Part 2
Aí viu a chama da vela. Apertou bem os olhos. A chama foi diminuindo, diminuindo. morreu. O relógio da matriz bateu horas. Dona Esmeralda contou: um, dois. E acrescentou: feijão com arroz. Continuou: três, quatro feijão no prato. Está errado. Devia ser: uma, duas. Hora é feminino. O professor da Escola 15 de Novembro, Seu Mesquita, que sujeito engraçado. Que horas são? Meio-dia e meio. Ó ignorância quadrúpeda!. Meio-dia e meio quer dizer seis horas da tarde: meio-dia mais meio dia. Meio-dia e meia é que você quer dizer, seu idiota. Quando o bispo de Samburá foi visitar a escola Seu Mesquita se atrapalhou, gritou: - Viva o senhor doutor bispo! E a meninada jogou pétalas de rosa.
Padre Dito quase estourou de rir. Que homem bom. Não quis ser bispo. Dava tudo para os órfãos. Morreu a cavalo. Vinha do sítio. Teve urna síncope, caiu pra frente mas não caiu do cavalo. Entrou na cidade assim. Abraçando o pescoço do cavalo. E o cavalo andava devagarzinho para não derrubar Padre Dito. Milagre verdadeiro. Aquele sim: era um santo. Está enterrado - onde é que está enterrado mesmo? - está enterrado aqui mesmo. E Dorotéia pobrezinha? A gente enterra no quintal. Depois planta umas flores. Não precisa cruz. Padre Dito parece que chegou a conhecer Tetéia? Chegou. Ele morreu quando a torre da matriz caiu. Era um santo mesmo. Gostava muito de jardinar. E que jardim bonito. Tem jasmim, tem perpétua, tem cravo-de-defunto, tem camélia. Camélia é flor de muita estimação mas só no pé. No vaso perde muito. Amarelece. Fica bom um pé de camélia na sepultura de Tetéia. Que diabo. A modo que vem gente. E olhe que vem mesmo. Bom dia, minha filha. A benção, Padre Dito. Que é que você está fazendo no meu jardim, Esmeralda? Estou escolhendo uma planta bonita para plantar na sepultura de Dorotéia Cabral. Morreu? Morreu hoje. Mas isso é pecado, minha filha. Não sabia. Deus não fez as flores para enfeitarem sepulturas de animais. Não sabia: desculpe. Deus fez as flores para enfeitarem os altares das igrejas. Eu vou enfeitar um, então. Diga antes como vão as obras da matriz. Vão bem, muito obrigado, muito obrigado. Não tenha medo de mim, Esmeralda. Tal seria, Padre Dito. Senta aqui neste banco que eu quero contar um segredo pra você. Às ordens, Padre Dito. Você conhece meu túmulo? Conheço, sim senhor. No meu túmulo tem cinco panelas cheinhas de ouro. Sim senhor, Padre Dito. Você vá lá, desenterre as panelas e dê para a comissão das obras que o ouro é para acabar com a reforma da matriz que já está demorando muito. Eu vou hoje mesmo, Padre Dito. Vá com Deus, minha filha. E a Virgem Maria, Padre Dito. Deixa te dar um beijo minha filha. O senhor disse um, Padre Dito. Eu não sou o Padre Dito. Me larga que eu grito. Eu sou o Anticristo. Eu grito, eu grito. Gritou. Nicolau acordou.
- Que é isso, minha filha?
- Não me chame de minha filha! Onde é que eu estou? Ai, eu morro com esta aflição! Não se encoste em mim! Não se encoste em mim! Ah minha mãe, minha mãe!
A aflição só passou com água de flor de laranja tomada à força. Então Dona Esmeralda sorriu, beijou muito o marido e contou o sonho.
- Ele disse cinco panelas só? Você tem certeza?
- Cinco: me lembro perfeitamente.
