As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

Part 4

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Estava vago o logar que assegurava a Portugal a amizade de Castella. Cumpria prehenchel-o novamente, e D. Manuel, como homem pratico e politico habilissimo, incumbiu-se d’esta missão. Viuvo e saudoso da esposa que perdêra, o filho do infante D. Fernando, o obscuro duque de Beja, chamado á corôa por um acaso feliz, raro na Historia, o monarcha senhor de meio mundo, o rei de vassallos tão illustres quão sabios e leaes, determina um bello dia abdicar no primogenito e ir-se ao Algarve, como Fronteiro Mór, guerrear os sectarios de Islam.

Porém, o piedoso intento só se realisaria consummado o matrimonio do principe com D. Leonor d’Austria, filha de Joanna _a louca_ e de Filippe I de Castella.

Recusada a proposta de D. João, que se achava embeiçado em amores desiguaes,[33] D. Manuel cumpriu a palavra dada desposando a princeza que destinára ao filho. O consorcio realisou-se no Crato (24 de novembro de 1518).

No contracto lavrado a 16 de julho do mesmo anno ficou tratada a dotação da nova soberana, que entraria na posse da Caza das Rainhas logo que fallecesse D. Leonor de Lencastre, viuva de D. João II e irmã d’el-rei D. Manuel.

Leonor d’Austria tambem tem a fronte aureolada pelos louros do martyrio.

Foi um joguete nas mãos do irmão. Casaram-n’a com um homem edoso, pae de numerosa descendencia; e mais tarde, depois da morte d’esse rei (13 de dezembro de 1521) que a não amava, nem por ella era amado, obrigam-n’a a abandonar a filha idolatrada, a gloriosa infanta D. Maria, a futura protectora das lettras, o penultimo lampejo da Renascença.

A politica endurece o coração dos soberanos. Carlos V queria fisgar Francisco I, mas precisava d’um laço que o prendesse á sua obediencia. Esse laço foi a viuva do rei de Portugal.

Casada com o soberano francez, D. Leonor teve de abandonar a filha, que só viu trinta e quatro annos depois! Se foi cruel o seu martyrio, em compensação, o ente que de longe abençoava, soube exaltar a sua memoria e honrar o nome de quem lhe dera o ser, concorrendo para o engrandecimento do seu paiz. A sciencia d’estes factos seria um lenitivo para a pobre mãe, que, não obstante a distancia, lhe dirigia os passos. No entanto a Providencia destinou-lhe n’este mundo um premio digno dos seus soffrimentos. Aos cincoenta e nove annos de edade (1498-1558)[34] teve a ventura de abraçar, em Badajoz, o enlevo da sua vida, a qual terminou em breve.

Conforme o juramento que os habitantes de Lisboa lhe exigiram á partida,[35] a infanta D. Maria deixou sua mãe nos territorios de Hespanha e regressou á sua patria; porém, Leonor d’Austria tinha os seus dias contados, e falleceu pouco depois, em Talaveruela, aos 25 de fevereiro de 1558.[36]

Os dois thronos em que se assentou foram para esta princeza dois tumulos precoces: um matou-lhe a mocidade algemada á velhice; outro amordaçou-lhe o mais bello predicado do coração da mulher—o amor de mãe.

D. Catharina d’Austria

Fallecido D. Manoel em 1521, tomou as redeas do governo o principe D. João.

Quatro annos depois de subir ao throno, o monarcha portuguez contrahiu nupcias com a princeza Catharina, irmã de sua madrasta e do imperador Carlos V.

Continuava assim a politica do pae, assegurando o poderoso visinho, casado tambem em 1526 com a nossa princeza D. Izabel.

D. João III lidou sinceramente pelo progresso das lettras. É esta uma feição caracteristica da dynastia de Aviz. O seu fundador escreveu o _Livro das Horas do Espirito Santo_, os _Psalmos certos para os finados_, o _Livro da Montaria_ e attribue-se-lhe tambem a _Côrte Imperial_; seus filhos, el-rei D. Duarte o auctor do _Leal Conselheiro_ e da _Arte de bem cavalgar em toda a sella_; D. Pedro, traductor de Cicero e escriptor das _Horas de Confissão_ e do _Livro da virtuosa Bemfeitoria_, seguiram-lhe as honradas tradições.

