As donatarias d'Alemquer Historia das Rainhas de Portugal e da sua casa e estado

Part 2

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Convencido o rei de que sua mulher subsidiava o filho nas revoltas que o ciume e ambição lhe movera, ordenou a D. Izabel que se recolhesse em Alemquer, onde esteve algum tempo.

Durante este desterro, a princeza mostrou-se digna da terra que lhe dera hospitalidade. Fixou residencia nos novos paços que Santa Sancha erigira depois de transformar os antigos em recolhimento da ordem seraphica. Ali surgiu-lhe á memoria as virtudes e os feitos da bemaventurada fundadora, e, ardendo-lhe o peito em caridade, transformou o palacio em albergaria, onde poisavam os forasteiros e se acoitavam os doentes.

Não contente com isso, levantou a egreja do Espirito Santo, junto aos paços, creando-lhe duas festas annuaes e doando-a aos alemquerenses; mas, como o fogo da caridade a obrigava a ir mais além, instituiu na egreja de Santo Estevão umas mercieiras para subsidiar doze viuvas de boa nota, com obrigação de ouvirem missa diaria pela alma da fundadora.

Abalados os restos da antiga piedade, em 1834, acabou esta pia instituição, e a incuria, ligada ao vandalismo, destruiu o templo mais antigo de Alemquer, edificando no seu logar uma escola primaria. Vamos com Deus...

Temos por desnecessario descrever as virtudes domesticas da esposa do illustrado e sabio rei D. Diniz; são ellas bem conhecidas e apreciadas por todos, que não regateiam a Santa Izabel o logar proeminente entre as rainhas de Portugal.[14]

D. Constança

Santa Izabel falleceu aos 4 de julho de 1336, e, quatro annos depois, foi Alemquer doada a D. Constança, malograda esposa de D. Pedro, _o cru_.

Era filha, a Infanta, do Principe de Vilhena, D. João Manoel e de sua primeira esposa, D. Constança; bisneta de D. Fernando; _o santo_, rei de Castella, e neta materna de D. Jayme II d’Aragão.

O monarcha castelhano, comprehendendo a politica do astuto visinho, oppoz-se á sahida da princeza, tolhendo-lhe a passagem pelo seu territorio. O portuguez declarou-lhe guerra, e, se não fossem Roma e França, esta contenda seria prolongada e inutil, porque o capricho do castelhano e as forças de Affonso IV eram indomaveis.

Acabada a pendencia, graças á intervenção estrangeira, entrou D. Constança no paiz de seu marido.

Foi pouco duradouro o consorcio; a princeza, poucos annos depois, exhalou o ultimo suspiro, sendo sepultada em Santarem.[15]

Viera acompanhada de brilhante sequito de damas, resplandecendo entre todas a peregrina Ignez de Castro, a quem D. Pedro immolou o coração. Talvez que na morte da desgraçada senhora os olhos do esposo brilhassem, ao encontrarem-se com os da formosa Ignez! Talvez que a esposa, no leito de dôr, não sentisse ao seu lado o palpitar ancioso do coração do marido, que suspirava de jubilo por ver surgir no horisonte o momento feliz de poder, mais á vontade, chamar sua áquella que _só_ amava!...

Tudo póde ser! mas, se assim foi, a hora da justiça soou tremenda e lugubre, quando a felicidade deslizava tranquilla por entre aquelle amor louco, immenso, incomparavel!

Não se póde fixar quando começaram as relações de D. Pedro com a dama de sua mulher; o supposto casamento é datado de 1354, tendo o principe quatro filhos. Um anno depois, a politica regia desfazia criminosamente este amoroso idyllio.

A tragica morte de Ignez é de sobejo conhecida. Camões a cantou em estrophes immortaes, traduzidas em todas as linguas. O vulto da desventurada apparece-nos como visão, na adolescencia, quando o nosso pensamento começa a divisar um novo ideal, quando o peito anhela um novo sentir, e o espirito, sahido da infancia, ao levantar-se para o céo é acompanhado de uma ideia vaga e forte, poetica e doce, pura como a castidade d’um seraphim. Tal é o amor ao principio!

Entrado no mundo, o homem, corrupto pela força das circumstancias, folheia o livro do passado, detem a vista sobre o começo da sua existencia viril e analysa esses ideaes crystallinos, sente no peito uma commoção triste, mas risonha, doce, mas dolorosa, que só nós, os portuguezes, sabemos bem definir—é a saudade!

