Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas

Part 7

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241 Muitas vezes se applicaõ desenhos em ouro sobre esta louça negra; para isto se tem hum licôr, que se chama _goldsize_ ou mordente, que se traz de Londres: he huma especie de verniz composto de differentes modos; com este verniz pinta o obreiro tudo, o que quer, sobre a louça alguma cousa ainda quente; depois do que applica sobre a pintura folhas de ouro batido (ou paõ de ouro,) e com hum pé de lebre se faz cahir o ouro dos lugares, que naõ foraõ envernizados; põe-se depois esta louça em huma pequena fornalha, que está de parte, com grades de ferro, e sua chaminé; o fundo he huma chapa debaixo da qual se põe o carvaõ, a fumaça, e a chama sahem pela chaminé.

242 Pouco distante desta fabrica ha hum lugar em que se faz louça grosseira, e que vai ao forno huma só vez, porém com hum fogo continuado por quarenta horas. A fornalha he semelhante á precedente; porém muito maior; tem sete fornalhas de vento, e sete chaminés, em lugar de cinco, que a outra tem. Estas fornalhas de vento saõ quasi de cinco pés de distancia de hum centro a outro.

243 A argilla cinzenta que serve para a louça, de que se acabou de fallar, na vista he em tudo muito semelhante á de que se servem em Staffordshire para a louça branca; com tudo as experiencias, que della se fizeraõ, tem provado, naõ ser susceptivel da mesma impressaõ do sal, para a cobrir de hum bom verniz.

244 _Louça do Condado de Stafford_. As minas de carvaõ tem dado lugar a hum estabelecimento de fabricas de louça de todo o genero nas visinhanças da Cidade de Neuwcastle; por isso as de louça branca saõ mais numerosas. Dizem que ha de dez a quinze mil almas empregadas nas minas de carvaõ, e nas fabricas de louças; mas sem contradiçaõ o maior numero se occupa na louça. Naõ se vem ali senaõ pequenas povoações habitadas de oleiros, e fabricas deste genero em toda esta parte do Condado de Stafford, e hum grande numero de fornalhas, principalmente nos lugares aonde se tirou, e aonde ainda se tira carvaõ.

245 A argilla, de que usaõ para a louça branca, he de duas especies, quasi semelhantes; só se faz differença dellas pelo uso como adiante se dirá. Tira-se de Devonshire, e dizem, que esta provincia a dá para todas as fabricas de louça de Inglaterra. A pederneira, de que se faz tambem hum grande uso, se tira de Gravesande, ou verdadeiramente das margens do Tamisa.

246 O ponto principal desta louça, isto he, para a ter bem branca, e livre de manchas, consiste na preparaçaõ da argilla, e em sua mistura com a pederneira; põe-se a argilla em hum tanque com agua para a fazer humedecer; dilue-se bem, agitando-a com hum pedaço de páo, esta agua assim carregada se coa, para outro tanque por huma peneira de cabello, para separar, o que naõ está diluido, esta se torna a lançar no primeiro tanque. Espera-se que haja huma suficiente quantidade de argilla já pãssada, e depois se agita fortemente, e se passa por huma peneira fina. Para a misturar com a pederneira, se faz o mesmo, que em Neuwcastle em Northumberland; a pederneira se calcina do mesmo modo em hum forno de cal; e depois se pulverisa, e liviga em hum moinho tocado ordinariamente pela agua; a pederneira neste estado he levada a fabrica. Para a mistura ser perfeita, se deve diluir em agua na mesma consistencia, em que estava a argilla.

247 A proporçaõ he de ajuntar huma parte de pederneira a seis partes de huma destas argillas; e a cinco partes da outra argilla se ajunta huma de pederneira. Depois da argilla ter sido passada por peneiras duas vezes, como acima se disse, se torna a passar terceira vez por huma peneira ainda mais fina, e entaõ he que se medem as porções.

248 Deve haver huma pequena celha, que se enche seis vezes da argilla passada pela peneira; e depois se enche huma vez da agua da pederneira, e assim se continua até haver a quantidade da massa, que se quer; para a mistura ficar perfeita, precisaõ as duas massas, ou aguas de argilla, e pederneira, ter igual consistencia, e se mexem bem ambas juntas; e depois se tornaõ a passar quarta, e quinta vez por huma peneira fina e desta ultima vez se coa no tanque de tijolos, que tem por baixo o fogo.

