As Cinco Panelas de Ouro

Part 3

Chapter 3502 wordsPublic domain (Wikisource)

- Nunca! - berrou Nicolau. - A metade tem que ser pra mim!

O Tenente Messias disse engrossando a voz:

- Eu proponho que se obrigue o Nicolau a dizer já, mas já, imediatamente, nem que seja à força, onde é que está o cobre!

Nicolau quis falar mas não pôde. E os dois irmãos Tarantelli, o Tenente Messias Jesus Conrado, o Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, o Bibi, o Dadau, o Zizi, o Doutor Teotónio, os outros, todos, até o Doutor Salomão, até o Prefeito Idílio, até o Major Mourão que já não sabia direito o que fazia, com os punhos erguidos cercaram Nicolau. Aí Nicolau puxou o revólver.

- Cachorros! Ca... chorros!

Foi andando de costas até a porta, saiu correndo. Na rua o Afonso Henriques esperava o pai de baratinha. Nicolau brandindo o revólver entrou no auto. Mandou:

- Toca pro cemitério!

Afonso Henriques começou a chorar.

- Toca senão te mato!

O Ford pulava na Rua da Expiação. Afonso Henriques suplicava:

- Vamos... vamos voltar, Seu Nicolau! Por favor! O senhor está... está tão nervoso!

Nicolau dizia:

- Toca, seu covarde!

Não esperou o Ford parar. Saltou, tropeçou, quase caiu, entrou no cemitério de revólver na mão. Deu poucos passos, parou. Estava tonto. Olhava de um lado para outro. Pensava: Que é que eu vim fazer, meu Deus?

Com um enxadão Crispim surgiu por detrás da capela. Longe ainda. Nicolau deu com ele, correu para o túmulo do Padre Dito, sem largar o revólver começou a desmanchar um canteirinho. Crispim correu também gritando:

- Que é isso, Seu Nicolau? Não faça isso!

Nicolau viu Crispim já perto, pulou na frente do túmulo, apontou para o gavetão, atirou.

- Larga esse revólver, Seu Nicolau!

Nicolau enfrentou Crispim, disse com voz sumida:

- Me dá essa enxada!

- Eu dou se o senhor largar o revólver!

- Me dá essa enxada! Me dá essa enxada!

- Não se chegue, Seu Nicolau!

- Me dá essa enxada! Me dá essa enxada!

Nicolau ia avançando, Crispim recuando.

- Por que que o senhor quer?

- Me dá essa enxada!

A voz sumia cada vez mais, o revólver tremia, os olhos se enchiam de lágrimas.

- Eu mato! Me dá essa enxada!

Mal podia suster o revólver, segurou com as duas mãos. Crispim recuou até o túmulo do padre. Com o enxadão erguido.

- No túmulo do Padre Dito o senhor não toca, Seu Nicolau!

- Eu te mostro!

Mas antes de apertar o gatilho, levou com o enxadão no alto da cabeça, caiu com os miolos de fora.

- Acuda! Acuda! - deu de gritar Crispim.

Foi quando no portão do cemitério pararam vários automóveis e seguida dos dois irmãos Tarantelli, do Tenente Messias Jesus Conrado, do Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, do Bibi, do Dadau, do Zizi, do Doutor Teotônio, todos, até o Prefeito Idílio até o Doutor Salomão, até o Major Mourão com o chapéu de Nicolau na mão (O doido esqueceu a cabeça!), Dona Esmeralda entrou de carreira. Deu um grito, se jogou sobre o cadáver. Mas não chamava pelo marido não. Dizia só:

- Ah minha mãe, minha mãe!

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