As Cinzas de Camillo

Part 2

Chapter 23,246 wordsPublic domain

Onde quer que seja, dalgum modo continuará a rir; e, se nesse mundo que fica para alem do que elle foi, ha logar para reflexões á sua Obra, o mais que lhe acudirá é, decerto, a sua mesma approvação plena por tudo quanto escreveu, ou seja a consciencia do acerto com que traçou o perfil moral dos que, de momento, lhe são obstaculo á porta do Pantheon!

E dahi, quem sabe? Talvez que ainda um motivo de valor explique a sua estada no Père-Lachaise, que, effectivamente, para o caso, não significa menos que o templo de Santa Genoveva!

Porque, repetimos, é inferior aferir da grandeza dum artista, pela estima do logar onde elle repousa.

Em França, ha casos de escrupulo, no genero, por vezes, extraordinarios! Assim, em 1885, foi profanada a Egreja de Santa Genoveva, unicamente para que nella entrasse Victor Hugo![8]

E, contrariamente, por motivo da confissão catolica de Pasteur, não foi este para aquelle templo, mas para o seu proprio Instituto, onde jaz guardado em capella propria.

Ahi está a maneira correcta de proceder para com um dos maiores da raça latina, e a quem, a França dispensou da _prova_ do Pantheon!

Também, quando da morte de John Ruskin, um dos grandes artistas inglezes do seculo XIX, estylista tão singularmente notavel, como um dos mais eloquentes escriptores da Natureza, a Inglaterra offereceu a sua familia o logar que, para elle, a Nação tinha reservado em Westminster. Pois a familia, recusando um tal offerecimento, bem decerto em attenção á ultima vontade do Artista, preferiu sepulta-lo na aldeia de Coniston, perto da escola das creanças do povoado, para quem tambem elle, no dizer de Robert de la Sizeranne, havia composto os seus canticos.

«A sua morte, informa este publicista, que teve logar a 20 de janeiro de 1900, entre os rochedos e os bosques de Brantwood, á beira dum dos mais bellos lagos da Inglaterra, foi o fim proprio da sua vida: em perfeita simplicidade e em discreta belleza. Elle não teve junto de si mais do que dois ou tres de seus discipulos e alguns camponezes. O offerecimento de um tumulo em Westminster, a maior honra que a nação ingleza pode tributar a um seu filho, foi recusada por sua familia; e, na celebre Abbadia real, coisa alguma recorda Ruskin, a não ser o seu medalhão, em bronze, collocado no _Pantheon dos Poetas_, ao lado do busto de Walter Scott.»

Finalmente, acaso Shakespeare, está em Westminster?

Não está; ahi figura elle, simplesmente, em monumento, cercado doutros marmores, porventura espalhados á sua roda, como que a marcar-lhe o Tempo.

Elle? quem sabe! talvez, unicamente, a sombra falsa do seu nome, mais o resto da sua lenda[9].

Presumivelmente jaz em Stratford, no côro de uma velha Egreja gothica, perto de um rio escuro, o Avon, e, como que, ao acaso, guardado pela esguia escolta das suas arvores.

Indica-o ao viajante, mais do que o monumento, ultimamente ali levantado, uma pedra que mal sobresai da parede, com uma quadra-aviso, que geralmente lhe é attribuida.

É uma quadra curiosa, que vale a pena ler e, por desventura, esqueceu lavrar na sepultura de Camillo, onde, já agora, se torna necessario esculpir a clausula testamentaria do Romancista ácerca da sua sepultura.

Eis a quadra:

«Good friend, for Jesus'sake, forbear, To dig the dust enclosed here. Blessed be he that spares these stones, And curst be he that moves my bones.»

«_E amaldiçoado seja o que revolver os meus ossos_»! gritou Shakespeare, ou a tradição por si.

E tal defeza bastou a que jámais se destampasse o mysterioso jazigo!

Emfim, pois que eram precisos exemplos, ahi ficam os maiores, a que poderiamos juntar outros, da regeição de Pantheons--sem que os paizes a que aquelles notaveis pertenceram, descessem, algum dia, a obrigar as suas memorias a um pariato de cinzas que, por clausula testamentaria, ou circumstancias casuaes, podesse tomar-se como violencia.

E, entretanto, jámais a França ou a Inglaterra renegaram do culto quasi fanatico em que têem os seus _immortaes_; e, sobretudo, aquelles que por si bastariam a affirmar, mais do que o prestigio dos seus paizes--o valor das respectivas raças.