249 As peneiras se fazem com fio de cambraia mais, ou menos fino; os caixões, ou tanques de tijolo, onde se põe a seccar a materia, saõ semelhantes áquelles que se usaõ nas fabricas, de que acima se fallou; a mistura de barro e area secca nelles lentamente, agita-se huma vez por outra com huma pá para seccar mais com igualdade; neste tanque fica até ter a consistencia precisa para ser trabalhada; entaõ se leva esta pasta para huma especie de sobrado bem limpo, e com muito aceio, aonde hum homem com os pés o trabalha, e amassa até julgallo proprio para fazer a louça.

250 Todas as péças, que naõ levaõ molduras, nem saõ recortadas, se formaõ sobre huma roda vertical, que hum menino faz mover; a que he de molduras, se forma em moldes de gesso. Estes moldes de gesso consistem em huma peça de gesso, que tem interiormente a figura que deve ter a peça ou seja prato, ou tijella, ou outra qualquer, no qual gesso se gravou o desenho, que se quer dar a peça.

251 Bate-se e trabalha-se hum bolo de barro, depois se estende com hum rolo. Depois que se estendeo o barro tanto, quanto quer o official, se põe sobre o molde aonde se aperta bem com as maõs, e se molhaõ na agua, se he preciso, para a massa se naõ pegar a elle, e tambem para fazer liza a parte exterior do prato, ou tijella.

252 Este trabalho se faz em hum quarto onde ha fogo, para que os moldes sempre estejaõ bem seccos, e que, depois de algumas horas, se possaõ tirar as peças, que nelles se formaraõ.

253 Como he preciso pulir as louças nos lugares, aonde naõ levaõ verniz, para tomarem melhor o verniz; logo que tem seccado alguma cousa á sombra as mesmas obras, que se fizeraõ na roda vertical, se levaõ ao torno, aonde se aperfeiçoaõ, e se fazem mais iguaes; e depois disto, se pulem na mesma roda ou torno, applicando lhe por cima huma folha de ferro liza, nos lugares, que devem ser pulidos. Da mesma sorte se fazem em moldes peças redondas; as peças ovaes, que naõ podem ser pulidas no torno, se lavaõ bem com huma esponja, e agua, e depois com hum pedaço do mesmo barro cozido, e pulido, se pulem todas as partes, que o devem ser. Esta louça ordinariamente se arruma em taboas a sombra para ahi seccar inteiramente antes que se ponha no forno.

254 Nas visinhança de Neuwcastle ha argilla propria, para fazer as caixas em que se põe a louça; estas caixas saõ redondas, fazem se-lhe em roda cinco, ou seis buracos de duas em duas pollegadas, e de meia pollegada de diametro; seu tamanho he proporcionado aos das peças, que se querem meter nellas.

255 Quando se quer arrumar a louça nestas caixas, os meninos preparaõ o que a deve suster; e saõ huns pequenos pedaços da mesma argilla formados em parallelipipedos; e, estando ainda muito humidas, se applicaõ sobre greda pizada grosseiramente, que se pega sobre toda sua superficie, com isto se guarnece o fundo das caixas, e destes parallelipipedos se servem para suster cada huma das peças, para que ellas naõ toquem humas nas outras; por se naõ pegarem com o verniz; esta greda de todo se naõ pega a louça, e nem lhe faz a menor marca, e se o faz em algumas peças, estas se rejeitaõ.

256 Os fornos, em que se faz cozer esta louça, saõ pouco mais, ou menos semelhantes a estes, de que se tem fallado: a differença, que ha, consiste só em que elles commummente tem oito fogos, e por conseguinte oito chaminés interiores; mas estas chaminés só tem a abertura superior. Dizem que estas pequenas aberturas, que os outros tem, para a louça envernizada, faria mal a louça branca, porque a chama, que sahe da envernizada indo dar nas caixas da louça branca a faria amarella. _Outra differença_: toda a porçaõ espherica da abobada, está guarnecida de buracos, que naõ saõ precisos para as outras louças; fazem-se logo oito em roda da fornalha, no principio da abobada, postos entre cada chaminé, depois outras dezeseis por cima, e finalmente seis em roda do buraco principal, que estaõ no meio da abobada, e que serve de chaminé. Estes buracos tem tres, ou quatro pollegadas de diametro; no tempo da operaçaõ se tapaõ: seu uso adiante se dirá.

