As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado
Part 3
Queriam a conquista de Tanger. Houve debates n’este ponto. O rei e D. Pedro oppozeram-se, em vista do pessimo estado economico do paiz. Demais, não havia gente com que guarnecer as praças tomadas. D. Henrique, vendo a clara luz da razão, voltou-se para D. Leonor, certo da influencia d’esta perante o marido, que, movido pelas ternuras da formosa companheira, teve a fraqueza de ceder.
Partiram, levando seis mil homens, lançando-se mão, para guarnecer a armada, dos mais pesados tributos. Dada a batalha, a sorte voltou-se para o musulmano. O Alcorão sobrepujava o Evangelho, devido á imprudencia de dois principes que talvez mais attendessem á dilatação da fé do que ao accrescimo do imperio.
D. Fernando ficou captivo (1437) e captivo morreu em Fez aos cinco de junho de 1443.
Descorçoado, D. Henrique regressou a Portugal; mas não foi á côrte fallar ao rei. Temia vel-o. O espectro do prisioneiro parece que o segurava no seu ninho de Sagres. Por seu lado, D. Duarte sentia o remorso a pungir-lhe a existencia. A esposa consolava-o, mas o pobre homem, em cada caricia d’ella via a causa da sua ruina e da ruina do paiz. Tinha um só refugio: era D. Pedro. Esse sim; esse fôra o leal conselheiro, o homem de senso, justo e prudente, que previra a derrota e condemnára a expedição. Era o que lhe valia.
Tal preferencia azedou ainda mais o animo de D. Leonor para com o cunhado, esposo de uma princeza da casa d’Urgel, rival da de Aragão.[19] Mais tarde esse antagonismo teve os seus effeitos quando aos 9 de septembro de 1438 falleceu el-rei em Thomar, tendo declarado em testamento que, na menoridade do filho (Affonso V) entregava a regencia do reino a sua mulher.
A nova sublevou Lisboa como outrora acontecêra com Leonor Telles. Todos indicavam D. Pedro como regente. Principiava a desharmonia, quasi a guerra civil.
Alemquer desempenhou um papel importante n’esta questão, como na da esposa de D. Fernando. A rainha fôra para Sacavem, onde o duque de Coimbra a procurou para se entender com ella. D. Leonor veiu para Alemquer, onde já na vida do marido residira algumas vezes. A resolução das côrtes de Lisboa (1439) obrigára D. Pedro a tomar parte no leme do estado; mas este voto do paiz não foi acceite pela viuva de D. Duarte, que preferiu abandonar a familia a humilhar-se ao cunhado. A soberba, alimentada pela fraqueza do defuncto rei, possuia de todo aquella alma aliás casta e boa. Se ella não fosse formosa, se o marido tivesse o pratico conhecimento do mundo como D. João I, D. Leonor seria em tudo um fiel setellite da veneravel D. Filippa, sabio modelo de rainha, de mãe e de esposa.
Mas dos encantos de que a natureza a dotou tinha ella todo o conhecimento, e a influencia da vaidade de si mesma, juncta á desastrada submissão do rei, converteram-n’a em promotora de lamentaveis desgraças, em logar de anjo de paz.
A historia, julgando-a, tem tambem de julgar D. Duarte, que sem ella seria um grande rei. Estas duas almas perverteram-se uma á outra, para fatalidade da Patria.
De Alemquer, D. Leonor foi para o exilio onde falleceu a 18 de fevereiro de 1445. O seu corpo não ficou em terra estranha, como o da adultera Leonor Telles; actualmente jaz no mosteiro da Batalha, ao pé do de seu apaixonado esposo.
Que a critica lhe seja leve.
D. Isabel de Lencastre
(MULHER DE D. AFFONSO V)
A intriga campeava outra vez na côrte portugueza; tinha-se volvido aos tempos passados, á epocha fatal, marcada na Historia com a nodoa negra do desbragamento de Leonor Telles.
D. João I fôra então o eleito do povo para a defeza dos legitimos interesses do paiz; agora n’esta scena, pallida sombra dos acontecimentos posteriores, a vontade popular elegeu tambem um dos seus mais illustres filhos, o qual, estadista como era, conhecedor do mundo pelas suas grandes viagens e pela sua vasta erudição, soube guiar proveitosamente o leme do Estado, não obstante os obstaculos suggeridos pelos contrarios.