Não que a carne ainda retenha o mesmo prisma; a mulher desapparece como o meteóro, mas o que fica arreigado ao coração, é a innocencia bonançosa que torna o espirito, amante sim, mas ao abrigo de Deus...

D. Affonso IV escolheu epocha propicia (7 de janeiro de 1355) para a sua fatidica empresa. Estavam desfolhadas as arvores: caudaloso o Mondego, espelho d’aquella ternura sem egual; brancos os cumes dos montes; o sol, defendido pelos negros torreões de nuvens, não quiz, condoido e triste, presenciar o espectaculo.

Dentro de seus paços, nos aposentos de uma fraca mulher, dois assassinos a apunhalavam com barbaridade sem parceiro na historia. Animava-os a politica do rei e o espirito da defunta Constança. Estava vingado o seu ciume.

D. Leonor Telles

Duzentos e vinte cinco annos eram decorridos desde que Affonso I se ligára á virtuosa Mafalda de Saboya (1146-1371), e n’este longo periodo não houve uma unica soberana que manchasse a purpura com o labéo da devassidão.

Só D. Mecia destoára um pouco das suas predecessoras; no entanto o papel impudico só o representou como comedia.

Foi preciso que no throno se sentasse o filho d’um monarcha justiceiro, respeitador do lar e da honra de seus vassallos, para que esse brazão de perto de trez seculos fosse eclypsado pelo desbragamento mais devasso.

Pedro I espumava de raiva quando o thalamo era profanado. Constante na sua louca paixão, o vulto d’Ignez nunca lhe abandonou a existencia.

Via-a quando açoutava o salteador e quando queimava o adultero; a imagem d’ella fortalecia-lhe o pulso e animava-lhe a fogueira.

D. Fernando, esse tinha um pensar inteiramente opposto. Tratára o consorcio com D. Leonor d’Aragão, na esperança de dominar Castella, guerreando a posse d’aquella monarchia a Henrique II.

Mais tarde esqueceu-se do contracto e escolheu por esposa a outra Leonor, filha do seu rival. Tambem faltou a esta promessa. O caracter rijo do pae, herdára-o unicamente o bastardo; os outros bandearam-se em Castella, e o herdeiro, embora possuisse boas qualidades administrativas, não passou de um ambicioso, covarde, sacrificador do paiz ao seu amor adultero.

Ainda mulher alguma soubera impressionar verdadeiramente aquelle homem.

Fôra frascario, mas amor propriamente dito jámais o perseguira. Era bello e era rei, e a lascivia, na edade media, não tinha os fóros de vicio—era um costume.

Vira Leonor Telles quando o marido, cançado da monotona vida de provincia, partiu para Lisboa, cioso de ver os ouropeis da realeza e o faustoso brilho da côrte. No peito do rei o coração ardia-lhe e no cerebro forjavam-se-lhe mil idéas pouco lisonjeiras para elle e pouco honrosas para o senhor de Pombeiro; mas não passou, ao principio, de idyllios imaginarios.

D. Leonor percebeu-o. Os olhos são uns espias preversos em casos d’amor, e por mais que fizesse, o rei não deixava de a contemplar.

Ella retrahia-se. Na sua alma damnada brotou o pensamento que a honestidade poderia servir de degrau para o throno. Talvez até se recostasse na fronte do esposo, para mais exasperar a paixão do pobre soberano!

Afinal, D. Fernando abandonou a timidez—sempre a ha quando o coração sente.—Receava magoar a _honra_ d’aquella mulher. Poz de parte o receio; mas, como ainda lhe ficassem restos, não se lhe dirigiu, fallou com a irmã, chorou aos pés de Maria Telles, supplicou-lhe que advogasse aquelle amor louco, que o faria abandonar a corôa se preciso fosse. Movida D. Maria de tão instantes rogos, procurou convencer a irmã. Convencida estava ella ha muito, desde que farejára os olhares do rei. Não o amava, mas endoudecera-a a perspectiva da realeza—d’um modo legitimo, bem entendido. Barregan d’el-rei... nunca; esposa, isso sim.

Lisboa alvoraçou-se com a nova.

Todos, á uma, estranharam o procedimento do filho do saudoso D. Pedro. A cidade resolveu representar n’este sentido nomeando seu interprete o alfaiate Fernão Vasques, a quem D. Fernando assegurou ser falso o boato. Socegaram os animos.