- Sei. Ele não disse que espécie de moedas era? Libras esterlinas por exemplo? Ou dólares? Tem dólares de ouro se não me engano...
- Isso ele não disse.
Nicolau desistiu de dormir o resto da madrugada. Preparou café forte, bebeu duas xícaras, foi para a sala da frente, se estendeu no canapé, deu de fumar. Pensando.
- Esmeralda! Você ainda está acordada?
- Que é?
- Você acredita em sonhos?
- Acredito sim.
- Está bem. Veja se dorme.
De barriga para o ar imaginava tão depressa, tão grandiosamente, que lutava contra a imaginação. Deus existe. Se existe. A justiça divina não falha. E vem mais depressa do que se pensa. Dormiu triste e humilhado e acordou rico. Primeiro pagava os impostos. Não precisava mais de esmolas. Depois São Paulo. Aplicava o cobre bem aplicado. Depois Rio. Depois Europa. Não. Estados Unidos. Conhecer aquele colosso. Pára, imaginação. O dinheiro é para as obras da matriz. Olhe o castigo do céu. Mas não é justo isso. Quem tem o segredo do tesouro é dono do tesouro. Depois não havia perigo. Ia de noite no cemitério e desenterrava a dinheirama. Pára, imaginação. O Crispim zelador já queimou uma madrugada os dois polacos da Colônia Sobieski que queriam avançar nos florões de bronze dos túmulos. Do Padre Dito mesmo. Subornar também não adianta. Quer dizer: é impossível. Melhor é revelar o segredo. Falar com Padre Zoroastro e revelar não: vender o segredo. Pára, imaginação. Padre Zoroastro não acredita nessas coisas. Homem, arranjava um capanga, matava o Crispim e pronto. Pára, excomungada. Bobagem. Aquele retrato ali no Diário é da Greta Garbo. Ô boa. Onde será que ela mora? Pára, sem-vergonha, cachorra, desgraçada. E o Zéquinha Silva presidente da comissão? Desaforo. É preciso arranjar outro presidente, outro tesoureiro: ele. Ai está. Regime novo: gente nova.
E o cobre com o tesoureiro.
- Você já está acordada Esmeralda?
- Eu não dormi.
- Que maçada! Vamos enterrar a excelentíssima?
- Enterre você sozinho. Você sabe que eu não gosto de ver enterro.
Dorotéia Cabral foi sepultada dentro de uma lata de gasolina e perto de um mamoeiro. Nicolau tomou mais duas xícaras de café, se arranjou e saiu. Foi para o escritório da Luz e Força. Não parava sentado. Também não parava em pé. O gerente estranhou tanto nervosismo. Perguntou:
- Que é que há?
- Osvaldo Aranha. Isto é. desculpe, nada. Dormi mal esta noite. A Dorotéia Cabral morreu.
- Não diga! Dona Esmeralda deve ter ficado bem triste?
- Ficou. Está doente até. Se me der licença eu vou ver como é que ela vai indo.
Padre Zoroastro não estava em casa. Nicolau ficou indeciso sem saber se devia ou não procurá-lo na matriz. Talvez fosse melhor conversar num lugar mais discreto. Porém a coisa era urgente. Era. Ia. Não ia. Começou a andar. Foi andando. Foi. De repente apressou o passo e tomou o caminho do cemitério.
Encontrou Crispim chupando num pito de barro perto do portão, ouvindo as queixas de um coveiro despedido por não ter mentalidade revolucionária.
- Que é que vem fazer aqui, Seu Nicolau? Morte em casa, ainda que mal pergunte?
- É. Morreu a Dorotéia Cabral. Mas não isso não.
- Morreu? De quê?
- Não sei. Doença de cachorro.
O túmulo do Padre Dito era logo na entrada. Olhou enviesado para ele.
- Estou pensando em mandar fazer um túmulo pra minha sogra.
Foi ver a sepultura da sogra. Era lá no fundo. Estavam abrindo uma cova perto.
