Jim Waring of Sonora-Town; Or, Tang of Life

Chapter 1

Chapter 13,848 wordsPublic domain

Dona Esmeralda Foz era filha de Dona Gertrudes Lemos que em Jataí-Estação muito fez pelo espiritismo. Tidoca Lemos morreu desprevenido, Dona Gertrudes ficou nervosa com a incerteza do destino que tivera a alma do marido. Daí o ter entrado para sócia contribuinte do Centro Espírita Amigos de Jesus. Logo na primeira reunião Tidoca apareceu pigarreando seco (velho cacoete dele), disse que estava bem, mandou lembranças para os amigos, recomendou insistentemente à mulher que não deixasse de pagar os vinte mil-réis que ele morreu devendo ao Tenente Euclides (orador oficial do Centro), falou nos deveres de amor e caridade para com o próximo e se despediu pigarreando seco. Dona Gertrudes virou espiritista fanática. Porém não pagou os vinte mil-réis ao Tenente Euclides. O que foi um dos motivos do cisma havido no Amigos de Jesus e imediata fundação do Companheiros de Cristo com Dona Gertrudes no cargo de primeira-secretária.

Por essa época Dona Esmeralda tinha seus dezesseis-dezessete anos e já por qualquer coisa ria demais ou chorava demais. Ou ria depois chorava, chorava depois ria. Diziam para ela: O Inacinho do Areão caiu do cavalo. Ela ia e ria que era um despropósito. Acrescentavam: Bateu com a cabeça numa pedra, morreu. Ela ia e desandava a chorar soluçado de cortar o coração. Dá uma boa médium, pensou Dona Gertrudes. E levou a filha no Centro.

Até então a médium preferida do Companheiros de Cristo era a filha do presidente Maestro Angiolini. Chamada Celeste Aída. Logo se estabeleceu uma rivalidade tremenda. Porque Angiolini achava ruinzinhas as comunicações feitas por intermédio de Esmeralda. Espiritismo é como música. Precisa coração. O coração é que comanda. E a Esmeralda só tinha cabeça. Por seu lado Dona Gertrudes atrapalhava com apartes caçoistas os discursos que os espíritos ditavam para Celeste Aída. A diretoria aí resolveu consultar Pai Jacob, protetor do Centro. Um médium de pencinê veio especialmente de São Paulo. Pai Jacob entrou nele e decidiu a questão a favor da filha do presidente. Dona Gertrudes protestou inflamada dizendo que a coisa lhe cheirava a tribofe. Esmeralda principiou a chorar. Dona Gertrudes agarrou na mão dela, antes de sair deu uma gargalhada satânica, gritou para Salvini: - Você, seu carcamano, quando nasceu te jogaram duas vezes na parede: uma vez grudou, outra não! Esmeralda compreendeu, largou de chorar e riu até a mãe dizer chega com dois beliscões.

Meses depois Dona Gertrudes se mudou para Jataí-Vila e casou a filha com um moço muito bom, Nicolau Foz, empregado da Luz e Força e oposicionista vermelho. Dias depois morreu de susto. Tarde da noite explodiu perto da casa dela uma fábrica de fogos. Dona Gertrudes foi encontrada já fria apertando contra o peito O Triunfo na Vida Terrena pelo Magnetismo Pessoal do professor E. Bedlamite de Columbus, Ohio, U.S.A. Morreu de susto.

A filha sofreu muito. Gostava da mãe. E morta a mãe passou a gostar do único bem do espólio: uma cachorrinha peluda. Muito vagabunda mas muito célebre. Tinha sido presente de uma comadre da de cujus. Dona Gertrudes a recebeu novinha com dias apenas. E já batizada Goiabada. Nome horrível que Dona Gertrudes resolveu mudar. Consultou a filha, a filha pediu um dia para pensar, pensou e sugeriu dois a escolher: Florzinha e Violeta. Dona Gertrudes recusou, passou em revista outros e afinal se decidiu por Dorotéia Cabral. Daí a celebridade. Toda gente fez questão de conhecer Dorotéia Cabral. E Dona Gertrudes explicava: - Os animais não são nossos irmãos inferiores? Pois então, ué! Devem ter nome de gente! Por isso o genro se animou um dia a observar: Se a cachorrinha tem direito a nome de gente tem direito a apelido. Dorotéia Cabral é muito comprido: fica sendo Tetéia. Dona Gertrudes não discordou. Fez porém uma restrição: - Não há dúvida. Tetéia está bem. Mas só na intimidade.

