As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

Part 5

Chapter 53,944 wordsPublic domain

Fallecido D. João IV, tomou as redeas do governo a rainha D. Luiza, a isso obrigada pelo testamento do rei e pela menoridade de seu filho Affonso VI. Os negocios do Estado não se alteraram em cousa alguma com a administração da rainha viuva; mudou-se simplesmente o nome do imperante, porque, como dissémos, D. Luiza foi sempre a vontade do marido; nem o padre Vieira, favorito de D. João IV, nem Fr. Domingos do Rozario, seu conselheiro privado, a dominaram alguma vez. Altiva e auctoritaria, ella attendel-os-hia em certas occasiões, mas nunca se escravisava á sua influencia.

Embora nos campos da batalha o valor do nosso exercito levasse, por vezes, de vencida o arrogante castelhano, a regente, como astuta politica, entendeu que sem allianças que amparassem a corôa aos embates da fortuna, difficil seria a sustentação da independencia. A França e a Inglaterra eram o alvo dos sonhos dourados de D. Luiza; queria ella fisgar a amizade d’esses paizes com enlaces matrimoniaes que identificassem os seus interesses aos interesses de Portugal; seguia assim o procedimento de D. Manuel para com a visinha Hespanha, procedimento este, que, apesar de todas as rivalidades, sustentou o equilibrio da nossa tranquilla expansão ultramarina.

N’este empenho, realisou-se em 1662 o casamento da infanta D. Catharina, irmã de Affonso VI, com Carlos II d’Inglaterra.

Tanger e Bombaim foram os penhores da amizade portugueza e o dote da noiva de tão alto soberano. D. Luiza alienava uma pequena parte das colonias para ajudar o bom resultado da causa nacional; effeitos de necessidades que se impõem e que, por desconhecimento de razões só sabidas dos coévos, a Historia mais tarde aprecia um tanto injustamente. Se Luiza de Gusmão comprou, com a entrega d’aquellas duas praças, a soberania da casa de Bragança, deve-se notar tambem que com a realeza da dynastia estava consubstanciada a independencia do paiz, que junto a Castella não era senhor do seu proprio torrão. E se mais tarde se tornou perniciosa a alliança de Portugal com a Inglaterra, ninguem tem direito a arguir a viuva de D. João IV, exigindo que, embora fosse politica sagaz, podesse prever factos tão posteriores e filhos de circumstancias que á epocha pessoa alguma saberia divisar no horisonte. A Historia deve ser justa e como tal abençoar D. Luiza, que trabalhou varonilmente pela causa da sua patria adoptiva; e mesmo que então a alliança ingleza fosse um erro, bastava considerar o objectivo que a iniciou, para o historiador absolver essa falta venial, praticada inconscientemente, filha da imperfeição da fraca humanidade.

Sejamos justos e verdadeiros. Se a Inglaterra nos tem sido traiçoeira, tambem a França então nos chamou a si e nos abandonou conforme lhe convinha. Luiz XIV favoreceu a guerra com Castella, unicamente para abater o poderio da Casa d’Austria; consentiu no enlace da filha do duque de Nemours com Affonso VI para avassalar este paiz á sua politica de ferro, para dar principio á sua ambição de dominio na peninsula, revelada por elle, mais tarde, no celebre dito de despedida a seu neto Filippe V: _Meu filho, já não ha Pyreneus_.

Não foi o amor da justiça a causa do soccorro da França, mas o mesmo ideal de rapina que a Inglaterra levou ávante. E se esta soube vencer, não devemos esquecer aquella que da sua parte fez quanto poude para alcançar victoria.

Afinal effectuou-se o casamento do rei de Portugal com a princeza Maria Francisca Izabel de Saboya, filha do principe Carlos de Saboya, duque de Nemours, e da princeza Izabel de Bourbon, neta de Henrique IV, de França. O contracto nupcial foi assignado em Paris aos 24 de fevereiro de 1666, sendo procurador de Affonso VI o marquez de Sande, Francisco de Mello e Torres, tronco da casa dos condes da Ponte, nosso ministro junto de Luiz XIV, e representantes da noiva o marechal duque d’Estrées e o bispo de Laon. Affonso VI era indifferente a todos os passos dos seus ministros para lhe arranjarem esposa. Desequilibrado pela paralysia que lhe tolhêra na infancia a alma e o corpo, o monarcha entregava-se á pratica dos vicios mais vis, descia aos principios mais condemnaveis, desauthorisando-se perante o povo que, apesar d’isso, venerava o rei como symbolo do principio augusto a quem devia a livre existencia.