Sabio como D. Duarte, apesar de lhe não carecer o animo, tambem teve um defeito que lhe foi fatal: o desprezo do mundo.
Chegado á maioridade de Affonso V, D. Pedro entregou-lhe o reino; o monarcha não o acceitou; pois, apesar de moço, teve em conta os serviços prestados por seu tio, que lhe serviu de pae e que o era verdadeiramente da terna companheira que as côrtes de Torres Vedras (1440) lhe tinham destinado.
Este procedimento generoso, que bem agourava a prosperidade do novo reinado, accendeu a labareda amortecida na alma damnada dos parciaes do infante. Perdel-o, acabar-lhe com a raça generosa,[20] era o fito do movimento, que teve por chefes o duque de Bragança, D. Affonso; seu filho o conde d’Ourem; o devasso arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha; e o protonotario apostolico Vasco Pereira de Berredo.
Combinado o trama, trataram de conquistar o fraco espirito do rei, então de dezeseis annos. Baldados foram os esforços de D. Pedro para desfazer a calumnia; retirou-se da côrte a ver se o fogo se extinguia, mas com a sua ausencia as chammas fortaleceram-se.
De Ceuta viera o conde d’Avranches D. Alvaro Vaz de Almada, no proposito de á ponta da lança tomar a sua defeza. O infante e o conde, confrades da santa ordem da Garrotêa,[21] tinham a Cavallaria como uma religião, santificada por D. Filippa, no leito da morte, quando recommendava ao filho a honra das donas e donzellas.
Era a Cavallaria o unico tribunal admittido por Alvaro Vaz, para julgar os actos da regencia. Viessem a campo os detractores, montados em seus corceis e batessem-se com elle...
Os outros preferiam as devassas tiradas por ordem régia; tinham a mentira na mão, achavam quem jurasse ter o regente envenenado seu irmão D. Duarte e sua cunhada D. Leonor, mas não encontravam quem se medisse com o Avranches...
Como homem prudente, D. Pedro quiz valer-se da filha que soluçava aos pés do esposo, supplicando-lhe clemencia. D. Affonso redarguia-lhe que seu tio lhe pedisse perdão. Perdão de quê? Isso seria humilhar-se não ao soberano, mas aos inimigos; seria declarar-se reu de crimes que não commettêra.
A Cavallaria aconselhava-lhe a morte honrada e não a vida humilhante; a sciencia ensinava-lhe o desprezo do mundo; e o espirito purissimo da mãe, nos conselhos finaes, apontava ao cavalleiro e ao philosopho a honra de tres damas que a elle deviam o sêr.[22]
Desgraçado do homem que vem ao mundo como pensador; para esse a scentelha divina do talento é chamma que illumina sim, mas como o tocheiro que allumia um cadaver.
Alvaro Vaz, durante estas hesitações, fôra para Coimbra acompanhar o amigo. Decidiram partir e, á força d’armas, pedir aos detractores o rol das culpas. D. Pedro esse o que queria era desabafar com o sobrinho, com a meiga creança que outrora lhe sorria nos joelhos, como se fosse um filho. Tinha a consciencia tranquilla, porque não defender sua justiça?
Foram em bellico apparato. Logo na côrte roncaram os primeiros rumores da expedição. O rei partiu tambem ao som de guerra e junto ao ribeiro de Alfarrobeira acharam-se frente a frente.
Muitos—os leaes—desejavam uma entrevista diplomatica; mas aos parciaes do Infante o que convinha era um combate; cousa mais simples e talvez mais segura.
Começaram varias refregas, méras expansões da soldadesca; uma setta arremessada ao acaso foi bater na tenda real. Já não havia duvidas sobre as tenções do Infante... Podia, sem escrupulos, dar-se a carnificina.
Os pelouros das bombardas cruzavam-se nos ares com as flechas e com os golpes de montante; craneos esmigalhados pelos projectis juncavam o chão, havia heroes que abriam caminho com a espada ensanguentada, e entre esses D. Pedro.
Que queria elle? A Historia não o diz. Talvez fallar ao rei.
De repente um pelouro prostra-o por terra; Alvaro Vaz avisado d’isto redobrou de energia. Ao chegar junto do corpo do infante ajoelhou, e quando depunha o osculo na fronte do amigo, conheceram-n’o os contrarios.