Enquanto crescia o amor de Dona Esmeralda (que não tinha filhos) pela Tetéia grandes sucessos modificavam a vida do país. E Jataí-Vila (cidade, cabeça de comarca, mas sempre Jataí-Vila para distinguir de Jataí-Estação onde passavam os trilhos da Boigiana) foi teatro de muitos e variados acontecimentos. Com seus quatro mil e setecentos vizinhos há muitos anos vivia empenhada em furiosa luta política: de um lado os partidários de Zéquinha Silva desde cinco lustros chefe do situacionismo, de outro os do Major Mourão (alentejano de nascimento) e seu braço direito Nicolau Foz. Aqueles eram os perrepistas. Estes os oposicionistas. Luta local só. Os antiperrepistas também pertenciam incondicionalmente ao P. R. P. Mas ao P. R. P. estadual, ao governo. Nunca ao de Zequinha Silva. A ambição deles era constituir um dia com sua gente o P. R. P de Jataí-Vila. Obedeciam â orientação de um deputado que em Jataí-Estação era situacionista, em Jataí-Vila oposicionista. E tecia seus pauzinhos na Capital junto aos chefões para derrubar o tiranete de Jatai-Vila que a oposição não se cansava de apontar como indigno dos nossos foros de civilização e cultura.

A coisa porém continuava no mesmo pé sem dar esperanças de modificação próxima. Até que veio o movimento revolucionário de outubro de 1930. Então principiou uma emulação desesperada. Todas as provas iniludíveis de dedicação à causa da legalidade (o que eqüivalia dizer à causa sagrada do Brasil unido) foram dadas pelos dois partidos. Zéquinha Silva telegrafava solidariedade aos Presidentes da República e do Estado, o Major Mourão imediatamente fazia o mesmo. Fazia mais: estendia essa solidariedade inabalável ao Ministro da Guerra ao Ministro da Marinha, ao Presidente da C. D do P. R. P., ao Secretário da Justiça e ao Chefe de Policia do Estado. E quando Zéquinha resolveu organizar um batalhão patriótico a oposição anunciou a formação de dois: infantaria e cavalaria. Porém Zéquinha Silva contava com maior número de elementos. Trinta e dois sujeitos pegados à força pelo Subdelegado Tolentino foram convenientemente calçados e seguiram logo sob o comando do cabo do destacamento. Este levava uma carta do diretório para o Secretário da Justiça pedindo que os voluntários de Jataí-Vila fossem aproveitados na faxina dos quartéis da Capital "para sossego de suas respeitáveis famílias. cujo patriotismo honra sobremaneira as nossas gloriosas tradições bandeirantes". Passados uns dias a Viúva Mané Bindão (inventora e fabricante única de um doce chamado "beija-me-devagar") recebeu carta do filho dizendo que a coisa em Itararé estava bem preta. A Viúva Mané Bindão foi na casa do Zéquinha e amaldiçoou a família Silva até a última geração. A oposição pulou nas ruas de contentamento Pulou um dia só entretanto: o governo mandou perguntar para o Major Mourão se os homens dele seguiam ou como era. O major respondeu que estavam de partida. Foi uma vergonha. O Afonso Henriques. filho do major, afundou no mato com dois primos. Antônio Vicente de Camargo Júnior, um dos chefes oposicionistas. declarou que não criara filho para carne de canhão. E assim todos. Até que Nicolau teve uma idéia. Três léguas para o norte em São Benedito do Alecrim, nas divisas de Minas, havia dois batalhões em pé de guerra: um paulista aquartelado no Grupo Escolar Marechal Deodoro, outro mineiro no Grupo Escolar Marechal Floriano. Os dois prédios ficavam na mesma rua. Mas seus ocupantes trocavam gentilezas. Cada batalhão só esperava a hora de aderir ao adversário. Pois então: era comunicar para o governo que o pessoal oposicionista de Jataí-Vila iria reforçar a tropa de São Benedito do Alecrim. E estava tudo arranjado.