Como contraste, o infante D. Pedro, irmão de Affonso VI, um galhardo rapaz, moreno, olhos e cabellos negros, typo peninsular, ardente, seduzia as mulheres á primeira vista e esgotava o amor em repetidos galanteios. Corpulento e robusto, cavalleiro e namorado, o infante attingia a méta do ideal das populações occidentaes; encarnára o amor da plebe e o amor das salas, dominava as massas com os golpes certos da sua farpa de toureiro e attrahia as damas dos salões aristocraticos com o faiscar dos seus olhos bellos e com a contemplação sedenta da sua estatuaria varonil. Tinha tudo—formosura, valentia, garbo, gentileza; mas não tinha corôa. Era filho d’um rei, cujo sceptro sustentava um impotente, quasi um doido. Para o principe subalterno a visão d’esse throno, que a elle, no seu entender, só devia competir, foi-lhe inoculada inconscientemente pela mãe, ao ver os desvarios do filho primogenito; e d’ahi a semente lançada em terreno fertil, desabrochou, cresceu e desprezou obstaculos que lhe atrophiassem o desenvolvimento precoce.

Apesar de tudo, Affonso VI conheceu as intenções do irmão, que não tinha ainda quem lhe secundasse os esforços, quem tivesse força para erguer um throno e derrubar outro. Quando D. Pedro soube do casamento do rei, talvez visse n’esse facto o mallogro infallivel de todos os seus projectos. D. Affonso, mesmo meio tolhido, poderia continuar a dynastia, e então as pretensões do infante ficariam de todo nullas.

Afinal alvoreceu o dia da chegada da rainha (2 d’agosto de 1666). Lisboa vestiu galas, quando a artilheria salvou a esquadra franceza. O coração de D. Pedro palpitava ancioso, abatido, ao ver desfolharem-se, uma por uma, as flores das suas sorridentes chimeras. Mal diria que nas naus de França se guardava o seu unico amor, o ente criminoso que o ajudaria a realisar o sonho infame. N’essa mesma tarde, rei, infante, côrte e auctoridades foram a bordo prestar homenagem á nova soberana. Tinham forçado D. Affonso a assim proceder. Não queria ir, entretido com a Calcanhares, expandindo as furias do seu genio violento que assassinava um desgraçado por entre beijos e caricias na sacrificada amante.

Quando D. Maria Francisca viu pela primeira vez o homem que a politica lhe destinára, viu tambem a negação completa das suas aspirações. Aquelle homem o que tinha de bom era ser rei... o contrario do infante, que desde esse momento, com a sua figura peninsular, conquistou a alma da franceza, alma depravada, affeita aos costumes libertinos da côrte de Paris. Já possuida d’esta ideia, desembarcou a rainha no caes da Junqueira, seguindo d’alli para a egreja de Santa Clara, onde o bispo de Targa abençoou o seu consorcio. Pouco depois adoeceu; D. Pedro visitava-a amiudadas vezes e n’essas continuas visitas o amor de ambos fundiu-se n’um só. Inconscientemente, levado pelo impulso do coração, o infante adquirira a grande influencia que carecia para se sentar no throno. A amante queria ser rainha, mas não com um rei como D. Affonso VI; elle queria ser amado, mas não da esposa do seu proprio irmão... Era indispensavel o anullar o matrimonio, para que o monarcha se mostrava inhabil, e era necessario tambem que se conservasse aquella mulher no seu pedestal, apartada de um marido que a desprezava e junto de um outro que a adorava do intimo da alma... Tudo foi uma comedia. Maria Francisca recolheu-se ao convento da Esperança (21 de novembro de 1667) e d’ahi mandou ás auctoridades ecclesiasticas o seu libello de divorcio (11 de janeiro de 1668). Instaurou-se o processo, dando-se então uma das mais vergonhosas scenas da Historia de Portugal. A franceza excedeu Leonor Telles no desbragamento publico. Teve um Andeiro que foi D. Pedro, mas não teve a sinceridade rude de o apresentar como tal. Fallava em _consciencia_ e queria o _veridictum_ dos canonistas.