- Quem é que vai ser enterrado?
- O Bastião.
- O Bastião da Filarmônica?
- Não. O pegador de cachorro.
- É o mesmo.
- Terceiro cachaceiro que a gente enterra este mês.
Deu uns passos em torno da sepultura da sogra para fingir que tomava a medida. E veio voltando. Bem devagarzinho. Olhando os túmulos. Aqui jaz o Doutor Manuel Bacalhau. Esse também morreu de cachaça. A memória de Dona Iracema Vaz de Castro Soares. Pra quê dona agora? Passou a vida toda na cozinha. Viandante, pára! Aqui repousam os restos mortais de Monsenhor Benedito Moura.
- Então, Crispim, não vieram mais roubar os bronzes do túmulo, não?
- Que esperança! Eu tenho sono leve e pontaria certeira!
- Sei...
De cada lado do túmulo tinha um canteirinho de cravos. O anjo de mármore jogava flores sobre a lousa. Já tinha jogado cinco. Faltava ainda jogar três.
- O caixão está debaixo da terra?
- O senhor não esteve no enterro, Seu Nicolau? Está no gavetão. Debaixo da terra está Nhá Belarmina. Faz uns vinte anos. O túmulo foi feito por Padre Dito quando muito uns dois meses antes de morrer.
- Tem razão. Não me lembrava.
Túmulo sólido, pesado. Gavetão duro de abrir. Tampa bem encaixada. Nem se perceberia que era tampa se não fosse o argolão de bronze.
- Monsenhor Benedito de Moura. Homem bom. Um santo.
- Que dúvida! Cada vez que vinha aqui arranjar o jardinzinho...
- Que jardinzinho?
- Ué! O jardinzinho que tinha! Antes do túmulo só tinha um jardinzinho e uma cruz no meio. Desse jardinzinho é que Padre Dito cuidava todas as semanas que Deus dava. Quando podia ajudava ele. E ele já sabe: me...
Nicolau disse de repente:
- Até outro dia, Crispim!
Não podia mais. Se ficava mais um minuto se traía contava tudo. Mas meu Deus do céu, como é difícil a gente guardar um segredo assim dentro da gente. Hoje mesmo precisava resolver tudo. Senão não agüentava: morria de aflição. Agora é ir almoçar que já são horas. Nem se discute: Padre Dito com a desculpa de arranjar a sepultura da velha o que fazia era enterrar ouro e mais ouro, o filho da m...
- Está falando sozinho, rapaz?
- Hein? Ah sim! Estava fazendo uns cálculos. Estou com muita pressa. Lembranças em casa. Passar bem, Abílio. Apareça.
Depois do almoço mandou Dona Esmeralda dizer para o major e o Antônio Vicente que estava doente sem poder sair de casa mas que queria muito conversar com eles. Eles que viessem logo. E na reunião convenceu os companheiros políticos de que era uma infâmia a permanência de perrepistas na comissão das obras da matriz. Era preciso organizar outra com o major na presidência e ele Nicolau feito tesoureiro.
Assentado isso Dona Esmeralda foi buscar Padre Zoroastro. Padre Zoroastro foi dizendo que sim com a cabeça mas na hora de resolver a coisa falou:
- Está tudo muito certo. Porém não pode ser.
- Por que que não pode ser?
- Não pode ser porque Zéquinha Silva é pessoa - não é - de muita confiança do bispo. É.
E não permitiu mais que Nicolau abrisse a boca. Não é? é, os amigos bem compreendiam a situação. não é? é, apertou a mão dos três, foi-se. Botando Nicolau no auge da indignação. Começou a injuriar Padre Zoroastro, a falar o diabo do bispo, a dizer coisas de Zéquinha Silva, da filha de Zéquinha Silva. Insinuou mesmo que entre Dona Isolina e Padre Zoroastro havia grossa patifaria. Então o major saiu de seu silêncio espantado:
- Mas afinal de contas, Nicolauzito dos meus pecados, o caso não tem assim tanta importância. Não se trata de cargos políticos. São cargos - como direi - são cargos... técnicos!