N’este reinado, porém, a litteratura portugueza attingiu o maior brilho; n’elle floresceram João de Barros, Fernão Lopes de Cantanhede, Damião de Goes, o doutor Antonio Ferreira, Diogo Bernardes e André de Rezende; n’elle se levaram a effeito importantes reformas nos estudos, importando-se mestres do estrangeiro para ensinarem na nossa Universidade, transferida de vez para Coimbra.

As descobertas e as conquistas progrediam tambem; chegou-se ao Japão (1542) e entabolaram-se relações com os chinezes, obtendo-se a faculdade de podermos estabelecer uma colonia em Macau.

Na India, D. João de Castro, outra figura respeitavel, tomou a hombros o continuar a obra grandiosa d’Albuquerque. Interrompia o manancial d’iniquidades parecendo animado pelo espirito do grande capitão. Elle e D. Luiz d’Athayde fecham o cyclo dos nossos feitos brilhantes no paiz das especiarias.

A arte tambem teve o seu culto n’esta nova phase da vida nacional. Belem é o monumento que a piedade de D. Manoel levantou em memoria do grande feito de Vasco da Gama. Não obstante ser magestosa, a egreja dos Jeronymos não possue a solemnidade da Batalha; no entanto falla ao coração do patriota como symbolo d’um passado glorioso, que, embora maculado mais tarde, tem uns traços semelhantes á autonomia de 1385.

Aberto o novo periodo das conquistas, Belem converteu-se em pantheon da Casa d’Aviz; ficava mesmo junto da porta do _Mar Tenebroso_, cujos segredos a audacia do infante D. Henrique, a astucia de D. João II e a actividade de D. Manoel desvendaram para sempre. Os marmores dos seus tumulos são bafejados pela maresia do Tejo, que lhes prende a existencia eterna á vida terrestre. Ali, guardados em sarcophagos cinzelados pela Arte da Renascença, n’uma crypta impregnada de ares salinos, descançam D. Manoel, D. João III, D. Sebastião (?), D. Henrique e todos os principes da familia real.

Hoje Belem parece destinado a mausoléu das grandes glorias do paiz.

Bom é que debaixo do mesmo tecto, n’uma fraternidade que a morte estreita, durmam o somno eterno, reis e vassallos que nas differentes epochas da historia lidaram pelo engrandecimento do torrão que os viu nascer.

Bom é que junto dos ultimos descendentes d’Aviz, raça illustre, filha da vontade popular, levantada pela eloquencia de João das Regras, poetas, cuja musa é o breviario do sacerdocio da Patria; navegadores cuja afoiteza é o testemunho da virilidade d’um povo; historiadores cuja penna justiceira serve de modelo á critica dos vindoiros, se confundam todos em amplo abraço, coroados pelas bençãos do suffragio, iguaes pela realeza do talento que levanta os humildes á altura de semi-deuses. E hoje, que o pensamento estende as suas raizes pelas regiões do Infinito; que a justiça depõe as palmas do martyrio sobre a memoria das victimas do genio, bom é que o patriota ajoelhe em Belem sobre as louzas dos heroes do throno, do talento e da aventura, e, recolhido em si n’uma meditação profunda, contemplando aquella téla sublime, invoque os manes dos que ahi descançam, como os fieis do Christianismo levantam as suas preces aos que adquiriram a Bemaventurança eterna.

Junto de seus maiores, tambem ahi está o principe D. João, filho de D. João III, um desvelado cultor das lettras, vulto illustre em que Camões depoz todas as suas esperanças. Começava a faltar a seiva á grande arvore plantada em 1385; estava fraca e abatida pela ausencia do calor vital, quando os vermes da corrupção lhe tragavam as ultimas raizes. O mallogrado infante casára em Elvas (fins de novembro de 1552)[37] com sua prima D. Joanna, filha do imperador Carlos V; d’este matrimonio nasceu um filho posthumo, D. Sebastião (20 de janeiro de 1554), que subiu ao throno logo depois do fallecimento do avô (Lisboa, 11 de julho de 1577). A regencia do reino ficou entregue a D. Catharina, avó do joven monarcha, que tomou a serio os encargos da realeza. Presidindo ao Conselho d’Estado, a rainha não só recommendava a boa venda da pimenta, mas tambem o augmento do territorio colonial. Angola mereceu-lhe as maiores attenções e as conquistas da India desenvolveram-se com as tomadas de Damão e de Jafanapatão.