Jesus Christo era invocado por aquella mulher, não para a soccorrer nas tribulações do crime, mas para a julgar na justiça da causa; e os que representavam o Redemptor—diga-se desassombradamente, escreva-se com a imparcialidade que a Historia exige—deram a sua sentença como aprazia a dois infames, abençoaram o indigno conluio como causa sacratissima, merecedora dos applausos sacrosantos. Em seguida uma revolução de palacio desthronou Affonso VI (23 de novembro de 1667), tomando conta do governo seu irmão o infante D. Pedro. Reuniram-se as côrtes de Lisboa (1 de janeiro de 1668) appoiando o procedimento revolucionario e a regencia do ambicioso principe. Poucos mezes depois (2 d’abril do mesmo anno), o regente e D. Maria Francisca uniam-se pelos laços do matrimonio, coroando com a lithurgia o seu amor maldito. Era uma comedia, dissemos.

Cada um dos seus actos mais significativo e mais comico, mostrava bem claramente o estado de adeantada decomposição da sociedade portugueza, afogada ainda nos restos do grande naufragio das conquistas da India.

No tempo de D. Fernando, que fez da côrte um harem e do reino um brinquedo de Leonor Telles, o povo, depois de 1385, rejuvenesceu, mostrou-se forte e viril, epico mesmo; agora, estimulado pelo proceder heroico de 1640, não teve força para reagir contra os tramas do paço da Ribeira; cortejava, submisso, o regente e lamentava, condoido, o rei... Não houve um Fernão Vasques que intercedesse por Affonso VI, pelo vencedor das linhas de Elvas, do Ameixial, de Castello Rodrigo e de Montes Claros, deposto em nome da Patria que seu irmão mais tarde havia de arruinar n’um tratado inqualificavel. Apezar d’isso, o seu nome é hoje glorificado á luz da Historia, porque teve a leal amizade de um homem da estatura de Castello Melhor. No coração d’esse homem sempre existiu a soberania de Affonso VI; sendo mais valioso o seu imperio que o summo poder do infante, atordoado pelo remorso e azorragado pela voz da indigna consciencia. Recluso em Cintra, sujeito aos limites do seu aposento, perseguido da desgraça que purifica as almas, a razão filtrou-se-lhe no meio do infortunio. Deu depois provas de innegavel lucidez. E quando elle lançasse os olhos sobre os amores da mulher e do irmão e os visse meigos, risonhos, estreitando-se em amplo abraço, n’uma felicidade mahometana, celestial, havia de sorrir ferozmente, com o riso da vingança consoladora, porque veria a imagem d’um pobre, encarcerado, como elle era, percorrer as salas da regia vivenda e como punhal brandido pela mão do remorso, rasgar a tela d’uma apparente ventura. É que por mais infames que sejam as almas, sempre a consciencia como a percursora do castigo sem fim, as atormenta com a lembrança horripilante de crimes que se desejariam esquecer. Esta convicção e a lealdade de Castello Melhor foram os unicos lenitivos que Affonso VI encontrou na desgraça, foram anjos que lhe afagavam a vida, segredando-lhe que não era indigno de ser rei de um grande vassalo que resurgira um reino, e que a sua memoria servia de tufão devastador á felicidade roubada.

Felizes dos opprimidos quando têem a consciencia que são oppressores.

Affonso VI falleceu em Cintra aos 12 de setembro de 1683; a sua adultera esposa não tardou em seguil-o na jornada do tumulo.

Quatro mezes depois (27 de dezembro), succumbiu D. Maria Francisca Izabel de Saboya, sendo sepultada nas Francezinhas.

D. Maria Sophia de Neuburg

Depois da morte de D. Maria Francisca, a tristeza apossou-se do coração de D. Pedro II; ao mesmo tempo, o remorso pungia-lhe a consciencia, vendo sempre o espectro do irmão apontar-lhe do outro mundo o negro trama de que fôra o protagonista. Resava, orava, esmolava os desgraçados de que era rei; mas ao depor o obulo na mão do esfarrapado mendigo accudia-lhe o vulto de Affonso VI, que elle apeára do throno, transformando-lhe a existencia ainda em mais cruel que a do pobre, porque esse ao menos tinha liberdade. Entregue, como estava, ás suas dôres, D. Pedro não cuidava de outras nupcias.