D. Alvaro olhou-os de frente; de braço estendido para a morte, disse estas palavras: _Fartar rapazes! vingar agora villanagem_.
Uma turba de settas choveu sobre elle; a alma sentiu o corpo fraco e despediu-se do mundo. Era o ultimo cavalleiro.
Destruidos os dois baluartes da honra, findou a batalha, começando logo depois o saque, não dos despojos dos vencidos, mas dos bens do Grande Morto, que esteve tres dias insepulto.
Principia aqui a agonia da existencia de D. Izabel, joven de dezesete annos, com um coração bondoso, mas dilacerado de desgostos.
Seu pae, julgando amparal-a dignamente, casou-a com o sobrinho; enlace que as côrtes de Torres Vedras approvaram com enthusiasmo.
O consorcio realisou-se em 1447, ou em 6 de maio de 1448,[23] tendo a rainha sido dotada com todas as villas que pertenceram a sua sogra D. Leonor e a sua avó D. Filippa.
Entre as nossas soberanas, D. Izabel de Lencastre é uma das mais sympathicas; basta para lhe dar jus a este titulo a sua qualidade de fiel esposa do homem que assassinára seu pae e que era o pae de seus filhos.
N’estes, porém, a excelsa princeza depôz todas as suas esperanças que não foram infundadas.
Tendo tido um filho varão (3 de maio de 1455), a rainha conseguiu que se rehabilitasse a memoria de D. Pedro e que o seu corpo, então depositado na egreja de Santo Eloy, em Lisboa, fosse recolhido no Mosteiro da Batalha, junto dos de D. João I e de D. Filippa.[24]
Essa creancinha que ella, mãe extremosa, acalentava, era D. João II, o futuro Grande Rei que, com barbara, mas bem merecida justiça, vingaria a morte de seu avô.
No emtanto, os odios ainda não estavam extinctos e os promotores da catastrophe da Alfarrobeira estimulados pela rehabilitação do antigo regente, decidiram pôr termo á vida da filha, causadora de tal desgosto.
Apezar de não ser ponto averiguado, é tradição seguida, que a causa da morte d’esta rainha (2 de dezembro de 1455) foi a peçonha ministrada pelos inimigos de seu pae, terriveis feras que depararam mais tarde com um terrivel vingador.
Hoje D. Izabel jaz na Batalha, a grande epopeia de pedra da nossa nacionalidade. A Historia presta-lhe o culto da santificação pelo martyrio que enaltece as almas na perpetuidade dos seculos.
D. Leonor de Lencastre
A Historia retrata-nos Affonso V como um dos soberanos mais voluveis e ambiciosos que se tem sentado no throno portuguez. Filho de D. Duarte o fraco mas sabio rei, e de D. Leonor, casta mas censuravel rainha, Affonso V mostrou que não degenerára dos seus progenitores.
Amou as lettras e protegeu-as, proseguiu no augmento da bibliotheca de seu pae, e continuou as emprezas africanas conforme os desejos de D. Henrique.
Alcacer Ceguer (1458) Tanger e Arzilla (1463) são monumentos que attestam o patriotismo que lhe adornava a alma, áparte a volubilidade e a ambição.
Talvez fosse esta que o levasse a consentir na morte do regente D. Pedro; póde ser que mesmo afastado da côrte, o rei visse em seu tio um estorvo para dar largas á sua absoluta vontade. De facto, aquelle homem fleugmatico, methodico, grande em tudo, que o tinha creado como um pae, impunha-se-lhe involuntariamente. Não obstante a sua pouca edade, a Historia não o póde absolver da sanguinolenta tragedia d’Alfarrobeira e do condemnavel procedimento de ter durante tres dias insepulto o cadaver do mallogrado infante e de o privar, por espaço de annos, da sepultura que D. João I lhe destinára no Mosteiro da Batalha.
Uma guerra injusta alvoreceu com o seu reinado; outra lhe terminou a existencia, crivando de desgostos o desgraçado monarcha, cheio de desenganos e de crueis penas do triste passado.
Velho aos quarenta e nove annos, desanimado de todo pela sorte das armas, que lhe refreavam os vôos, abatido no Toro (1476), Affonso V falleceu em Cintra aos 28 de agosto de 1481.
Logo depois subiu ao throno seu filho D. João II, que já nos ultimos tempos da vida do pae governava de facto o reino.