Não obstante estes progressos, D. Catharina vivia desgostosa, suspirando o descanço da vida particular. Reuniu côrtes em Lisboa (23 de dezembro de 1562) e ahi entregou o poder a seu cunhado o cardeal D. Henrique. Alcançada a almejada tranquillidade, residiu em varias terras de que era senhora, e entre ellas em Alemquer, cujos habitantes menciona no seu testamento.

Tendo setenta e um annos, terminou a existencia d’esta princeza, que falleceu em Lisboa, aos 12 de fevereiro de 1578. Sepultaram-n’a em Belem. Mezes depois (22 de agosto), Lisboa soluçava a perda do unico penhor da sua independencia. Catharina de Austria succumbiu antes do tragico fim de Alcacerquibir; talvez uma duvida da aventura, uma verde esperança de poetica illusão lhe recolhesse o ultimo suspiro; talvez que moribunda, no seu delirio abençoasse o neto, vendo-o triumphante, implantando a Cruz nas mesquitas de Mahomet, realisando o sonho da Edade Média, desviado da rotina da Renascença. Catholica extreme, a fé, que fortalece os fracos, alental-a-hia na sua duvida sorridente. Deus havia de ajudar o cruzado, cujo escudo era o baluarte do Evangelho! havia de erguer o braço do heroe que fincava as Quinas no territorio do Islam...

Este sonho mystico de Catharina agonisante é o ultimo traço da nossa grandeza épica. Camões tambem o alimentou com a mesma fé e com a mesma pureza de uma alma gigantesca illudida na sua candura, que recebeu a mais cruel das decepções: o desfolhar das suas esperanças e a perda do seu paterno ninho.

(O Interregno dos Filippes)

Com a dynastia d’Aviz, filha do sentimento da independencia que animava um povo já consciente do seu existir, já apegado ao seu lar, unido desde o Minho ao Guadiana por uma palavra divina—PATRIA—o paiz succumbiu em Alcacerquibir. Houveram ensaios para um arremedo d’Aljubarrota, mas já não circulava aquelle sangue generoso e bom, tão forte na Edade Media, como valente e fidalgo no alvorecer da Renascença.

A India inundára-nos de ouro e sugava-nos as forças vitaes. Extenuado por essa amante que nos seduzira, procuravamos revestir-nos com a virilidade de outras eras.

Tudo estava podre. Até os proprios que tinham exaltado a bandeira das Quinas se deixaram arrastar pela corrente da corrupção. Reunidas as côrtes em Lisboa (de junho de 1579), ahi se elegeram quinze cidadãos para que o cardeal-rei escolhesse d’entre elles cinco governadores que indicassem a quem de direito, no futuro, pertencia o throno e que administrassem o reino dada a sua morte.

Realisado o funebre acontecimento (Almeirim, 31 de janeiro de 1580), o Prior do Crato, D. Antonio, bastardo do infante D. Luiz, pretendeu cingir a corôa, allegando um supposto casamento de seu pae com a famosa Violante Gomes; Rainuncio, principe de Parma, filho de D. Maria e neto do infante D. Duarte; Manuel Felisberto, duque de Saboya, filho da infanta D. Brites; Filippe II, filho de D. Isabel; e D. Catharina, duqueza de Bragança, filha do infante D. Duarte, concorreram tambem a disputar o throno.

Até Catharina de Médicis se lembrou de ser rainha de Portugal, dando como rasão uma ideada descendencia d’Affonso III e da condessa Mathilde! No meio dos successivos desastres, por entre tantas vilanias tecidas pelo ouro de Castella, espalhado largamente por D. Christovam de Moura, não faltou esta nota comica. Faltava, porém, o _veridictum_ dos governadores, depositarios da realeza, juizes irrevogaveis que haviam de sentencear a quem pertencia a corôa.

No desempenho d’esta missão partiram para Badajoz, onde a 7 d’agosto de 1580 assignaram um alvará, conferindo a dignidade real a Filippe II.

Note-se, no entanto, que a entrega da Patria ao hespanhol foi recusada pelo Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, e por D. João Tello de Menezes. Os outros (D. Francisco de Sá e Menezes, D. João de Mascarenhas—o defensor de Diu!—e Diogo Lopes de Sousa) acolheram-se debaixo do manto castelhano, cuja sombra fortalecia, sem embargo da tranquillidade das delapidadas consciencias.