- Olha a grande besteira!
De seu lado Antônio Vicente não percebia também a causa de tanto ódio. Está claro que seria melhor arranjar outra comissão mas o bispo não querendo não valia a pena brigar com o bispo por tão pouco.
- Eu acho assim. Com saias a gente não briga que saí perdendo na certa.
Nicolau ia e vinha na sala bufando. Tapava os ouvidos quando os outros falavam, dava murros na parede, dizia palavrões. E por fim estourou:
- Vocês querem saber o que há, não é verdade? Vocês estão cheirando qualquer segredo, não é isso? Pois têm toda a razão: há um segredo! Eu conto. Não tenham medo não!
Contou à moda dele. E porque os outros assumiram uns ares incrédulos, até caçoistas, contou, gritou duas, três, quatro vezes o sonho da mulher.
- Caramba, carambolas! - disse o major. - É muito capaz de ser verdade mesmo! E olhem que as ervas são muitas!
- Mas quatro quintas partes são pro Nicolau - disse Antônio Vicente com um jeitinho malandro. - Quase tudo é pro Nicolau! E o resto pra matriz!
- Naturalmente! - disse Nicolau.
O major coçou a nuca, fechou os olhos, pensou, depois falou:
- Mas o nosso Nicolau tem que ser cordato, tem que ser camarada. Que diabo! A gente pode entrar aí num entendimentozinho... Hein? Que e que diz a isso o nosso amigo?
Nicolau não disse nada. E começou a andar de novo pisando duro. Houve um silêncio cacete. Antônio Vicente acabou com ele:
- Talvez... Eu também penso assim... A bolada é grande, dá para satisfazer todos... Você não acha, Nicolau?
- Digam com franqueza! Vamos! Desembuchem! O que vocês querem é ganhar no negócio, levar sua vantagenzinha, não é?
Os dois tentaram protestar mas Nicolau cortou a palavra deles:
- Pois muito bem! Eu já esperava isso! Quanto é que vocês querem? Mas fiquem desde já sabendo que da minha parte eu não cedo um tusta, ouviram bem? Agora na que é pras obras da matriz podem avançar à vontade!
O acordo custou. Mais de uma vez Antônio Vicente pegou no chapéu e ofendido ameaçou se retirar. O major porém não deixava.
- Senta-te aí, homem! Não saias que te arrependes logo!
E foi ele que disposto a não perder o negócio forçou Nicolau a se contentar com sessenta por cento. Ele e Antônio Vicente se comprometiam a auxiliar o amigo em qualquer terreno recebendo cada um quinze. Os dez restantes seriam para as obras da matriz.
- Está bem. Mas não está de acordo com a vontade de Padre Dito.
- Deixa-te de bobagens, homem! Tu modificas o sonho e acabou-se! Quem é que vai provar que o padre disse coisa diversa à tua patroa? Olhe que até me acode um trocadilho bem feliz: fica o dito do Padre Dito por não dito e pronto! Otimíssimo, hem? Não há nada como um bom negócio para pôr a gente alegre! Eu até sou capaz de pagar uma cervejinha!
Nicolau recusou. E despediu os amigos. Precisava de sossego para estabelecer um plano seguro a ser executado sem perda de tempo. Pensou o resto do dia, pensou parte da noite e na manhã seguinte combinou a coisa com os sócios.