N’este principe depozera as suas esperanças, nas horas amargosas do infortunio, a pobre e desgraçada mãe; a elle, por consequencia cabia vingar a memoria do avô, memoria de todo rehabilitada quando o neto lavasse as mãos no sangue dos assassinos.
A morte do duque de Bragança (21 de junho de 1483) e a do duque de Vizeu (23 d’agosto de 1484) foram golpes crueis vibrados por braço herculeo contra o poder descommunal que assassinára D. Pedro.
Consummada a vingança e consolidado o cesarismo, o rei converteu-se em senhor, apoiado no poder absoluto, uma das más feições da Renascença.
N’este empenho, D. João II sacrificou os proprios membros da familia, alanceando o coração da esposa que vira aos pés do marido morto ás punhaladas, o cadaver do louco e desgraçado irmão.
Tendo apenas dezeseis annos (22 de janeiro de 1471), o pae casára-o com D. Leonor de Lencastre, filha do infante D. Fernando e D. Izabel de Bragança.[25]
Toda a generosidade da raça d’Aviz actuou n’esta princeza, digna successora de D. Filippa; todas as virtudes domesticas, todo o zelo pelo bem da patria e pelos progressos das sciencias tiveram o seu culto no animo generoso de D. Leonor, que, para não desmentir o destino fatal das suas predecessoras, tambem teve o martyrio a crucificar-lhe a existencia.
No cerebro do marido desenrolava-se o imperio do mundo; as descobertas continuavam-se e o nome portuguez dilatava-se triumphante por toda a terra; Diogo Cão descobrira o Zaire (1484-1485), João Affonso d’Aveiro chegára á Guiné (1486) e Bartholomeu Dias dobrou o _Tormentoso cabo_, primeiro indicio da derrota da India.
O commercio desenvolvia-se activamente, tornando Lisboa quasi rival de Veneza. Um futuro brilhante como o fulgor de uma joia naturalmente parecia sorrir ao principe D. Affonso, esposo da herdeira de Castella e filho de D. João II e de D. Leonor; n’elle se haviam de reunir todos os potentados da peninsula e dos Dois Mundos, todas as riquezas do Oriente e do Occidente!
Havia de ser o primeiro monarcha do universo! na sua fronte repousaria a corôa que mais tarde foi cingida pela casa d’Austria. O sonho d’esta felicidade plausivel florescia perante os espinhos que o espirito vingador do rei semeára no lar domestico.
Apezar de mortificada, D. Leonor via no marido o soberano illustrado e audaz, que preparava para o filho um futuro inegualavel.
Essa creança era o espirito de conciliação que existia entre os dois; era o élo que os ligava ao commum interesse do povo. Mas como a nuvem altaneira trepa a grimpa dos montes e esconde o sol radioso, a morte surgiu a derribar o arbusto que alargava as suas raizes por todo o sólo conhecido.
Morto D. Affonso (13 de julho de 1491), o sonho idealista desappareceu e com elle a existencia do rei (25 de outubro de 1495).
Depois de viuva, D. Leonor dedicou-se á caridade e ao desenvolvimento das lettras e artes; introduziu a imprensa em Portugal;[26] fundou a Egreja da Merceana, no termo de Alemquer, o hospital das Caldas da Rainha, as Misericordias, e deu principio á construcção das capellas imperfeitas da Batalha, mais tarde mandada suspender por seu irmão el-rei D. Manuel.
No reinado d’este soberano, a rainha recebeu o lenitivo de todos os seus passados desgostos; viu o auge da prosperidade da patria, deixando-a grande e feliz quando falleceu em Lisboa aos 17 de novembro de 1525.
Jaz no convento da Madre Deus.
Quem fôr ao mais eloquente monumento da nossa nacionalidade, quem visitar os athaudes de D. João I, de D. Filippa e de seus illustres filhos, sentirá que na crypta murtuaria da Batalha estão vagos dois logares.
Nuno Alvares e Leonor de Lencastre ausentaram-se d’aquelle épico conjuncto de tumulos, onde dormem o somno eterno os mais brilhantes vultos da unica épocha de verdadeiro progresso que existiu n’esta terra.