257 Todas as caixas, que encerraõ a louça se põe humas sobres as outras, e formaõ differentes pilhas; metem-se no forno de modo, que haja huma pilha destas caixas debaixo de cada hum destes buracos, de que se acaba de fallar. Como ha trinta e hum buracos, comprehendendo a abertura do meio, ou chaminé principal, põe-se trinta, chamadas pilhas; a ultima caixa, que faz a extremidade da pilha, se cobre com testo feito de barro, de figura conica.

258 A louça branca vai só huma vez ao fogo, mas he hum fogo continuo, que atura quarenta, e oito horas.

259 O tempo de lhe dar o verniz por meio, ou adjutorio do sal marinho, he quasi quatro, ou cinco horas, antes de se acabar de cozer; depois que a louça tem sofrido hum fogo de quarenta, e tres, ou quarenta, e quatro horas, se trazem, para junto do forno, oito alqueires (medida de Inglaterra) de sal marinho (que he quanto basta para hum forno da capacidade deste, de que acabo de fallar.) Ha hum levantado em roda da abobada ou corpo espherico do forno, sobre o qual sobem dous obreiros, que com huma colher de ferro lançaõ pelos buracos sal marinho, sobre cada huma das cubertas de cada pilha. Logo que lançaraõ o sal, tornaõ a tapar os buracos, que tinhaõ aberto, para introduzir as colheres, e continuaõ assim andando em roda do dito forno, lançando em cada buraco a mesma quantidade de sal, pouco mais, ou menos. Elles fazem isto mesmo por tempo de quatro, ou cinco horas, e naõ deixaõ outro intervallo, senaõ o que he preciso, para sahir a grande fumaça, que faz o sal. A cuberta, ou testo de cada pilha deve ser de tal figura, que o sal lançado por cima, cubra inteiramente a pilha; quando cahe, entaõ o acido do sal se introduz ao interior das caixas, toca a superficie da louça, e accelera a vitrificaçaõ da pederneira, que entra na composiçaõ da mesma. Esta vitrificaçaõ exterior he o unico verniz, que se lhe dá.

260 O sal com que se faz esta operaçaõ, he muito branco, e em gràos grossos, quasi semelhante ao que se faz em Lons-he-Saunier, para o gasto dos Suissos.

261 O preço desta louça he de meio xelim até dous xelins a duzia de tijellas; este ultimo preço he o da louça melhor e de boa côr; o primeiro preço he da louça de refugo. A qualidade do carvaõ naõ he essencial para fazer a louça melhor, ou inferior.

ARTIGO XII.

_Do oleiro de fogareiros._

262 Ainda que os oleiros, que fazem os fogareiros, e cadinhos para os Chymicos, chamados _fournalistas_ façaõ hum mesmo corpo com os que fazem os ladrilhos, utensis do uso, e outras obras, de que já fallei, pareceo-me justo tratar separadamente das obras dos que fazem fogareiros, e mais instrumentos chymicos; porque seu modo de trabalhar he muito differente da pratica dos outros oleiros.

263 Os de París se servem como os outros oleiros da argilla, que tiraõ em Gentilly. Para a amaciarem, e tornalla ductil, e propria a ser trabalhada; cortaõ-na em pedaços sobre huma taboa, como os outros oleiros; estes pedaços cahem em tinas, ou celhas com agua: quando está já bem penetrada da agua, a tiraõ para a amassarem. Se a argilla he muito forte, elles a fazem magra, como os outros oleiros; mas para isto naõ se servem da area: quando elles se propõe fazer obras usuaes, como esquentadores para serventias pequenas, ou fogareiros para fazer esquentar os ferros de engomar, e outras obras, que se daõ baratas: neste caso ligaõ o seu barro com escorias de ferro pizadas, e passadas por hum crivo, misturando depois partes iguaes deste pó, e do barro; porém para os fogareiros chymicos, como elles tem de soffrer hum fogo violento, e continuo, convem substituir a area huma substancia capaz de resistir á maior acçaõ do fogo, e naõ se tem achado outra cousa melhor para liga, do que os pedaços destes vasos de greda escura, que serviraõ de trazer manteiga de Isignes; dizem elles, e eu naõ sei se he com fundamento, que a louça de Picardia naõ he taõ boa como a de Normandia.

