As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02)

Part 2

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O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria sentimental,--o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os obreiros--jornalistas e oradores--a pedirem mais descanços para discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está hypothecada.

Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo, dando dinheiro e recebendo papeis.

A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica dignidade verdadeira e segura--o trabalho pessoal e livre. A mocidade tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

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A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos, pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A religião--mais clerical que divina--penetrando-nos completamente, dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar, assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento, lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles, lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a rebaixa.

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Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos--sermos victimas; faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á baixeza. Temos do constitucionalismo--esgotado--tudo o que elle tinha da mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante, a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto, a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario, para o reles, para o chinfrim ... Vêde a camara dos deputados: não é só a precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel, na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

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O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer não seja para nós um irremediavel perigo.

Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem immediatamente de manter os abusos.

Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a melhor politica.

Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se como se é homem de bem.

Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o partido,--isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela falta da virtude.

Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram--Cesar e Bonaparte pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a gangrena e a dissolução latente do estado.

Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado popular, e que consiste resumidamente em preferir--o dever á conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a liberdade.

Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma, acreditava em Deus e acreditava na justiça--a imagem immortal da perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores actos que a homem algum foi ainda permittido commetter--dar a liberdade aos negros e dar a paz á America.

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Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê prudente e justo.

No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a condição essencial--intrinseca--da vida, a garantia do trabalho e a segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao jantar?... É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa, Theagenes em Megara.

O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o desfallecimento e a morte.

Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua forma politica--no governo--, a primeira obrigação do povo é manter esse principio sob a sua forma philosophica--na razão.

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O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais intelligentemente armadas e equipadas da Europa....

A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros gabinetes de repouso suspensos de uns loros--coisa tão confortavel que as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler o jornal e tomar o café--para os estribos.

O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os desde hoje e para todo sempre invenciveis.

Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando, com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas, scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa--molhavam os pés!

De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria--mudasse de piugas.

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Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida--ter os pés quentes!

Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de sola, a infanteria seja egualmente dotada--com galochas de borracha.

Depois do que,--adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do sapato de ourello e do cobertor de papa--tendo o exercito os seus pés quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições--elle será feroz!

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Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por Tavira_.

Que nos perdôe s.ex.ª--e Tavira!

Eis a moção:

«A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos os srs. deputados.

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O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

«Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia constitucional.»

Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr. Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que apparecer.

E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente illibados.

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Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa ha dois annos.»

Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

«A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á independencia, e passa á ordem do dia.»

Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

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Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de Palhés e a villa de Mangualde.»

Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

«A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde, passa á ordem do dia--e a abotoar-se.»

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Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a crimes, cujos cumplices estão processados--d'aqui, inutil--e affirma o que não é--pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

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Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado--não certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua moção:

«Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as instituições e contra a dynastia ... Esses perigos não posso occultar á camara que existem ... Extranho que o poder moderador não convocasse a camara ... pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e as instituições.»

Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra conspirações continuadas.

O partido historico caiu victima de uma conspiração.

O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se ao mais a que se podia chegar_.»

Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os partidos se reunirem e votarem unanimemente--que ninguem conspira!

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Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr. Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr. Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a pombinha branca, de assucar--tão casta!--das lampreias d'ovos.

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Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras. Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se, faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro, trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em funeral.

Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada, entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

Dizia-se fallando-se d'ella:

«Deixou pouco.»

«Que fez ella ao que tinha?»

«Que miseravel! que mesquinha!»

E um jornal catholico escreveu:

«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em cautellas de vinte e cinco.»

Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os homens deseguaes.

Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos, levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo, suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou o descanço eterno.

E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.