D. Leonor d’Austria
D. João II, apezar do grande amor que consagrava a seu filho D. Jorge, mais tarde duque de Coimbra, cedeu á luz da razão, indicando como herdeiro da corôa o duque de Beja D. Manuel, irmão do desgraçado duque de Vizeu e da rainha D. Leonor, de quem já nos occupámos.
Como grande rei, o neto do infante D. Pedro continuou as descobertas maritimas; no entanto é licito ao historiador notar a hesitação d’este monarcha em acolher os serviços de Christovão Colombo, serviços que foram acceites por Fernando e Izabel de Castella, graças ao lucido espirito da rainha, predisposto pelo immortal Pedro Gonzalez de Mendóça, arcebispo de Toledo.
É esta a unica mancha do reinado de D. João II.
Nem a morte do duque de Bragança nem o assassinato do duque de Vizeu maculam a memoria do rei, que se viu obrigado a recorrer ao cutello e ao punhal para extinguir as desintelligencias do feudalismo perturbador constante da paz interna dos povos. Seu primo, el-rei D. Manuel, continuou-lhe a obra grandiosa, porém com politica e astucia e não com sangue e cadaveres, attitude esta que os golpes fundos e radicaes do seu illustre predecessôr lhe permettiam tomar.
Um tanto injusta a Historia, designa D. Manuel simplesmente como soberano _venturoso_. D. Manuel foi feliz pelo acaso de successão, pelos homens que encontrou e por essa serie d’epopeias grandiosas, obliteradas depois pela voracidade do ganho; mas _foi grande_ pela sua politica de ferro, pelo seu espirito conciliador e pela attenção que, não obstante a influencia das preciosidades da India, sempre dispensou ao bem estar do continente: bastando para lhe dar jus á gloria de estadista a diplomacia com que soube tratar a visinha Hespanha.
Perdidas as esperanças de cingir a corôa de toda a peninsula, em vista do fallecimento da rainha D. Izabel, viuva do principe D. Affonso e herdeiro dos reis catholicos (24 d’agosto de 1498),[27] com quem se havia desposado, e do unico fructo do seu matrimonio, o principe D. Miguel da Paz (20 de junho de 1500),[28] o rei portuguez entendeu que a continuação de allianças com a nossa rival no poderio ultramarino era materia do mais alto alcance para a estabilidade das pacificas relações entre os dois paizes.
Tratára elle o casamento do sobrinho predilecto, o duque de Bragança D. Jayme com Leonor de Mendóça, filha do duque de Medina Sidonia no intuito de procrear amizade com o poderoso hespanhol, senhor de quasi toda a Andaluzia, de que era Fronteiro Mór.
Não pensava o rei, nos seus planos de diplomata, que o coração não se molda ao capricho dos politicos e que a desgraçada creança, inteiramente extranha aos tramas das conveniencias sociaes, seria, volvidos poucos annos, victima da justa vingança do marido, offendido na sua honra e no pundonor.
A deploravel catastrophe de 2 de novembro de 1512, em que o treçado do primeiro senhor do reino assassinava a esposa adultera, e as mallogradas pretenções á successão do throno de Castella, pretenções que já tinham sido alimentadas por seu tio D. Affonso V e por seu primo D. João II, foram os unicos desgostos que D. Manuel experimentou nos vinte e seis annos do seu reinado.
De resto a fortuna bafejava o pavilhão das Quinas; Vasco da Gama saiu do Tejo (sabbado 8 de julho de 1497)[29] no intuito de achar o caminho das Indias, dobrando o cabo da Boa Esperança. Na sua viagem descobriu a Terra do Natal, Moçambique, Mombaça e Melinde, cujo rei foi um fiel alliado dos portuguezes. Surgiu finalmente defronte do Calecut, onde a principio o receberam com enthusiasmo, que mais tarde esfriou em vista das intrigas dos mercadores musulmanos, os quaes adivinhavam no altivo estrangeiro a quéda da sua influencia commercial. Abriam-se de par em par as portas da riqueza; D. Manuel podia julgar-se o monarcha mais poderoso e mais rico d’então. Não tardariam as perolas, os rubis, as esmeraldas, a canella, o gengibre e a pimenta, monopolio da corôa.
Não tardariam as victorias de D. Francisco d’Almeida e de Affonso d’Albuquerque. E coberto de louros, incensado em fumo, precedido da força brutal das armas e do genio épico dos grandes capitães, o nome do rei subjugou o oceano e avassallou o Oriente.