Derivando daquelles casos, ou antes apprendendo da attitude de taes nacionalidades,--se assim é preciso!--ahi temos, naturalmente, indicado o que ao Estado, ou melhor ao povo portuguez,--pertence resolver, ácerca de Camillo, e sempre de accordo com a sua memoria.

Levante o Povo portuguez, (ponhamos sempre de parte, em questão de preito a artistas, os _representativos_!)--uma estatua a marcar, de direito, nos Jeronymos, o logar que, de facto, elle não quiz occupar, á maneira do que se fez em Westminster para o grande tragico de Stratford, e deixemos que os seus restos descansem na Lapa!

Tambem nós, repetimos, emquanto nos foi desconhecido o mais da documentação acima expressa, pugnámos pelo seu ingresso nos Jeronymos.

Como de egual arte,--lembrando a pagina, por certo, mais dolorosa da vida litteraria de Camillo--uma das que abrem a _Correspondencia epistolar_ entre o Romancista e Vieira de Castro, e onde aquelle allude a D. Anna Placido, contrahindo para com ella, publicamente, o voto das suas inhumações em commum jazigo--eu me recordára de quanto seria natural e proprio á memoria das suas conjunctas tragedias a approximação da que lhe fôra companheira e suave cumplice!

Esta pagina é a mesma em que responde a Vieira de Castro, quando este, numa explosão de amizade, lhe denunciou o que os seus inimigos, ao tempo, propalavam para melhor o ferirem.

Formára-se uma atmosphera de malquerença contra Camillo, e, como sempre em taes casos, a má vontade dos seus inimigos deu-se a jogar com um abjecto romance, adrede disposto a pôr de seu lado a chamada moral burgueza--ou seja o estalão mais infame que ainda se inventou para avaliar sensibilidades!

Então, a tal proposito lhe contou Vieira de Castro o que, a seu respeito, se espalhára pelas praças, e, por sua vez, elle reproduz da maneira seguinte:

--«Que eu, confidente e depositario das cartas que uma senhora casada escrevera a um homem ausente, ameaçára essa senhora de revelar ao marido a culpa indicada nas cartas, se ella continuasse a repellir-me; e que a senhora ameaçada, aceitando metade da minha infamia transigira com a proposta».

Ora a tal ensejo escreveu Camillo aquella pagina, que, já agora, reproduziremos, na parte final, aliás menos como seu desaggravo--por desnecessario, do que por ver o que, ao tempo, pensava do natural destino das suas cinzas:

«Meus amigos e meus inimigos! se, por violencias de uma paixão brutal, exacerbada pela embriaguez, eu resvalasse á infamia de forçar a resistencia da derradeira mulher na escala das perdidas--Deus sabe quem são as perdidas!--; ao despertar desse infernal aturdimento com a consciencia do meu crime, matar-me-hia com asco de mim proprio.

No regaço dessa senhora, tão cruelmente aviltada, tenho dous filhos. É para meus filhos que eu escrevo esta pagina que me pareceu até hoje impossivel.

Receio que elles ainda tenham de ver a serpente da calumnia a rojar-se na sepultura de seu pae. Sinto-me no cabo da vida; e tenho maior pejo da posteridade que dos meus contemporaneos. Quero que estas crianças saibam deste livro que o pregão affrontoso aos calumniadores foi escripto quando ainda viviam as pessoas que podiam desmentir-m'o.

_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe_--esta levantada alma que ainda não verteu uma lagrima na voragem que lhe devorou os respeitos do mundo, e a perfida riqueza com que seus perdoaveis paes a violentaram sem dó de sua innocencia e formosura dos dezoito annos».

_No punhado de minhas cinzas hão de estar as de sua mãe!_

Ahi está o que me seduzia a pugnar pela approximação das duas urnas.

Afinal, parece que a mesma fatalidade que os reuniu, os dispersou!

Nas cartas finaes de Camillo a Freitas Fortuna, ácerca das suas cinzas, ha uma allusão unica a D. Anna Placido.

E, ainda na sua declaração de 22 de novembro de 1886, prevenindo o suicidio, a recorda, pensando afflictivamente no mau acaso de que ella o antecipe na morte!

