# As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03/04)

## Part 3

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Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam, nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos pés triumphantes d'este sympathico patriota.

Como, exactamente pelo contrario,

São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de ridicularisar o grande imperio,--o que se parece demasiadamente a nossos olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que mentimos,

Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente uma creação poetica e phantasista.

Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.

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Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.

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Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações acerbas, conclue assim:

«Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho, o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc., porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas, manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»

Quer isto dizer:

O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como a proporção existente entre a exportação e a importação no seu mercado--com uma simples condição--e é: que se lhe concedam alguns pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo, da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos ... Nada mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as substancias alimenticias, como não sendo--substancias alimenticias.

Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto, espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto: que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples _producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja ... puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos, as passas ... mera _perfumaria!_

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Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90 habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali existem são na proporção de--1 para 3:021 habitantes _livres_; além do que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa _associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim promover o melhoramento da raça cavallar_.

É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte _sociedades sabias!_

Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_, encarregados do melhoramento da raça cavalar!

No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no _Jornal do Commercio_:

«Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que apertada em um circulo estreito.»

Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um circulo estreito.»

Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo, informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de Janeiro.

Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.

Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro estabelecimento do mundo.

Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão--em pleno uso das suas faculdades.

O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota alienado,--como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial para o receber--é recolhido na cadeia.

Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do estado da civilisação na sua patria.

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Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.

Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de junho de 1859--começa a negociação o encarregado de negocios interino no Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno--prosegue o sr. Mathias de Carvalho. Em dezembro de 1871--principia negociações para um egual tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de 1872--terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872--é assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção postal, nem a convenção litteraria!

Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho--a sr.ª Emilia Adelaide.

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Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte:

1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes, entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus, Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro ... e anonymo!

2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?!

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Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.

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As «corridas» do Campo Grande--Extraordinario successo de dandysmo!

Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso _high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar!

Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no Campo Grande, em volta do lago--o _high-life_ ...

A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.

A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis, empoados, descobertos, com os tricornes na mão.

Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_ repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta zibelina debaixo dos pés.

A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_ descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III trazia mettida na manga ...

Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ ... os _grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os _sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_....

Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia. Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.

Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos ditos que partem do fundo dos _coupés_.

De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer, e encontram-se os olhares que fazem scismar.

Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno, calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes, languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.

As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas e dos cantos de Ossian.

Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes aerias de volupluosidade indefinida.

Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam, ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.

Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo dinheiro illimitado ...

E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de Malines!

Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.

Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o crêmos.--Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete Encarnado_.

Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da praça.... _Alea jacta est!_

Elles partem nos seus fiacres, ao trote.--_Montjoie et Saint-Denis!_

O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca. _Hurrah!_

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Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias!

Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia!

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Hontem no theatro de D. Maria--primeira representação da _Magdalena_, especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas ás curiosidades do _chic_, na Baixa.

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N'este drama ha tres typos principaes:

_O amante_--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro--de Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico--sob os symptomas lancinantes e urgentissimos da colica.

_A noiva_--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!... a divina inspiração!... o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a _toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:

_A amante do noivo_--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma _lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_; celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias, em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de _pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz extravasado.

_O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,--de sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer perder aos outros.

O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno cáe.

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Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.

O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta _ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.

Pois bem: é essa mulher que se vae embora--notae-o bem, minhas queridas burguezas!--é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós, está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.

O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e sairdes com elles.

Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas derrancado ou extincto.

As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle, serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca luctar.