N’este desabar do edificio, desmantelou-se tambem a Casa das Rainhas; Alemquer serviu de titulo aos Silvas, alcaides-móres de Portalegre.

Achava-se, pois, desfeita a grande obra de Affonso Henriques, consolidada em 1385; e Portugal era uma nacionalidade morta, abatida pela extincção da grande dynastia que levou a sua fama aos confins do mundo. Era uma nau grandiosa, equipada brilhantemente, veloz como o vento e segura como a rocha, que atravessava o oceano em toda a sua vastidão, que sulcava os mares, rasgando-lhe altiva o verde anil.

Uma vez descobriu no horisonte um forte almejado, um cachopo traiçoeiro que lhe parecia abrigo fiel, e, com a audacia que a fortalecia, com a confiança na sua força, com a lembrança do seu valor, inclina o rumo para o precipicio, que julga o digno remate da sua proficua derrota. Acompanham-n’a as alegrias, desfraldam-se alegres em seus mastros os vistosos pavilhões; sonhos dourados adormecem a tripulação, e, ao cabo de longa viagem pela campina maritima, o fado que outrora lhe proporcionou os louros, a arrasta agora para o iman da perdição, para a

_.........................vã cubiça_ _d’esta vaidade a quem chamamos Fama._[38]

Tudo soffria as consequencias do mesmo genio audacioso que presidira a todas as nossas emprezas, desde Ourique e Aljubarrota até ás descobertas do mar, vasta arena das glorias de Portugal. Alcacerquibir vingou Ceuta, calcada aos pés do venerando roble d’Aviz. A Africa assim como foi berço da nobre epopeia portugueza, tambem foi seu tumulo, devorando o ultimo representante de D. João I. Não lhe satisfez o martyrio do infante D. Fernando; foi-lhe preciso aguilhoar um povo que ousára abater o vôo do estandarte mussulmano; e esse povo, estrangulado pela raiva da hyena africana, legava ao universo, a cujos destinos soubera presidir, uma chronica immortal da fenecida grandeza.

Camões e o seu poema foram os elos, que, abatidos os grilhões, haviam de reatar o passado ao futuro. Os _Luziadas_ tornaram-se o manual em que oravam os crentes e os esperançosos; os que tinham por amante o alvorecer da sua independencia.

Nos sessenta annos de captiveiro, quantas lagrimas derramadas pela infidelidade dos traidores! Tantas como as que o vate sublime, synthese da autonomia portugueza, chorára pelo _ninho seu paterno_, e tambem por essa outra amante, a eleita da sua alma, cuja ingratidão lhe dictou estes versos:

_Ah Nathercia cruel quem te desvia_ _Esse cuidado teu do meu cuidado?_ _Se tanto hei de penar desenganado,_ _Enganado de ti viver queria._ ....................................

No coração do patriota reinava uma outra Nathercia, alimentando-se nas aras do seu sacerdocio, os ultimos lampejos das gloriosas epochas que se tornaram a nossa razão de ser como paiz independente.

QUARTA DYNASTIA

D. Luiza de Gusmão

Apesar dos apertados grilhões com que a politica de Castella nos algemou, cuidando assim extinguir o sentimento da independencia, a ideia da liberdade invadia o coração do povo portuguez.

Formavam-se phantasias, julgava-se vêr nos elementos uma certeza prophetica da restauração. A Biblia e o Bandarra eram mananciaes com que os embusteiros exploravam a crença popular.

De facto, a grande creança visionaria, a massa rude, com a sua alma leal e supersticiosa, impossibilitada de outro meio que aliviasse a pesada carga estrangeira, procurava nos dominios da phantasia um ephemero lenitivo aos seus pezares.

Para ella o ideal começou em D. Sebastião, uma especie de moura encantada, recolhida em paiz encoberto, mysterioso, sobrenatural, d’onde em momento opportuno, marcado no ceu com signaes temiveis, como os do fim do mundo, viria erguer o escudo lusitano, sobrepôr as Quinas aos Leões da usurpadora Hespanha.

E a phantasia, só a phantasia, é que consolava o povo, só a superstição é que lhe allumiava o espirito, fortalecendo-lh’o para a grande empreza, que recordou n’aquelles tempos de provecta decadencia o genio audacioso, valente e guerreiro da nação portugueza.

