As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02)

Part 3

Chapter 3 3,753 words Public domain Markdown

As imperatrizes--coitadas!--teem de resignar-se á sua triste condição de imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria, interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em similhantes condições e com eguaes amarguras!

Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de considerar-se menos que quaesquer outros.

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É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito pela mulher digna e virtuosa que morreu.

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Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes feridos e dois mortos.

Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que ninguem era ferido.

Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas, levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento, satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição--ao piano.

Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr. delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que delicto? _«Por abuso de defesa»_.

Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico--por _abuso de defeza_.

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Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_. Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar: contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos. Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores, por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã, espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe diga assim:--«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

E se o povo ainda assim resistir--diacho ... então, que o exercito fuja!

Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...

Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...

Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite. Melicio vela!

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A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo--uma figura de rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara--uma funda.

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Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo, ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr. Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada. Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr. deputado, com voz pausada e firme disse:

«Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle a quem verdadeiramente podemos chamar ...»

Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante, bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo--«Aquelle a quem verdadeiramente podemos chamar»--_O sol no occaso!_ (Prolongados apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros. Vozes: Muito bem! muito bem!)

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Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso commum.... O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro ... O senso commum com que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi, á beira dos golphos innundados de azul ...

Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia, a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu? Escuta-o, ó principe! Tu és--_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os deuses immortaes, os deuses--guarda-soes! Que tão augusta dynastia se prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX, por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens com brisa fresca!_

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Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras seguintes:

Sol no occaso ... como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e inspirada voz!

Sol no occaso ... qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta assembléa, labio tão selecto como attico!

Sol no occaso ... só me é licito empregar a phrase penetrante que não ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

Sol no occaso ... segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

(O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

Sol no occaso ... direi pela segunda vez, se a camara permitte que comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já ...

(Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_. Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros, emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham luminosamente--uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre amigo fiel, Melicio--o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de um desconhecido).

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_Áquelle que jurou assassinar-me_

Meu senhor--Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir, consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

«Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz? Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia...... de ...... d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

Omitto n'este extracto o dia e o mez--os quaes o meu amigo fixa com a mais amavel pontualidade--porque, sendo um negocio inteiramente particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem de occupar-se do caso.

Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas ... Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

Meu amigo--Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente, sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha opinião:

Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no Brazil--onde custa tudo tão caro!--o barato que ha de sair ao meu amigo o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de barateza que nem costumo levar nada--por me achar em casa!

Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem ordinariamente comsigo.

Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final fecha o discurso.

Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram, violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln e o jornalista Courrier.

Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que, dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,--tão correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem felizes,--irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e implacaveis da desgraça!

No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia, affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso, sentia a displicencia, a melancholia.

Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?...

Vermes!

O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu começava a nutrir--de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios aziaticos, que o que eu tenho é--o meu amigo. Considero-o já como uma parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos mezes, e todavia--como é commodo isto!--o meu amigo não me obriga a tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por ventura me amam ... vou descansar para debaixo dos cyprestes--bastante para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens, que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da terra, que me não expulsarão nunca--elles!--da sua convivencia gulosa, mas discreta.

A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será--que elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha, um scirrho no estomago; eu terei apenas tido--o meu amigo! o meu amigo que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:--ausente!

Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

--Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

--Sabem ... era aquelle com quem nós embirravamos ...

--O que trazia o bigode assim?...

--Esse mesmo!

--Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume ...

E algumas outras coisas doces e impereciveis.

E do meu amigo dirão apenas:

«A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_, isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado designadamente a minha ... Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete--com feijão branco.

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Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar, promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão, perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque, emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas, encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos--com o vate:

_Aos infieis, senhores, aos infieis!_

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D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do ministro do reino.

O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua pasta para ir adoptar o seu livro.»

O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos de membro do actual gabinete.

É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade colloca-se assim na logica que leva a consideral-a--pelos effeitos passivos da sua inanidade--como uma especie de virtude.