264 Seja como for elles compraõ aos tendeiros estes pedaços de greda de Normandia ás medidas; elles os pizaõ com huma massa de ferro, ou de páo guarnecida de ferro, sobre huma pedra muito dura, ou hum calháo, que se põe sobre a ponta de hum páo grosso; depois os passaõ por hum crivo bem fino, para que as molecudas da greda se reduzaõ, quando muito, ao tamanho de hum graõ de milho: elles misturaõ pouco mais, ou menos tanto deste pó, como da argilla, ou cinco partes deste pó com quatro de argilla; porque elles dizem, e com razaõ, que os fogareiros saõ tanto mais fortes, quanta maior porçaõ levaõ deste pó, e que argilla deve ser quanta baste para o ligar, finalmente usaõ deste pó mais fino para os cadinhos, do que para os fogareiros.

265 Os oleiros que fazem os fogareiros preparaõ argilla, como os outros oleiros; elles escolhem á maõ todos os corpos estranhos, que encontraõ, quando a cortaõ, e amassaõ; mas escolhem com mais cuidado aquella, que destinaõ para fazer cadinhos; elles a trabalhaõ, e a amassaõ sobre huma meza, e lançaõ fóra com muito cuidado todos os calháos, pyrites, ou fragmentos de pedra calcar, que encontraõ nas maõs. Alguns para fazerem os cadinhos mais perfeitos, depois de terem feito seccar a argilla, a pulverisaõ, e a passaõ pela peneira; se elles achaõ huma veia de barro, que contém muitos destes corpos estranhos, o põe de parte para fazerem os fogareiros, e reservaõ o barro mais puro para os cadinhos.

266 Amassaõ o barro, como os outros oleiros, põe o pó do barro cozido sobre hum sobrado, e a argilla por cima; depois de terem feito a primeira amassadura, tiraõ o barro do meio para os lados, e dos lados para o meio. Alguns amassaõ o barro batendo-o sobre huma meza com huma massa de ferro, e acabaõ de o amassar trabalhando-o nas maõs.

267 Até o presente se vê, que o trabalho destes differe pouco dos outros oleiros; porém elles senaõ servem de roda nem de moldes ocos, para formar suas obras; fazem-nas inteiramente a maõ, como explicarei.

268 Os fogareiros portateis, que estes fazem naõ servem aos Chymicos; pois para certas operações, se formaõ outros de hum feitio particular; elles mesmos os fazem com tijollos, que unem com o barro dos fornos, ou com argamassa de cal, e ladrilho moido, ou com hum luto, composto de huma parte de barro, outra de esterco de cavallo secco, e de duas de area.

269 Alguns fazem a sua argamassa com hum bocado de barro de fornos, e muita cinza de lixivia, ou _cenrrada_, passada por huma peneira, e humedecida com agua. Mas como os tijollos communs naõ resistiriaõ a certas operações, por serem faceis de vitrificar, se fazem estas fornalhas mais fixas com tijollos, e barro de cadinhos.

270 O barro destes tijollos he o mesmo, que se usa para fazer os fogareiros portateis; estes tijollos se fazem em moldes de páo, que se enchem deste barro. Assim que os tijollos tomáraõ hum bocado de consistencia, depois de tirados dos moldes, batem-nos sobre huma taboa para comprimir o barro: mas com cuidado para os naõ desfigurar.

271 Os mestres dos fornos fazem estes tijollos quadrados, quasi do mesmo modo, que os ordinarios, e tambem os meios tijollos quadrados, para fazer os igualamentos.

