As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03/04)

Part 4

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Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de Saxe--inalteravel mimo de galeria ou de étagère.

Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.

Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas por dia.

Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o vicio.

Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados, quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a virtude.

Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos. Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem as escadas das casas em que ha mulheres honestas.

E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...

Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os dramaturgos!

Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por discutida?...

* * * * *

Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados os nossos antecessores.

* * * * *

Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.

Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquez de Pombal.

Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte, esse Luiz XIV de caserna.

Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa, guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.--O que quer que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do genio!

As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo bronze, macisso, pesado.

As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.

Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho, enche os salões e vae deitando os lanços.

O pregoeiro--_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_

Um adelo--_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim, porque é de mosaico!_

Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!

* * * * *

Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia. Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos. Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria--uma visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo, marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes, decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do _Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena: ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão os principios politicos de suas excellencias os executores testamentarios da fallecida soberana.

Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....

Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma senhora.

Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias, que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a constipação intestinal dos principes!

* * * * *

O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz fallecida.

O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o valor de cada coisa.

S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!

* * * * *

Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce consolação--tão sensivel ás almas sublimes--de receber duzentas libras a maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã--como mulher e como rainha!

* * * * *

Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada, embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso throno,--tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:

«Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado--por trez mil e seiscentos!»

* * * * *

SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte:

«Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do Santissimo d'aquella freguezia.

«Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de estrellas de oiro de lindo effeito.

«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes, e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites de senhora.»

* * * * *

Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S. Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.--O amor dos corações puros e das consciencias boas!

Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo effeito!

Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo Ignacio--_incorporeas mentes_--com esta descripção que o _Diario Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos!

Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel, Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo anjo--Almeida Fernandes?!

Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos homem a imagem da caridade!

Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador! Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no Empireo!

Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr. Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino, acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado em Deus ... de filó!

E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:

Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para nos tomar medida. _Amen_!

* * * * *

Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas entendem os principios do direito perante a revolução.

Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_, periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os direitos do povo.

O _Pensamento Social_ diz assim:

«Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem. Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:

«Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses. Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos, porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com pancada.

«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não, que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.--_Palmira da Conceição_.»

* * * * *

Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é uma pequena nossa senhora apparecida--da fabrica lisbonense de fiação e tecidos!

Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.

* * * * *

Ha pequenas differenças:

O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres sociaes._

O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro inquieto de Alcantara.

O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica _Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o mundo velho.

A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence, mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na futura organisação social.

O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação e de erros de prosodia.

O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O commercio--desculpem-nos os senhores proletarios--é tão sagrado como o trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis. Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha, para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento Social_, orgão das classes operarias.

* * * * *

Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece perfeitamente logico este jornal.

Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada temos que objectar.

Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte:

Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas, associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em fabrica, levantar os cortumes.

Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o _Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

* * * * *

Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos burguezes--deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios--são na actual organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:

«Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»

* * * * *

Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe pôr brincos.

Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...