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«_A mãe destes dois desgraçados,_ escreve elle, _não promette longa vida; e, se eu pudesse arrastar a minha existencia até ver Anna Placido morta infallivelmente me suicidaria. Não deixarei cahir sobre mim essa enorme desventura, a maior, a incomprehensivel á minha grande comprehensão de Desgraça._»[10]

Assentemos, pois, para lá de todo o raciocinio, e perto, unicamente, da vontade de Camillo, no que a seu respeito, e a proposito do destino dos seus restos, elle, deliberadamente, dispoz, e importa que, em bem da sua memoria, nós todos acatemos.

Eu creio que dos documentos transcriptos resulta bem expressa a violencia da trasladação!

A sua extraordinaria figura está acima do fetichismo publico que, por capricho, intentasse a macabra canseira de lhe remexer ou espreitar a ossada.

Alem de que aos poderes publicos impende guarda-la. Isto sim, é de seu cargo!

E se, effectivamente, á consciencia nacional,--para lá do susto romantico do enrêdo dos seus livros e do odio herdado da geração anterior contra elle, já chegou o culto devido pelo sacrificio dos quarenta annos da sua escravidão litteraria, aliás nelle tão extranhamente batida de desgraça,--não se exasperem os seus devotos que não têem pouco em que empregar a admiração, por exprimirem todo o reconhecimento que lhe devem!

Assim, por exemplo, não falando já nos monumentos a erigir-lhe--que esforço não lhes será necessario para apartarem das escolas esses manuaes de mentira que por lá correm--e substitui-los por livros de excerptos seus, para que delles resulte no coração dos futuros homens o documento vivo da sua grande alma!

Esta seria, de facto, a primeira, a grande tarefa.

Mas não vale a pena forçar o Tempo. Demais que o Tempo chega sempre na altura devida!

Nós, é que ás vezes, por nos darmos a impressão de que tambem governamos fóra delle, pretendemos deslocar a sua justiça. Afinal, erro de humanos; mais nada!

Emfim, Camillo poude sempre dizer como Liszt:--tenho tempo, esperarei...

Que importa, pois, que sejamos nós ou outros os que definitivamente o sagremos?

O que importa é termos a certeza de que a sua memoria venceu ha muito. De resto, tambem o facto da sua capella, na Lapa, ser modesta, nada representa. Deixemos os grandes mausoleos para os _seus brazileiros_; estes sim, precisam delles.

Camillo não, pois que é já tão grande,--embora o vejamos ainda crescer, dia a dia, na consciencia publica, que elle, mais a sua memoria surgem bem dali, como da mais exigua brochura da sua obra.

É que é de seu privilegio, como, em geral, de todos os grandes artistas, a mesma ubiquidade milagrosa dos grandes santos.

Tanto maiores são, melhor cabem em toda a parte--ainda nos mais humildes templos...

Ancêde, 1 de outubro de 1917.

[1] Vid. «_O Romance do Romancista_» por Alberto Pimentel.

[2] Vid. ob. cit.

[3] Obr. cit.

[4] O distincto poeta snr. Jaime Cortesão.

[5] «O Romance do Romancista» por Alberto Pimentel.

[6] Esta doação, com o respectivo averbamento de acquiescencia ás suas clausulas por parte do donatario, hoje na posse da viuva de Freitas Fortuna,--a Sra. D. Isabel Maria da Conceição Ribeiro da Silva Santos (a quem tambem pertence o jazigo da Lapa, onde estão os restos de Camillo)--foi pela primeira vez presente a publico, pelo jornal a _Republica_, de 29 de setembro de 1916.

Por este novo documento, de par dos restantes que apresentamos, se confirma a razão que nos assistia, quando, mezes antes, acudimos pelas cinzas de Camillo, publicando o principal documento, agora juntamente com aquelle reimpresso, na _Republica_.

[7] A tal proposito insere o _Diario de Noticias_ de 8 de março do corrente anno, a seguinte noticia:

«PANTHEON NACIONAL»

«O snr., ministro da guerra vae dar as ordens necessarias para se concluirem, com a maior brevidade, as obras no edificio do antigo deposito de fardamentos, para ser para ali transferida a oficina de manufactura de calçado que foi provisoriamente instalada no edificio de Santa Engrancia, que por lei foi destinado a Pantheon Nacional.

«É de crer que dentro de tres mezes o snr. architecto Adães Bermudes possa proseguir nos trabalhos de adaptação daquelle grandioso edificio ao Fim que por lei lhe foi destinado.»

Donde se prova que successivos governos, depois de decretado o afeiçoamento do edificio de Santa Engracia a Pantheon Nacional, para ali ordenaram que fosse installada uma industria de calçado, embora, em seu dizer, provisoriamente, porventura até que a multidão de immortaes que se lhe destina, deixe de precisar da installação!

