As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02)

Part 5

Chapter 5 622 words Public domain Markdown

E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e revista, a celebre e immortal lei--_do engarrafamento das vasilhas_, na qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

«Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer vasilhas.»

Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que a camara--intemerata e altiva--se acha habilitada para proceder á face da Europa a este milagre:

_Engarrafar vasilhas_.

* * * * *

E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena parlamentar--onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como uma mosca caida sobre uma taça de creme--para o refugio inviolavel da vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro, aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã camoeza!

Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario, um capitalista ou um sabio.

Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,--é não as fazer.

Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás grande.

Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem, no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um meio de não ser ridiculo:--é ficar em casa.

Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser trinchado por ella.... Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no teu voltarete.

Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as barejes.... Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua triste representação--de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso--porque elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem orthographia, nem mão de redea!

O que estes são--na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o, como o foste--na politica! Não tornes cá.

Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um beijo, desculpa.... É que nós temos razões para desconfiar,--pelas tuas moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus discursos,--que tu usas _patchouly_ e comes alho.