Foram precisas para o arrancar á dorida memoria da sua fallecida consorte as instancias de Innocencio XI e as supplicas dos amigos: todos á uma lhe aconselhavam novo casamento, evitando-se assim que a corôa passasse á princeza D. Izabel, o que traria sérias complicações politicas.[42]

Resolvido o sensato plano, partiu o conde de Villar Maior (8 de dezembro de 1686) para Heidelberg, capital dos estados do Eleitor Palatino do Rheno, pae da princeza Maria Sophia de Neuburg, á qual a escolha do monarcha designára para nova rainha. A 22 de maio do anno seguinte assignou-se o contracto, estipulando-se que a noiva fosse dotada por seu pae com cem mil florins e pelo rei de Portugal com a casa e estado das soberanas suas predecessoras. Realisado o consorcio (2 de junho) seguiu D. Maria Sophia a sua viagem para Lisboa, onde chegou a 11 d’agosto; sendo, n’essa mesma tarde, abençoados os conjuges pelo arcebispo, no meio das acclamações enthusiasticas d’um povo que, fóra da capella, saudava inconscientemente uma mãe carinhosa de todos os seus subditos.

E na verdade, d’esta vez os applausos não foram lançados em vão. D. Maria Sophia, como D. Filippa de Lencastre, compensou as leviandades da primeira mulher de seu marido. Reinou, mas não governou, conservou-se na sua esphera, dedicando-se á educação dos filhos e em adquirir o amor de D. Pedro, que, possuido sempre da lembrança da primeira consorte, nunca soube apreciar os rarissimos dotes da nova companheira.

Para quem fosse menos beneficiada da conformidade imposta pelo dever, a indifferença régia seria pezarosa; porém, a princeza soube mostrar que era allemã: o seu temperamento, frio como o norte, não era inclinado a paixões; conformou-se com a sorte, limitando-se unicamente ás lides domesticas.

O rei, ao que parece, desejava ser um heroe e talvez mesmo se convencesse de que o era. Queria a fronte aureolada, como o irmão, o _victorioso_; sentia a nostalgia do triumpho, apesar de _pacifico_, como lhe chamava a Historia.

Terminada a guerra da independencia, desapparecêra o campo dos louros, e a paz firmada com Castella (13 de fevereiro de 1668)[43] ainda na vida de D. Affonso veiu cortar quaesquer probabilidades de adquirir glorias proprias. Ao tempo, D. Pedro só tinha por si a quéda d’um throno; de mais cousa alguma a posteridade fallaria d’elle, ficando sujeito a desigual partilha nos fastos da realeza.

Vago o throno de Castella pela morte de Carlos II (1 de novembro de 1700) foi acclamado rei o duque d’Anjou, neto de Luiz XIV, com o nome de Filippe V; D. Pedro reconheceu-lhe a soberania, continuando assim a paz; mas a influencia franceza assombrava a Inglaterra, a Hollanda e Allemanha que, além d’isso, pretendia a corôa para o archiduque Carlos, filho do imperador Leopoldo I. Portugal mudou de rumo e acompanhou a politica europeia na sua opposição ao francez; D. Pedro procedeu assim obrigado pela Inglaterra, que o amarrára no tractado de Methwen, e pelo desejo ardente da fama conquistada pela força das armas.

Dispostas as cousas d’este modo, o archiduque chegou a Lisboa (7 de março de 1704) n’uma esquadra ingleza e hollandeza e fez d’aqui o ponto de partida para as suas operações.

O nosso exercito, tendo á sua frente o principe e o conde das Galveias, Diniz de Mello e Castro, entrou no territorio hespanhol, e tomando Salvaterra, Valença e Albuquerque, retirou para Lisboa, d’onde o archiduque saiu outra vez (24 de junho de 1705) com destino a Barcelona, que depois d’um combate naval se rendeu a 9 de novembro do mesmo anno. No seguinte, em 2 de junho, o marquez das Minas penetrava em Madrid, onde fez acclamar o austriaco com o nome de Carlos III. Até esta epocha o destino parecia secundar, á custa de pesados sacrificios e derrotas internas, os marciaes desejos de D. Pedro II; o successo era na apparencia prospero e o rei zeloso do seu nome e pouco dos povos, contente de si, só tinha que se queixar do nenhum repouso da consciencia attribulada, porque no mais tudo lhe corrêra ás mil maravilhas. Esta illusão acompanhou-o ao tumulo; D. Pedro, doente, gasto, moribundo, succumbiu (9 de dezembro de 1706), cinco mezes após a victoria, que foi seguida pela retirada do marquez, batido por Berwick a 25 de abril de 1707.