Os 18 de Copacabana foram convocados para as 19 horas em casa do major. Compareceram dez. Nicolau arranjou mais uns malandros e marcharam todos incorporados para casa de Zéquinha Silva. A fim de exigir a renúncia coletiva da comissão. Ou ao menos a do presidente e tesoureiro que era o genro do presidente. Mas Zéquinha Silva mandou dizer que não recebia ninguém. E quando a coisa já estava quente chegaram Padre Zoroastro, o Doutor Salomão e o Prefeito Idílio. Discutiram na rua mais de meia hora. Afinal os 18 de Copacabana concordaram em que no dia seguinte haveria uma reunião na Câmara Municipal a fim de se resolver com calma e definitivamente o assunto, presentes as autoridades, interessados e pessoas conspícuas de Jataí-Vila. Concordaram a muque (Paulista não tem ânimo bélico! costumava afirmar o Prefeito Idílio) porque o Doutor Salomão mandou chamar o destacamento.
Nicolau pensou a noite toda, gastou a manhã limpando o revólver, encheu o tambor, pôs outras balas no bolso, beijou a mulher aflita, respondeu carrancudo ao sorriso da vizinha sua comadre, tomou a Rua Siqueira Campos (antiga Júlio Prestes), atravessou o Largo Juarez Távora (antigo de São Paulo), deu um esbarrão distraído no Solicitador Raimundo de Matos, não pediu desculpa, também não ouviu o palavrão do solicitador, passou pelo Correio sem perguntar se havia carta, entrou na Câmara Municipal com a braguilha da calça aberta.
- Abotoa aí! - disse o major.
A sala das sessões já estava apinhada. Padre Zoroastro na presidência explicou os fins da reunião e deu a palavra para Antônio Vicente. Este falou:
- Os que como nós costumam buscar no passado os ensinamentos para o presente sabem que na Idade Média várias expedições armadas chamadas Cruzadas deixaram a Europa para arrancar Jerusalém das garras sacrílegas dos muçulmanos!
- Que é que nós temos com isso? - perguntou o genro de Zéquinha Silva.
- Muita coisa! Vossa Excelência não me deixou terminar o paralelo que pretendo esboçar! Com efeito, meus senhores, ao grito de Deus o quer! os cristãos do Ocidente mais de uma vez se levantaram de armas nas mãos para expulsar da Cidade Santa os infiéis do Oriente! Pois bem! Nós, os fundadores da República Nova, também nos levantamos ao grito de Revolução o quer! para exigir que os membros da atual comissão das obras da matriz, infiéis de 24 de Outubro, sejam destituídos e imediatamente substituídos pelos fiéis de Copacabana, pelos heróis...
Padre Zoroastro interrompeu:
- Eu acho que a discussão deve ser curta não é? - e se cingir aos fatos. É. Devemos economizar nosso tempo.
- Também acho, excelentíssimo senhor presidente desta augusta assembléia! E é por isso...
- O que o Senhor Antônio Vicente pede é a substituição da comissão atual. Não é? E funda seu pedido no fato do Senhor José Silva e demais membros da referida comissão não serem revolucionários. Pois então. Já estamos cientes. E eu vou dar a palavra ao Senhor José Silva para dizer o que julgar conveniente a respeito. Fica bem assim. Não é? Tem a palavra o Senhor José Silva.
Zéquinha Silva principiou dizendo que desconhecia revolucionários em Jataí-Vila a não ser alguns de última hora. Colocava pois a questão em outro terreno. Achava que se devia somente indagar se a atual comissão era ou não composta de gente trabalhadeira e honesta. Porque ser revolucionário só não adianta.
- Eu sou produto do meu trabalho honrado - gritou o major.
- Como é mesmo? - perguntaram.
- Ficam proibidos os apartes -~ falou Padre Zoroastro. - Não é melhor? Continue, Seu Zéquinha.
Zéquinha provou documentadamente que a comissão presidida por ele sempre se houve com diligência e probidade. Em todo o caso desistia, por si e pelo genro, de continuar nela se a maioria dos presentes quisesse. Mesmo porque confiança não se impõe.