272 Para dar varias figuras aos fornos os mestres fazem tijollos de certa bitola, e figura _est. II_, _fig. 13_. E os Chymicos se servem delles para fazer fornos redondos, de sorte que algumas vezes quatro tijollos fazem a circunferencia de hum pequeno forno, para os grandes se carecem muitos mais. Ainda que se mude a curvatura destes tijollos segundo a figura, que se quer dar ao forno, sempre se tem meios tijollos, que saõ muito commodos para igualar as superficies. Estes tijollos se fazem em caixilhos, ou moldes, como os tijollos ordinarios: _a_ _est. II_, _fig. 14_. he para fazer os apoios dos cadinhos; e _b_, dos quadrados.

273 Os mestres dos fogareiros saõ os que preparaõ os materiaes, e os Chymicos as põe em obra, unindo os tijollos com barro de forno, ou com as argamassas, de que já fallei. Entre o cinzeiro, e a fornalha se põe huma grade de ferro, alguns tapaõ as portas ou aberturas com huma chapa de ferro delgada; outros se contentaõ em pôr por cima das portas hum pedaço de ferro chato, á maneira de portal. Dentro do laboratorio, que está por cima da fornalha, se põe humas chapas de ferro para supportar hum banho de area, ou cucurbitas, ou retortas, ou cadinhos; finalmente fazem mais fortes estes fornos, pondo-lhes por fóra humas chapas delgadas de ferro, que o cercaõ por todos os lados: porém naõ ha cousa melhor para segurar os tijollos, e impedir, que se naõ despeguem com a força do fogo, do que prender na argamassa, que os une pedaços de redes velhas de arame de ferro de tostar o tabaco rapé: estas naõ fazem enchimento, e por causa dos buracos, e desigualdades destas redes fazem huma excellente liga com a argamassa. Naõ entro em grandes individuações sobre as fornalhas fixas, porque isto naõ he huma parte essencial dos oleiros, que fazem fogareiros; as fornalhas portateis, ou fogareiros para o uso dos Chymicos, que verdadeiramente fazem a base desta arte, saõ os de que eu vou tratar com alguma maior individuaçaõ.

274 Os oleiros mestres de fogareiros, ou fornalhas portateis as fazem quadradas; taes saõ as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_, e algumas de fusaõ _fig. 16_; mas as fornalhas de digestaõ, e as de reverbero, em huma palavra, quasi todas as fornalhas portateis saõ redondas. Humas saõ de huma só peça isto he cinzeiro, fogaõ, e laboratorio; naõ tem mais que por-lhe em cima a abobada: outras saõ formadas de muitas corôas, que se põe humas sobre outras; algumas se põe sobre huma trempe de ferro, e estas naõ tem cinzeiro, porque a cinza cahe no chaõ; porém a maior parte tem hum cinzeiro, hum fogaõ, onde se põe o carvaõ sobre huma grade, que deixa cahir a cinza, e dá passagem ao ar, que aviva o fogo. Os mestres de fogareiros algumas vezes fazem estas grades de barro; entaõ he huma chapa de barro redonda, em que se abrem muitos buracos; outras se servem de grades de ferro. Por cima do fogaõ está hum espaço, que se chama o _laboratorio_, porque neste lugar he que se põe o banho de maria, ou de area, ou huma retorta: tem huma abertura por onde se introduz o collo, ou huma cucurbita, ou cadinhos; e todas estas cousas sustidas por algumas peças de ferro, e muitas vezes acaba tudo por hum corpo espherico, ou zimborio, que serve de reverberar o calor sobre a retorta, ou os cadinhos, que estaõ no laboratorio. Ha sempre no alto do zimborio huma abertura de tres ou quatro pollegadas de diametro conforme o tamanho da fornalha, e esta abertura tem algumas vezes huma ponta de tubo, para se poderem ajustar nella tubos mais compridos, quanto se quer augmentar a actividade do fogo; porque para accender-se o carvaõ com mais vivacidade, e produzir muito mais calor, se precisa estabelecer na fornalha huma corrente de ar, que entre pelo cinzeiro, e saia por cima da fornalha. Ora esta corrente de ar depende da ligeireza do ar quente, em comparaçaõ ao pezo do ar frio, e esta ligeireza se augmenta a proporçaõ, que elle se esquenta mais, e tambem á proporçaõ de huma maior columna de ar quente no cume da fornalha: e assim para se augmentar a actividade do fogo na fornalha, precisa, que possa entrar por baixo huma sufficiente quantidade de ar frio, e ajuntar por cima da fornalha huma extensaõ de tubos, para se fazer assim huma maior columna de ar quente, que serve como de huma bomba maior; he preciso tambem, que o diametro deste tubo seja proporcionado ao tamanho da fornalha; eu naõ envestiguei sobre estas proporções, porque ellas naõ pertencem ao official: este se deve conformar com as ordens do Chymico, que varia isto, conforme as operações, que pretende fazer.

