As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02)
Part 4
«A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar ao som da musica ou para passear de sentinella á porta dos edificios publicos.
«Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa. Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.
«Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este banquete olympico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo. Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao pé do lar, no casal da minha velha... Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz idéa... Fallo-lhe da minha mãe.
«Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje tinhamos lombo assado á fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que lombo aquelle, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar outra vez se fosse d'esse lombo que me déssem! E depois não era o rei que me convidava a mim,--o capitão ha de comprehender o effeito moral d'esta differença--era eu que poderia convidar o rei a comer no meu casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar com o meu trabalho, com a minha força, com o meu prestimo! Na minha aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho e com o meu cajado, o rei era eu!
«Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capitão, que raio de diabo!
«Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo, um espantalho de botões de ouro fingido, de espingarda descarregada e de patrona vasia, para metter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!
«Dizem qae tambem sirvo para--manter a ordem. A ordem que eu mantenho é outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.
«Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem appareceu o bico de uma bayoneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem é mantida por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os annos ha revoltas. Revoltas de quem, meu capitão?--Dos sargentos!
«Ora, se eu não sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como eu, não serve tambem para coisa nenhuma, não acha o capitão, que o mais justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos--ao inimigo e a mim?
«Se como o capitão affirma, el-rei é meu amigo e pretende obsequiar-me, que sua real magestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me cumula! Que me permitta estar na minha casa, como sua magestade está na d'elle com sua excellentissima esposa e com os seus interessantes filhos! Eu lhe protesto que não só dispensarei todos os seus favores, mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidadão independente, serviçal e util, em vez de me desfallecer para aqui, dentro d'este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de ociosidade, comido de tedio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as más molestias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e não prognosticando grande coisa senão para o mal de mim mesmo. Nada mais accrescento porque está a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao inimigo,--passeiando de sentinella á porta de palacio.»
[Nota 2: No dia em que estas linhas foram escriptas suicidavam-se dois soldados, um de infanteria n.° 1, em Belem, outro de caçadores n.° 10, em Setubal.]
Depois de coçado este discurso na cabeça dos soldados, terminou o banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela excellencia do serviço e pelas delicadas maneiras do sr. capitão.
* * * * *
Referem os jornaes que a Academia Real das Sciencias celebrará no mez de março do futuro anno de 1879 a festa do primeiro centenario da sua fundação.
A primeira das rasões porque folgamos com esta noticia e que se inicia em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:--a tendencia a reformar o calendario, substituindo as ephemerides ecclesiasticas pelas taboas historicas.
Essa tendencia revela um progresso.
A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisação ha de manter entre as grandes epocas da humanidade. Mas essas datas, por mais gloriosas que sejam, não bastam para prehencher os fastos da humanidade e para pautar o culto devido á lembrança dos grandes factos e á memoria dos grandes homens.
Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, teem tambem os seus, e a gratidão humana não deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia de S. Bernardino, a 20 de maio, é tambem o dia de Christovão Colombo. O dia de S. Luciano, a 8 de janeiro, é egualmente o dia Galileu. O dia 5 de abril é o de Santo Adriano e é o de Danton e de Camille Desmoulins. O dia 23 do mesmo mez é o aniversario do nascimento de S. Jorge e é tambem o da morte de Shakespeare e de Cervantes.
Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a collecção dos bolandistas ou o _Flos Sanctorum_ o que foram precisamente para o mundo e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguem todavia ignora o que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.
Depois a circumstancia de ir para o ceu por uma decisão dos concilios nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.
Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capitulo XXII, versiculo 61, S. Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por tres vezes no tribunal de Caiphaz. No tribunal da Inquisição, deante da fogueira que o vae devorar se não renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christã; Giordano Bruno fundou uma nova teoria do Universo. Um é adorado como santo; o outro é condemnado como hereje. E todavia é com Bruno e não é com Pedro que todos nós, filhos do seculo ou filhos da religião, temos que aprender como se sustenta uma convicção ou como se defende uma crença.
A iniciativa da Academia contribuirá poderosamente, de certo, para fazer entrar nos costumes a fecunda lição alliada ao culto dos grandes homens e á commemoração dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se as festas nacionaes de todos os povos civilisados.
Ao centenario da Academia succeder-se-ha sem duvida o do apostolo da nacionalidade portugueza Camões, e o do martyr da liberdade de pensamento Damião de Goes.
* * * * *
A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a celebração do jubileu academico, pedindo a publicação de uma historia d'aquelle instituto, virá por meio d'esse documento recordar o papel brilhantissimo que teve na historia das idéas em Portugal essa corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a reatarem a tradição gloriosa d'aquelles que os precederam na direcção intellectual do paiz.
A Academia Real das Sciencias foi o foco da revolução e o berço da moderna liberdade em Portugal.
Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente publicado--_Bocage, sua vida e epoca litteraria_--encontram-se os mais preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria, documentos até hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se teem feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor. Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros academicos.
O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas _contas para as secretarias_, manuscriptos conservados na Torre do Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos, accusando-os como sectarios das idéas da Revolução franceza, relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos á legação de França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares finalmente que em certa noite vão debaixo das proprias janellas do paço entoar a canção do _Ça-ira_.
Os cabeças d'este movimento de revolta contra o despotismo monarchico-catholico são designados pelo intendente Manique com o nome generico, ainda hoje em voga, de _philosophos modernos_. Os livros dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são sequestrados na alfandega.
A publicação de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia é impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adhesão d'esta companhia ás idéas francezas é manifesta em muitas passagens dos registros policiaes.