Padre Zoroastro disse que era melhor recolher logo o voto dos presentes. Os presentes (com exceção do major, Antônio Vicente e Nicolau que queria a palavra para uma explicação pessoal) concordaram. E Padre Zoroastro falou que antes de proceder à votação desejava ler para governo de todos uma carta do bispo de Samburá. Na carta do bispo dizia que, caso fosse destituída a comissão atual que lhe merecia a mais absoluta confiança, não autorizaria outra que se formasse a dirigir as obras da matriz e suspenderia estas até melhores tempos.
- Ah! É assim? - berrou Nicolau. - O senhor, Padre Zoroastro, quer fazer pressão? O senhor se engana! Não estamos mais sob o domínio do perrepismo!
E a confusão se fez com injúrias pesadas. Mas Padre Zoroastro ameaçou se retirar e conseguiu assim restabelecer a calma. Então disse:
- Senhor Nicolau Foz, saiba que eu não fiz mais do que cumprir o meu dever de pároco lendo a carta do excelentíssimo senhor bispo desta diocese. Não é?
- Perfeitamente! - apoiaram.
- Mas se o senhor tem algum esclarecimento importante a dar e promete não se exaltar eu lhe concedo a palavra por cinco minutos.
Nicolau de olhos fechados fungava forte entre o major e Antônio Vicente.
- Não tem nada a dizer? - perguntou Padre Zoroastro.
Nicolau abriu os olhos, viu o sorriso vitorioso de Zéquinha Silva, pulou da cadeira, afirmou:
- Tenho! Tenho uma coisa a dizer!
- Não diga! - disse Antônio Vicente baixinho.
Nicolau se virou para o companheiro e falou:
- Digo!
- Diga de uma vez! - gritaram.
- Pois digo! Se a comissão atual não for destituída.
- Ela tem a seu favor a honestidade com que tem agido! aparteou o prefeito.
- Em face da revolução não há direitos adquiridos! - berrou Antônio Vicente.
- Que asneira é essa? - falou o Doutor Salomão.
- Que que o senhor está dizendo? Asneira? São palavras textuais do Ministro da Justiça!
- Está com a palavra o Senhor Nicolau Foz! - advertiu Padre Zoroastro.
- Se não destituírem a comissão do P.R.P. eu não revelarei um segredo...
- Não revelaremos! - secundou o major excitadíssimo.
- ... o qual segredo foi contado pelo falecido Padre Dito à minha senhora!
E a confusão se fez de novo. E Padre Zoroastro de novo conseguiu restabelecer a ordem.
- Temos o direito de saber, não é?
Então aos berros Nicolau soltou tudo menos o lugar onde se achava escondido o tesouro. E Padre Zoroastro desistiu de restabelecer mais uma vez a calma. Impossível. O genro de Zéquinha Silva subiu na cadeira e começou a arengar sem ser ouvido. Antônio Vicente só sabia dizer: Conheceram, papudos? Entre os que achavam que aquilo era uma mistificação ignóbil e os que pensavam que por via das dúvidas convinha verificar a coisa direito houve ameaças de tiros. O turumbamba estava armado. Puxaram o genro de Zéquinha Silva por uma perna, deram uns tabefes nele, ele rolou no chão gritando: Basta assassinos! Padre Zoroastro com muito custo salvou o coitado e se retirou com ele e Zéquinha abanando a cabeça.
- Sempre a maldita história do espiritismo estragando tudo! Não é? A mãe, a sogra, a mãe de Esmeralda, a sogra do Nicolau, já eram assim!
Aos poucos os mais chegados a Zéquinha Silva foram também saindo.
Disposto a aclarar o negócio do tesouro o Doutor Salomão em pé na cadeira da presidência perguntou se estavam numa terra de bugres. O silêncio respondeu que não. E o Doutor Salomão se declarou pronto a servir de intermediário entre os grupos adversos e fazer um acordo honroso.
- Não há acordo! - disse Nicolau.