275 Ha outras mais aberturas, tanto no zimborio, como no corpo da fornalha, que se abrem, ou se fechaõ para augmentar, ou diminuir o calor, conforme se quer, e levallo mais para huma parte da fornalha, do que para outra; para isto se deixaõ estes buracos abertos, ou se fechaõ, quando se julga a proposito, com batoques feitos mesmo de barro: a isto chamaõ registros.

276 Devem-se fazer muito grossas as paredes das fornalhas, para que naõ escape o calor para o laboratorio, onde incommoda ao artista, e ao mesmo tempo falta para operaçaõ.

277 Eu disse que os mestres de fogareiros faziaõ fornalhas quadradas, e dei por exemplo as fornalhas de cadinho a _est. II_, _fig. 15_; ellas tem hum cinzeiro _a_, que tem huma porta, por cima da qual está o laboratorio _b_, e huma abertura que naõ se communica dentro da fornalha, mas sim huma especie de forno, feito de barro de cadinhos delgado, chamado _moufles_, ou receptaculo; delle fallarei, quando tratar dos cadinhos: este laboratorio está sustido por grades de ferro, que atravessaõ o interior da fornalha, e de todas as partes cercado por carvões ardentes; no _moufle_, ou receptaculo he que se põe os cadinhos para fazer as experiencias dos metaes, das peças esmaltadas, e dos cadinhos para certas operações. A fornalha he cuberta por hum zimborio quadrado, em cima do qual está huma grande abertura, que se póde tapar com hum testo, ou se lhe põe hum tubo, quando se quer que o fogo tenha huma grande actividade. Por meio deste receptaculo, se podem expôr a hum grande calor as materias, sem receberem alguma impressaõ de fumaça, nem mesmo vapores de carvaõ.

278 A _fig. 16_. _C_, representa huma fornalha de fusaõ, na qual se accende o fogo com hum folle; e por isso he que naõ tem grade no cinzeiro _a_, nem abertura por baixo na parte _a_, _d_, nem tubo em cima para fazer maior corrente, de ar na fornalha; o folle faz as vezes desta corrente de ar.

279 A parte _aa_, _aa_, _B_, he huma peça de barro, que fórma a parte debaixo do cinzeiro, onde se póde notar huma abertura _b_, a qual vai ter ao tubo do folle, e o vento sahe pela abertura _c_; o corpo da fornalha _dd_, se põe sobre o fundo _aa_. He preciso notar no interior desta fornalha huma sahida de barro _ee_, que circula ao redor da fornalha; esta se destina para suster a parte _ff_, que fórma a parte baixa do fogaõ na altura _dd_; porém tem nos angulos quatro aberturas _gg_, pelas quaes o vento do folle entra no corpo da fornalha, que he ao mesmo tempo fogaõ, e laboratorio, e aviva o fogo em todas as partes desta repartiçaõ, e em toda a circunferencia do cadinho, que está posto no meio do fundo _ff_, como se vê indicado nos pontos _dd_. Deste modo fica rodeado de hum calor muito vivo, sem receber immediatamente o vento do folle, que sendo frio, o refrescaria, e muitas vezes o faria rebentar. A cuberta, ou testo _C_, só se põe quando se tira o cadinho, para apagar o fogo, e fazer esfriar a fornalha devagar. Esta fornalha chamada de fusaõ se vê, que he muito bem ideada, a que se segue naõ carece de folles.