Não estava. O governo mandou ordem para os homens partirem sem demora para a Capital. Aí seria resolvido o destino deles. Que remédio? O Major Mourão recrutou três matadores profissionais, dois ladrões de cavalos, um preto maluco que pensava que era relógio e vivia no Largo da Matriz movendo os braços que nem ponteiros, um surdo-mudo de nascença e um tal Chico Rosa mais conhecido por Chico Perna-de-Pau. Os matadores e os ladrões custaram cem mil-réis por cabeça: quinhentos mil-réis que o major desembolsou sem a mulher saber. A Filarmônica Doutor Quirino tocou o Hino Nacional, Antônio Vicente fez um discurso patriótico, os homens subiram num caminhão, o Laudelino Pinto do Centro Cultural gritou: "Que cada um traga uma orelha do Bernardes, são os meus votos sinceros!", e toca para Jataí-Estação pegar o trem. A Filarmônica em outro caminhão e os chefes oposicionistas num torpedo foram escoltados.

- Assim a gente tem a certeza de que os maganos embarcam - disse o major.

- Que não desertam antes de chegar na estação - corroborou Nicolau.

- Eu sapeco outro discurso neles quando o trem chegar - prometeu Antônio Vicente.

Seguiram já a noite vinha descendo. Daí a vinte minutos estavam chegados. Estação pequetita, encheram a plataforma. A Filarmônica iniciou imediatamente a Canção do Soldado Paulista. E o major dava suas últimas instruções aos bravos de Jataí-Vila quando o chefe da estação chegou todo transtornado.

- Seu major!

Seu major suspendeu as instruções, ficou esperando.

- Seu major! Deu-se!

- O quê?

- A coisa!

- Hein?

- A coisa! O Washington! Não percebo, homem!

- AREVOLUÇÂOVENCEU!

- Estás doido!

O chefe da estação ficou possesso:

- Eu, doido? O senhor é que está maluco! Se não é analfabeto leia isto!

Tirou do bolso um papel, encostou na cara do major. O major pegou no papel, deu para Nicolau ler. Nicolau leu:

- 5-0-9. 7-1-3. Centenas invertidas pelos cinco...

O chefe deu um pulo.

- Não é esse!

Arrancou o joguinho das mãos do Nicolau, meteu no bolso, puxou outro papel, leu, deu para Nicolau ler. Nicolau leu três vezes. Ia ler outra vez com os olhos cada vez mais esbugalhados mas o major não deixou.

- Dize lá do que se trata, vamos!

Nicolau devolveu a cópia do telegrama para o chefe, o chefe saiu correndo para avisar outros. Nicolau puxou o major e Antônio Vicente de lado e falou:

- A revolução venceu no Rio! O Washington fugiu!

O major rugiu:

- Lérias! Aquilo é um homem, homem! Não sabe o que é fugir!

- Telegrama oficial, seu major!

- Pois se é oficial, a revolução não venceu! Telegrama oficial só pode ser do governo! O governo está de pé!

Antônio Vicente procurou chamar o major à razão. O maior teimou. Começaram a discutir. O sino da estação anunciou a saída do trem de Engenheiro Abrunhosa: daí a minutos estava em Jataí. Um vivório se ouviu longe. Cousa indistinta. Os três abriram bem os ouvidos.

- Júlio! - disse o major. - Que é que lhe dizia eu?

- Getúlio! - disse Nicolau. Ouvi perfeitamente.

- Escutem! suplicou Antônio Vicente.

O vivório foi se chegando. Começou o foguetório também.

- Júlio! - disse o major. - Não tem discussão!

- Getúlio! - disse Nicolau. - Getúlio Vargas!

- Esperem! - pediu Antônio Vicente.

Esperaram. O foguetório não deixava os três perceberem bem o vivório. Mas de repente juntinho deles explodiu com tanta violência um Viva o Doutor Getúlio Vargas que os três até recuaram de susto. E Chico Perna-de-Pau repetiu o viva. O major indignado ia gritar com o Chico mas os matadores profissionais e os ladrões de cavalo sacaram das garruchas e deram de atirar para todos os lados. O major se agachou atrás de um banco gritando:

- Não me matem que eu sou português!

Chico Perna-de-Pau perguntou:

- Quem é que é português?

Antônio Vicente subiu no banco e gritou desvairado:

- Abaixo a plutocracia!

Os voluntários de Jataí-Vila, esgotadas as munições, corresponderam:

- Viva-a-a!

Antônio Vicente tornou a gritar:

- Abaixo os opressores do povo!

E os voluntários de Jataí-Vila delirantes:

- Viva-a-a!

A estação já estava cheia de revolucionários. O trem chegou. Vivórios e mais vivórios. O trem partiu. O major no meio do povo bradava:

- Que eu sabia que vinha lá isso sabia! Mas, caramba rapazes, nunca pensei que viesse já! Viva Jataí-Vila!

- Morra! - berrou um mulato no ouvido do major. - Isto aqui não é Jataí-Vila!