Entretanto a côrte partiu para o norte do reino, e ao chegar a Leça do Bailio (1371), el-rei apresentou Leonor Telles, em publico, como sua mulher.

Desligára-a de João Lourenço da Cunha, pretextando motivos de parentesco, e no logar do Eixo (5 de janeiro de 1372) lhe doou Alemquer e seus pertences.

Principia aqui a mais nojenta tragedia da historia de Portugal. Leonor Telles foi o Alcacerquibir da dynastia de Borgonha. Começára esta em Affonso Henriques, o valente fundador da nossa nacionalidade, acabára em D. Fernando, o fraco apaixonado de uma Messalina! Succedeu-lhe o Mestre d’Aviz, o reorganisador da nação, equiparando Aljubarrota a Ourique.

Germen da nova dynastia, teve fructos dignos de si e de seus passados: D. Duarte, sabio como D. Diniz; D. Affonso V, patriota como Sancho II; D. João II, politico e justiceiro como D. Pedro I; e D. Sebastião (coincidencia notavel) amante da gloria, como D. Fernando o fôra de uma mulher, arrastou o paiz aos areaes da Africa, como este o arrastára á perdição infallivel, nas graças seductoras da sua amada!

O decorrer dos seculos ainda não poude absolver os crimes d’esta soberana.

O seu reinado é uma scena continua d’adulterios e de assassinios. Invejosa por natureza, convenceu seu cunhado, o Infante D. João, de que a mulher d’este (a D. Maria Telles que lhe approximára a corôa) lhe commettia infidelidade. Cioso, o principe matou-a. D. Leonor respirou; assim desfez o seu receio, porque temia a morte do marido e via com inveja que o throno seria occupado pela irmã e pelo infante, querido do povo, como filho d’esse rei de que elle conservava saudosa memoria.

O susto que a movêra a mais uma infamia, realisou-se no dia 22 d’outubro de 1383, epocha em que falleceu D. Fernando, aos trinta e oito annos d’existencia, talvez a mais amargurada e com certeza a mais vergonhosa de todos os nossos monarchas.

Depois da sua morte, a viuva assumiu a regencia, fazendo logo acclamar sua filha D. Beatriz, casada com D. João de Castella. Reinava emfim! Podia livremente fazer o que lhe aprouvesse, sem falsificar as firmas de ninguem; escusava de se valer dos seus dotes para obter uma vingança ou uma desforra. Ella era o poder supremo, grande, inegualavel!

Odiava Lisboa, e a cidade pagava-lhe na mesma moeda. Toda a gente sabia da _privança_ do Conde Andeiro; revoltaram-se e convidaram o bastardo de D. Pedro, o Mestre d’Aviz, para assassinar o _valido_. Consumado este acto, D. Leonor recolheu-se em Alemquer, fiada na lealdade do povo e na fortaleza das muralhas. Foi a primeira vez que se lembrou do seu senhorio!

D. João mandou á villa dois embaixadores, a ver se negociava o casamento com a rainha. Recusada a proposta, o principe cercou-a; mas depois de varias refregas, veiu a noticia de que o rei de Castella já estava em Santarem, onde D. Leonor, temerosa, se refugiára. A maior parte dos sitiantes tinha abandonado o seu posto. Todos temiam o estrangeiro, quando os habitantes, lealissimos portuguezes, declaram, ao saber-se da entrega do reino, que punham as suas vidas ao serviço da independencia. No emtanto, a força subjugou-lhes a vontade, e o castelhano penetrou nas muralhas, arvorando a sua bandeira. Sciente o Mestre do occorrido, embarca no Tejo com varias forças e vem-lhe pôr novo cerco.

Houveram então valentes combates!

Aquellas encostas foram um vasto campo de batalha; ali pereceram muitas esperanças, ali se fortaleceu muita valentia, ali se deu um grande passo para a causa de Portugal.

Como a guarnição era valorosa, tiveram os do Mestre de recorrer ao prolongado sitio, vendo se assim se rendia.

Foi o que aconteceu a 10 de dezembro de 1384. Mais tarde (janeiro de 1385), a traição de Vasco Pires de Camões obrigou o _Defensor do Reino_ a faltar aos compromissos tractados na capitulação.