O que não consta, contra as previsões do _Diario de Noticias_, e lettra do decreto, é que o snr. Adães Bermudes tenha proseguido nos tão esperados «trabalhos de adaptação do grandioso edificio ao fim que, por lei, lhe foi destinado...»

[8] Em 1830 foi transformada a Egreja de Santa Genoveva em Pantheon Nacional. Depois, em 1851, voltou a ser egreja, até que, com a entrada de Hugo, foi, de novo secularizada.

[9] Effectivamente, não é facil averiguar, com precisão, o mais da trajectoria da vida de Shakespeare, e, sobretudo, os episodios finaes da sua morte e inhumação,--ainda pelo estudo dos quatro mil volumes que, a seu respeito, a curiosidade dos eruditos de todas as nacionalidades accumulou.

«Tentar falar ou escrever ácerca de Shakespeare, diz Lewis Theobald, é entrar num espaçoso e magnifico edificio, por um corredor estreito e tenebroso».

O que mais delle se apura é que colheu obscuramente a sua obra da mesma razão anonyma que o prendeu á Terra.

Como, de egual arte, é assente que o homem mais querido e admirado que ainda houve, foi tambem, até ha pouco, um dos mais maltratados:--_O poeta maldito_--eis a maneira por que J. Richepin com a maior justeza, o indica! (Vid. A TRAVERS SHAKESPEARE, conferences faites à _l'Université des Annales_.)

Pope, no prefacio definitivo da sexta edição do _in-folio_ de 1623, considera-o um mero cortezão da plebe.

Voltaire chamou-lhe grosseiro e barbaro, «impossivel de se fazer ouvir pela mais desprezivel gente da França ou de Italia»--em derradeira analyse, um _selvagem bebado_!

O reconhecimento publico do genio do grande tragico iniciou-o o romantismo allemão, sobretudo pelos estudos de Lessing, Goethe, Schiller, Herder e Schlegel. Em França, apparece pela primeira vez bem tratado nos trabalhos de Staël e Chateaubriand.

Revelado o seu genio, começaram os criticos a hesitar sobre a idoneidade do Auctor.

A muitos pareceu, de momento, pouco conforme com tão prodigiosa obra, o mais intimo da sua historia.

Sigamos nós, comtudo, este fio biographico,--tambem o mais geralmente acceito como verdadeiro.

Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, em 1564, e era filho de um negociante de lans, homem de medianos recursos e grande familia.

Estudou primeiras lettras numa escola publica (_Grammar School_, escola secundaria) da terra da sua naturalidade, onde casou, aos dezoito annos, com Anna Hathaway, de quem teve três filhos.

Foi depois para Londres, onde, successivamente, parece ter sido moço de theatro, ponto, comediante, e mais tarde empresario, liquidando, finalmente, em burguez, na sua terra, onde morreu em 1616, no dia em que completou 52 annos.

Eis a mais vulgar das suas biographias.

Ha outras mais complicadas, e, comtudo, acceites por alguns dos devotos do mytho shakespeariano.

Segundo uns, o verdadeiro Shakespeare, teria sido lord Rutland; como, para outros, elle foi lord Southampton, tambem havido, no consenso do maior numero, como aquelle a quem o Poeta deveu a apresentação que o introduziu na complicada e brutal côrte de Elisabeth.

Ainda, segundo alguns, elle foi lord Pembroke; como, finalmente, para o maior numero dos que teimaram em lhe dar uma proveniencia notavel, o proprio chanceller Francisco Bacon!

É de menos interesse e improprio ás medidas duma nota a reproducção dos argumentos em que se firmam as differentes hypotheses; assentemos, porem, em que nenhuma dellas vae alem de conjectura

O auctor do _Lord Rutland est Shakespeare_, M. Célestin Demblon, conclue as mais extraordinarias observações ácerca do falso Shakespeare.

Assim, segundo este auctor, elle começou por seduzir a noiva, a quem só desposou, ameaçado de morte pela familia della, e a quem empobreceu, gastando-lhe o dote; depois foi vagabundo e engajador de soldados; fôra salteador de estrada; e, mais tarde, protegido por lord Rutland e Southampthon, chefe de cavalhariça, contra regra do theatro, etc.

De resto, affirma ainda, elle não sabia sequer assignar o seu nome, que emprestára a Rutland, e este fazia escrever no final das peças, e que, por punhos diversos, apparece tambem differentemente orthographado (Shaxpere, Shagsbere, etc.).

