderem ser referidos de um modo--não dizemos mais pudico--dizemos mais artistico.
Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até o sr. Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o attributo de uma escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analyses da torpeza e da podridão.
O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: «Elle deprimiu tudo aquillo em que pegou, eu enobreci tudo aquillo em que toquei; os homens saidos das minhas mãos respiram gladios e lanças, capacetes de pennachos brancos e escudos reforçados com sete couros.» Os artistas modernos não podem infelizmente inscrever nos seus brazões a nobre divisa do velho tragico. A sociedade actual não fornece á arte os grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as depravações contemporaneas não gravitam em torno do crime heroico mas sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos não parece egualmente inevitavel é que o puz do tumor salpique a mão que o opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou tres vezes como acima dissemos, na obra tão profundamente casta do sr. Eça de Queiroz é que os seus instrumentos anatomicos, tão bem acerados e tão finos, teem os cabos demasiadamente curtos.
A dissecção--permitta o nosso amigo que lh'o observemos--tem tambem as suas leis de conveniencia e de elegancia. Além de que, para estudar um orgão é ocioso expôr aos olhos do amphitheatro toda a nudez do cadaver. Mesmo em anatomia o completo conjuncto é obsceno, porque é inutil.
As damas da côrte tão _pointilleuse_ de Luiz XIV--ellas que representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais exigente no decoro e no gosto--frequentavam, sem offensa do seu fragil melindre de estufa, os theatros anatomicos.
«Á medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem á moda punha em moda a anathomia, a qual, encerrada até ahi nas escolas de medicina ou em Saint-Côme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela mão d'elle.» O tacto especial de Verney contém um exemplo que pode não ser inutil ao sr. Eça de Queiroz.
As senhoras portuguezas não cursam os estudos scientificos. Não teem os menores principios de biologia, de anathomia e de physiologia, principios indispensaveis para entrar nos estudos mais complexos do homem como são na sciencia a historia e na arte o romance de caracter e a esculptura do nú.
Por isso a falsa noção que ellas teem do pudor as torna incompativeis com muitas das mais preciosas convivencias intellectuaes.
Uma noção social não pode, porém, ser modificada pelos escriptores ou pelas academias. Essa reforma é a obra collectiva e impessoal do progresso nos costumes e nas instituições.
N'estas condições, deploraveis mas inamoviveis, maior deve ser a atenção do artista em limar--tanto quanto isto seja possivel sem detrimento da obra--os pequenos angulos subalternos que difficultem a adaptação d'ella aos costumes.
Sob este ponto de vista _O crime do Padre Amaro_ está adeante do seu tempo. Como obra de arte é este um destino feliz, porque n'este caso ter de esperar é adquirir a certeza de sobreviver. Como obra de hygiene social lamentamos que elle não possa desde já actuar pela sua influencia no espirito d'este paiz onde o primeiro livro da educação moderna _La femme, le prêtre et la famille_ é ainda tido por um sacrilegio de Michelet, o impio!