Este, acclamado rei nas côrtes de Coimbra (1385), mandou demolir parte dos muros d’Alemquer, terra que, pela infamia da viuva de D. Fernando e pela fatal inclinação do Alcaide, tão pouco sympathica se lhe tornára.

Leonor Telles falleceu encarcerada nas Tordesillas aos 27 d’abril de 1386,[16] talvez arrependida das suas culpas e seguramente convencida de que o echo da maldade é aborrecido por todos e em toda a parte.

SEGUNDA DYNASTIA

D. Filippa

Como dissemos, D. João de Castella transpozera a fronteira, preparando-se para cingir a corôa de Affonso Henriques. O paiz achava-se desunido e fraco, abatido pelo contagio da maldade que de tão alto o enervava; a nobreza, na maior parte, seguia o castelhano; só o povo se mostrava contrario ao usurpador e á rainha, que sempre odiára altivamente, apesar dos laços da forca apertados pelas bellas mas ferozes mãos de D. Leonor. No entanto, n’este cahos em que Portugal se encontrava, quatro homens appareceram destinados pela Providencia para a restauração da patria—o Mestre d’Aviz, João das Regras, Alvaro Paes e Nuno Alvares—quatro vultos cujos nomes a historia gravou em letras de ouro e a arte na sua linguagem sublime esculpiu homericamente no mosteiro da Batalha, echo perpetuo dos vencedores d’Aljubarrota, padrão eterno de uma das maravilhas do universo, portal da gloria que Camões immortalisou nos _Lusiadas_; que é e será sempre o santuario do portuguez, romeiro patriota que, como o mahometano, pelo menos uma vez na vida, se prostra ante o tumulo do propheta.

O Mestre d’Aviz foi o instrumento da independencia; João das Regras, o defensor da sua causa; Alvaro Paes, o instigador tenaz e prepotente; o Condestavel, o general habilissimo que soube vencer os exercitos, como o advogado soubéra dominar a legislação.

Esta foi a gente que capitaneou a hoste popular, exaltada e patriotica, symbolo vivo de toda a nobreza de caracter. Juntos, alliando o direito com a melicia e a diplomacia, venceram o estrangeiro, conservaram a autonomia e encetaram o progresso no nosso torrão. A posteridade não lhes foi injusta—honra lhe seja—mas nos tempos de hoje, em que os chatins têem estatuas, elles dormem tranquillos nos seus tumulos, sem que nas praças publicas o povo, outrora soldado das suas fileiras, os venere no bronze, como em vida lhes votou todo o seu amor!

Apezar da nossa decidida abnegação e de termos vencido o inimigo (14 d’agosto de 1385), entendeu D. João I ser conveniente uma alliança politica; fôra ella tractada com o Duque de Lencastre, João de Gant, pretendente de Castella e consumado pelo casamento do rei com D. Filippa, filha do principe inglez, a qual recebeu em dote o senhorio de Alemquer, Cintra, Obidos, Torres Vedras e outras villas.

O consorcio realisou-se na cidade do Porto (2 de fevereiro de 1387), debaixo das bençãos dos prelados e dos applausos dos populares, que adivinhavam uma nova éra para a corôa e para o paiz.

Fóra de duvida, foi mais que vergonhosa a scena do reinado anterior; mas se a mancha da impudicicia póde ser apagada na historia d’um povo, certamente a virtude que se lhe seguiu, que rivalisava em fortaleza com o desbragamento de Leonor Telles, compensou o interregno infame em que o pudor não só foi olvidado mas tambem escarnecido.

D. Filippa de Lencastre reatou os laços de honestidade que sempre existiram no throno. Mãe de heroes, que soube crear, esposa d’um soberano illustre, que sempre allumiou com o facho da virtude; rainha, mas dona de casa, sem se intrometter na politica, como desastradamente depois fez sua nora Leonor d’Aragão, ella é o symbolo do que ha de mais grandioso na nossa historia e do que ha de mais nobre n’uma mulher.

Como tudo tem fim, esse brilhante ornamento da nossa monarchia succumbiu em Odivellas (19 de julho de 1415) d’um ataque de peste que assolava Lisboa; depois de vinte e oito annos ter sido a fiel companheira do rei de _boa memoria_, e de ter gerado em seu ventre

...........quem governasse, Quem augmentasse a terra mais que d’antes, Inclyta geração, altos Infantes.

(LUSIADAS—canto IV, est. 50.)