Quer dizer, o ordinario e baixo _Shagsbere_ é nem mais, nem menos do que um personagem dos dramas de Rutland--o seu Falstaff, cynico e crapuloso, bebado e usurario, de quem o lord usava o nome por firmar as peças, que considerava abaixo da sua notoria prosapia!

Ah! com que opportunidade, lidos estes phantasticos passos do genial «poeta maldito», nos veem á memoria as palavras que, da sua alma, elle passou para a bocca de Macbeth:

«A vida! mas se a vida não é mais do que uma historia, contada por um tolo furioso e que não significa coisa alguma...»

* * * * *

Emfim, sahimos a custo dos multiplices enredos da sua vida, pela unica porta aberta ao mais dos criticos--a da sua Arte, instruida da sua primeira tradição, tambem a unica verosimil.

Quanto ás extravagancias possiveis e até provaveis, antes da ida definitiva para Stratford,--mais do que o conhecimento das suas ficcionarias biographias, nos esclarece a historia da côrte de Elisabeth, com todo o seu enredo extranho. Jean Richepin, cujos estudos em parte resumimos, no desenvolvimento da presente nota, não só frisa a influencia daquella côrte, na obra do Poeta, como conclue, a proposito do seu caracter e Arte o seguinte:

--«A Arte e a moralidade estão sobre dois planos differentes, dois planos que se não confundem, em boa verdade. Que de tempos a tempos estejam de accordo, simulando juntar-se sobre um plano unico,--eis o que pode succeder e encantar-nos.

..................................................................

Mas se os dois planos se mantêm separados que fazer? Eu desejaria, de certo, que elle (Shakespeare) tivesse sido, ao mesmo tempo, um homem honesto, o grande artista, um bom pae, bom marido; mas, nem por isso, deixo de preferir que elle tenha sido o contrario de tudo aquillo e nos tenha dado uma bella obra.»

O que vale concluir pela necessidade de admittir Shakespeare, tal como nos surge á primeira luz, liquidando a sua aventura dramatica pelo regresso a Stratford, onde parece ter vivido os ultimos cinco annos, longe do theatro das suas maiores façanhas pessoaes, como dos seus dramas--porventura viciento e avaro, como no-lo pintam, distrahido no seu novo papel de rico, e, no entanto, sempre, de alguma forma, lembrado das suas antigas relações e vida de scena, como é positivo e se vê ainda do proprio testamento, em que contemplou dois camaradas.

Assim chegamos, naturalmente, e ainda guiado pela lenda, até á morte do Poeta, na sua terra de origem, afinal tambem a mesma onde, porventura, a seu desejo, foi inhumado e, de direito, é que descanse.

Isto, mau grado as lamentações de Irving, quando, ao visitar o seu tumulo, entre os velhos monumentos da nobreza, que o rodeiam, notava, com mágoa, o seu desenho mais do que modesto!

(Confrontem-se J. Richepin, ob. cit.; Oeuvres dramatiques de William Shakespeare, traduction par Georges Duval; W. Irving; e Garrick.).

[10] Vid. _Camillo Inédito_ annotado.

INDICE DAS ILLUSTRAÇÕES

Pag.

Retrato de Camillo por Antonio Carneiro. . . . . . . . . 9

Retrato de D. Anna Augusta Placido . . . . . . . . . . . 17

Ultimo retrato de Camillo feito na «União» . . . . . . . 33

Busto de Camillo por Diogo de Macedo . . . . . . . . . . 41

Projecto de monumento a Camillo por Teixeira Lopes . . . 49

O Jazigo de Camillo na Lapa. . . . . . . . . . . . . . . 65

_DESTA EDIÇÃO FEZ-SE UMA TIRAGEM ESPECIAL DE QUATRO EXEMPLARES EM PAPEL WHATMAN, NUMERADOS E RUBRICADOS PELO AUCTOR._

ACABOU DE SE IMPRIMIR ESTE OPUSCULO AOS DOZE DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E DEZESETE, NA TYPOGRAPHIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA», SITA Á RUA DOS MARTYRES DA LIBERDADE NA CIDADE DO PORTO.

NO PRELO:

_Camillo Inédito_ annotado, 2.º milhar.

_Fanny Owen e Camillo_, 2.ª edição.

End of Project Gutenberg's As Cinzas de Camillo, by Visconde de Vila Moura