Ella ainda cortejava o vencedor, quando, arrogante e soberbo, percorria as ruas da capital; ainda se curvava quando ouvia nomear o rei o symbolo augusto que lhe fundára a nacionalidade e que combatêra a seu lado, na infancia da monarchia, pela defeza dos seus interesses, pela consolidação da sua existencia e da sua liberdade; mas n’este acto não se deprehende hypocrisia, fraqueza ou adulação: o que aqui se vê é quanto impera na alma popular o sentimento da realeza, com que foi creada desde tempos immemoriaes. Não era uma abdicação perante o hespanhol, era o invocar da alma leal para um principio que lhe gerára a Patria e que soubéra confundir-se com ella, tornando-se o coração d’um grande corpo, d’onde se expande a vida e a força por todo um paiz.

Se o duque de Bragança não quizesse annuir ás repetidas instancias dos fidalgos, e se em vista da recusa do principe se levasse a effeito aquelle celebre dito de D. João da Costa, _antes uma republica bem portugueza que um rei estrangeiro_, a independencia de Portugal, em nossa opinião, não ia ávante.

Faltava-lhe o ideal da alma popular, faltava-lhe o objecto d’esse amor, que, embora ás vezes fosse cruel como os Filippes, fosse traiçoeiro como D. Henrique, fosse efeminado como D. Fernando, fosse bom ou fosse mau, era o possuidor do espirito do povo, era o pae da independencia, gerada em Ourique e emancipada, feita homem e consciente no campo glorioso d’Aljubarrota. Acclamou a monarchia, João das Regras, um filho do povo, defenderam-n’a elles em todas as suas crises, abraçaram-n’a como religião desde o seu principio e sempre essa ideia innata ao seu existir palpitará em seu peito, como orgão que a natureza addicionou á sua alma tão leal como cavalheiresca.

E como a realeza era o symbolo da autonomia, por isso Castella vigiava o paço de Villa Viçosa temendo-se unicamente do _direito_ como impulsor do brado heroico que havia de alijar para sempre o dominio estrangeiro.

E não conhecia a Hespanha o fraco animo do duque de Bragança? Conhecia, é certo, mas tambem conhecia o amor do povo a _seu rei natural_, e que esse mesmo, egoista e fraco, era quem se poderia atrever a romper os laços da usurpação. Para Villa Viçosa convergiam as attenções de Castella e as esperanças do paiz, a valente terra portugueza, que alimentava nas suas entranhas um vulcão cujas lavas submergiram radicalmente o dominio hespanhol.

As supplicas, quasi ameaças, dos fidalgos, decidiram o primeiro principe feudal de todas as nações latinas a cingir a corôa d’Affonso Henriques.

Elle era neto de D. Catharina, filho do infante D. Duarte, e por consequencia o unico representante portuguez d’el-rei D. Manuel.

D. Catharina, a gloriosa princeza a quem a Hespanha sempre respeitou, transmittiu pelo seu casamento á casa de Bragança os direitos ao throno de Portugal.[39]

D. Theodosio, seu digno filho, guardou a representação d’esses direitos com immaculada fidelidade, hombreando altivamente com Filippe III (II de Portugal) e obrigando o monarcha a descobrir-se perante o legitimo senhor do paiz a que vinha apossar-se.[40] Se D. Theodosio chegasse a reinar, certamente a historia lhe tributaria hoje egual homenagem á de D. João I; n’elle actuou toda a grandeza da raça d’Aviz, cujo sangue generoso lhe corria nas veias.

Do casamento de D. Theodosio com D. Anna de Velasco, filha do duque de Frias, houveram quatro filhos: D. João, duque de Barcellos, D. Duarte, o mallogrado infante, D. Catharina e D. Alexandre. Fallecido D. Theodosio (Villa Viçosa, 20 de novembro de 1630), entrou o duque de Barcellos na posse do vasto e poderoso Estado de Bragança, cuja capital, decorridos tres annos (12 de janeiro de 1633), se alegrava com o casamento de D. João II com sua prima D. Luiza de Gusmão, filha do duque de Medina-Sidonia, D. João Manuel Peres de Gusmão e da duqueza D. Joanna de Sandoval.

