As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02)

Part 3

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Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só, teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa; far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas _réclames_ com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens sentimentaes e sonoras do _perfume dos seus cabellos_, das _pregas dos seus vestidos_, da _flexibilidade da sua estatura_, etc. Houve um folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua magestade--a Magdalena!

Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera deitar fora com as camelias murchas.

Este abuso iniquo e grosseiro fostes vós, conselheiros habeis nos manejos politicos mas imperitos nas questões do gosto,--que os promovestes e auctorisastes.

Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção. Quando a miseria é geral, quando as amarguras são immensas, como disse o proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos não baixa uma só medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha, como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos até achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura immensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento, por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós que o alanceado coração de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e vinte e duas libras em oiro e dez tostões em prata? Esta conta deploravel é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não tendo aprendido pelas necessidades proprias qual é o valor do dinheiro, não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional não havia nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha, entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se sacrificar á fatalidade da guerra.

Depois não vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria: a prescripção da _toilette_. Como sois homens publicos e viveis permanentemente na ostentação e no apparato vós não podeis conceber quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora quem tivesse a direcção d'esses actos de phylantropia, as joias teriam sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido applicado á subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um annel de ferro mandado fazer pela commissão ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria autographa.

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Além da commissão de soccorros presidida nominalmente por sua magestade a rainha a unica corporação que em Portugal se occupou do problema das inundações foi a de suas excellencias os srs. bispos.

Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia que os rios voltassem aos seus leitos.

Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em harmonia a meteorologia e a religião, crear barometros especiaes dedicados ás nossas circumscripções ecclesiasticas.

Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao lado das folhinhas em que se prescreve a côr das vestimentas, teriam as indicações precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o incommodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastoraes. Bastaria que os aneroides _ad usum ecclesiae_ fossem um pouco mais desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmospherica sobre os aspectos do tempo. Por exemplo:--78, _bom tempo fixo, faça preces a pedir chuva_;--74 _grande chuva, faça preces a pedir sol_;--73 _tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo_.

N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos poderão ser substituidos com vantagem pelas cabaças rotatorias dos Kalmuks ou pelos moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento, produzem a adoração perenne. Os moinhos são uma fabrica mecanica de preces continuas, de moagens devotas.

É preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:--pela meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem cabaças que rodem. Decidam!

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O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro, foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos--quinze ou vinte--que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres, indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho, magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:--«Ó labrego, larga o rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:--«Beijos de homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»

O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados, perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza. Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao deixar a patria.

Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta _couvre-pieds_, que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas, com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os dois primos juntos.

Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias, contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional--a fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte--a imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o, desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações. Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim, invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe fizesse justiça. «Exijo--dizia elle--que me paguem indemnisação na medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida, repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de menos[1].»

[Nota 1: Textual.]

Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados, tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a suppõe susceptivel.

Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de libras por cada paquete.

Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar. Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.

As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a opportunidade do modo como.

É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de honra aos portuguezes residentes no Brasil--1.° indemnisando os emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da indisciplina dos homens.

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Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno riacho obscuro que ali passa.

Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos, todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos, todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os projectos das pontes.

A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou--por baixo da ponte!

Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da civilisação portugueza.

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Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda, offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço, carne guisada com batatas e laranjas.

No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a um gesto da regia munificencia o _doutor roxo_ se repartira e prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta arte:

«Soldados! O principe, cujo pennacho branco vós tendes visto constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás victorias, o principe cuja espada invencivel vós tendes visto sempre no meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos, convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma coisa de que sua real magestade jámais se póde esquecer é a maneira como vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de seu real olho!

«Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe é occulto.

«Viu-vos caminhar ávante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos pelo peito como heroes! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar o ultimo suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao ultimo, até nada mais se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadaveres abraçados a um monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem, percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as vossas cinzas, restituindo-as elle proprio ás vossas viuvas, e dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um d'esses frascos, marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!»

«Foi depois de todas essas provações--tão arduas!--que sua magestade deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.

«Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de consideração e de amor, peço-vos que ergaes as vossas taças, de dois decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os quaes dou por finda esta allocução marcial. Viva sua magestade el-rei! Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!»

Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos _toasts_, porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de idéas contradictorias e confusas.

Expressos sob a fórma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:

«Capitão! Ha alguns annos que eu fui agarrado á força na minha terra para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá fiquei ás ordens.

«Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o tenente-coronel ou o proprio commandante me não fallam do meu ardor mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.

«Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na militança nunca tive _ardôr mavorcio_ nem d'outra qualquer especie, a não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se é d'este ardôr que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha freguezia.

«Emquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria ao capitão se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender a disciplina alguns dos pontapés que em observancia da mesma disciplina não tenho até hoje feito senão receber.

«Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:--quem é o inimigo?

«Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco côr de pinhão, de gola levantada para cima, que ás vezes se mettia commigo nas guardas. Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso das artes da guerra.

«Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguem senão connosco. Pelo menos ninguem o teme senão a tropa.

«Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos quaes tem uma espingarda e uma bayoneta, é preciso pôr sentinellas a todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite, para que não nos surprehenda o inimigo!--Que é sempre com o que lhe dão:--com o inimigo!

«Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda não seguei.