«Acha-se n'esta corte--diz o intendente Manique--nas casas da _Academia das sciencias_, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo _abbade Correia_, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sessão da convenção Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao _duque de Lafões_ na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do _abbade Correia_ que é amigo mui particular do ministro e consul da America do Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»
Eguaes accusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da _Recreação Philosophica_ o Padre Theodoro de Almeida, «com o qual, accrescenta Manique, o já alludido Broussonet fica algumas vezes na casa do Espirito Santo de Lisboa.»
A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revolução, levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas instituições em 1834 e a liberdade subsequente.
A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma que era no fim do seculo passado.
Não é no estado de indifferença, de egoismo e de ignorancia em que ainda hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das creações da arte.
A intervenção das academias como elemento official e conservador pode ser util e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade historica e lançar a sociedade na anarchia. Ahi compete ás academias salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.
Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e invasoras dos espiritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia, que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu gremio as intelligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais vivos da philosophia, aclarando todas as questões relativas aos maximos interesses do espirito, á religião, á politica, á esthetica, implantando finalmente a revolução na esphera intellectual para que d'ahi ella penetre nos costumes e se infunda nas instituições.
Se o desempenho d'este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporação livre. O poder espiritual, de que ella é a encarnação litteraria, não lhe procede de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.
Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por elles, estabelecida em um palacio ou refugiada em um sotão, recrutando os seus membros entre os invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos da controversia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas uma:--ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma excrecencia apparatosa, um orgão atrophiado e inutil á civilisação.
* * * * *
Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espiritos--ou seja lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria dá um d'esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e reforça ou reage sobre ellas e as decompõe. Toda a litteratura ou é _conservadora_ ou é _revolucionaria_. Queremos dizer: ou transige passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impõe.
Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em que a litteratura não fez mais do que fortalecer as superstições que achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de que se compõe a bibliotheca bollandista, e são esses _acta sanctorum quotquot tote orbe coluntur_ que encerram a historia inteira da humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o Oriente, desde o seculo VI até o seculo XII! Com razão conclue Buckle--o grande historiador da civilisação--que o maior dos estorvos do progresso tem sido a manutenção do erro pelo poder litterario.
Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente da intelligencia e da dignidade humana.
Portanto: a primeira condição social para a existencia de uma litteratura compativel com o progresso é a liberdade.
Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia, por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade, falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas gerações que nos precederam, foi deixando a grilheta da oppressão mental. A nossa tendencia de escriptores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da credulidade geral.
A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precauções da forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miseravel de pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o respeitavel publico.
Entre as aberrações eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no folhetim,--apparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena litteratura portugueza destinada a ser um agente na evolução das ideias e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos sociaes, _O crime do padre Amaro_, representa a obra mais profundamente caracteristica.
Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode parecer o resultado de um _mot d'ordre_. Cremos, para honra do jornalismo, que a razão do apparente despreso de que foi objecto este romance está no simples facto de que a critica se considerou incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas as _Farpas_ deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia escreviamos um artigo ácerca do adulterio; a logica arrastava-nos a deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo até o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omittimos uma opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos analysadores que se nos seguissem.
_O crime do padre Amaro_ é effectivamente difficil de sentenciar porque constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as audiencias geraes do folhetim e do noticiario.
Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert, porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caracter que o distingue como verdadeira obra d'arte.
Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O officio do historiador é discernir no estudo das epocas e no estudo dos acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista é discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu caracter artistico. O methodo do historiador é o methodo do romancista. Não pode ser romancista um simples _observador_. Cada sciencia tem, como diz Littré, o seu methodo particular e caracteristico. A _observação_ é um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis o astronomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela _experiencia_ e pela _analyse_. O biologo tem por methodo especial a _comparação_. O historiador, e por tanto o romancista, teem como instrumento particular a _filiação_, isto é, a producção dos estados sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter é expor no personagem a figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada porção do espaço e do tempo por um certo estado social.
Um caracter é um phenomeno historico, que se não comprehende senão emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.
É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um acto;--influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade; influencias sociaes, as instituições, os costumes, a familia, a educação, a profissão.
Comprehende-se a commoção de surpreza que produziu este livro, ao notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questões physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a sentimentalidade e o mysticismo, isto é, todos os pontos de controversia philosophica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.
Pela nossa parte, como é precisamente o conflicto que constitue o nosso programma, não temos rasão plausivel para abster-nos da apreciação d'este livro.
A rasão da condemnação silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a apparição do _Crime do padre Amaro_ está no simples facto de que elle é um _romance de caracter_. Esta simples designação explica tudo. O genero é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco são romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á litteratura de _tricot_ cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas _miss_. Apesar das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz não teem alcance social, são meras narrativas de salão.
O livro do sr. Eça de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma obra d'arte suggerida pela consideração de um problema social.
E todavia _O crime do padre Amaro_ não é de nenhum modo um livro de critica, é um livro de pura arte na mais alta accepção d'esta palavra. Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma palavra declamativa ou didactica.
Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que lhe estão preparados, calça uns chinellos de ourelo, veste o casaco velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego, caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos, compungidos, pretenciosos, miseraveis.
D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a acção destaca-se luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no sonho de Machet.
Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.
O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros stylistas francezes não conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza, pela incomparavel variedade das suas construcções grammaticaes, pela inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execução sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do estylo erudito.
O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a preoccupação do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi arrancado da indole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuino e tão accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.