Hoje é licito analysar os feitos e acções do homem que ousou possuir a estima d’um povo. De facto, foi a personificação do caracter portuguez—aventureiro, valente, viril, com uns longes de justiceiro, um arremedo do seu homonymo[44]—; e se as suas virtudes não brilharam pela quantidade, o seu feitio compensou-lhe a falta perante os coévos acostumados a venerarem o rei, sem examinarem o merito do individuo. Entretanto, os soffrimentos que a Historia nos aponta e que lhe atormentaram os ultimos dias, se não conseguem absolvel-o de todo, attenuam-lhe um pouco a gravidade do mal.

Moralmente foi um grande desgraçado, e a compaixão a que têem jus os infelizes é uma das faces sympathicas que o pincel do historiador ousa desenhar na téla da verdade. Teve o amor d’uma mulher, mas este facto não levanta o caracter de nenhum dos dois amantes, porque o amor santifica quando é licito e condemna quando é preverso.

Teve a fidelidade de uma resignada martyr que nunca lhe viu sorrisos, que foi possuida pela força da politica; e esta virtude se directamente o não exalta, reflecte-lhe, comtudo, como sol benefico. D. Pedro ainda mereceu a pósse de uma honesta esposa! Compassiva foi a Providencia, se no recondito d’aquella alma não existia algum merito que, qual violeta escondida por entre as balsas, viveu ignorado da justiça dos criticos.

Maria Sophia não lhe proporcionou dias felizes, porque o remorso lhe aniquilava toda a felicidade; não lhe partilhou os dias de gloria, porque a morte a veiu colher (4 de agosto de 1699) antes que a guerra lhe trouxesse os triumphos militares; mas hoje ajuda-lhe a rehabilitar o nome, o nome que era seu e de cuja dignidade foi fiel depositaria.

Triste e só, viveu deixando na Historia não a reputação faustosa de heroica soberana, ou de astuta politica, mas a de mulher respeitavel que soube purificar o lar extinguindo-lhe as manchas do rasto da sua antecessora. O diadema não lhe serviu de cruz, porque no cumprimento dos seus deveres encontrava sorrisos. Nem lhe foi motivo de ambições, porque a corôa que o seu ideal almejava era a corôa de espinhos do Crucificado.

Que lhe importava o olhar melancholico do verdugo de Affonso VI, amante ainda do cadaver da sua cumplice? Que lhe importava isso, se nos filhos d’esse homem que a não podia amar, se na prece quotidiana ao esposo das almas santificadas pela resignação existia um amor mais bello, mais radiante que todo o idyllio de um amor terreno? E as lagrimas, sêccas por essa philosophia santa, nunca lhe sulcaram o rosto sympathico. Foi feliz no meio do seu infortunio. Abençoada creatura cujas ambições não existiam n’este mundo. Bemdita a sua fé que lhe impediu o martyrio, que lhe encaminhou os passos para a senda do dever. Por isso a Historia ajoelha na lousa do seu sepulchro, esculpindo-lhe na lapide um epitaphio modesto como a sua existencia, mas venerando como a sua memoria.[45]

D. Marianna d’Austria

Depois do fallecimento de D. Pedro II, subiu ao throno seu filho o principe D. João, que ao tempo contava dezesete annos d’edade. A herança não era coroada pela paz, e o rei não tinha a experiencia necessaria para dirigir o leme do Estado ao ponto que mais influisse ao progresso e desenvolvimento nacional.