A velhaca politica d’Olivares fizera este enlace na esperança que a princeza, como hespanhola por nascimento, advogasse junto do marido a causa da sua terra natal; porém D. Luiza tinha a consciencia plena dos seus deveres para não se dominar pela vontade do ministro, que descançado na influencia da esposa de D. João e na crueldade de Miguel de Vasconcellos, nem sequer suspeitava que alguma vez deixasse de ser simples gemido dos afflictos prisioneiros o heroico brado de 1638.

Soou finalmente a hora da independencia (1 de dezembro de 1640). Era o sol da nossa epica grandeza que raiava por entre as nuvens da oppressão estrangeira. Luiza de Gusmão foi o primeiro satellite do grande astro, arrastando na sua orbita esposo e vassallos. _Antes rainha uma hora que duqueza toda a vida_, disse ella quando D. João lhe patenteou as suas hesitações. Espirito superior, não consentia que ninguem sobrepujasse o poderio adquirido logo que ligou os seus destinos aos do duque de Bragança. No throno foi a mesma cousa: dominava sempre o marido, era ella o rei, o poder que influia em todos os negocios do Estado, o braço que impediu a libertação do tão grande como desgraçado infante D. Duarte, a unica pessoa que se atrevia a desputar-lhe a confiança do monarcha. Tambem a Historia só lhe nota este defeito, porque de resto ella foi tão piedosa, como honesta, respeitavel e dedicada mãe de familia.

Depois do dominio castelhano, D. Luiza tomou posse dos bens da casa das Rainhas, sendo-lhe esta mercê feita por alvará dado em Lisboa aos 10 de janeiro de 1643.[41]

Os negocios do Estado em que o seu espirito ambicioso, a sua larga prudencia e sabio conselho a obrigaram a tomar parte, obstou a que se interessasse particularmente pelas terras de que era senhora; no emtanto, devem ellas vangloriar-se de tão alta princeza, cuja energia, cuja hombridade e independencia tanto favoreceu a causa do seu paiz adoptivo.

Morto D. João IV (6 de novembro de 1656), a rainha tomou as redeas do governo em nome de seu filho desventurado D. Affonso VI, até 1662, anno em que este monarcha se investiu de auctoridade real. D. Luiza desde então dedicou-se á piedade, curtindo os amargos desgostos que lhe dava o filho, que descia aos ultimos limites a que póde descer um homem.

Quatro annos durou esta turbulenta existencia que teve o seu fim a 27 de fevereiro de 1666, epocha em que falleceu, sendo o seu corpo sepultado no convento do Grillo, e, pela extincção d’este mosteiro, trasladado ha pouco para o pantheon real de S. Vicente de Fóra.

Decorridos mais de dois seculos, as cinzas da esposa de D. João IV, profanadas por mão ambiciosa como ella fôra em vida, vieram repousar junto do tumulo do marido e dos dois filhos que lhe succederam.

Que a historia lhe seja severa como a morte, proferindo sem lisonja e sem odio a sentença que lhe dictarem os bons ou maus actos dos que exercerem o poder supremo.

O juizo imparcial da realeza não póde melindrar ninguem, porque o magisterio d’um rei não é propriedade d’uma familia, mas é patrimonio d’um povo, que tem direito a devassar os tumulos dos que o regerem e procurar nas suas cinzas ou o merecimento que exige a exaltação dos benemeritos, ou o crime que obriga o esquecimento dos precitos. A Historia é o grande tribunal, onde reis e vassallos são julgados com a mesma egualdade e com o mesmo rigor. Ella despreza Affonso III para acclamar Martim de Freitas; lança o estigma da infamia sobre a memoria de Leonor Telles, a rainha impudica, e abençoa a lousa ignorada de Fernão Vasques, o artista humilde que em nome do povo soube zelar o decôro do throno. Assim, quando o historiador penetra os humbraes da crypta de S. Vicente, ajoelha no marmore do pavimento, e toca por sua vez nos ataúdes de tantos personagens, esquece as corôas que adornam os seus tumulos e julga-os como juiz, que não indaga a qualidade do réu.

E a Historia, para ser Historia, é necessario que não dobre a vara da justiça e que guie sempre os seus passos pelo pharol da imparcialidade, que rompe a nevoa do servilismo infame.

D. Maria Francisca Izabel de Saboya