Malaca, Ormuz e Gôa, renderam-se ao pulso rijo de Albuquerque. Gôa foi convertida em capital do projectado imperio que o grande capitão, nos seus planos de estadista, pretendeu fundar. Era necessario um cruzamento de raças: casassem os portuguezes com as mulheres da India; alijassem essas ideias puritanas, lembrando-se que toda a humanidade vinha de Adão...
João das Regras, Nun’Alvares e Albuquerque são as figuras mais valiosas do reinado d’Aviz. Um pela sua eloquencia que produziu uma autonomia; outro pela sua candura; e o ultimo pela rijeza do seu pulso de guerreiro e pela fortaleza do seu cerebro de politico.
Os dois primeiros morreram honrados no seu catre de louros. Nun’Alvares, mystico asceta, na solidão de um mosteiro. João das Regras, pae extremoso, no seio da familia. Albuquerque esse viu ao desprender-se do mundo a ingratidão real, remedeada já tarde,[30] e o seu corpo affeito ás luctas em prol da patria, levado aos hombros dos companheiros das suas glorias, com a barba branca, comprida e magestosa como a do Condestavel, é o retrato prophetico do futuro do emporio portuguez, cujas raizes tentára consolidar e que a desenfreada ambição do lucro, a sensualidade do Oriente, em que os soldados eram sultões e as casernas harens, deitaram por terra, como o vento do deserto abate a palmeira verdejante.
Albuquerque foi a personificação da lealdade, e a India nas nossas mãos foi um campo d’aleivosias.[31]
Mancha negra que ennodôa a Historia, o dominio portuguez no Oriente assemelha-se á impudica figura de Leonor Telles. Corrompeu côrte, costumes, homens e crenças. Com o pensamento na riqueza, o sentimento cavalheiresco afastava-se do soldado convertido em mercador. Já não havia essa simplicidade de outras eras. Sedas, joias e alfaias jorravam a olhos vistos, sem que ninguem sentisse que entre a descommunal riqueza se ia lavrando a sentença de morte de uma nação. O sensualismo entorpecia os espiritos, aconselhando os estofos perfumados dos salões com portas de ebano, paredes de damasco e pregaria de ouro á rudeza do marinheiro ou á espada do militar. Riqueza e gozo era o ideal de todos, n’aquelles tempos, cuja apparencia é tão risonha e cujo fundo é tão funebre.
Na metropole, D. Manuel, como feitor n’esta immensa fazenda, via-se assaltado pela multidão de operarios que não pediam trabalho, mas solicitavam mercês. A inveja mordia os feitos dos benemeritos e o rei deixava-se vencer por falsos conselheiros que vindos da India pintavam-lhe com negras côres as obras dos grandes homens. Feliz no poderio e na familia, casado em segundas nupcias com D. Maria de Castella,[32] irmã de sua primeira esposa, pae de numerosa descendencia, um tanto illustre, é certo, mas bem longe de ser um arremedo da de D. João I, o poderoso rajah da Europa, cego por tanto brilho, deu ouvido aos embustes aventureiros, maculando o seu nome na ingratidão para com os servidores leaes.
De novo casára em Alcacer do Sal (30 d’outubro de 1500) e passados dois annos a successão do throno estava assegurada pelo nascimento do principe D. João. Além d’este, oito filhos lhe garantiam a independencia da corôa: D. Izabel, esposa do imperador Carlos V; D. Brites, duqueza de Saboya; D. Luiz, duque de Beja, poeta distincto e discipulo do grande mathematico Pedro Nunes; D. Fernando, duque da Guarda, que casou com D. Guiomar Coutinho, herdeira do conde de Marialva; D. Affonso, que foi cardeal, bispo de varias dioceses e arcebispo de Lisboa; D. Henrique, cardeal, arcebispo e mais tarde rei; D. Duarte, duque de Guimarães, casado com D. Izabel de Bragança, filha do duque D. Jayme e pae de D. Catharina, esposa de seu primo o duque D. João I, d’onde proveio á casa de Bragança o direito de successão por morte do cardeal rei.
Extremoso chefe de familia, sem ter amante nem bastardo, doido pela mulher que foi um anjo do lar, a morte arrebatou-lh’a (7 de março de 1517), volvidos dezesete annos de íntima convivencia.