D. Izabel de Lencastre

(Duqueza de Borgonha)

Não ha ninguem por menos lido na historia, que desconheça as virtudes e o valor dos filhos de D. João I. Cada um de per si constitue uma epopeia de honra e de dignidade, desde D. Duarte, o primogenito, até D. Fernando, o martyr benjamim da familia.

Foram oito os legitimos: D. Branca e D. Affonso, fallecidos na meninice; D. Duarte, successor; D. Pedro, duque de Coimbra, regente do reino, homem de sciencia, e homem politico; D. Henrique, duque de Vizeu, iniciador das descobertas, perante o que tudo sacrificou; D. Izabel, duqueza de Borgonha; D. João, o condestavel, modelo de impoluta dignidade; e D. Fernando, que morreu sacrificado pela Patria e pela sorte da guerra nas masmorras de Fez.

Havia mais um bastardo, filho não do rei circumspecto, mas do rapaz folgazão, que cevava a mocidade nas camponezas dos seus feudos. Foi o producto da perfeita carnalidade animal, livre de todo o sentimento generoso que Jesus Christo abençoou nas bodas de Canaan. Filho de coito damnado, sempre se lhe resentiu os effeitos da baixa origem; por isso se refugiou nas suas terras, lá no norte, que obtivera por consorcio com a filha unigenita do Santo Condestavel. Evitava assim a presença da madrasta, cujos olhares, d’um sereno azul celeste, parecia que chicoteavam o crime da sua existencia. Mais tarde, em varios de seus successores, brotou a semente generosa do Mestre d’Aviz e de Nun’alvares: em D. Jayme e nos dois Theodozios, mui accentuadamente.

Os outros filhos d’el-rei, _altos infantes_ que Camões cantou, foram modelo de principes e modelo d’irmãos.[17]

Nunca a fraternidade foi seguida com mais fervor, nunca os laços familiares predominaram mais, dentro do lar, do que n’esta geração abençoada, dignissimo producto de dois esposos redemptores, abençoados tambem pelas jaculatorias d’um povo.

Devia ser commovente o passamento de D. Filippa, rodeada do marido, dos filhos, da filha, do enteado e da criadagem que fraternisava com a familia as lagrimas e os soluços.

Tendo armado cavalleiros D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique; pedindo ao primogenito que a sua espada fosse a espada da justiça, a D. Pedro a defeza das donas e donzellas, e a D. Henrique o zelo por todos os escudeiros, cavalleiros e fidalgos do reino; feitas outras recommendações, dados conselhos tendentes á união e á obediencia dos mais novos aos mais velhos, se chegou Brites Gonçalves de Moura a lembrar á rainha a infanta sua filha.

D. Izabel chorava a um canto o desenlace proximo; a mãe olhou-a com meiguice, e, voltando-se para a dama, mostrou-lhe que se tinha recommendado ao herdeiro a felicidade de seus vassallos, escusava de fallar n’ella, a quem a tinha em tanta estimação.

N’este momento, no peito de D. Pedro pulsou mais uma vez a generosidade que sempre foi seu apanagio; e dirigindo-se para D. Filippa, disse-lhe que seria bom chamarem el-rei para a esposa lhe pedir que as terras de que era possuidora se dessem á filha, emquanto não tomasse estado.

Approvada a proposta, sahiu D. Henrique a procurar o pae.

Não tardou D. João I, e ali, perante o leito de dôr da virtuosa companheira, confirmou a sympathica doação, que mesmo sem essa formalidade seria sagrada por todos os titulos.

Foi assim que a Princeza possuiu Alemquer.

No emtanto, cumpria cazal-a como D. Filippa deixava recommendado; e apezar do atrazo material da epocha, a fama dos infantes portuguezes soou por toda a terra. D. Pedro, de todos os filhos de D. João I com certeza um dos mais preclaros, deixava espalhado pelas _Sete Partidas_ quão fructifera tinha sido a influencia de D. Filippa na côrte de Lisboa. O brutalismo da Edade-Media desapparecera em Aljubarrota e o espirito claro da Renascença, (que teve a sua aurora na esposa do rei de _boa memoria_, e em Nun’alvares, o candido guerreiro; e o seu occaso na infanta D. Maria, a sympathica filha do _rei venturoso_, e em Camões, a expressão mais pura da nossa nacionalidade) expandia-se illuminado pela figura angelica da rainha que soubera calcar, sepultando-o de vez, o impudor de Leonor Telles. Entreabria-se uma nova era, tendo por promotores a gente mais valorosa que nasceu n’esta terra. Ceuta, a Madeira e os Açores foram os alicerces das emprezas de além-mar; Ceuta, o ultimo golpe do vencedor de Castella, e o baptismo dos seus tres primogenitos; Açores e Madeira, os primeiros padrões da vassallagem do oceano á _gente ousada_ que lhe rasgava o corpo virginal.