O major pediu muitas desculpas mas o mulato não queria desculpas. Queria dez puas para beber à saúde do Isidoro. E exigia um viva ao Isidoro.

- Viva - disse o major. - Toma lá cinco mil-réis que dez não tenho.

O Nicolau conferenciava na sala do telegrafista com o Doutor Querido que desde a monarquia era oposicionista na zona.

- Está feito!

Disse e saiu à procura dos companheiros. Arrancou o major das mãos de um italiano recém-chegado da Penitenciária que já obrigara o major a dar três morras (Morra Mussolini, Morra Matarazzo e Morra D'Annunzio), interrompeu um discurso de Antônio Vicente sobre a Revolução Francesa, arrebanhou com promessas os músicos e os voluntários, saiu com eles da estação. Em dois tempos conseguiu convencer todos a voltar imediatamente para Jataí-Vila tomar conta do governo.

Com uma provisão de foguetes e bombas de parede chisparam na estrada. E entraram em Jataí-Vila de escapamento aberto. No caminhão da frente os voluntários soltavam foguetes e jogavam bombas. A seguir no torpedo de capota descida os chefes da oposição vivavam a democracia brasileira e gritavam para os que abriam bocas de espanto nas calçadas e janelas: - Vencemos! Por último os músicos tocavam o Hino a João Pessoa. Foram direito para o Largo da Matriz. Fez-se um ajuntamento de uns trinta sujeitos. Antônio Vicente arengou. Enquanto ele arengava o coronel chamou um negrinho:

- Corre lá em casa e dize a Emília que vencemos!

O negrinho voltou logo com a Emília. E a Emília louca de alegria:

- Já telegrafaste ao Senhor Doutor Washington com as nossas felicitações?

O major explicou. E ela rebentou:

- Tu mandas dizer-me que vencemos eu penso que venceram os legalistas! Agora se é para perder de uma vez a vergonha viva esse tal de Getúlio e mais a cambada toda.

Deu meia volta e se retirou muito digna. Deixando o major frio. Mas daí a pouco chegou fardado o Coronel Cerqueira, veterano do Paraguai, com o peito cheio de medalhas, imensamente comovido, derrubando lágrimas. Abraçou o major dizendo:

- Um abraço, meu bravo! Conte comigo! Quando é que chega o Imperador?

O major ficou sem saber o que responder, a filha do Coronel Cerqueira fez uns sinais desesperados, o major compreendeu, respondeu:

- O Imperador? Ah, sim! Sua Majestade não demora está aí para nossa felicidade! Eu aviso o dia exato da chegada! E agora vá para casa que a noite está fria!

O coronel se retirou pelo braço da filha. Antônio Vicente alheio ao que se passava em torno continuava arengando. Nicolau mandava recados. E ia chegando gente, iam chegando moleques, todos os moleques de Jataí-Vila. Nicolau contou por alto os presentes.

Cassou a palavra de Antônio Vicente (Me deixa ao menos meter a ronca na Bastilha! Eu ainda não falei na Bastilha!) e gritou:

- Quem for brasileiro que me acompanhe!

Houve uma indecisão. Porém o Lázaro Turco da Verdadeira Loja Síria falou:

- Como é, pessoal? Patriotismo!

E o pessoal acompanhou. Menos o Janjão porteiro do Grupo:

- Enquanto eu não ler isso no Correio Paulistano eu não acredito mesmo!

Ocupada a cadeia (o delegado desaparecera vestido de mulher, disseram muitos que juraram ter visto), os revolucionários soltaram dois negros desordeiros, um leproso e a Mariazinha Louca que encontraram acorrentada anunciando para breve o Juízo Final. Nicolau não queria libertar Mariazinha antes de tirar uma fotografia para mostrar os métodos inquisitoriais dos déspotas vencidos. Mas Antônio Vicente propôs coisa melhor:

- A gente solta a peste e no lugar dela acorrenta o Zéquinha Silva para ele ver se é bom.

A casa do Zéquinha Silva estava com a porta e as janelas de pau cerradas quando o grupo parou em frente dando morras. Vai ver que já abriu o chambre, pensou Nicolau. Bateram, ninguém veio abrir. Mas logo depois os gritos de Arromba! Arromba! fizeram com que uma das janelas se abrisse e espiasse uma pretinha de olho assustado. Antônio Vicente mandou:

- Vá chamar seu patrão!

- Sim senhor!

Demorou um instante, voltou.

