As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01/02)

Part 4

Chapter 43,776 wordsPublic domain

O processo d'aquelle que por uma causa qualquer--boa ou má, justa ou iniqua--arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer o chão.

Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa, era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão ... Quantas mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos sorrisos, com a malevolencia das allusões?

Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra domestica.

A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão publica da sua virtude.

Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas! As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo. Porque em verdade ser apenas um ministro--unico estado social que nos dispensa de sermos alguma outra coisa--não é propriamente um destino. Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte--pela coragem, pelo sacrificio ou pelo talento--que são as tres maximas constellações do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos, inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que viveu.

Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter passado no mundo.

O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades venturosas--com um ganso,--o sr. Jayme Moniz.

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Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos periodicos portuguezes são--anonymos.

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Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:--que possa alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é este:--não assignar.

Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas as antipathias que tenha podido suscitar.

Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

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A primeira razão por que se não assigna é esta:

A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja, convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro. N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da dignidade e da razão.

Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo, perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma catastrophe para a justiça.

Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado: quanto mais se lê peor se escreve.

Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva. Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_ foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe, salchicheiro.

Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito socialistas ou muito auctoritarios--tudo isto com a expressa condição de que nunca hei de saber quem elles são--dão-me exactamente aquelle receio:--medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de magnezia.

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Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez. Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema representativo nacional.

Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico, abalisam uma época, enquadram um seculo.

Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

«Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu para o seculo attonito uma torcida,--e a luz foi feita. Os homens, os principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes--ai de nós!--o empanaram e entenebreceram, é porque elles--o discreto Pickuick e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se detinham,--geniaes, assombrosos e tremendos--para se espevitarem.»

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O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos, teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois varões extraordinarios!

No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:--Barros ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o barrete de algodão branco--casto symbolo dos sonhos immaculados--e a nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos--outrora tão puros!--quando se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do solo e dizia-se em um documento hispanhol--a _Peninsula Iberica_, ao que Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não! nunca!»

Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á geographia--e á canalha!

Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a Peninsula Iberica?... Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de pecego. Mas peninsula!... Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha tola?... Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó perra vil!

E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica, os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na benevolencia do imperador Guilherme ... Pudera! aquelle que acabou com as peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos congressos ... Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama, a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?... Que venham! Cada fita de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte--de ôlho de perdiz!

Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio--o extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria--e das peninsulas!

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Agora--Barros.

Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o Brazil--grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

Como o explica, como o justifica elle?

Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera occorrido a ninguem ...--Pelo precedente das andorinhas!

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Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem, sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo, magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia--por dentro,--nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

«Elle tem alguma coisa na cabeça!»

Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria parisiense de Champfleury!

Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades o povo--e o passarinho!

Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos, como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e sacrosanto em que a idéa lhe veiu!...

Estamos em que não poderia deixar de ter sido--no campo! O sabio no bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do corucheu da velha ermida em ruinas--- ellas, as duas, as mysticas amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar--a andorinha e a questão social--batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as amplidões do azul em phantasticos arabescos....

E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

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Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo recebia successivamente em tres botes tres visitas--a do porto, a da saude e da alfandega--cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres visitas n'um só bote!

E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

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Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão portentoso que pretendeu economisar á patria--dois botes!

Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus maiores!

O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este heroe--sr. Barros e Cunha--com este outro--sr. Barros e Sá. Porque--ó ilusão!--elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se parecem--dois coelhos,--dois porta-machados--ou dois pretos.

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No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto--um caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens, novos ceus, novas floras e novas faunas.

Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil pessoas.

Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e com a Russia européa.

Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão gelados nove mezes por anno.

Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os Strelitz.

Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as caravanas do chá....

E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada, comeremos ninhos de andorinhas--uma especie de letria insipida, cara como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!--mas se soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785 letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais subditos do grande Filho do Ceu.

E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem expresso_--o heroe do poeta Campoamor--, que devora o espaço e o tempo, fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um barril immundo para um fino cristal facetado!

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A camara dos srs. deputados....

Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs. deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim--nós estamos como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle aceno--tão profundamente triste para os que partem--de um lenço branco que palpita, ao longe!

E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça, abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna....

A camara pois--diziamos--querendo collocar-se ao par do que a civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar um phenomeno--mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um barril, uma pipa ou um tonel!