Continuou, pois, a orientação do pae, envolvendo-se na guerra de Hespanha, só concluida a 11 d’abril de 1713, pelo tratado de Ultrecht. Ahi, Portugal não recebeu a minima compensação dos seus pesados sacrificios; o duque d’Anjou foi reconhecido como rei, e o archiduque, já imperador d’Austria, teve na partilha os Paizes Baixos, Napoles e Milão. Depois da contenda tivemos de libertar o Rio de Janeiro da occupação do almirante francez Duguay Trouin, e mais tarde (1716-1717) a perseguição dos turcos, em soccorro do papa Clemente XI, que o havia sollicitado por intermedio da rainha D. Marianna d’Austria, com quem D. João V se desposára no dia 27 de outubro de 1708.[46]

De resto, um longo periodo de paz envolveu sempre este reinado.

O rei tinha a preoccupação do fausto e da magnificencia; entendia que sem a ostentação requintada da realeza, a corôa seria um mytho indigno do mais plebeu dos seus vassallos. Esta idéa de D. João V foi coherente com a de D. Manuel desde o diluvio do ouro da India, agora substituido pelas minas do Brazil.

Acabára a Asia, mas ficára a America para farto manancial do genio degenerado e decadente do portuguez. Para cumulo d’estimulo tinha o rei o exemplo de Luiz XIV, seu mestre e seu espelho; havia de ser grande, não como alguns dos seus pacatos avós, bons homens e bons guerreiros, paes dos povos que militavam a seu lado no campo da batalha, e que, saradas as feridas da refrega, lhe vinham administrar justiça, de aldeia em aldeia, como bons pastores, zelosos do seu rebanho. N’aquella epoca, das virtudes antigas só existia a memoria; rei e fidalgos dormiam sobre os louros adquiridos pelos antepassados, não cuidando de outros novos; ferindo inconscientemente a virilidade da sua existencia, que pouco resistiu aos tombos das evoluções sociaes. Começava a pragmatica, acabando-se a antiga rudeza nacional; extremavam-se as classes, vedando-se ao povo nobilitação pelo proprio merito; e um odio profundo entre a aristocracia cortezã, que se alimentava dos bens da corôa, e a nobreza de provincia, que lavrava a terra com o proletario, veiu accender o facho da discordia, cujo tragico desfecho teve logar no reinado seguinte.

O caminho que o historiador tem a seguir quando vier a lume a época de D. João V não é plano e florido, mas accidentado como serra espinhosa; ainda ha muitos para quem o filho de D. Pedro II, visto como homem moderno, attinge proporções épicas; para nós, aliás interessados naturalmente em exaltar o monarcha,[47] não vemos n’elle um unico reflexo de grandeza, a não ser na sua intelligencia e no zelo que dispensou ás lettras e ás artes, não como sabio ou artista, que nunca foi, mas como Salomão, que pretendeu ser. Os seus monumentos são attestados mudos da leviana atmosphera em que nasceram; não enthusiasmam como a Batalha e Belem, padrões que definem uma consagração historica; são molles de pedra, espelhos de provecta decadencia—o crusamento do incenso do altar christão e do luxo Cesar romano.

Mafra é um collosso, onde está escripto o diagnostico da enfermidade que assolava o paiz: a nevrose da pompa, apoiada no absolutismo de que D. João V se fizera prototypo. De resto, a sua causa, ôcca e sem historia, não lhe proporciona interesse, nem cunho nacional; é um simples capricho de monarcha gastador, convicto que a trombeta da Fama só apregoa os grandes feitos quando eccôa em montanhas de ouro.

Esse espalhava-o D. João V ás mãos largas, pouco zeloso do erario e muito da bolsa dos subditos. Os livros da sua chancellaria estão cheios de tenças, em que o motivo era a vontade regia e não o mérito pessoal do agraciado.

Diga-se, no emtanto, que os thesouros espalhados pelo rei, não afogavam a ira do povo, que o adorava, porque via n’elle a personificação de todos os seus defeitos e de todas as suas virtudes. Poucos reis lograram possuir a estima dos subditos como D. João V. Foi um galanteador aventuroso e audaz, porque entreviveu n’uma epocha de aventuras licenciosas e ninguem tem direito a criticar-lhe as faltas domesticas, as traições á esposa, porque esse exemplo tomou-o elle dos vassallos, de quem não seria rei, se não os avantajasse. Toda a sua grandeza, toda a causa da sua superioridade está em ter comprehendido a sua epocha, em ter alcançado o objectivo dos seus contemporaneos.