- Dona Trindade manda dizer que o patrão não pode vir não senhor porque a filha dele Dona Isolina está tendo filho.

- Mentira! - berrou Nicolau. Diga pra ele que venha senão nós arrombamos a porta e fazemos uma gravata nele!

A negrinha foi dizer. E Nicolau não tinha acabado de explicar para o major o que era uma gravata gaúcha quando a parteira Dona Gegé apareceu na janela.

- Vão embora, seus vagabundos, seus covardes! A criança nem bem nasceu e vocês já querem estragar a vida dela! Seus assassinos!

Houve um silêncio. E no silêncio se levantou a voz amável do major:

- Ah? Nasceu mesmo? Pensamos que fosse broma! É homem ou mulher?

- Não é de sua conta! - disse Dona Gegê e bateu a janela na cara dos patriotas.

Antônio Vicente falou:

- E agora?

O entusiasmo tinha esfriado. O major arriscou:

- Vamos todos para as nossas casas que o dia já foi muito bem ganho.

- Vão vocês - falou Nicolau. - Eu não durmo esta noite.

Não dormiu. Com três ou quatro mais dedicados passou a noite inteira tomando providências. E o major acordou no outro dia presidente da junta provisória de Jataí-Vila. O que reconciliou Dona Emília com a revolução:

- Assim está conforme! Os valores pra frente, é o que se quer!

A junta Mourão-Nicolau-Vicente tomou conta de Jataí-Vila dois dias com poderes discricionários. Na manhã do terceiro chegou o delegado mandado de São Paulo: Doutor Santos Dumont Salomão. A junta foi destituída e nomeado prefeito o agente da Ford, Idílio Madeira. Despeitadíssimo o pessoal da ex-junta organizou o Bloco dos Destemidos ou Os 18 de Copacabana. O Doutor Salomão se viu meio fraco, procurou se chegar ao Zéquinha. Mandou dizer para ele que quando precisasse de garantias de vida era só dar uma telefonada. Preparando terreno para uma aliança no momento oportuno. Nicolau ficou fulo com tais manobras. Telegrafou para São Paulo protestando mas São Paulo não deu resposta. Recorreu então ao mimeógrafo da Papelaria Humaitá. Todos os dias Jataí-Vila se enchia de manifestos xingando os usurpadores adventícios: Doutor Santos Dumont Salomão ("filho de mascate sírio com mulata sem-vergonha") e Idílio Madeira ("brasileiro, sim, mas natural da terra de Calabar"). O Doutor Salomão reagiu conservando 24 horas no xadrez o Afonso Henriques Mourão acusado de ter desencaminhado uma menor três anos antes. E organizou o Bloco dos Animosos ou Os Mártires da Clevelândia. Os Mártires se reuniram à noitinha no Largo da Matriz e quando se sentiam de fato Animosos marchavam para a casa do prefeito berrando: Nós queremos Madeira! E merecem, escreveu Nicolau num de seus manifestos.

Então vendo as coisas assim malparadas o vigário resolveu pacificar os espíritos. A matriz estava sendo reformada. Engrandecida até com um altar dedicado a Santa Joana d'Arc.

A primeira quermesse tinha rendido pouco apesar dos esforços da comissão presidida por Zéquinha Silva. Padre Zoroastro pensava realizar outra com umas dez barraquinhas pelo menos. Bonito pretexto para a paz.

Padre Zoroastro foi falar com o Doutor Salomão. Provou para ele a vantagem de uma concórdia e a oportunidade que para ela oferecia uma obra de religião e caridade. Aparentemente ninguém cedia, ninguém dava parte de fraco. Sobrevindo um motivo de ordem superior o acordo se fazia para garantir à quermesse o êxito que não podia ter se realizada num ambiente de ódios. Padre Zoroastro sabia convencer. E tinha um modo de falar irresistível: falava baixinho, devagarzinho, perguntava: não é? Se encontrava resistência ele mesmo respondia: é, não ligava às objeções nem estudava o que os outros diziam, continuava falando, caceteando, embalando de mansinho, os outros concordavam cochilando já. Doutor Salomão não fez exceção e disse:

- Pois sim.

Padre Zoroastro saiu da delegacia, foi para o escritório da Luz e Força. Mas não contou para o Nicolau que já tinha estado com o Doutor Salomão. Repetiu só o que havido falado pouco antes. Naquele tonzinho sumido de confessionário. Sempre igual, sempre igual.

- Escute, Padre Zoroastro! - exclamava de vez em quando Nicolau.