Com todo este conjuncto de sublimes predicados, não escasseavam os pretendentes; assim D. Izabel desposou em Bruges (10 de janeiro de 1430) o duque de Borgonha, Filippe, o _bom_, conde de Flandres.[18]

Digna herdeira das virtudes da mãe, enalteceu o lar domestico com aquella dignidade perante a qual o decorrer dos seculos se curva respeitoso; e mais tarde soube desempenhar com abnegação sublime os deveres do amor fraternal, requerendo a seu sobrinho D. Affonso V o corpo e os filhos do desventurado infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira.

Bella aureola a da honra e a da gratidão!

D. Izabel de Lencastre nasceu a 21 de fevereiro de 1397 e falleceu em 17 de dezembro, de 1471.

Sepultaram-n’a na Cartuja de Dijon.

D. Leonor d’Aragão

Cinco annos antes da morte de seu pae (14 d’agosto de 1433—22 de septembro de 1428), desposou el-rei D. Duarte a D. Leonor, filha de Fernando I d’Aragão. Esta princeza succedeu á rainha sua sogra na posse d’Alemquer e d’outras terras que formavam a chamada _casa das rainhas_, verdadeiramente constituida no tempo da sympathica Leonor de Lencastre, mulher de D. João II.

Começavam a desapparecer os soldados da independencia. A morte ceifava uns e outros; a acção do tempo curvava-lhes a fronte varonil, como presagio do descanço eterno.

O rei já não era o mesmo homem d’antes: o mocetão galhardo e forte, mas o velho experimentado e prudente, o companheiro de vinte e oito annos da virtuosa D. Filippa, que lhe reformára o espirito e o paiz.

As illusões e o amor fugiam-lhe impellidos pelo vento rijo dos annos; esse campo deixava-o elle aos rapazes, aos filhos, sabios como elle, vivos reflexos do espirito purissimo da mãe.

Em D. Duarte talvez esse sentimento influisse com primazia. Almas ternas como a d’elle, exigem uma outra que lhes sirva de alento. Sem a candura da mulher a alma do poeta é um jardim sem flores, um sol radiante toldado por uma nuvem negra.

Tinha trinta e sete annos quando o casaram; estava na força da virilidade, retida pelo celibato. O espirito queria expandir-se, e quando os olhos viram pela primeira vez a gentil aragoneza, formosa e meiga, o amor, satisfeito no seu ideal, algemou-lhe o coração.

Leonor desde o dia das nupcias dominou de facto o marido. Bastava uma caricia para lhe subjugar a vontade.

Desgraçado do homem que encontra uma mulher d’estas, se em vez de ser o anjo que faça da familia a ante camara celestial, se converte em demonio que lhe transforme o lar em inferno intoleravel.

Era ella a segunda Leonor que se sentava no throno, notando-se que embora fosse o symbolo vivo da honra e do pudor, tem um ponto de contacto com a sua pouco illustre predecessora. Ambas escravisaram os maridos, e escravos os arrastaram ao tumulo; ambas, devido á loucura inteiramente opposta uma á outra, vieram depois de desagradaveis peripecias a fallecer no exilio!

Senhora do animo do esposo, tomou sobre si as redeas do governo. Não se limitou a ser terna e fiel como D. Filippa. Foi mais além; affastou-se do trilho que a natureza impoz á mulher, trazendo com o seu procedimento desastrosas desgraças que offuscam um tanto os brilhantes feitos da dynastia d’Aviz.

A Renascença abrira novos horisontes, e os filhos de D. João I apoiaram com todas as suas forças o objectivo da nova edade.

Ceuta fôra o alicerce que D. Henrique lançára para o imperio ultramarino. Desejava proseguir na sua ideia, continuar a ultima façanha emprehendida pelo pae; vendo ao seu lado o irmão, D. Fernando, cioso dos primogenitos amestrados já no valor da arte da guerra.