As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01/02)

Part 2

Chapter 23,786 wordsPublic domain

Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas, ninguem se occupa--nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente sentado nos seus _fauteuils de orchestre_ e applica á marcha dos successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!

* * * * *

A crise economica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos _reporters_ sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade particular mas sim pela assistencia publica.

Porque--reflictamos um momento--ou existe esse conjuncto harmonico de instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a lista civil?

Se o Estado existe, o que é para elle o _lnundado?_ O _Inundado_ é o productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha, pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas: produz e paga.

Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós, republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.

Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores, poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,--nós, francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas--mais ou menos legitimamente--os usufrutuarios, os administradores officiosos ou officiaes do dinheiro dos outros.

Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as purpuras dos nossos reis, as _toilettes_ das nossas dançarinas, os penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar. Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer você ou não quer a civilisação? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que vá á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você appeteça. Em troca d'este enorme serviço que eu lhe presto ha de você resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu cá mandarei cobrar pelo escrivão de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a divertil-o summamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias duzias de repartições publicas, um theatro, um _Diario das Camaras_, um arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender. Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de serviços. O Inundado, porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os trabalhos hydraulicos no rio.

Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á desolação e á fome.

O Inundado pede então a alguem que em seu nome exponha ao Estado a situação em que elle se acha:

* * * * *

Excellentissimo Estado e meu amigo.--Ha cincoenta annos que para aqui me acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v. ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data d'esta nada recebi.

Os deputados que para ahi tenho expedido á custa de muita intriga, de muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas distribuidas com as listas á bocca da urna, nada remetteram para cá senão discursos cheios de exclamações e de erros de grammatica. Graças aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos, ferramentas.

Acho-me na derradeira miseria.

Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa, entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pelle como v. ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres, padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amendoas pelas festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos seus moços e os d'elles proprios ao serviço da nossa causa, quebravam todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades resavam,--o que, se não nos fazia bem, tambem nos não fazia mal; e esta é a differença que distingue os frades dos seus successores, os deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Além d'isso, os frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades, se de ordinario viviam á nossa custa, tambem nas occasiões de crise nos permittiam viver á custa d'elles, e o caldo da portaria era uma restituição.

Quem até hoje não tem restituido a importancia de um vintem nem em dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma especie é v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.

Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas paradas; corpo diplomatico; côrte; gratificações aos doze homens que representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores para Gôa e juizes para os Açores; repartições publicas; arsenaes; imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraça de que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem sequer ao menos me teem convidado,

D'este que é

De v. ex.'a

Humilde subdito e servo

_O Inundado._

A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade não fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.

O Estado respondeu:

Meu caro Inundado.--A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma situação bem critica para te poder servir, como desejava.

Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para me occupar de ti.

Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão, toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes revestir-te de pano piloto, e espera.

Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o nosso Forte Gato, e outros.

É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os consoantes para _rainha_; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres disponiveis e mais proprios do alto estylo do que _tainha, morrinha, doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha_. Manda tambem para _Pia_ os que poderes obter, menos os que pareça conterem allusões irreverentes como _enguia, folia, tosquia, letria, azia, mania_ e _bacia_.

Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um _skating rink_ de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.

Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os teus revezes--tão lastimados elles são!--têem feito espigar mazurkas e rebentar polkas... de pura dôr.

Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de beneficencia nocturna as _toilettes_ são sempre de grande-caridade, isto é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda, luvas de dez botões, e diamantes.

É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para se tratar de ti. Triplicaram as _soirées_ n'este inverno e dança-se todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

--Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!... Chaine anglaise, minha senhora!

--Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miseria... Sirva-me um gelado!

--Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!... De fructa ou de leite, minha senhora?

--Salvemol-o vivo ou morto!... De leite!

Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de Baltresquí.

Um telegramma que chega:--O Inundado está com agua pela cinta.

Um sujeito fugindo com um perú assado:--Vou levar-lhe uma boia!

Uma menina gritando:

--Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jámais que o coração generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente por um inundado que só está em perigo--da cinta para baixo! Accudam ao papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal: elle já comeu uma!

De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.

Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser coasagrados e cáem sobre as subscripções abertas para te proteger como bençãos dos genios incomprehendidos e olvidados.

A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instrucção primaria subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram penetrar no _quadro de honra_ como sufficientemente fortes em leitura, figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.

Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão reiterados e tão grandes beneficios! Como não sabes fazer mais nada, espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais longos annos, como desejas e has mister.

Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da agua pela cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes desde já preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para receberes quem é devéras,

Teu amo e protector

_O Estado_.

_P. S._ O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com _c a_, ou á grega com _c h a_.

* * * * *

Diz-se geralmente--e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da epoca--que sua magestade a rainha fôra aconselhada e guiada em todos os tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua magestade vão dar um novo grau de importancia culminante e unica na governação publica. Será perfeitamente legitima essa importancia. Se effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a idéa profunda de apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que nunca se egualou e que se não póde exceder.

Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e são victimas do seu proprio acto. Em todo o _statu quo_ toda a idéa nova é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo projectil inimigo.

Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os meios que produzam este resultado:--a consolidação do que está.

É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais adequado e mais proficuo.

Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes, controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos, com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!

Que aconteceu, porém, em vez d'isso?

Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela bocca dos seus oradores.

O sr. Osorio de Vasconcellos disse:--«Partiu de alto a iniciativa; partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é geral _(apoiados)_ do soffrimento que é grande; das amarguras que são immensas... O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da caridade... Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc., etc.»

O sr. Barros e Cunha:--«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões, e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo do seu reconhecimento.»

O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)--«Trago tambem aqui uma proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio. Tenho concluido.»

E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade, para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento popular!

A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de gratidão.

Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros, os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes, _speechs_, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas, bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu n'esta immensa apotheose.

E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais firme que nunca no amor dos novos.

Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo que o paiz podia desejar na sua situação presente.

* * * * *

O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações baratas e reles.

Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós, meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e miseravel.

Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.