Sem acrescentar palavra, Padre Zoroastro tinha lá falar, não tinha ido ouvir. Isto é: tinha ido ouvir o sim, só o sim. Enquanto esperava a hora do sim falava para impedir o não.

Nicolau disse o sim quando - depois do último não é? é - Padre Zoroastro deu licença para ele dar um pio.

E o acordo se fez. O Doutor Salomão continuava na delegacia e o Idílio na prefeitura prestigiados daí em diante pelos 18 de Copacabana.

Sob duas únicas condições: a prefeitura não dava andamento aos executivos por impostos atrasados que tinha em juízo contra Nicolau e a delegacia deixava sossegado o Chalé Felizardo de que era proprietário um irmão do major.

Acordo que não agradou nada alguns dos 18 de Copacabana. No Bar Ideal um descontente chegou a falar em traição na cara de Nicolau.

Nicolau ficou vermelho. E tratou de mudar de assunto. O descontente (cuja brutalidade como centro-médio do Águia de Haia F. C. era famosa) percebeu a fraqueza do chefe, tornou a falar em traição e de mau começou a acariciar o gargalo da garrafa de cerveja Tip-Top. Nicolau empalideceu, balbuciou uma desculpa boba, caiu na rua. Então ouviu uma risada irritante.

Irritou-se. Seguiu para a delegacia e lá exigiu a remessa de um bilhete azul para o descontente que era fiscal do serviço contra a broca do café. O Doutor Salomão porém não concordou.

E Nicolau foi para casa se remoendo de raiva. De tanta assobiou uma hora inteirinha o Miserere, do Trovador. Não assobiou mais porque Dona Esmeralda veio chamar para dormir.

- Vá você. Eu vou depois.

- Logo hoje que eu estou tão nervosa, Nicolau! Você sabe que eu não durmo sozinha quando estou nervosa!

- Então não dorme nunca. Nervosa por quê?

- Tetéia está passando muito mal.

- Que é que tem a excelentíssima?

- Não sei: uns tremores, uns vômitos, umas coisas esquisitas.

Foram ver a Dorotéia Cabral. Nicolau olhou bem para ela, depois disse:

- Está agonizando.

Dona Esmeralda pôs as mãos na cabeça e se encostou no marido chorando.

- Ora, Esmeralda! Que é que significa isso? Não se pode mais brincar então? Você não conhece a anedota do português? Pensei que você conhecia. Por isso é que falei assim.

Esmeralda com a cabeça no peito de Nicolau engoliu umas lágrimas e perguntou entre dois soluços horríveis:

- Que anedota, hein?

Nicolau contou fazendo cafuné na mulher:

- Eu acho que já contei pra você. Não se lembra? Aquele português que estava muito doente e com um medo danado de morrer. Então para levantar o ânimo dele chamaram um grande amigo que ele tinha. O amigo veio, chegou perto da cama. sorriu para o doente e disse com jeito de carinho: Agonizantezinho, hem?

Esmeralda se desprendeu do marido.

- Essa é formidável!

E rompeu numa gargalhada nervosa.

- Não ria tanto, Esmeralda! Faz mal pra você'.

Ela queria dizer que não fazia, mas não podia, se sacudia toda de riso. Nicolau então pegou na Dorotéia Cabral com muito nojo e levou para a cozinha. Deitada de lado perto do fogão Dorotéia Cabral sacudiu as patas, vomitou, jogou a cabeça para trás, morreu. Nicolau voltou para o quarto.

- Morreu, coitada.

Esmeralda pranteou a morte de Dorotéia Cabral (Ah minha mãe, minha mãe! dizia) até cair de cansaço nos braços de Nicolau.

- Vamos dormir para esquecer este dia. Dia mais desgraçado!

Foram dormir.

- Acenda a vela que no escuro eu não durmo. Nicolau acendeu a vela, se deitou encolhido, cobriu a cabeça com o lençol.

- Não cubra a cabeça assim que eu fico com medo.

- Feche os olhos.

- Não posso.

Nicolau deu um suspiro, puxou o lençol para baixo, enterrou a cara no travesseiro. Dona Esmeralda virava para a direita, dava com a chama da vela, virava para a esquerda. não achava jeito, se impacientava.

- Nicolau! Passa a vela pro seu lado, faz favor!

Nicolau pegou no castiçal, pôs no criado-mudo dele. Sem dizer palavra. Tornou a meter a cara no travesseiro. Fechou os olhos.