Para o Doutor Salomão era chegada a hora de todos usarem da máxima franqueza. O Senhor Nicolau Foz não queria fazer acordo. Prescindia assim da colaboração alheia. Mas que essa colaboração era indispensável para ele estava patente no fato do Senhor Nicolau Foz, embora conhecendo o lugar onde se encontrava o tesouro, não haver até então se apossado dele.
- Porque fui educado na escola da honestidade! Sou brasileiro legítimo! De raça!
O Doutor Salomão insistiu em que a hora só admitia cartas na mesa. A honestidade do Senhor Nicolau Foz estava acima de toda e qualquer suspeita. Mas ele era de carne e osso como os outros. Se tivesse jeito de se apossar sozinho do tesouro já teria feito. Achava pois conveniente que antes de mais nada fosse revelado o lugar onde as cinco panelas de ouro estavam escondidas. O que foi aprovado com calor. As considerações do Doutor Salomão tinham abalado a assembléia. Nicolau sentia sobre ele e através dele sobre o tesouro o olhar ávido dos dois irmãos Tarantelli, do Tenente Messias Jesus Conrado, do Alcibíades Valentim vulgo Ali-Babá, do Bibi, do Dadau, do Zizi, do Doutor Teotônio de todos os presentes, de todos os ausentes. Canalhada. Felizmente estava armado. Matava. Morria. Mas não dizia.
O Doutor Salomão sentara-se fixando Nicolau. A assembléia sentou-se fixando Nicolau. O major se levantou:
- Somos todos pessoas de respeito e que se prezam, não é verdade? Pois muitíssimo bem. O que há a fazer é entrar num entendimento cordial com o nosso simpático amigo Nicolau a fim de que ele, certo de que não será prejudicado, possa revelar o lugar em questão. Pois não lhes parece assim?
- Compreendo - disse o Doutor Salomão. - O Senhor Nicolau impõe condições.
- Condições não! - falou o major. - Ou melhor: existem condições mas quem as impõe é o próprio Padre Dito que Deus tenha.
- Que condições? - perguntou o Doutor Salomão.
- Razoáveis, muito razoáveis - disse o major.
- Justíssimas até. E é preciso que sejam respeitadas. Está claro.
- Mas quais são elas? - insistiu o Doutor Salomão.
- O saudoso Padre Dito faz absoluta questão que noventa por cento do dinheiro fique pertencendo ao nosso prestante amigo Nicolau empregando-se os dez por cento restantes nas obras da matriz... Então? São ou não...
- O quê?
- Está brincando!
- Bandalheira!
- Quanto leva no negócio?
- Que piratas!
- A assembléia gritava de pé. O Doutor Salomão tornou a subir na cadeira, ameaçou dissolver a reunião com o destacamento, pediu calma, obteve relativa. E falou:
- O Senhor Nicolau sustenta o que disse o Maior Mourão?
Nicolau disse:
- Sustento até morrer!
O major suspirou aliviado. O Doutor Teotônio disse:
- Eu proponho para harmonizar as coisas que o dinheiro seja todo entregue ao benemérito governo provisório para ajudar o resgate da dívida nacional!
Houve uma salva de palmas. Mas não unânime.
- Nunca! berrou Nicolau. - Ao menos cinqüenta por cento eu exijo pra mim porque foi pra minha mulher que Padre Dito apareceu em sonho!
O major falou sincopado:
- Como? Cinqüenta por cento? Mas.. Ora essa! Cinqüenta por cento? Não pode ser! Há aí engano! Não... não é... não está certo!
Antônio Vicente se ergueu com altivez, foi até a porta, virou-se antes de sair e disse:
- Com traidor eu não discuto!
O Prefeito Idílio disse:
- Eu proponho que cinqüenta por cento sejam para as obras da matriz mesmo e cinqüenta por cento entregues à prefeitura para serviços de utilidade pública!
- Nunca! - berrou Nicolau. - Cinqüenta por cento pra mim! O resto pode ficar pro que quiserem!
Zizi disse:
- Eu proponho que o dinheiro inteirinho...